Façam a seguinte experiência: peçam a dois ou mais amigos que olhem para uma estátua e descubram qual o ângulo que mais apreciam quando estão a olhar para ela: de frente? Ligeiramente de lado? A três quartos? Debaixo para cima? De cima para baixo? Irão ver que as opiniões se irão dividir. Cada um apreciará um ângulo diferente da mesma estátua. Coincidentemente poderão todos achar que um determinado ângulo é o mais bonito, mas isso será a excepção que confirmará a regra.
O mesmo se passa com a verdade. Ela não é mais do que um ângulo da realidade; o vosso ângulo preferido. Mas não necessariamente o único ângulo. É por estas e por outras que não tenho paciência para os «donos da verdade». Considero-os uns parvalhões monolíticos, sem a capacidade de perceber, quanto mais apreciar, que há mais ângulos para além daquele em que insistem, bovinamente, olhar.
sexta-feira, maio 26, 2006
A Razão da Verdade
quinta-feira, maio 25, 2006
A Razão da Auto-Estima Nacional
É certo que o país está em crise e que a malta anda desencantada com isto tudo. Mas começo a acreditar que esta espiral de negativismo e depressão nacional é artificialmente alimentada diária e paulatinamente pelos media.
Há dois dias atrás estava a ver a SIC Notícias onde se noticiava a derrota da selecção portuguesa de Sub 21 face aos franceses. Passados 10 minutos, no mesmo bloco noticiário, voltaram a falar exactamente do mesmo. Das duas uma: ou a SIC Notícias acha que tem uma audiência de estúpidos que não assimila as notícias à primeira, ou então estão a querer fazer merda com a auto-estima nacional. Naturalmente que me inclino para a segunda hipótese (até porque não vi mais nenhuma notícia ser repetida naquele bloco).
Já sabemos que os portugueses têm uma tendência para a bipolaridade: são os maiores do mundo num minuto e as piores merdas no segundo seguinte. Isto não faz nada bem a qualquer auto-estima. Mas os sacanas dos media abusam da fruta. Só vejo e leio coisas que me agravam a fraca consideração que tenho por este país. Mas depois racionalizo as coisas e penso que nem tudo pode estar mal, seria coincidência a mais. E eu não acredito em coincidências.
Os media nacionais fazem-me lembrar a mulher insatisfeita que diariamente diz ao marido que ele não a faz feliz. Ao fim de anos a ouvir recorrentemente que é um péssimo marido o que é que ele faz? Ou arreia-lhe duas galhetas e aquela conversa acaba por ali, ou põe a senhora com dono e arranja alguém que não o massacre persistentemente.
Acho que no caso dos media nacionais a solução seria optar pelas duas alternativas em simultâneo: arrear-lhes um camaçal de porrada em direcção à fronteira. Olhos que não lêem, coração que não sente.
quarta-feira, maio 24, 2006
A Razão da Branca de Neve
Da série «histórias mal contadas» temos hoje, a pedido de várias famílias, a história da Branca de Neve e dos sete anões.
A primeira coisa que me ocorre quando penso na Branca de Neve é que o sacana do autor da história devia ter alguns problemas de segregacionismo não resolvidos. Porque não escolher para protagonista da história uma morena achocolatada ou uma asiática com problemas de vesícula?
Depois vem a questão dos sete anões: para além de racista, o autor era perverso. Não só imaginava aquela jovem de tez branca rodeada por sete manganões,
Outra questão tem a ver com o minimalismo que o autor quer imprimir às características de personalidade de cada anão: nesta história, o mesmo anão não experiencia, com toda a sua pujança, uma multiplicidade de emoções. Temos o anão que dorme e só dorme; temos o anão que está chateado e só está chateado; temos o anão que sodomiza ovelhas tresmalhadas e só sodomiza ovelhas tresmalhadas; temos o anão que gargareja vodka polaca e só gargareja vodka polaca; temos o anão besuntado em manteiga de Azeitão que ganhou este hábito porco precisamente em Azeitão; temos o anão que não se lava por baixo porque não chega lá; e finalmente, temos o anão, que à falta de outra característica qualquer, é anão. Ora isto é uma verdadeira pobreza no que toca à construção de personagens.
Por este andar, as criancinhas vão crescer a pensar que o José Sócrates é apenas um palerma e será sempre um palerma. Quando não é verdade: sabemos perfeitamente que o José Sócrates não só é um palerma,
É por estas e por outras, que nutro uma desconfiança persistente no que estas histórias infantis promovem na população portuguesa. O que me faz perguntar: Se não existisse Branca de Neve existiria José Sócrates? Duvido. A mesma certeza não tenho quanto aos sete anões.
terça-feira, maio 23, 2006
A Razão da Urgência
segunda-feira, maio 22, 2006
A Razão dos Zeros e Uns
Quem diria que vocês todos não são mais do que uns amantes de matemática excitados. Já pensaram em vós próprios
domingo, maio 21, 2006
A Razão de Nata
sábado, maio 20, 2006
Razões Hortículas
Estou um bocadinho farto de ouvir tratar a nossa novela mexicana por “jardim à beira-mar plantado”. Na verdade isto não é mais do que uma horta mal cultivada, situada no esfíncter da Europa.
Na horta impera o conformismo digno das sementeiras que nunca dão fruto, a imaginação do tamanho de uma ervilha, e a vitalidade de uma azeitona deixada a marinar em vinagrete. A horta já há muito que deixou de ser adubada, o que per si não constitui um problema dado que os vegetais residentes já fazem merda suficiente. As ervas daninhas proliferam viçosas, chamando um figo a cada parcela de terra que vão paulatinamente ocupando. Apenas um tipo de vegetais insiste em não singrar nesta horta, e toda a gente é peremptória em afirmar que é graças à sua ausência que as coisas chegaram onde chegaram. Falo-vos obviamente dos tomates. Já os houve, há muito tempo, mas isso foi chão que já deu uvas.
Publicado originalmente em Março de 2005
quinta-feira, maio 18, 2006
A Razão Sem Palavras
Já alguma vez ficaram sem palavras? Expliquem-me
Isto de ficar sem palavras não me faz sentido nenhum. Ficar sem palavras é guardá-las dentro do vosso cérebro e não as mandar cá para fora? Se assim fôr só vocês é que as ouvem, o que é um bocadinho diferente de ficar sem elas. Ou o sentido é mesmo literal e elas nem no vosso cérebro ficam? Esta segunda hipótese é mais preocupante, porque para além de vocês provavelmente ficarem com um ar aparvalhado e digno de internamento (daquele que dá direito a várias sessões diárias de electrochoques nas têmporas), para onde vão as palavras?
