domingo, maio 21, 2006
sábado, maio 20, 2006
Razões Hortículas
Estou um bocadinho farto de ouvir tratar a nossa novela mexicana por “jardim à beira-mar plantado”. Na verdade isto não é mais do que uma horta mal cultivada, situada no esfíncter da Europa.
Na horta impera o conformismo digno das sementeiras que nunca dão fruto, a imaginação do tamanho de uma ervilha, e a vitalidade de uma azeitona deixada a marinar em vinagrete. A horta já há muito que deixou de ser adubada, o que per si não constitui um problema dado que os vegetais residentes já fazem merda suficiente. As ervas daninhas proliferam viçosas, chamando um figo a cada parcela de terra que vão paulatinamente ocupando. Apenas um tipo de vegetais insiste em não singrar nesta horta, e toda a gente é peremptória em afirmar que é graças à sua ausência que as coisas chegaram onde chegaram. Falo-vos obviamente dos tomates. Já os houve, há muito tempo, mas isso foi chão que já deu uvas.
Publicado originalmente em Março de 2005
quinta-feira, maio 18, 2006
A Razão Sem Palavras
Já alguma vez ficaram sem palavras? Expliquem-me
Isto de ficar sem palavras não me faz sentido nenhum. Ficar sem palavras é guardá-las dentro do vosso cérebro e não as mandar cá para fora? Se assim fôr só vocês é que as ouvem, o que é um bocadinho diferente de ficar sem elas. Ou o sentido é mesmo literal e elas nem no vosso cérebro ficam? Esta segunda hipótese é mais preocupante, porque para além de vocês provavelmente ficarem com um ar aparvalhado e digno de internamento (daquele que dá direito a várias sessões diárias de electrochoques nas têmporas), para onde vão as palavras?
São este tipo de questões que me impedem de aceitar as coisas impunemente…
quarta-feira, maio 17, 2006
A Razão Divinal
Há uma anedota brasileira que conta que quando Deus andava a criar o mundo chegou aquela parte a que hoje corresponde ao Brasil e excitou-se: criou praias lindas, um clima ameno, florestas luxuriantes, recursos naturais em barda onde não faltava o ouro e as pedras preciosas, fauna e flora que permitisse que quem para lá fosse teria a capacidade de sobreviver sem esforço e sem nunca passar fome. Desvairado por toda aquela excitação Deus parou um bocado e pensou que o sítio estava a ficar demasiado parecido com o paraíso e então decidiu fazer com que aquilo fosse um dia descoberto pelos portugueses.
Seguindo esta linha de raciocínio divina, em que diabo estava Ele a pensar quando criou a nossa telenovela mexicana? Numa situação de perda/perda?
terça-feira, maio 16, 2006
segunda-feira, maio 15, 2006
A Razão Digest
Acho piada aquelas edições digest reescritas por uns tipos que têm um imenso poder de síntese, e cuja função consiste em pegar em duas dúzias de páginas escritas e transformá-las numa única página que significa exactamente a mesma coisa. A existência destes indivíduos suscita-me dúvidas filosóficas sobre o papel dos autores originais da obra: se há indivíduos que conseguem dizer em meia dúzia de linhas aquilo que os tipos que escreveram originalmente disseram naqueles calhamaços monstruosos, tipo o «Ulisses» do James Joyce, é porque há ali imensa palha desnecessária que me faz perder tempo desnecessário. Tempo esse que poderia estar a utilizar para ler outras obras em versão digest. Pensem na quantidade de livros que já leram até hoje e multipliquem por 12 ou por 20 e vejam só o que têm andado a perder porque há gajos que não têm a capacidade de resumir a sua lógica de pensamento.
Por mim eu gostaria de ver o que estes tipos que resumem fariam às coisas que a Margarida Rebelo Pinto escreve. Aquilo é tão fácil de digerir que os livros da senhora se traduziriam em apenas uma frase. Por exemplo:
Sei Lá – Gosto de gajos mas não faço ideia do que é uma relação estável.
Não há coincidências – Gosto de gajos mas não faço a mínima ideia do que é ter uma relação estável e excitante.
Alma de Pássaro – Gosto de gajos.
Artista de Circo – Gosto de gajos do circo e com uma elasticidade fora do normal.
