quinta-feira, fevereiro 09, 2006

Razões Felinas

felinas
Os gatos têm uma característica que eu acho admirável: a impunidade. Quando um gato comete um erro ele normalmente não se sente responsável nem mostra embaraço. Se um gato faz uma coisa realmente estúpida, como saltar para cima de uma mesa e aterrar em cima de quatro chávenas de café, ele consegue dar aquele ar de que tudo aquilo é rotineiro. Os cães não são assim. Se um cão derruba um candeeiro nós conseguimos perceber quem foi só olhando para o cão; e ele fica com aquele ar comprometido e envergonhado. O gato não. Quando um gato parte qualquer coisa, dirige-se calma e calidamente para a sua próxima actividade.
«O que é que foi? O candeeiro? Não fui eu. Vão-se lixar, sou um gato! Há alguma coisa partida? Perguntem ao cão.»

George Carlin

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

A Razão do Choque Tecnológico

choquetecnologico
Está na moda falar em «choque tecnológico», uma das medidas mais mediatizadas do Governo desta telenovela mexicana, e que parece ser a cura para todos os males do país. Assim de repente, com Bill Gates à mistura, parece que Portugal voltou a ser um país próspero e importante com esta história do «choque tecnológico». Os media rejubilam com a expressão «choque», sugerindo-lhes alguma coisa impactante e rimbombante, digna de um qualquer noticiário. Eu continuo chocado com tudo isto porque me parece, mais uma vez, que estamos a ser engrupidos com conceitos, no mínimo, vagos. Principalmente porque sempre ouvi dizer que Portugal era um país que adoptava e implementava a um ritmo muito rápido tudo o que era nova tecnologia: a Via Verde por exemplo, onde somos pioneiros no mundo; o sistema de Multibanco, outro exemplo, onde somos o país mais avançado do mundo na aplicação de um sistema de informação interbancário; o telemóvel pré-pago, outra invenção portuguesa que revolucionou o mundo dos telemóveis em todo o mundo e que hoje em dia é o sistema mais utilizado no planeta.
Por sermos tão avançadinhos tecnologicamente é que esta converseta não me faz sentido nenhum. A não ser que quando falemos em «choque tecnológico» estejamos a falar de coisas mais pragmáticas do tipo: destruir à paulada todos os computadores do país; enfiar (com uma relativa violência) a cabeça do Sócrates, e já agora de todos os membros do executivo, num ecran plasma de última geração; atestar a força destrutiva de um laptop quando arremessado a uma velocidade superior a 20 km/h na direcção de umas gengivas desprotegidas. Isso sim, seria um choque tecnológico. Não teria grande interesse, é verdade, mas ao menos não seria um conceito vazio onde tudo cabe.
Continuo a achar que o nosso Desgoverno está equivocado. Preferiria ver o mesmo entusiasmo bacoco e provinciano aplicado a um «choque económico», ou a um «choque social», ou a um «choque ético», ou mesmo um «choque de civilidade». Eu por mim começava por estes dois últimos e logo me preocupava com o «choque tecnológico» mais tarde. O que este país precisa mesmo é de uns electrochoques.

terça-feira, fevereiro 07, 2006

A Razão Muçulmana

muslimdrawings
Desde que os dinamarqueses fizeram umas caricaturas de Maomé que os muçulmanos andam armados em alarves a destruír embaixadas por todo o mundo árabe. Na Turquia, esse país a resvalar perigosamente para a União Europeia, acabaram de matar um padre à conta de uma dúzia de rabiscos nórdicos. Para um ocidental parece um bocadinho excessivo, este protesto muçulmano...
Isto leva-me a pensar na violência latente do mundo árabe, no apedrejamento de mulheres, nas execuções públicas, nas chibatadas também elas públicas. Não acho normal esta violência e não concordo que esta tenha origem na religião, ou no Corão, se quiserem. O Corão pode ser culpado de muita coisa, mas não o é da violência compulsiva do fundamentalismo islâmico. Na minha opinião o problema disto tudo é da poligamia.
Já viram bem o que aqueles gajos sofrem diariamente? Façam as contas comigo: aquela malta tem mais de uma mulher, na pior (ou melhor) das hipóteses têm duas mulheres. O mais vulgar é terem umas cinco ou seis. Estão a imaginar o que é aturar 6 mamíferos diariamente? 6 gajas a chatear-vos a cabeça diariamente, cada uma com o seu lote de filhos babosos e choramingões, e com as suas crises de TPM a PARTIR-VOS CIRURGICAMENTE A CAROLA numa base diária? Imaginem o que vocês passam diariamente e agora multipliquem por seis, ou por sete, ou por vinte! Conseguem imaginar o estado de nervos em que vocês viveriam? Qual era a maneira que vocês teriam de lidar com esta questão? É claro que tinham que saír de casa e extravasar: punham bombas à volta da cintura e iam ao centro comercial mais próximo; iam dar porrada nos vizinhos isrealitas; e em dias mais complicados É CLARO QUE SE CHATEAVAM COM A MERDA DOS CARTOONS!! Até se chateavam com a falta dos cartoons, se fosse caso disso.
Portanto antes de criticarem gratuitamente estes protestos anti-cartoon pensem no que estes desgraçados penam diariamente. Ponham-se nos sapatos deles. E depois digam-me se também não iam arrear na malta do consulado mais próximo.