São este tipo de questões que me impedem de aceitar as coisas impunemente…
quarta-feira, maio 17, 2006
A Razão Divinal
Há uma anedota brasileira que conta que quando Deus andava a criar o mundo chegou aquela parte a que hoje corresponde ao Brasil e excitou-se: criou praias lindas, um clima ameno, florestas luxuriantes, recursos naturais em barda onde não faltava o ouro e as pedras preciosas, fauna e flora que permitisse que quem para lá fosse teria a capacidade de sobreviver sem esforço e sem nunca passar fome. Desvairado por toda aquela excitação Deus parou um bocado e pensou que o sítio estava a ficar demasiado parecido com o paraíso e então decidiu fazer com que aquilo fosse um dia descoberto pelos portugueses.
Seguindo esta linha de raciocínio divina, em que diabo estava Ele a pensar quando criou a nossa telenovela mexicana? Numa situação de perda/perda?
terça-feira, maio 16, 2006
segunda-feira, maio 15, 2006
A Razão Digest
Acho piada aquelas edições digest reescritas por uns tipos que têm um imenso poder de síntese, e cuja função consiste em pegar em duas dúzias de páginas escritas e transformá-las numa única página que significa exactamente a mesma coisa. A existência destes indivíduos suscita-me dúvidas filosóficas sobre o papel dos autores originais da obra: se há indivíduos que conseguem dizer em meia dúzia de linhas aquilo que os tipos que escreveram originalmente disseram naqueles calhamaços monstruosos, tipo o «Ulisses» do James Joyce, é porque há ali imensa palha desnecessária que me faz perder tempo desnecessário. Tempo esse que poderia estar a utilizar para ler outras obras em versão digest. Pensem na quantidade de livros que já leram até hoje e multipliquem por 12 ou por 20 e vejam só o que têm andado a perder porque há gajos que não têm a capacidade de resumir a sua lógica de pensamento.
Por mim eu gostaria de ver o que estes tipos que resumem fariam às coisas que a Margarida Rebelo Pinto escreve. Aquilo é tão fácil de digerir que os livros da senhora se traduziriam em apenas uma frase. Por exemplo:
Sei Lá – Gosto de gajos mas não faço ideia do que é uma relação estável.
Não há coincidências – Gosto de gajos mas não faço a mínima ideia do que é ter uma relação estável e excitante.
Alma de Pássaro – Gosto de gajos.
Artista de Circo – Gosto de gajos do circo e com uma elasticidade fora do normal.
I’m in Love with a Popstar – Gosto de gajos desde que cantem.
Nazarenas e Matrioskas – Gosto de gajos e não tenho jeitinho nenhum para arranjar títulos para os meus livros.
Pessoas
Diário da Tua Ausência – Gosto de tudo o que mexa.
Estão a ver? Já leram oito obras da Margarida Rebelo Pinto em apenas 10 segundos. E agora podem dedicar os vossos próximos 5 minutos a ler todas as obras escritas nos últimos dez anos por tias encalhadas com a ilusão vertiginosa que são escritoras. Não haja dúvida que as versões digest são úteis à brava.
domingo, maio 14, 2006
A Razão em Privado
sábado, maio 13, 2006
sexta-feira, maio 12, 2006
A Razão Incrédula
No que diz respeito a acreditar em Deus posso garantir-vos que tentei. Tentei mesmo. Tentei acreditar que Ele existia, e que nos tinha criado à Sua imagem e semelhança, que nos amava muito, e que tinha isto tudo debaixo de olho.
Tentei acreditar nisto tudo. Mas devo dizer-vos que, quanto mais tempo vivemos, quanto mais olhamos à nossa volta, mas percebemos que... há qualquer coisa de errado. Isto está mal feito. Guerra, doença, morte, destruição, fome, pobreza, tortura, crime, corrupção e os programas da TVI. Alguma coisa está definitivamente errada aqui.
Se isto é o melhor que Deus consegue fazer, não estou nada impressionado. Resultados destes não fazem parte do currículo de um ser supremo. Isto é o tipo de merda que esperaríamos de um estagiário com um problema de atitude. Em qualquer universo bem gerido há muito que este tipo teria levado um valente pontapé no seu todo-o-poderoso cu, e bazado daqui para fora.
Então, se Deus existe – se existe – acho razoável que estejamos de acordo que Ele é, no mínimo, incompetente e talvez, e só talvez, se esteja nas tintas para isto. O que não é nada que me espante, e que explica muita coisa.
quinta-feira, maio 11, 2006
A Razão do Tédio
Se há uma maneira de distinguir a cultura ocidental da cultura oriental é a maneira como ambas encaram o tédio. Os orientais têm uma perspectiva positiva da questão: encaram o tédio olhando para o seu potencial. Para eles o tédio é um estágio do processo criativo. Um limbo. Acreditam que é a partir dele que tudo nasce. É uma perspectiva interessante e desculpabilizadora, na minha singela opinião.
Já na perspectiva ocidental o tédio é sinónimo de seca, de angústia desmesurada, de não ter nada para fazer, e de «ai ai ai tenho que fazer qualquer coisa para me sentir útil».
Os portugueses, provavelmente contaminados pelas influências muçulmanas que insistentemente gostamos de contrariar, têm uma perspectiva muito particular do tédio quando enquadrada no panorama ocidental: para o tuga, o tédio é uma merda que se tem de contrariar com todas as nossas forças. Se juntarmos a isto aquela característica nacional que nos define tão bem que é a inveja, então veremos que o tédio luso é a melhor aproximação ocidental ao tédio oriental: ficamos muito criativos para dar cabo da vida de alguém. O português quando está entediado embirra com outro português. É o seu modus operandi para ultrapassar esta questão. Embirra com o facto do outro não pertencer ao seu clube, embirra com o facto do outro ter uma casa melhor, um carro melhor, um emprego melhor, um ordenado melhor, uma inteligência melhor, um sentido de humor melhor, enfim... muita coisa melhor. O que é curioso é que este melhor é perfeitamente subjectivo. É algo que só quem está com tédio sente, e que não é necessariamente a realidade. Mas que se lixe: para o tuga, lixar outro tuga é a melhor maneira de saciar o seu tédio. É a nossa faceta Zen.
quarta-feira, maio 10, 2006
A Razão da Multa
Ontem fui multado por excesso de velocidade. Mais uma vez. Mas ao contrário das outras vezes, ontem achei a situação divertida, porque com esta história da caça à corrupção policial estes tipos arranjam formas mais criativas de sacar dinheiro aos prevaricadores.