I’m in Love with a Popstar – Gosto de gajos desde que cantem.
Nazarenas e Matrioskas – Gosto de gajos e não tenho jeitinho nenhum para arranjar títulos para os meus livros.
Pessoas
Diário da Tua Ausência – Gosto de tudo o que mexa.
Estão a ver? Já leram oito obras da Margarida Rebelo Pinto em apenas 10 segundos. E agora podem dedicar os vossos próximos 5 minutos a ler todas as obras escritas nos últimos dez anos por tias encalhadas com a ilusão vertiginosa que são escritoras. Não haja dúvida que as versões digest são úteis à brava.
domingo, maio 14, 2006
A Razão em Privado
sábado, maio 13, 2006
sexta-feira, maio 12, 2006
A Razão Incrédula
No que diz respeito a acreditar em Deus posso garantir-vos que tentei. Tentei mesmo. Tentei acreditar que Ele existia, e que nos tinha criado à Sua imagem e semelhança, que nos amava muito, e que tinha isto tudo debaixo de olho.
Tentei acreditar nisto tudo. Mas devo dizer-vos que, quanto mais tempo vivemos, quanto mais olhamos à nossa volta, mas percebemos que... há qualquer coisa de errado. Isto está mal feito. Guerra, doença, morte, destruição, fome, pobreza, tortura, crime, corrupção e os programas da TVI. Alguma coisa está definitivamente errada aqui.
Se isto é o melhor que Deus consegue fazer, não estou nada impressionado. Resultados destes não fazem parte do currículo de um ser supremo. Isto é o tipo de merda que esperaríamos de um estagiário com um problema de atitude. Em qualquer universo bem gerido há muito que este tipo teria levado um valente pontapé no seu todo-o-poderoso cu, e bazado daqui para fora.
Então, se Deus existe – se existe – acho razoável que estejamos de acordo que Ele é, no mínimo, incompetente e talvez, e só talvez, se esteja nas tintas para isto. O que não é nada que me espante, e que explica muita coisa.
quinta-feira, maio 11, 2006
A Razão do Tédio
Se há uma maneira de distinguir a cultura ocidental da cultura oriental é a maneira como ambas encaram o tédio. Os orientais têm uma perspectiva positiva da questão: encaram o tédio olhando para o seu potencial. Para eles o tédio é um estágio do processo criativo. Um limbo. Acreditam que é a partir dele que tudo nasce. É uma perspectiva interessante e desculpabilizadora, na minha singela opinião.
Já na perspectiva ocidental o tédio é sinónimo de seca, de angústia desmesurada, de não ter nada para fazer, e de «ai ai ai tenho que fazer qualquer coisa para me sentir útil».
Os portugueses, provavelmente contaminados pelas influências muçulmanas que insistentemente gostamos de contrariar, têm uma perspectiva muito particular do tédio quando enquadrada no panorama ocidental: para o tuga, o tédio é uma merda que se tem de contrariar com todas as nossas forças. Se juntarmos a isto aquela característica nacional que nos define tão bem que é a inveja, então veremos que o tédio luso é a melhor aproximação ocidental ao tédio oriental: ficamos muito criativos para dar cabo da vida de alguém. O português quando está entediado embirra com outro português. É o seu modus operandi para ultrapassar esta questão. Embirra com o facto do outro não pertencer ao seu clube, embirra com o facto do outro ter uma casa melhor, um carro melhor, um emprego melhor, um ordenado melhor, uma inteligência melhor, um sentido de humor melhor, enfim... muita coisa melhor. O que é curioso é que este melhor é perfeitamente subjectivo. É algo que só quem está com tédio sente, e que não é necessariamente a realidade. Mas que se lixe: para o tuga, lixar outro tuga é a melhor maneira de saciar o seu tédio. É a nossa faceta Zen.
quarta-feira, maio 10, 2006
A Razão da Multa
Ontem fui multado por excesso de velocidade. Mais uma vez. Mas ao contrário das outras vezes, ontem achei a situação divertida, porque com esta história da caça à corrupção policial estes tipos arranjam formas mais criativas de sacar dinheiro aos prevaricadores.