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

A Razão do Tempo

tempo
Tempo. O conceito mais abstracto e mais estúpido da nossa sociedade. Uns têm falta dele. Outros gostam de o fazer. Outros ainda ocupam-no para o gastar. Há quem peça tempo; há quem tenha tempo; há quem dê tempo; há quem perca tempo; há quem o ganhe e o desperdice. Quando falamos em tempo olhamos invariavelmente para um dos pulsos, ou à nossa volta para um qualquer dispositivo que tem por função dizer-nos em que fase dele estamos. Por ele e nele corremos, por causa dele nos enervamos e perdemos a paciência, e sem ele ficamos perdidos.
A todos aqueles que vieram aqui com ou sem tempo, na esperança de gastar tempo ou de passar um tempo agradável, digo-vos apenas que não houve tempo de pensar com tempo no post de hoje. Dêem-me mais um tempo.

domingo, fevereiro 05, 2006

A Razão dos Dez Mais Procurados

10MP
Há coisas que me fazem espécie na lista dos Dez Mais Procurados do FBI. Quando apanham um gajo que está na lista, o número onze sobe um lugar e passa a estar também na lista? E isto conta como uma promoção? Será que o tipo liga aos seus amigos criminosos e diz: «Consegui Bruno! Finalmente estou na lista»?
Então e quando aparece um tipo extremamente perigoso e têm de o pôr no primeiro lugar da lista? (Chamem a isto «entrada directa para o topo da tabela» se quiserem.) Os outros têm todos de descer um lugar? E não há um tipo que fica de fora? Como é que decidem quem é que vai ficar de fora? É o que está na décima posição? E como é que ele se sente a respeito disso? Não se sentirá menosprezado? Não achará que deviam ter escolhido outro gajo qualquer? Será que já aconteceu o tipo que fica fora da lista matar o que está em primeiro para recuperar o seu lugar?
Uma última pergunta: o FBI esforça-se mais para apanhar o número três do que para apanhar o número sete? Eu esforçava-me. Se não fôr assim, para que é que lhes dão números? É este tipo de pensamento que me impede de progredir na vida.

George Carlin

sábado, fevereiro 04, 2006

A Razão Base

base

ORDINARIAMENTE todos os ministros são inteligentes, escrevem bem, discursam com cortesia e pura dicção, vão a faustosas inaugurações e são excelentes convivas. Porém, são nulos a resolver crises. Não têm a austeridade, nem a concepção, nem o instinto político, nem a experiência que faz o ESTADISTA. É assim que há muito tempo em Portugal são regidos os destinos políticos. Política do acaso, política de compadrio, política de expediente. País governado ao acaso, governado por vaidades e por interesses, por especulação e corrupção, por privilégio e influência de camarilha, será possível conservar a sua independência?