Então a coisa passou-se assim: eu a abrir que nem um doido numa avenida vazia da capital, atrasado para uma reunião, e os senhores do radar fazem-me parar a meio e informam-me que estou 50 km acima da velocidade legal. Eu confirmo a informação: não faço ideia a quantas ia, mas não me apetece perder tempo a discutir com dois tipos e um radar. Dou-lhes os documentos e o cartão multibanco para pagar e sair dali rapidamente. Pensava eu.
O agente Tavares, convenientemente, «baralha-se todo» com a máquina de multibanco portátil e engana-se nas contas: em vez de se ter pago de 40 euros o Tavares paga-se de 20 euros.
«Oh diabo, enganei-me!» dizia o gajo com uma naturalidade que o teria feito ser automaticamente apurado num casting dos Morangos com Açúcar, «E agora a máquina não me permite que eu faça outra vez a operação... O senhor não tem 20 euros em dinheiro consigo?»
Olhei para ele e para o meu relógio. O sacana queria mamar 20 euros e eu estava atrasado para uma reunião. Decidi ver até onde aquilo ia chegar, mandei uma sms a adiar a reunião e disse-lhe que não tinha dinheiro comigo. «Safa-te lá agora desta, Tavares» pensei eu.
O Tavares já tinha a coisa estudada: «Se não se importa este meu colega vai consigo a um terminal de multibanco e o senhor levanta o dinheiro que falta, desculpe lá a maçada.»
Continuei a achar a situação divertida: o colega era o agente Carvalho, um daqueles polícias motorizados, de calcinha apertada e bota de montar. Gay. Nunca tinha visto um polícia motorizado e gay, mas há sempre uma primeira vez.
«O senhor faça o favor de me seguir» diz o agente Carvalho com uma vózinha de falsete a condizer com o nome. E lá vou eu com um polícia gay de mota à minha frente em direcção ao multibanco mais próximo.
E agora chegamos à parte hilariante da questão: eu que tinha sido multado por excesso de velocidade numa zona sem trânsito vejo-me de repente com escolta policial, o Carvalho de sirene ligada, a entrar numa das zonas mais movimentadas de Lisboa, a passar sinais vermelhos, a entrar em sentidos proibidos para chegar rapidamente um multibanco. As contravenções que fiz naquele percurso faziam o meu excesso de velocidade parecer uma brincadeira de crianças. O Carvalho fez o favor de me transformar em veículo prioritário até ao próximo multibanco.
Quando lhe paguei os 20 euros em dinheiro, o Carvalho virou-se para mim e aconselhou-me simpaticamente: «o senhor parece um cidadão cumpridor e por isso vou dar-lhe dois conselhos: primeiro nunca vá a mais de 70 dentro da cidade porque a gente tem os radares regulados para o detectar acima dessa velocidade; e depois escreva ao Governador Civil e explique-lhe a situação, que estava com pressa e isso, pode ser que lhe retirem a multa».
Fantástico, pensei. Com sorte ainda é o Governador Civil de Lisboa que vai ajudar a pagar as férias ao Tavares.
terça-feira, maio 09, 2006
A Razão do Soldado Desconhecido
E depois acho injusto que só se façam monumentos ao Soldado Desconhecido. Então e o Soldado Conhecido? Sim, esse gajo que toda a gente sabe quem ele é, e que andou por lá a apanhar uma camada de nervos e que apareceu prái cheinho de stress pós-traumático e que agora se atira para baixo da mesa da cozinha sempre que alguém deixa acidentalmente caír um prato, e que em todos reveillons causa vários embaraços familiares pulando para trás do sofá ao som do primeiro morteiro, gritando «Oh Sousa! Olha o canhângulo Sousa, foda-se pá! Amanda-te prá valeta, Sousa!».
Esse gajo não merece monumentos porquê?
Que não façam monumentos ao Soldado Conhecido de Meia Dúzia de Gajos que Já Bateram as Botas eu percebo. Afinal de contas já não há ninguém vivo para se lembrar; que não os façam ao Soldado Mais ou Menos Conhecido por Meia Dúzia de Gente, ainda vá. Agora fazer um monumento a um tipo que ninguém conhece é que não faz sentido nenhum.
domingo, maio 07, 2006
A Razão do Assunto
Min Kim
sábado, maio 06, 2006
sexta-feira, maio 05, 2006
A Razão do Príncipe Encantado
Um dos mais recorrentes mitos femininos dos séculos XX e XXI é o príncipe encantado: quase sem excepção, elas querem acreditar com todas as suas forças que algures por aí anda o eleito, o gajo, o seu príncipe encantado. Como li há pouco tempo num blog que visito, andam todas à procura do seu respectivo Mr. Big (eufemismo feminino do príncipe encantado dos dias de hoje).
Eu não sei como vos hei-de dar esta notícia, meninas. Devo confessar que pensei numa forma mais ou menos doce de vos tornar a coisa o menos dolorosa possível. Mas não me ocorreu nenhuma. E então aqui vai:
No dia em que vocês forem sempre carinhosas, bem humoradas e gostosas; no dia em que estejam sempre deslumbrantes, atrevidas e deliciosamente maliciosas; no dia em que não ligarem ao facto dos gajos se esquecerem de datas; em que não usarem a dôr de cabeça como desculpa esfarrapada para um sem número de coisas; no dia em que a vossa TPM não vos transformar em neanderthais sanguinários; nesse dia, e somente apenas nesse dia, talvez encontrem o vosso príncipe encantado. Até lá contentem-se com o que há por não reunirem os mínimos olímpicos das histórias de fadas: um monte de príncipes desencantados.
quinta-feira, maio 04, 2006
A Razão do Papel
Há gente que tem muito papel e gente que nem por isso, mas é certo e sabido que todos nós temos um papel. Nem sempre é o mesmo papel, dado que ele muda de pessoa para pessoa ou mesmo de ocasião para ocasião. Os políticos por exemplo têm um papelão, e à custa disso os contribuintes têm um papel de embrulho, estando sempre envolvidos numa grandessissima embrulhada.
O Governo desta novela mexicana pretende ter um papel higiénico, predispondo-se a limpar muita merda mas sujando-se muito rapidamente ao primeiro contacto com esta. Acabam por ter apenas um papel de parede.
Os nossos queridos e produtivos funcionários públicos alternam entre um papel vegetal (daqueles vegetais sem cadeira de rodas) e um papel pardo (daquele de enrolar chouriços), quando não estão a fazer o costumeiro papel de parvos. Alguns milhares deles preparam-se para brevemente terem um papel reciclado (normalmente um tipo de papel mais caro que o papel normal).
Os nossos jornalistas, como não podia deixar de ser, têm um papel de jornal, sendo bastante úteis em épocas do ano mais frias, para embrulhar castanhas e outro tipo de frutos secos.