Então a coisa passou-se assim: eu a abrir que nem um doido numa avenida vazia da capital, atrasado para uma reunião, e os senhores do radar fazem-me parar a meio e informam-me que estou 50 km acima da velocidade legal. Eu confirmo a informação: não faço ideia a quantas ia, mas não me apetece perder tempo a discutir com dois tipos e um radar. Dou-lhes os documentos e o cartão multibanco para pagar e sair dali rapidamente. Pensava eu.
O agente Tavares, convenientemente, «baralha-se todo» com a máquina de multibanco portátil e engana-se nas contas: em vez de se ter pago de 40 euros o Tavares paga-se de 20 euros.
«Oh diabo, enganei-me!» dizia o gajo com uma naturalidade que o teria feito ser automaticamente apurado num casting dos Morangos com Açúcar, «E agora a máquina não me permite que eu faça outra vez a operação... O senhor não tem 20 euros em dinheiro consigo?»
Olhei para ele e para o meu relógio. O sacana queria mamar 20 euros e eu estava atrasado para uma reunião. Decidi ver até onde aquilo ia chegar, mandei uma sms a adiar a reunião e disse-lhe que não tinha dinheiro comigo. «Safa-te lá agora desta, Tavares» pensei eu.
O Tavares já tinha a coisa estudada: «Se não se importa este meu colega vai consigo a um terminal de multibanco e o senhor levanta o dinheiro que falta, desculpe lá a maçada.»
Continuei a achar a situação divertida: o colega era o agente Carvalho, um daqueles polícias motorizados, de calcinha apertada e bota de montar. Gay. Nunca tinha visto um polícia motorizado e gay, mas há sempre uma primeira vez.
«O senhor faça o favor de me seguir» diz o agente Carvalho com uma vózinha de falsete a condizer com o nome. E lá vou eu com um polícia gay de mota à minha frente em direcção ao multibanco mais próximo.
E agora chegamos à parte hilariante da questão: eu que tinha sido multado por excesso de velocidade numa zona sem trânsito vejo-me de repente com escolta policial, o Carvalho de sirene ligada, a entrar numa das zonas mais movimentadas de Lisboa, a passar sinais vermelhos, a entrar em sentidos proibidos para chegar rapidamente um multibanco. As contravenções que fiz naquele percurso faziam o meu excesso de velocidade parecer uma brincadeira de crianças. O Carvalho fez o favor de me transformar em veículo prioritário até ao próximo multibanco.
Quando lhe paguei os 20 euros em dinheiro, o Carvalho virou-se para mim e aconselhou-me simpaticamente: «o senhor parece um cidadão cumpridor e por isso vou dar-lhe dois conselhos: primeiro nunca vá a mais de 70 dentro da cidade porque a gente tem os radares regulados para o detectar acima dessa velocidade; e depois escreva ao Governador Civil e explique-lhe a situação, que estava com pressa e isso, pode ser que lhe retirem a multa».
Fantástico, pensei. Com sorte ainda é o Governador Civil de Lisboa que vai ajudar a pagar as férias ao Tavares.
terça-feira, maio 09, 2006
A Razão do Soldado Desconhecido
E depois acho injusto que só se façam monumentos ao Soldado Desconhecido. Então e o Soldado Conhecido? Sim, esse gajo que toda a gente sabe quem ele é, e que andou por lá a apanhar uma camada de nervos e que apareceu prái cheinho de stress pós-traumático e que agora se atira para baixo da mesa da cozinha sempre que alguém deixa acidentalmente caír um prato, e que em todos reveillons causa vários embaraços familiares pulando para trás do sofá ao som do primeiro morteiro, gritando «Oh Sousa! Olha o canhângulo Sousa, foda-se pá! Amanda-te prá valeta, Sousa!».
Esse gajo não merece monumentos porquê?
Que não façam monumentos ao Soldado Conhecido de Meia Dúzia de Gajos que Já Bateram as Botas eu percebo. Afinal de contas já não há ninguém vivo para se lembrar; que não os façam ao Soldado Mais ou Menos Conhecido por Meia Dúzia de Gente, ainda vá. Agora fazer um monumento a um tipo que ninguém conhece é que não faz sentido nenhum.
domingo, maio 07, 2006
A Razão do Assunto
Min Kim
sábado, maio 06, 2006
sexta-feira, maio 05, 2006
A Razão do Príncipe Encantado
Um dos mais recorrentes mitos femininos dos séculos XX e XXI é o príncipe encantado: quase sem excepção, elas querem acreditar com todas as suas forças que algures por aí anda o eleito, o gajo, o seu príncipe encantado. Como li há pouco tempo num blog que visito, andam todas à procura do seu respectivo Mr. Big (eufemismo feminino do príncipe encantado dos dias de hoje).