Eça de Queiroz, 1867

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

A Razão do Terminal

theterminal
Em que sítio encontramos os niveis de QI mais rasteiros do planeta? Se estão a pensar na Assembleia da República andam lá perto mas não acertaram. A resposta certa é: nos aeroportos.
A estupidez que se respira num aeroporto é inigualável, incomparável e irrepreensivelmente insuperável. Se tivesse que alinhar numa folha A4 as coisas mais estúpidas a que já assisti na minha vida, a maioria delas teriam acontecido num aeroporto.
Há um embrutecimento qualquer que reina nos aeroportos e que parece subsistir ao longo do tempo. Começando pelo preço das coisas dentro de um aeroporto. É tudo irrealmente caro, como se o simples facto de voarmos de um sítio para o outro nos fizesse entrar num transe maléfico qualquer que nos compele a pagar alegremente um café pelo mesmo preço que pagamos uma refeição na tasca da esquina.
E depois há a questão das perguntas quando fazemos o check in:
«Foi você que fez a sua mala»?
Apetece responder: «Claro que não. Que estupidez. Ontem à noite convidei a célula local da Al Qaeda para jantar lá em casa e, em troca de uma refeição quente, obriguei os gajos a fazerem-me a mala.»
«A sua bagagem esteve sempre consigo?»
E nós: «Bem... nem toda. Tenho aí umas cuecas que estão comigo há coisa de dois anos, quando estive no Corte Inglês. As calças já estão comigo há mais tempo, o que poderá constatar pelo aspecto delas. Os peúgos estão comigo há relativamente pouco tempo, comprei-os há dias. Recentes recentes são as camisas. Comprei-as ontem. Quer ver o talão?»
«Algum desconhecido lhe deu alguma coisa para transportar?»
Merecem: «Você acha que eu sou criado de alguém?? Você costuma transportar coisas de gajos que não conhece de lado nenhum? Você tem uma deficiência mental ou tem por hábito fazer perguntas estúpidas? Quer transportar a minha bagagem para algum lado?»
Exasperante.
E depois temos aquela cena do detector de metais. Qualquer dia um gajo tem que passar nú no detector de metais. Eu costumo fazer de propósito e levar as Catterpillar com biqueira de ferro. Alarmes por todo o lado. Os gajos à rasca sem saberem onde está o metal. A fila atrás de mim a engrossar e eles à procura à rasca. E aí eu digo-lhes que tenho implantes metálicos nos calcanhares e eles acreditam. Broncos.
Se há sítio onde um fumador se sente discriminado é nos aeroportos. Não percebo porque não se pode fumar à vontade dentro de um aeroporto – é uma espécie de despressurização antes de entrarmos no avião? É claro que há zonas de fumadores, mas têm sempre um espaço limitado (em Londres parece um curral de gado) e encontram-se sempre povoadas de gajos de aspecto acinzentado a esfumaçar que nem uns alarves, um cigarro atrás do outro. Só de olhar para eles dá vontade de deixar de fumar e engordar que nem um cachalote.
É vulgar ouvirmos uma voz do além a chamar um passageiro que já devia estar no avião e que anda a alucinar algures dentro do free shop do aeroporto – a comprar como se não houvesse amanhã. Será que estes gajos ficam tão entorpecidos dentro de um aeroporto que se esquecem que há centenas de pessoas que não levantam vôo só porque eles gostam de ouvir o barulhinho da máquina do multibanco? Não faço ideia. Mas sou adepto de que em cada aeroporto deveria haver uma tribo somali, devidamente untadinha de pau de cabinda, para sodomizar à bruta (entre cânticos guerreiros da terra deles) os tipos que me fazem perder tempo.

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

A Razão do Jardim à Beira Mar Plantado

jardim
Alguém algures levou demasiado a sério esta analogia do «jardim à beira mar plantado». Sabemos bem que os jardins ficam mais viçosos se forem bem adubados. Sabemos bem que um bom adubo é constituído por uma boa dose de esterco. Mas não exageremos! Há demasiado esterco no adubo! Há demasiado adubo no jardim!
Podem parar de adubar, se fazem o obséquio.

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

A Razão Semântica

semantica
Para um esquimó não existe a palavra branco. Não é estranho? Um gajo que vive rodeado de branco não ter essa palavra? Na realidade o esquimó não tem a palavra branco porque consegue identificar tantos tipos de branco diferentes que não lhe passa pela cabeça utilizar a designação mais simples.
A mesma coisa acontece aos beduínos em relação ao castanho: a maioria das cores quentes são para eles variantes do castanho, daí que o simples castanho não existe no seu vocabulário.
No caso dos portugueses o fenómeno dá-se com a palavra «político». É que há tantas variantes de bosta...