O nosso jet seis esforça-se por ter um papel couché: não só porque é fino ter um papel com um nome francês, mas porque couché fica a meio caminho entre coucher e couchon, e eles sentem-se em casa.
Há ainda quem tenha um papel químico pela impossibilidade genética e incapacidade intelectual de ter um papel que não seja uma quase fotocópia de outro.
Mas do que eu gosto particularmente é do papel fotográfico da Soraia Chaves, e de outras modelitas nacionais, é um mimo vê-las a fazer pasta de papel.
quarta-feira, maio 03, 2006
A Razão do Canadá
De repente ficou tudo chocado ao ver os emigrantes portugueses serem implacavelmente recambiados do Canadá.
Qual é a surpresa?
Alguém foi ao engano para um país que, se repararem bem, é uma aliteração de «Cá Não Dá»?
Ninguém pode dizer que os gajos não avisaram.
A Razão Anti-Tabágica
«AGRADECEMOS QUE NÃO FUME». Falando por mim, não vejo nenhum problema na expressão «proibido fumar». É simples, é directa, é firme. Proibido fumar! Há perguntas? Óptimo.
Mas «agradecemos que não fume»? Em primeiro lugar é fraco. Em segundo lugar, por amor de Deus, estão a agradecer o quê? É como se achassem que vos estão a fazer um favor por não vos ajudarem a ter um cancro no pulmão.
Se eu estivesse a tentar desencorajar as pessoas de fumar, a minha placa seria ligeiramente diferente. Até era capaz de ir longe demais na direcção oposta. A minha placa diria qualquer coisa como: «Fume, se quiser. Mas se fumar prepare-se para isto: primeiro vamos confiscar-lhe o cigarro e apagá-lo algures na sua pele. Depois vamos enfiar os seus dedos manchados de nicotina numa trituradora de papel e atirá-los para a rua, onde cãos vadios vão comê-los e regurgitá-los para os esgotos para que as ratazanas possam ocupar-se deles antes de serem despejados para o mar com o resto da imundície da cidade. Depois disto vamos procurar os seus familiares e amigos, e dar cabo das vidas deles».
Não gostavam de ver uma placa assim? Aposto que muitos fumadores pensariam duas vezes antes de acender o cigarro perto de um placa destas. É preciso sermos directos. «Agradecemos que não fume» é pura e simplemente embaraçoso. Acho que toda esta linguagem simpática e eufemística é mais um sinal de que cada vez mais o nosso país não sabe a quantas anda.
terça-feira, maio 02, 2006
A Razão do Capuchinho Vermelho
Da série «histórias mal contadas» temos hoje o famoso Capuchinho Vermelho: a história de uma jovem criatura do sexo feminino que vai levar o lanche à sua avózinha doente, que vive do outro lado da floresta e que encontra um lobo que a quer comer. Literalmente.
Eu tenho imensas reservas quanto a esta história de miséria infantil e pedofilia. A começar pelo comportamento perfeitamente inconsciente da mãe que envia a criancinha para o desconhecido e vestida de vermelho (de referir que a escolha do vermelho não é a mais feliz, remetendo-nos de imediato para um universo de potencial deboche com forte conotação sexual – o que provavelmente foi a intenção do autor da história), expondo-a desnecessariamente à luxúria rebarbada de um lobo que, pelos vistos, tresandava a pedófilo como gente grande.
Diz a história que o lobo interpela a criancinha a meio caminho, ficando a saber qual o seu destino. Pergunto-me porque diabo o lobo não deu azo às suas desvairadas pulsões sexuais logo no primeiro encontro e não despachou logo ali a jovem de vermelho? Continuo sem perceber a opção do lobo em deslocar-se inicialmente para a casa da avózinha, comê-la (se isto não é um comportamento desviante, não sei o que será...) e logo a seguir travestir-se de avózinha (outro comportamento de conduta deveras questionável) aguardando pacientemente a chegada da jovem de capuchinho vermelho. Temos portanto um lobo travesti e pedófilo com um gosto mórbido por gerontes, e um comportamento assaz maquiavélico a roçar o compulsivo-obsessivo – é muita fruta para um lobo só.
Mas onde a história descamba completamente é quando o Capuchinho Vermelho chega à casa da avózinha e não se apercebe de imediato que aquele ser deitado não é a sua avózinha mas sim o lobo. Das duas uma: ou a velha tinha problemas graves de saúde para apresentar aquela pelagem ou o Capuchinho Vermelho era um verdadeiro calhau com olhos. Eu por mim aposto na segunda hipótese, a julgar pelas perguntas inconsequentes que a petiz faz à sua pouco provável avó.
O lobo acaba por se fartar de tanta pergunta e come também, várias vezes durante essa tarde, a pequena Capuchinho Vermelho. Diz a história oficial que uns lenhadores entram pela casa adentro e salvam a situação matando o lobo, abrindo-lhe a barriga, e retirando de lá dentro a avó e o Capuchinho Vermelho, intactas. Frescas que nem uma alface!
Eu acho estranho este comportamento dos lenhadores a entrarem ali por dentro como se fosse tudo deles. A não ser que houvesse ali marosca da boa com a avó e aquilo fosse um comportamento habitual. Mas acho ainda mais estranho que as criaturas sejam arrancadas vivas das entranhas do lobo: ninguém aborda o efeito dos sucos gástricos nesta história?
O verdadeiro desfecho não foi, obviamente, o oficial. Na realidade o lobo não comeu ninguém no sentido gastronómico do termo. Avózinha e Capuchinho Vermelho tornaram-se escravas sexuais do animal. E numa sessão mais violenta, que envolvia chicotes e chaves inglesas besuntadas em mel, a gritaria era tanta que atraíu uma equipa de vigorosos lenhadores. É certo que o lobo morreu depois de umas machadadas, mas a vida da avózinha e da Capuchinho Vermelho nunca mais foi a mesma a partir de então. Ainda hoje é grande a fama da cabana da lanterna vermelha no confins do bosque.
segunda-feira, maio 01, 2006
A Razão do Dia do Trabalhador
domingo, abril 30, 2006
sábado, abril 29, 2006
A Razão da Guidinha
Muitos livros não requerem qualquer pensamento das pessoas que os lêem, por uma razão muito simples: também nunca fizeram essa exigência a quem um dia os escreveu.