Eu não sei como vos hei-de dar esta notícia, meninas. Devo confessar que pensei numa forma mais ou menos doce de vos tornar a coisa o menos dolorosa possível. Mas não me ocorreu nenhuma. E então aqui vai:
No dia em que vocês forem sempre carinhosas, bem humoradas e gostosas; no dia em que estejam sempre deslumbrantes, atrevidas e deliciosamente maliciosas; no dia em que não ligarem ao facto dos gajos se esquecerem de datas; em que não usarem a dôr de cabeça como desculpa esfarrapada para um sem número de coisas; no dia em que a vossa TPM não vos transformar em neanderthais sanguinários; nesse dia, e somente apenas nesse dia, talvez encontrem o vosso príncipe encantado. Até lá contentem-se com o que há por não reunirem os mínimos olímpicos das histórias de fadas: um monte de príncipes desencantados.
quinta-feira, maio 04, 2006
A Razão do Papel
Há gente que tem muito papel e gente que nem por isso, mas é certo e sabido que todos nós temos um papel. Nem sempre é o mesmo papel, dado que ele muda de pessoa para pessoa ou mesmo de ocasião para ocasião. Os políticos por exemplo têm um papelão, e à custa disso os contribuintes têm um papel de embrulho, estando sempre envolvidos numa grandessissima embrulhada.
O Governo desta novela mexicana pretende ter um papel higiénico, predispondo-se a limpar muita merda mas sujando-se muito rapidamente ao primeiro contacto com esta. Acabam por ter apenas um papel de parede.
Os nossos queridos e produtivos funcionários públicos alternam entre um papel vegetal (daqueles vegetais sem cadeira de rodas) e um papel pardo (daquele de enrolar chouriços), quando não estão a fazer o costumeiro papel de parvos. Alguns milhares deles preparam-se para brevemente terem um papel reciclado (normalmente um tipo de papel mais caro que o papel normal).
Os nossos jornalistas, como não podia deixar de ser, têm um papel de jornal, sendo bastante úteis em épocas do ano mais frias, para embrulhar castanhas e outro tipo de frutos secos.
O nosso jet seis esforça-se por ter um papel couché: não só porque é fino ter um papel com um nome francês, mas porque couché fica a meio caminho entre coucher e couchon, e eles sentem-se em casa.
Há ainda quem tenha um papel químico pela impossibilidade genética e incapacidade intelectual de ter um papel que não seja uma quase fotocópia de outro.
Mas do que eu gosto particularmente é do papel fotográfico da Soraia Chaves, e de outras modelitas nacionais, é um mimo vê-las a fazer pasta de papel.
quarta-feira, maio 03, 2006
A Razão do Canadá
De repente ficou tudo chocado ao ver os emigrantes portugueses serem implacavelmente recambiados do Canadá.
Qual é a surpresa?
Alguém foi ao engano para um país que, se repararem bem, é uma aliteração de «Cá Não Dá»?
Ninguém pode dizer que os gajos não avisaram.
A Razão Anti-Tabágica
«AGRADECEMOS QUE NÃO FUME». Falando por mim, não vejo nenhum problema na expressão «proibido fumar». É simples, é directa, é firme. Proibido fumar! Há perguntas? Óptimo.
Mas «agradecemos que não fume»? Em primeiro lugar é fraco. Em segundo lugar, por amor de Deus, estão a agradecer o quê? É como se achassem que vos estão a fazer um favor por não vos ajudarem a ter um cancro no pulmão.
Se eu estivesse a tentar desencorajar as pessoas de fumar, a minha placa seria ligeiramente diferente. Até era capaz de ir longe demais na direcção oposta. A minha placa diria qualquer coisa como: «Fume, se quiser. Mas se fumar prepare-se para isto: primeiro vamos confiscar-lhe o cigarro e apagá-lo algures na sua pele. Depois vamos enfiar os seus dedos manchados de nicotina numa trituradora de papel e atirá-los para a rua, onde cãos vadios vão comê-los e regurgitá-los para os esgotos para que as ratazanas possam ocupar-se deles antes de serem despejados para o mar com o resto da imundície da cidade. Depois disto vamos procurar os seus familiares e amigos, e dar cabo das vidas deles».