terça-feira, janeiro 31, 2006

A Razão Cola Cao

colacao
«Aquilo que não me destrói torna-me mais forte». Já leram maior imbecilidade que esta? Isto faz-me pensar que afinal a sabedoria popular não é tão lúcida como nos quer fazer parecer. Imaginem coisas que não nos destroem, do tipo: uma deficiência renal; a espinal medula em gelatina; o cérebro a funcionar só de um lado (com a consequente baba a escorrer de um dos lados da boca); os fémures trituradinhos por um catterpillar desgovernado; a bacia no lado errado das costas; um bocado do vosso baço numa qualquer placa de Petri; a glândula pituitária a latejar desenfreadamente; o intestino a sair-vos pelo anús; e daí por diante. Tudo isto são coisas que não nos destroem, pelo menos no sentido literal da coisa. Mas daí a pensar que isto nos fortalece vai uma distância considerável. Estão a imaginar dizerem para alguém «graças a Deus que amputei a minha perna esquerda a semana passada, há anos que não me sentia tão vigoroso»? Está tudo doido ou quê? Aquilo que não me destrói não só não me torna mais forte como me deixa em muito mau estado. Não nos iludemos. Sejamos lúcidos
.

segunda-feira, janeiro 30, 2006

A Razão do Entalado

entalado
Cerco de Lisboa. Ano de 1147.
Mal sabia Martim Moniz, a correr alarvemente para a fresta de uma das portas do Castelo de São Jorge (hoje designada por Porta de Martim Moniz), que estava a iniciar uma tradição. Ao morrer entalado na porta do castelo que queria tomar, permitindo assim que os seus companheiros penetrassem nas defesas inimigas, Martim Moniz deu origem a uma das mais antigas tradições nacionais: a tradição do entalado.
Desde esse momento, gerações e gerações de indivíduos entalaram-se alegremente para que outros pudessem safar-se à grande e à portuguesa, neste jardim à beira-mar semeado.
Desde então pouco mudou, à excepção de uma pequena nuance: são cada vez mais os entalados – pouco menos de 10 milhões, para ser mais preciso.

domingo, janeiro 29, 2006

A Razão Pedagógica

pedagogica
Aqui fica uma boa maneira de entreter o vosso filho de quatro anos quando o metem na cama e, ao mesmo tempo, de lhe estimular a imaginação:

«Vim desejar-te boa noite e ajeitar-te os lençóis, Joãozinho. Tiveste um dia em cheio, por isso, trata de dormir bem. E não te esqueças de ter cuidado com o Papão. Lembras-te do que o pai te disse sobre o Papão? De como mata rapazinhos? O que achas Joãozinho, achas que o Papão está aqui escondido no teu quarto? Será que está no armário? Será que vai saltar lá de dentro e matar-te mal eu me vá embora? Pode ser que sim. Nunca se sabe.
Talvez esteja debaixo da cama. Também gosta de se esconder lá. Se calhar vai abrir um buraco no colchão e matar-te. Não deixes que ele te mate Joãozinho. Sabes o que ele faz? Espeta um tubo de metal afiado pelo teu nariz e chupa-te os miolos. E isso dói muito.
Agora, vou apagar a luz e deixar-te sozinho no escuro. E não quero ouvir barulho. Se ouvir algum barulho vindo deste quarto, venho cá e bato-te. Tenta dormir bem. A propósito, o pai viu um monstro a passear no corredor ontem à noite. Tinha um papel na mão com o teu nome escrito. Boa noite.»

George Carlin

sábado, janeiro 28, 2006

A Razão Nua e Crua

nuaecrua
Olá. Somos nós que controlamos as vossas vidas. Nós tomamos as decisões que vos afectam a todos. Não é interessante saber que as pessoas que vos gerem a vida têm a frontalidade para o admitir desta forma? Sofram, palhaços. Sabemos de tudo o que fazem e sabemos para onde vão. Para que acham que servem as câmaras? E os satélites? E os números da Segurança Social? Vocês pertencem-nos. E ninguém pode alterar isso. Recolham assinaturas, façam manifestações, levem processos a tribunal, votem, escrevam cartas a quem quiserem. Não vai adiantar nada. Porque nós controlamos as vossas vidas. E temos planos para vocês. Agora voltem para a cama.