Charles Caleb Colton
sexta-feira, abril 28, 2006
A Razão da Festa de Casamento
Tenho um problema com as festas de casamento. Primeiro porque não percebo porque raio dois seres acham que o facto de terem decidido viver juntos «para o resto das suas vidas» constitui motivo de celebração, e depois por todos os rituais bacocos que envolvem a festa, e que fazem com que as festas de casamento se assemelhem às bolas de ténis: quem vê uma vê todas. E por isso mesmo, sempre que vou a um casamento é como se estivesse a ver pela enésima vez o mesmo filme, só mudando os locais de filmagem, e claro, as personagens.
Ao longo de anos como convidado de festas de casamento criei uma pequena check list virtual que uso para me entreter e passar o tempo em cada celebração matrimonial. Como o argumento é sempre igual de festa para festa, a check list é dolorosamente implacável a assinalar «os pontos altos» de cada uma.
Não pretendendo ser exaustivo (a minha lista é verdadeiramente longa e diversificada, ombreando com qualquer modelo de análise multivariada) vou partilhar convosco os items mais comuns:
Na Igreja
Para quem conseguiu escapar à gloriosa tarefa de ter que começar a festa a enfardar na casa de um dos noivos antes de o acompanhar no seu trajecto ao altar, a Igreja é o grande início da festa do casamento e apresenta per si um rico manancial de rituais:
- O Freakshow – continuo a achar esta parte a mais interessante porque em cada casamento há sempre uma bela molhada de seres esquisitos (amigos e familiares dos noivos) que nós nunca vimos antes e que dão um colorido peculiar à cerimónia, com os seus fatos a cheirar a naftalina (invariavelmente dois números acima ou abaixo da medida do seu utilizador); os sapatos encerados de modo a encandear toda a tripulação de um boeing que passe por ali perto; os vestidos mais inexplicáveis com decotes e minissaias generosas sustentadas por saltos agulha que dificultam o andar no chão empedrado da igreja. Na fase de freakshow os mamíferos presentes trocam olhares e cochichos, medindo-se timidamente uns aos outros, avaliando as suas respectivas figuras tristes.
- O Sermão e as Leituras – onde por breves momentos toda a gente parece ter o dom da leitura, recitando aqueles repetitivos «discursos de São Paulo aos etruscos», ouvindo-se aqui e ali um choro de criança a ser levada rapidamente para fora da igreja por um dos seus sádicos pais. Se tivermos sorte, o que é raro, o padre é breve e contido e poupa-nos meia hora de seca a falar da incerteza dos dias de hoje, da crise das instituíções e da própria família, e da escassez de crentes praticantes abaixo dos 65 anos.
- O Arroz – o discurso do padre ditará a violência com que se atirará o arroz aos noivos. Se o padre nos deu uma seca, o mais provável é que pelo menos um dos conjuges nunca consiga recuperar totalmente de uma perfuração da retina.
- O Cortejo Automóvel – já vi carrinhas funerárias deslocarem-se mais depressa que um cortejo automóvel num casamento, o que torna a chegada ao Copo D’Água um verdadeiro suplício, principalmente durante a época de Verão. De salientar aqui dois aspectos: os carros estão sempre imaculados e reluzentes; e um grupinho de labregos irá invariavelmente perder-se do cortejo chegando muito depois dos petit fours.
Vou omitir propositadamente a parte das fotografias e das filmagens, porque geralmente não têm grande interesse na altura (embora saibamos que vamos ter de levar com elas mais tarde, quando os noivos chegarem da Lua de Mel).
É considerada a segunda parte do filme, e aquela que apresenta variantes mais ricas. Digamos que a verdadeira festa começa realmente aqui.
- Os Petit Fours – ao chegarmos ao local do Copo D’Água somos presenteados com petit fours e aperitivos vários. Começa assim a verdadeira maratona de bebida e comezaina, havendo alguns convivas que ficarão alegremente etilizados nesta fase em estágio para a verdadeira bebedeira que se desenrolará a seguir, em todo o seu esplendor. Nesta fase o nível de álcool faz com que os convivas comecem a socializar entre si, perdendo alguma inibição inicial.
- O Arremesso do Bouquet – um momento crítico para as encalhadas de serviço a qualquer casamento. Já quentinhas com os aperitivos, este ritual assume um carácter de «vida ou morte» para cada uma das participantes, podendo originar traumatismos graves dependendo do grau de desespero das intervenientes.
- A Refeição Principal – aparte da velocidade com que a comida e a bebida desaparecem nesta fase, pouco há salientar, tirando talvez o ritual do bater em uníssono com um talher no copo, na tentativa de que os noivos se beijem. Existem variantes deste ritual, muito mais interessantes aliás, onde os convivas exigem que o pai da noiva beije violentamente a mãe do noivo (a maior parte das vezes sem qualquer sucesso aparente).
- O Charuto – como fumador habitual de habanos divirto-me a observar os mamíferos do sexo masculino a fumar o tradicional charuto depois da refeição principal. É impressionante a figura urso que se pode fazer a fingir que se sabe fumar charuto. Gosto particularmente do free style de espetar um palito pelo charuto adentro de modo a segurá-lo na boca trincando apenas o palito. São uns artistas.
- O Bailarico – na minha modesta opinião, o ponto mais alto da festa matrimonial. Nesta altura eles e elas perderam a compostura, desapertaram as gravatas, subiram as mangas e as saias, baixaram os decotes e dançam (muitas vezes descalças) como se não houvesse amanhã, fazendo de quando em vez um pequeno comboio de bêbados que circula por entre as mesas do recinto. Valentes trambolhões são coisa normal nesta fase, havendo variantes mais excitantes que envolvem cenas de desenfreada pancadaria entre maridos ciumentos na defesa das suas etilizadas e ziguezagueantes esposas, apalpadas sem dó nem piedade por indivíduos que ultrapassaram, em muito, os limites legais de consumo de substâncias entorpecentes.
- O Cortar do Bolo – é normalmente arrastado até ao último minuto possível por se saber que, depois dele, mais de metade dos convivas baza alarvemente dali para fora. Eu incluído (antes de dar a segunda dentada naquela fatia gigantesca e sensaborona já estou ao volante do carro para me pirar).
- A Ceia e o Pós Ceia – confesso a minha total falta de experiência nesta fase. Mas segundo me dizem é aqui que se inicia o próximo casamento, dado que são normalmente os encalhados que resistem até à Ceia na tentativa de desencalharem de uma vez por todas. A bebedeira normalmente baixa-lhes a fasquia dos critérios o que lhes abre uma possibilidade, mesmo que remota, de encontrarem (no mesmo estado etilizado) a «pessoa do resto das suas vidas».
quinta-feira, abril 27, 2006
A Razão do Instantinho
Se Albert Einstein tivesse sido português tinha descoberto a Física Instântica. Portugal, vá-se lá perceber porque fenómeno, é o único ponto no planeta em que tudo se passa num instantinho.
