quinta-feira, dezembro 02, 2004

A Razão do Protesto Documental

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Há uns anos atrás a malta quando protestava fazia-o à séria. Veja-se o caso dos franceses que protestaram em 1798 contra o regime absolutista monárquico e como resultado desataram a guilhotinar cabeças; ou os checos, que desataram à porrada com os soviéticos na Primavera de 1968; ou os nossos rapazes do PREC que arriavam à grande e à francesa em prol do Processo Revolucionário em Curso.

Protestar era sinónimo de uma valente cena de porradaria que fazia parecer qualquer filme com o Bruce Willis uma produção de cinema infantil.

A coisa começou a correr mal com o protesto hippie, era tudo paz e amor, e protestar era apenas mais uma razão para fumar uns charros e fazer nenhum (de vez em quando cantavam-se as “protest songs” da praxe, que era uma maneira bem gay de protestar, deixem-me que vos diga).

Ultimamente deixou-se de cantar e de andar à porrada e desatou-se a fazer o protesto documental: filmam-se umas coisas, manipulam-se q.b. para dar um arzinho intelectual à coisa, e diz-se mal disto e daquilo, daquele e do outro, e pronto – fez-se um filme de protesto. E aparentemente a coisa resulta! Eles ganham festivais, eles têm audiência, e a malta faz fila e paga para ver o protesto. Inventou-se o protesto pago: não só a malta não se arrisca a levar com uma trave pela cabeça abaixo como ainda ganha dinheiro por protestar.

Então não era melhor o Michael Moore apanhar o George Bush à saída da Casa Branca e arrear-lhe um camaçal de porrada que o deixasse a chupar por uma palhinha nos próximos 4 anos? Não era melhor o Morgan Spurlock enfiar cirurgicamente todo o menu McDonalds (pepinos e tudo) pelo rabinho acima do patrão mundial da McDonalds, o sr. Skinner?

Como o cinema em Portugal anda sem apoios, lembrei-me que talvez esta seja uma boa ideia de gerar dinheiro para se deixarem de produzir filmes de plano único, ou daqueles em que se tapa a camera por alegada falta de verba (e por falta de talento?). Deixo aqui algumas sugestões de temas de documentários de protesto que tornarão os nossos conceituados cineastas em autênticos “caça-prémios” dos festivais internacionais de cinema:

- Onde está o meu queijo? – um documentário sobre um gajo que vive na Serra da Estrela e que, por decisão da Comissão Europeia, vai ter que deixar de fazer Queijo da Serra porque o processo manual de produção é legislativamente abolido.

- Queres brindes? Vai à Ferrero! – um documentário sobre um produtor de bolos-rei que teve que deixar de incluir o brinde e a fava no processo de produção devido à legislação europeia quanto à segurança dos alimentos (quantos milhares de portugueses já morreram com um brinde de bolo-rei atravessado nas amigdalas??)

- Queres saúde? Compra! – um documentário sobre um gajo que desconta para a segurança social e que na altura da sua reforma descobre que não há dinheiro, e que mais valia era ter descontado a dobrar: para a segurança social e para o seu próprio plano de saúde.

- Mostra-me o dinheiro! – um documentário sobre um tipo que vê 40% do seu ordenado a ir para o Estado todos os meses, e que sempre que compra qualquer coisa tem que dar mais 19% para reduzir um défice causado por gestão danosa do Estado.

Decerto que a Secretaria de Estado das Artes e Espectáculos (ou lá o que isto se chamar no novo Desgoverno) terá razão em estar interessada em mais sugestões que vocês se lembrem.