George Carlin

sexta-feira, janeiro 27, 2006

A Razão da Consciência

consciencia
Nos dias que correm fala-se muito em consciência (e nos dias que andam a passo também). Pede-se ao País que tome consciência do período difícil que atravessa. Pede-se às pessoas que ajam em consciência nos momentos considerados decisivos para Portugal. Exige-se que os contribuintes se consciencializem que só pagando mais impostos, mais taxas e mais tachos é que o País poderá, em consciência, saír da crise. Pede-se muita coisa em nome da consciência. E isso está profundamente errado.
Ser consciente em Portugal é um acto de contra-natura. E está historicamente provado: Viriato e o seu grupo de amigos pastores, à calhauzada nos Montes Hermínios contra o exército mais organizado do Mundo, eram conscientes? Não.
Afonso Henriques agiu em consciência quando ficou a dever ao Papa o dinheiro que habilitava Portugal a ser considerado, aos olhos de Deus, um País? Não.
Eram conscientes aqueles gajos que se meteram em casquinhas de noz para irem descobrir novos mundos? Também não.
Foram conscientes os tipos do Corpo Expedicionário que foram combater os alemães na 1ª Guerra Mundial utilizando, por falta de armas, os métodos da calhauzada imortalizados por Viriato? Obviamente que não.

Se nós somos um povo que sempre cresceu à conta de uma bela e imensa dose de inconsciência, porque raio querem agora que sejamos conscientes? Que inconsciência!

quinta-feira, janeiro 26, 2006

A Razão da Problemática

problemática
Por mais que tentemos não conseguimos dar à nossa existência um carácter simples. É mais forte que nós. Há sempre uma problemática qualquer que acaba por nos deixar lixados. Conseguiríamos viver sem esta problemática? Duvido. A não ser que apreciássemos viver em estado de absoluta felicidade, ostentando o tempo todo aquele sorrisinho esgazeado e estúpido.
Como diz alguém que conheço: «A problemática é aquilo que nos permite identificar se somos felizes – se ela não existisse como é que iríamos saber se o éramos?». E então arranjamos problemáticas para nos irmos entretendo a vida inteira: a problemática do déficit, muito em voga nos dias que correm; a problemática do emprego, outro blockbuster; a problemática da importação das ovas de esturjão e o seu impacto nas políticas autárquicas (esta é marginal, a problemática bem entendido – e por vezes a política autárquica também).
E já repararam na dimensão da problemática? Não se fala no «problema do déficit», fala-se na Problemática, o que sugere que há um conjunto de pequenos e intrincados problemas que tornam qualquer solução numa coisinha verdadeiramente complexa e distante.
Ter um problema é coisa de meninos. Enfrentar uma problemática é uma coisa a sério, sem solução à vista.

Portugal é um país problemático. E isto não é um problema.

quarta-feira, janeiro 25, 2006

A Razão da Opinião

opiniao
Na sociedade actual o papel da opinião está demasiado valorizado. Ter opinião, hoje em dia, é algo tão necessário como andar vestido. Ir para o emprego em cuecas é a mesma coisa que não ter opinião sobre um assunto qualquer: as pessoas sentem-se despidas e com uma ligeira sensação de frio nas partes baixas (especialmente se estivermos em Janeiro e vivermos na zona da Covilhã, apascentando ovelhas).
Como ninguém se sente à vontade de andar por aí em cuecas (e ainda bem, porque nos poupam um espectáculo verdadeiramente triste na maioria dos casos) toda a gente se sente no dever, e alguns até se sentem no direito, de ter uma opinião e de a esfregar directamente na nossa cara. Voltando à analogia da roupa é como se tirassem as cuecas e as metessem debaixo do nosso nariz. E há cuecas, meus amigos, que não são mesmo flôr que se cheire.
Há alguns anos atrás era raro encontrar alguém com opinião. Os entrevistados na televisão ou não tinham opinião e assumiam-no frontalmente, ou presenteavam-nos com verdadeiras pérolas de sabedoria. Hoje vemos a peixeira do Bolhão exibir com galhardia uma opinião sobre importância dos sons guturais na apanha da ameijoa. E mais incrível: as pessoas ouvem-na!
E depois temos os «opinadores profissionais»: gajos que são pagos para despejar o seu autoclismo intelectual em cima de todos nós. Todos estes gajos me parecem clones do Nuno Rogeiro – o homem que sabe sempre alguma coisa sobre quase tudo.
A profusão de opiniões é tanta que assistimos à categorização da opinião. É como se ter opinião já não bastasse. Tem que se ter uma opinião abalizada, ou uma opinião coerente, ou uma firme opinião, ou uma opinião desinteressada, ou uma opinião controversa, ou vice-versa.
A coisa chegou a um ponto tão ridículo que até as instituíções já têm opinião: a opinião do Governo, a opinião da Comissão de Trabalhadores, a Opinião do Partido, e assim por diante. Ainda ninguém me explicou como é que a opinião institucional é formada: será que é decidida por uns quantos e imposta aos outros de modo coercivo e com requintes de sadismo? Uma coisa é certa – nunca ouvi um funcionário da PT contrariar a opinião da sua empresa, à excepção talvez de um tipo que conheci, que trabalhava na instalação de telefones, e que teve um acidente esquisito (sufocou nos próprios testículos).
Outro fenómeno interessante são os «provocadores de opinião»: quantas vezes não vos pediram a opinião sobre o serviço do hotel onde dormiram? Ou sobre a qualidade de serviço da tripulação do avião onde viajaram? E vocês acham que a vossa opinião alguma vez serviu para alguma coisa? Conseguem imaginar todo o departamento de atendimento da TAP a rir à gargalhada da vossa honesta opinião sobre as sandes congeladas que vos serviram a bordo?
Voltando ao início, acho que a opinião se está a banalizar. Mas isto é só a minha opinião.