«É só um instantinho» não é apenas uma expressão do dia-a-dia, é o modus operandi nacional. Tudo funciona numa sucessão de irritantes «instantinhos» que mais parecem soluços no espaço-contínuo.
Pensem num dia normal das vossas vidas e verão que ele começa com vocês a saírem de casa com uma algibeira cheia de «instantinhos» para dar. E depois parecem uma central de distribuíção: um instantinho aqui, outro ali, e mais outro acolá. É fartar vilanagem. Chegam ao fim do dia de algibeira vazia, regressando pachorrentamente a casa e preparando os instantinhos do dia seguinte. A coisa está tão mecanizada que vocês já nem reparam na vossa generosidade.
Não reparam também que o país é governado por «instantinhos» de natureza variada. Os políticos que nos desgovernam, por exemplo, vivem o «instantinho de carreira», que consiste em açambarcar o mais que puderem no mais curto espaço de tempo, num instantinho, portanto. O Estado rege-se por criar «instantinhos taxistas» que consistem em novas e coloridas formas de taxar os contribuintes de modo a pagarem com juros os «instantinhos de carreira» daqueles senhores que nos governam e que se governam.
As empresas públicas são o «Reino do Instantinho», seja porque quem as gere não fica lá muito tempo e só quer mesmo é aquele «instantinho para a reforma milionária», seja porque aproveitam a filosofia do «instantinho» para adiar toda e qualquer decisão.
O «instantinho» tem esta particularidade da quase imutabilidade, já repararam? Quando ele acaba fica tudo mais ou menos na mesma. Como Portugal (e Ilhas).
quarta-feira, abril 26, 2006
A Razão do Faz de Conta
Fazer de conta faz parte. É profilático. E sobretudo impede-nos de olhar a direito para este lugar mal frequentado a que insistimos em chamar de país. Eu por mim continuo a fazer de conta que escrevo um blog. Vocês façam de conta que o lêem.
quarta-feira, abril 12, 2006
terça-feira, abril 11, 2006
segunda-feira, abril 10, 2006
domingo, abril 09, 2006
A Razão Pragmática
sábado, abril 08, 2006
A Razão da Liberdade de Expressão
sexta-feira, abril 07, 2006
A Razão da Patinagem Artística
Há desportos que, pelas circunstâncias geográficas do país, Portugal não tem: Curling, por exemplo, uma actividade que faz furor no Canadá (esse país que adora portugueses) e que consiste em duas mulheres a dias a esfregar o chão à frente de um projéctil arremessado por um guarda nocturno; Saltos de Ski, onde eslavos de diferentes proveniências se atiram de peito feito para o infinito, voam um coche e aterram a fazer o «cristo-rei»; Bobsleigh e Toboganning, outros exemplos canadianos, onde tipos que falharam os testes de admissão para o «homem bala» no Circo Chen da terra deles, se atiram por pistas de gelo adentro em cima de trenós que mais parecem mísseis desgovernados; Lançamento de Anões, recentemente proíbido na Austrália e na Nova Zelândia, que consiste exactamente em atirar o seu próprio anão o mais longe possível; Hóquei no Gelo, um jogo que faz o hóquei em patins parecer um desporto gay-lésbico-simpatizante, e onde metade do tempo os jogadores andam à stickada às gengivas dos seus concorrentes.
Há de facto muito desporto que simplesmente não ganha simpatizantes por aqui. Principalmente aqueles que metem gelo e neve. Não é que Portugal não tenha gelo e neve. Temos a Serra da Estrela. O problema é que a Serra da Estrela nem sempre tem neve, e quando tem não há maneira de lá chegar, porque a estância de ski fecha por causa da neve.
Um daqueles desportos inexistentes que fazem mesmo falta por cá é a patinagem artística. É bonito de se ver, principalmente a modalidade feminina. Já repararam como as patinadoras são sempre giras, têm umas pernas fenomenais, e umas sainhas tão generosas que mostram ocasionalmente verdadeiros espectáculos de luz e côr? E quando elas patinam de costas e espetam o rabinho? É mesmo bonito de se ver.
Foi talvez a pensar nisso que o Governo se lembrou de colocar uns patins numa série de artistas da função pública. Daqui por uns tempos seremos o país da Europa com maior número de patinadores artísticos per capita. Não acredito que ombreiem esteticamente com os seus congéneres estrangeiros (há muito artista por aí sem perninhas para aquilo), mas sempre é um começo. Obrigado Sócrates.
quinta-feira, abril 06, 2006
A Razão do Alterne
Sempre me causou alguma curiosidade a expressão «alterne» para designar um determinado tipo de estabelecimento, pela simples razão de não perceber exactamente a que nos referimos quando dizemos alterne. É ao estabelecimento ele próprio? Um bar é de alterne porque é uma alternativa a um bar que não seja de alterne? Isto já explicaria muita coisa, pois quando nos fartássemos do nosso bar do costume íamos a um bar de alterne. Alternávamos, estão a ver? Mas não me parece que seja esta a explicação do nome.
Um amigo algarvio defende que talvez esteja relacionada com o tipo de bebidas que se servem nos estabelecimentos de alterne: qualquer frequentador deste tipo de estabelecimento é sedutoramente motivado a consumir variados tipos de bebida (com preferência para as bebidas brancas) bem como a pagar bebidas a donzelas de vida decididamente duvidosa. Faz parte do modus operandi da coisa. É daqui talvez que nasce a palavra alterne, uma vez que as donzelas, para não apanharem um pifo e se vomitarem todas durante a primeira hora de expediente, vão alternando as suas bebidas com água - dizem as entendidas que a técnica de alternanço consiste em 5% de bebida alcoólica para 95% de água. Aos frequentadores é incentivado o consumo puro, sem alternanço, sendo permitido que alternem com gelo, mas pouco. É bem provável que o alterne de água e gelo esteja na origem da designação, mas não me convence muito.
A explicação mais consistente, é-me dada por um amigo de Bragança. Explicou-me ele que a diferença de um bar para um bar de alterne são as gajas. «Num bar elas andam doidas pra dar» dizia-me ele «ao passo que num bar de alterne elas querem mesmo é receber». É óbvio que esta explicação me deixou exactamente na mesma, sem vislumbrar qual a relação disto tudo com a designação «alterne».
«Nenhuma.» respondeu-me ele desinteressadamente «Mas resume-se tudo às gaijas. Vais a um bar de alterne para arranjares uma alternativa à tua gaija, tás a ver? Alternas.»
