segunda-feira, novembro 13, 2006

A Razão do Taxista de Aeroporto

taxista de aeroporto
Para os mais distraídos podem não existir diferenças e parecer tudo a mesma coisa, mas não é. O taxista de aeroporto tem um património genético diferente do vulgar taxista. Algures no processo de evolução do taxista houve um ramo que foi afectado pela síndrome do funcionário público e que ditou o nascimento de uma nova estirpe, com um QI mais modesto, que reúne o pior do que podemos encontrar dentro de um táxi.

O taxista de aeroporto tem particularidades inimagináveis para os taxistas vulgaris. A sua principal característica reside no facto de não conceberem que se possam apanhar clientes fora do aeroporto. É algo que não lhes passa pela cabeça. Para um taxista de aeroporto, os clientes nascem de dentro dos aviões e é absolutamente impensável apanhá-los no meio da rua ou numa vulgar paragem de táxis dentro da cidade. Por isso mesmo, a vida de um taxista de aeroporto reveste-se de um carácter rotineiro onde cada dia começa e acaba, invariavelmente, no terminal de aeroporto.

Ao contrário do taxista vulgaris, o taxista de aeroporto sai do seu carro quando apanha um cliente. Cada início de bandeirada tem um ritual muito próprio que consiste em sair do carro, abrir o porta-bagagens, e ficar especado a olhar bovinamente para o cliente que, de vértebras comprimidas, se esforça a arrastar as suas pesadas malas para dentro do táxi.

Por razões que ainda ninguém conseguiu explicar até hoje, o taxista de aeroporto tem uma obsessão doentia com grandes distâncias, e torna-se ainda mais bruto se a bandeirada consiste apenas em meia dúzia de quilómetros para além do aeroporto. Na óptica do taxista de aeroporto, se um tipo apanha um táxi no aeroporto tem que fazer, pelo menos, uma bandeirada de 300 km que justifique e financie o facto de este ter estado três horas a coçar a micose numa fila de táxis num terminal de aeroporto. Explicar-lhes que, se quiséssemos viajar para 300 km dali mais valia termos voado para outro aeroporto é tempo perdido, porque para um taxista de aeroporto não existe outro aeroporto. Só aquele. O dele.

Outro raciocínio complexo do taxista de aeroporto está relacionado com a dimensão e número de malas que os clientes têm. Para ele, o número e a dimensão das malas estão inexplicavelmente relacionadas com a distância a percorrer: se tivermos muitas malas e grandes é vulgar que o taxista de aeroporto ache que vai percorrer o país connosco; se tivermos apenas uma mala de cabine ele olhar-nos-à com uma desconfiança abrutalhada enquanto cumpre o ritual de abrir o porta-bagagens. Para um taxista de aeroporto ninguém pode ir muito longe com uma mala de cabine.

Ao contrário do taxista vulgaris, um filósofo da bandeirada que nos quer convencer de qualquer coisa o tempo todo embrulhando cada trajecto numa conversa interminável, o processo da fala de um taxista de aeroporto é complexo e está directamente relacionado com a distância que lhe é solicitada para percorrer: se a bandeirada tiver menos de 5 km ele só consegue bufar e abanar a cabeça; se a bandeirada se situar entre os 5 e os 10km ele grunhe pontualmente ao longo do trajecto; se a bandeirada estiver acima dos 10km ele não emite qualquer som, embora apresente uma postura rígida que se assemelha a um cherne com 3 semanas de congelador. Há quem diga que, a partir do quilómetro 50, o taxista de aeroporto consegue pronunciar um conjunto de palavras que se assemelham vagamente a português, mas isto ainda está por provar.

Finalmente, falemos do espírito de matilha. Os taxistas vulgares têm-no. Os taxistas de aeroporto não. A pior coisinha para um taxista de aeroporto é outro taxista de aeroporto. Parado horas intermináveis no terminal, numa fila de táxis, o taxista de aeroporto fixa toda a sua bilis no colega do carro da frente. Com a certeza absoluta que «aquele filho da puta vai apanhar um gajo que quer viajar por Portugal inteiro numa única bandeirada», e que ele inevitavelmente apanhará um cliente para a próxima rotunda. Depois de horas e horas a consumir-se nesta lenga lenga ácida eis que, tenso e prestes a rebentar, se dirige para o cliente que lhe coube na fila e que lhe diz: «É para a próxima rotunda, segunda entrada, se faz favor».
Há vidas muito tristes.

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