terça-feira, janeiro 24, 2006

A Razão da TPM

tpm
Anda toda a gente preocupada com a SIDA, com a Gripe das Aves e com toda a espécie de doenças infecto-contagiosas quando se deviam preocupar com aquilo que é o verdadeiro flagelo da humanidade. Falo obviamente da TPM. Se acabassem com a tensão pré-menstrual o mundo ficaria bem mais seguro. Principalmente nos dias de hoje, onde as mulheres atingem facilmente lugares de poder. Ficou toda a gente contente com o facto da Angela Merkl ter ocupado a liderança na Alemanha: vocês fazem ideia do perigo que constitui a TPM da Angela Merkl e o que isso representa para o futuro da Europa e do Mundo? Certamente que não.
Pertencer-se ao sexo masculino neste início de milénio deveria dar direito a subsídio estatal qualquer, por estarmos mensalmente sujeitos aos efeitos e consequências da TPM. O stress pós-traumático é uma brincadeira de crianças para quem enfrenta mensalmente as manifestações da tensão pré-menstrual: um simples «não», uma simples contrariedade, pode perigar a existência do homem do século XXI. E pensar que tudo começou um século antes com um grupo de gajas a queimarem a sua roupa interior e a extravasarem todos os sintomas da coisa...
O que é a gripe das aves comparada com isto? Porque não se arranja uma vacina para a TPM? Porque não se fala disto nos noticiários? Eu digo-vos porquê: porque elas já tomaram conta disto!

Nota de cariz ciêntífico: a origem da TPM está relacionada com a perda da serotonina, uma substância que regula os estados de humor. Por amor de Deus façam as vossas mulheres felizes! A todo o custo! (mas não abusem no crédito – o país já está endividado quanto baste)

segunda-feira, janeiro 23, 2006

A Razão dos Animais Falantes

animais falantes
«Isso foi no tempo em que os animais falavam».
Quantas vezes já ouviram esta expressão? Pois é. Aparentemente há muito muito tempo atrás os animais tinham a capacidade de falar. Ninguém consegue dizer exactamente qual foi a altura em que eles perderam esta faculdade. Só se sabe que um dia houve um big bang linguístico qualquer e os gajos perderam o pio. O papagaio foi o único que se safou, mas ficou limitado a repetir tudo o que ouvia: uma versão com penas de José Sócrates sempre que se desloca ao estrangeiro.
A cobra com sotaque tripeiro, o papaformigas com sotaque beirão, o jumento que dominava cinco idiomas, e a vaca que recitava Yeats com um sotaque genuinamente irlandês, emudeceram de um dia para o outro. O curioso nesta história toda é que nunca se fala no Homem neste processo de perda da fala.
Parece que o crescimento da espécie humana está correlacionado com este silêncio animal. Até então o Homem nunca teve grandes hipóteses de sobrevivência num mundo de animais falantes. «Olha ali um grupo de cromagnons a quererem lixar o mamute à pedrada» dizia um tigre de Bengala para outro colega deficiente, «tu vai lá ali num instante chamar os nossos amigos rinocerontes». E o outro ia. E os cromagnons lixavam-se.
Quando os animais perderam a fala as coisas complicaram-se de sobremaneira. É que dizer «topa-me ali à direita uma task force de australopitecos» sem poder usar palavras, requeria um poder mímico que nenhum animal estava preparado para usar. Como é que um gajo diz «australopiteco» em mímica? E os animais lixaram-se.