Nada como a opinião abalizada de um especialista...
quarta-feira, abril 05, 2006
A Razão Escatológica
Já ninguém dá o cu e cinco tostões por nada neste país. Por razões várias: seja porque o sistema monetário mudou e já não existem os cinco tostões (e convenhamos que não é a mesma coisa dar o cu por cinco cêntimos – é enganadoramente caro), seja porque a maior parte da malta deste país já não tem cu. É verdade, já há muito pouca gente com cu para isto. Tirando o Sócrates, claro.
terça-feira, abril 04, 2006
A Razão da Avó do Outro
A TAP fechou 2005 com um prejuízo de 10 milhões de euros. Fernando Pinto, o gestor maravilha, comentou a um jornal económico que «bastava que cada cliente tivesse pago mais 1,5 euros para não haver prejuízo». É curioso como o discurso dos gestores públicos revela inconscientemente aquilo que é o modus operandi do Estado e das suas empresas, que um dia tive oportunidade de falar aqui.
A filosofia do «cliente que pague os nossos prejuízos e a nossa ineficiência» veio mais uma vez à tona, sendo caso para dizer que, para a TAP dar um lucro de 10 milhões de euros em 2005, bastava que cada cliente TAP tivesse pago mais 3 euros. E assim sucessivamente. Desconfio que vou pagar muito mais que isso este ano, quando viajar na TAP...
Convém dizer que o prejuízo da TAP está directamente relacionado com o aumento do barril do petróleo em 2005, aumento esse que agravou os combustíveis em geral, e que não estava previsto no plano de negócios da empresa. É óbvio que Fernando Pinto e a sua equipa de gestão não é culpada disto. É uma variável dificil de calcular e com uma margem de erro considerável (normalmente para benefício da empresa).
Onde Fernando Pinto é culpado é no raciocínio de «se a minha avó tivesse rodas seria um camião». Principalmente quando a avó somos todos nós que voamos na TAP. É caso para perguntar: se a avó de Fernando Pinto tivesse asas seria um avião? Pelos vistos sim.
segunda-feira, abril 03, 2006
A Razão da Corda
Já pensaram no número de coisas que desaparecem fisicamente do nosso quotidiano sem que nos apercebamos? Coisas que tiveram um papel fundamental ao longo de gerações e que chegam a esta geração e perdem a sua utilidade universal, desaparecendo de fininho do nosso dia a dia, acabando por ter uma existência essencialmente linguística? Coisas que passam a existir no nosso dia a dia de uma forma abstracta porque ao longo dos séculos acabaram por fazer parte do nosso vocabulário, das nossas expressões, e que ganharam uma espécie de existência virtual para a maior parte de nós?
Desse rol de coisas que vão desaparecendo aos poucos das nossas vidas temos a corda. Já pensaram há quanto tempo não usam uma corda? Aposto que alguns de vocês nunca a usaram, pelo menos fisicamente. Nunca a usaram para aguentar as calças, à falta de cinto. Nunca a usaram para pendurar um gajo numa árvore mais próxima (método rápido de justiça em tempos passados). Talvez alguns de vós até tenham saltado à corda, mas a realidade é que a corda está em extinção – tirando algumas actividades (também elas em perigo de extinção) já ninguém liga nenhuma à corda. Foi implacavelmente substituída pelo cabo.
Mas no entanto a corda continua semanticamente a fazer parte do nosso dia a dia. Aposto que a usam todos os dias sem reparar: quando dão corda à ruiva na paragem do autocarro, quando vos esticam a corda lá no emprego, quando por algum motivo vos roem a corda, quando vos dão aquelas desculpas «presas por cordas», quando dão corda aos sapatos e bazam, ou mesmo naqueles dias em que vocês estão com a corda toda.
domingo, abril 02, 2006
sábado, abril 01, 2006
A Razão da Mentira
Qualquer estúpido pode dizer a verdade, é preciso ser-se inteligente para saber contar uma boa mentira.
sexta-feira, março 31, 2006
A Razão dos Blogueiros de Leilá
A mim faz-me alguma confusão que alguém ande de porta em porta a vender aquilo que acreditam ou que pensam, como se tratassem de uns vulgares e impertinentes caixeiros viajantes, daqueles que metem o pé na porta e que não o tiram enquanto não despejarem a lengalenga toda que já decoraram e que recitam monocordicamente com aquele ar de que já disseram tanta vez, que tudo aquilo entrou em piloto automático.
Uma coisa é certa, as testemunhas de Jeová inspiraram uma recente moda na blogosfera: os blogueiros de Leilá. Um blogueiro de Leilá é normalmente um tipo que se farta de escrever num blog que ninguém visita (e que por isso ninguém comenta). Chateado por ninguém lhe dar atenção, o blogueiro de Leilá irrompe selvaticamente nos blogs alheios e despeja o conteúdo do seu último post na caixa de comentários mais próxima, tipo «já que não vais lá ler o que eu tenho para dizer, aqui estou eu, de pé na porta do teu blog, a despejar a minha última convulsão intelectual. Leilá isto.» E zunga, despeja na caixa de comentários um chorrilho de disparates banais sem sentido nenhum, que aliás é a razão do seu miserável blog não ter visitas nem comentários.
Será que estas alimárias ainda não perceberam que ninguém quer saber o que diabo escrevem no seu blog? Será que estes estreptococos alucinados gostariam que eu contratasse um camião e despejasse à porta das suas casas todo o lixo (não separado) que produzo num mês? Porque é exactamente isso que os blogueiros de Leilá fazem na blogosfera. «Leilá a merda que eu escrevo, pá!».
quinta-feira, março 30, 2006
A Razão do Sócio
Uma sociedade é como um casamento - quem tem quer saír, quem não tem quer entrar. Com uma agravante: é muito mais fácil, embora igualmente dispendioso, livrarmo-nos de um conjuge do que de um sócio.
Quem tem um negócio próprio, sem sócios, acaba por a dada altura pensar que a sua vida seria mais fácil se tivesse um sócio que pudesse ajudá-lo a ter uma vidinha com um pouco mais de qualidade, com quem pudesse repartir as preocupações, as contas, e se a coisa der certo, os lucros. A merda começa exactamente aqui, quando se tem que optar entre um sócio teso mas cheio de vontade de trabalhar, ou entre um sócio com dinheiro com menos vontade de trabalhar (um sócio com dinheiro e cheio de vontade de trabalhar é tão vulgar como um unicórnio, e faz parte das figuras míticas de qualquer sociedade comercial).
O sócio teso começa normalmente por ser um mouro de trabalho porque precisa de mostrar que, apesar de não ter contribuído financeiramente para a sociedade, põe todas as suas energias ao serviço desta. Aparentemente isto é bom. Mas na realidade não é, pelo menos a médio prazo: ao fim de um ano a bulir que nem um maluco, o sócio teso começa a achar que afinal merecia ganhar mais do que ganha – afinal de contas esfalfa-se a trabalhar... e aqui começa a merda com o sócio teso.