Não gostavam de ver uma placa assim? Aposto que muitos fumadores pensariam duas vezes antes de acender o cigarro perto de um placa destas. É preciso sermos directos. «Agradecemos que não fume» é pura e simplemente embaraçoso. Acho que toda esta linguagem simpática e eufemística é mais um sinal de que cada vez mais o nosso país não sabe a quantas anda.
terça-feira, maio 02, 2006
A Razão do Capuchinho Vermelho
Da série «histórias mal contadas» temos hoje o famoso Capuchinho Vermelho: a história de uma jovem criatura do sexo feminino que vai levar o lanche à sua avózinha doente, que vive do outro lado da floresta e que encontra um lobo que a quer comer. Literalmente.
Eu tenho imensas reservas quanto a esta história de miséria infantil e pedofilia. A começar pelo comportamento perfeitamente inconsciente da mãe que envia a criancinha para o desconhecido e vestida de vermelho (de referir que a escolha do vermelho não é a mais feliz, remetendo-nos de imediato para um universo de potencial deboche com forte conotação sexual – o que provavelmente foi a intenção do autor da história), expondo-a desnecessariamente à luxúria rebarbada de um lobo que, pelos vistos, tresandava a pedófilo como gente grande.
Diz a história que o lobo interpela a criancinha a meio caminho, ficando a saber qual o seu destino. Pergunto-me porque diabo o lobo não deu azo às suas desvairadas pulsões sexuais logo no primeiro encontro e não despachou logo ali a jovem de vermelho? Continuo sem perceber a opção do lobo em deslocar-se inicialmente para a casa da avózinha, comê-la (se isto não é um comportamento desviante, não sei o que será...) e logo a seguir travestir-se de avózinha (outro comportamento de conduta deveras questionável) aguardando pacientemente a chegada da jovem de capuchinho vermelho. Temos portanto um lobo travesti e pedófilo com um gosto mórbido por gerontes, e um comportamento assaz maquiavélico a roçar o compulsivo-obsessivo – é muita fruta para um lobo só.
Mas onde a história descamba completamente é quando o Capuchinho Vermelho chega à casa da avózinha e não se apercebe de imediato que aquele ser deitado não é a sua avózinha mas sim o lobo. Das duas uma: ou a velha tinha problemas graves de saúde para apresentar aquela pelagem ou o Capuchinho Vermelho era um verdadeiro calhau com olhos. Eu por mim aposto na segunda hipótese, a julgar pelas perguntas inconsequentes que a petiz faz à sua pouco provável avó.
O lobo acaba por se fartar de tanta pergunta e come também, várias vezes durante essa tarde, a pequena Capuchinho Vermelho. Diz a história oficial que uns lenhadores entram pela casa adentro e salvam a situação matando o lobo, abrindo-lhe a barriga, e retirando de lá dentro a avó e o Capuchinho Vermelho, intactas. Frescas que nem uma alface!
Eu acho estranho este comportamento dos lenhadores a entrarem ali por dentro como se fosse tudo deles. A não ser que houvesse ali marosca da boa com a avó e aquilo fosse um comportamento habitual. Mas acho ainda mais estranho que as criaturas sejam arrancadas vivas das entranhas do lobo: ninguém aborda o efeito dos sucos gástricos nesta história?
O verdadeiro desfecho não foi, obviamente, o oficial. Na realidade o lobo não comeu ninguém no sentido gastronómico do termo. Avózinha e Capuchinho Vermelho tornaram-se escravas sexuais do animal. E numa sessão mais violenta, que envolvia chicotes e chaves inglesas besuntadas em mel, a gritaria era tanta que atraíu uma equipa de vigorosos lenhadores. É certo que o lobo morreu depois de umas machadadas, mas a vida da avózinha e da Capuchinho Vermelho nunca mais foi a mesma a partir de então. Ainda hoje é grande a fama da cabana da lanterna vermelha no confins do bosque.