domingo, janeiro 22, 2006

A Razão a Voar

a voar
Acho que as instruções de segurança que as hospedeiras de vôo dão antes da descolagem podiam ser melhoradas de forma significativa se fossem mais honestas e completas. Deviam incluir descrições gráficas acompanhadas por vídeos de animação e imagem real dos efeitos devastadores de um acidente aéreo no corpo humano. Deviam citar exemplos de mutilações. Deviam incluír também descrições detalhadas dos estragos provocados nos pulmões e na pele pelo fogo e pela inalação de fumo, demonstrando que sobreviver ao despenhamento de um avião, muitas vezes, não vale de muito. As pessoas merecem saber a verdade.
E que tal se os anúncios que antecedem o vôo fossem feitos numa cadência mais jovem e descontraída: «Olá. Tudo bem? É assim: estamos quase a levantar vôo, tá? Depois vamos voar uma beca e devemos chegar lá prái a meio da tarde. Pode ser? Daqui a um bocado, morfamos qualquer coisa, bebemos umas bejecas e até podemos ver um filme. Ok? Ah!... e tentem não carregar muito no botão para não nos acordarem. A não ser que aconteça uma cena altamente marada. Yá? Obrigado. Já agora, o comandante diz que é melhor fazerem aquela cena com os cintos.»


sábado, janeiro 21, 2006

A Razão Casapiana

casapia
Fala-se muito sobre o que separa os homens dos rapazes. Eu digo-vos o que separa os homens dos rapazes: são as leis anti-sodomia.

sexta-feira, janeiro 20, 2006

A Razão do Provérbio (II)

Proverbios II

Há quem defenda que a maneira mais fácil de subir o nível intelectual de um povo consiste em sofisticar aquilo que é considerado ser a sua cultura popular.
A ideia é estupidamente absurda mas dá origem a híbridos hilariantes quando aplicada aos provérbios populares. Vejamos:

«Antes asno que me leve que cavalo que me derrube.»
Terá a seguinte sofisticação:
«É preferível montar um equino híbrido do que ter graves complicações na coluna por montar um equino puro.»

«A pressa é inimiga da perfeição.»
Teria como interpretação elitista:
«Se o fizerdes ninguém vai questionar se o fizesteis como deve de ser.»

«As paredes têm ouvidos» resultaria em «A alvenaria por vezes desenvolve capacidades auditivas».

«Burro velho não aprende línguas» teria uma formulação não muito distante de «Asinino com uma idade acima da média tem uma grande dificuldade em assimilar idiomas estrangeiros».

Para «A fome é o melhor tempero» teremos «Se fizerdes jejum, os alimentos saber-vos-ão substancialmente melhor».

«A necessidade aguça o engenho» ficaria em «Sereis engenheiro se realmente precisardes».

«Da discussão nasce a luz» para «Uma salutar troca de opiniões contribui para baixardes a factura da EDP».

«Mulher doente, mulher para sempre» seria traduzido por «Fêmea com saúde precária apresenta forte tendência para a eternidade».

«Preso por ter cão e preso por não ter» seria substituído por «Encarcerado por estar na posse de um canídeo e encarcerado pela sua manifesta ausência».

«Mais vale tarde do que nunca» mereceria «É preferível o atraso à absoluta ausência».

«Mais vale burro vivo do que sábio morto» seria melhorado para «É preferível possuir um QI reduzido e estar na posse de todas as funções vitais do que possuir uma inteligência assombrosa e não apresentar qualquer batida cardíaca».

Pessoalmente sou apologista da popularização da intelectualidade. Exactamente o contrário do que temos falado neste post. O debate político, por exemplo, seria muito mais vivificante se fosse um pouco mais popular. Em vez do «Olhe que não Doutor, olhe que não...» sou apologista do «Tu vai-ta foder meu ganda caralho e não me contraries, porra!»
Este país precisa de mais vernáculo.