O sócio com dinheiro entra na sociedade com aquela atitude do «teres-me aqui já é muito bom» e a merda tende a acontecer muito mais rápido, porque o sócio com dinheiro não se acha com a obrigação de trabalhar tanto ou mais do que o dono original do negócio. E infelizmente, dinheiro ajuda mas não é tudo.
O gajo que queria arranjar um sócio para ter uma vidinha mais facilitada acaba sempre por arranjar uma bomba relógio que acabará por rebentar mais tarde ou mais cedo, arrasando literalmente a sociedade, estragando o negócio, e arranjando uma série de novos problemas que não existiriam se nunca tivesse existido um sócio.
quarta-feira, março 29, 2006
A Razão da Testemunha
Não vos causa estranheza a designação «testemunha presencial»? O que é que isto é suposto definir: um tipo que estava fisicamente presente num local onde se deu uma ocorrência, não? Ora isto significa que quem não estava fisicamente naquele local quando se deu a concorrência é uma «testemunha não presencial». Cheguei à conclusão que sou uma testemunha não presencial de milhares de atrocidades e isso deixa-me preocupado. É que esta condição de testemunha não-presencial coloca-me na eminência de qualquer dia ser intimado a comparecer num qualquer tribunal algures no mundo, para testemunhar não presencialmente um crime qualquer, o que convenhamos não dá muito jeito, principalmente se tiver que fazer várias escalas.
A outra designação dúbia é «testemunha ocular». Isto supostamente define alguém que é uma testemunha presencial e que ainda por cima viu tudo o que se passou em determinada ocorrência. Ser «testemunha presencial» não é o mesmo que ser «testemunha ocular»? Ou também há «testemunhas auriculares»? Curiosamente nunca ouvi ninguém falar nas testemunhas auriculares, aqueles tipos que estão no lugar da ocorrência mas que por qualquer motivo não olham para ela. Não olham, pronto. Não gostam de olhar para aquelas porcarias. Mas ouvem. Ouvem tudo. Não serão estes gajos testemunhas auriculares?
Isto leva-me a pensar que podem existir «testemunhas não presenciais auriculares»: tipos que estão longe da ocorrência mas que conseguem ouvi-la. Esses tipos são considerados legítimos? Mesmo que o pai seja incógnito? Não faço ideia.
Mas onde a coisa se baralha mesmo é com aqueles gajos que estão longe da ocorrência e no entanto estão a olhar para ela com um par de binóculos. São as «testemunhas binoculares». Estes nem são presenciais nem auriculares (porque estão longe demais para ouvir o que quer que seja). Poderão estes gajos ser levados a sério num tribunal? Espero bem que não. É que eu todas as noites sou testemunha binocular das excêntricas actividades nocturnas de uma vizinha jeitosa, e não me dá jeito nenhum ir parar a um tribunal.
terça-feira, março 28, 2006
A Razão dos Velhotes Kamikaze
O Governo desta novela mexicana a que chamamos país prepara-se para inventar mais uma dúzia de taxas e impostos depois de ter visto gorado o seu plano de reforma da segurança social baseado na alteração do código de estrada. Esta alteração, realizada no ano passado, isentava os velhotes de exames médicos que atestassem da sua capacidade para continuar a conduzir. O número de velhotes kamikaze a guiar em sentido contrário nas auto-estradas aumentou dramaticamente desde a última alteração ao código de estrada, cumprindo parcialmente o objectivo do executivo de reduzir o número de pensionistas em Portugal. Infelizmente, os velhotes kamikaze desataram a matar os contribuintes que diligentemente conduzem nas auto-estradas do país, reduzindo assim a receita fiscal e comprometendo a colecta para manutenção das despesas dessa abstracção incómoda que é o Estado.
Esperam-se novas medidas desburocratizantes e com impacto tecnológico (chavões indispensáveis a qualquer medida governamental) para sugar mais dinheiro aos contribuintes que entretanto sobreviveram às razias dos velhotes kamikaze.
segunda-feira, março 27, 2006
A Razão da Lógica da Batata
- O primeiro-ministro vai à Finlândia e vem tão excitado com a utilização que os nórdicos fazem da internet que logo a seguir surge a proposta de pagar o selo automóvel exclusivamente pela internet. Não interessa nada que apenas 20% dos lares portugueses tenham acesso à internet: «Se os finlandeses fazem tudo pela internet, os portugueses também têm a obrigação de o fazer».
- O primeiro-ministro (outra vez um exemplo desse ser iluminado) decidiu desburocratizar a criação de empresas em Portugal. Excitado com as potencialidades da internet, criou um sistema onde cada um de nós pode abrir, pela internet, uma empresa em apenas uma hora. A excitação é tão grande que o executivo se prepara para desburocratizar uma série de serviços sob o mesmo prisma: «tudo pela internet, numa hora». Mais uma vez não interessa nada que só 20% dos lares tenham acesso à internet: «Se se pode criar uma empresa pela internet em apenas uma hora, tudo o resto se pode fazer pela internet em menos de uma hora». Pessoalmente acho que deveríamos também ter a possibilidade de demitir o governo pela internet, em menos de uma hora.
- A Banca nacional, esses rapazes que continuam a apresentar lucros milionários num país que não cresce, decidiu a dada altura criar meios remotos de atendimento (nomeadamente as caixas de multibanco, os terminais de pagamento em lojas, e o serviço de internet banking) o que automatizou uma série de processos, que antes exigiam uma quantidade considerável de efectivos, e reduziu os seus custos operacionais. No entanto recentemente vieram informar-nos que no futuro irão taxar cada transacção feita em canais remotos. Mais uma vez a lógica da batata: «se é mais barato para o Banco que os seus clientes usem o Multibanco, faz todo o sentido que os clientes paguem essa utilização». Dá vontade de lhes entupir os balcões...
- O Governo decide fazer um aeroporto na Ota, que sabemos ser perfeitamente desnecessário. Cada pessoa que utiliza o actual aeroporto de Lisboa paga uma taxa de 7 euros para ajudar a pagar o próximo aeroporto. A lógica: «Esta malta não precisa de mais um aeroporto, mas já que o vamos fazer, crie-se lá mais uma taxa para esta malta nos ajudar a pagá-lo».
A lógica da batata começa a ser utilizada de uma forma tão recorrente e impune que quem a usa já está completamente convencido que os portugueses são completamente estúpidos, e que tudo é possivel porque ninguém protesta. Mais vale passar a chamá-la de Lógica do Nabo.