Bónus: Crónicas Negras hoje no De Vagares...

quinta-feira, janeiro 19, 2006

A Razão do Provérbio (I)

Proverbios I

Já repararam que todos os provérbios populares que conhecem foram escritos (ou ditos) antes de vocês terem nascido? Alguém se lembra de algum provérbio popular do ano passado? Não é preocupante? Será que o povo ficou estúpido e deixou de «proverbiar» no momento em que vocês nasceram? Será que a culpa é inteiramente vossa? Foi a pensar neste actual deserto de sabedoria popular que decidi criar alguns provérbios para 2006. Assim já poderão dizer que são contemporâneos de uma série de provérbios populares, que os viram nascer, que encheram a boca com eles, e que afinal a sabedoria popular não levou o mesmo destino de José Sócrates.
E aqui vão eles:

«Não subestimeis a micose da bolsa testicular alheia, pois ela não faz ideia do que é um salário honesto.»
Provérbio dedicado a todos aqueles que engrossam a fila do subsídio de desemprego e que se recusam a trabalhar para contribuír para alimentar uma turba de preguiçosos igual a eles.

«Se não consegues perceber o que se está a passar é porque finges que trabalhas na Função Pública.»
Provérbio dedicado a todos os dedicados funcionários dessa abstracção incómoda que é o Estado.

«Mais vale avião que me leve do que comboio que me trucide.»
Provérbio que versa sobre a corrupção política e imobiliária à mistura com vertigens de grandeza desajustada.

«Aluno a aluno enche o reitor o bandulho.»
Não, não é sobre a Casa Pia, é sobre o ensino privado em geral.

«A Porsche oferecido não se declara o imposto.»

Dedicado à corrupção empresarial. Funciona também com Jaguar, Mazeratti e Ferrari.

«Faças bem ou faças mal, terás sempre uma reforma genial.»
Provérbio dedicado a todos os nossos gestores públicos.

«Quem muito bronzeado quer estar, em muita greve terá de participar.»
Dedicado a todos os que temem perder o seu tacho.

«Se queres que o teu saldo dê um pulo, lembra-te de arranjar um saco azul.»
Dedicado às pequenas políticas autárquicas.

quarta-feira, janeiro 18, 2006

A Razão do Capachinho

capachinho

O grau zero da consciência de si (e não estou a citar António Damásio) é o capachinho. Pergunto-me repetidas vezes o que leva um mamífero a exibir orgulhosamente um capachinho no alto da sua cabeça. Será que os gajos acham que a malta não repara? Como é possível não reparar num tipo que parece ter uma lontra em avançado estado de decomposição a cobrir-lhe a região craniana? Os utentes do capachinho parecem estar-se nas tintas para isso.
Para se usar capachinho tem de se ter uma certa dose de alheamento social, aliada de um egocentrismo blindado e cegante. Só assim se explica a ausência de noção do ridículo. Só na política encontramos a mesma falta de vergonha, a mesma ausência de «noção de si»: ser político é o mesmo que usar um capachinho – faz-se a mesma figura de urso, sempre com a convicção de que ninguém está a reparar.

terça-feira, janeiro 17, 2006

A Razão do Vegetariano

vegetarianos

Um gajo que é capaz de comer uma amendoeira em flôr não merece o ar que respira. Falo obviamente dos vegetarianos, esses seres dependentes da clorofila que a dada altura das suas vidas decidiram ter uma existência bovina e desataram a ingerir coisas rumináveis.
Pessoalmente acho que cada um pode fazer as opções que lhe apetecer na sua vida desde que não chateie. O que não é o caso dos vegetarianos que, quais testemunhas de Jeová, se sentem na obrigação de justificar a sua opção alimentar tentando incutir nos outros, malta que come normalmente, o gosto pelo aipo salteado em soja. Não há coisinha que me enerve mais do que ter que fazer um jantarinho à parte para os vegetarianos que por vezes aparecem para jantar lá em casa. A minha vontade é de levá-los para uma divisão à parte, longe dos outros convivas, e espancá-los até à morte com um molhinho de salsa.
Eu tenho uma teoria sobre os vegetarianos: se em vez de terem sido amamentados pelas tetas das suas excelsas mães, tivessem mamado num quiabo, não estariam com estas paneleirices que os vai fazer viver até aos 120 anos numa existência de merda, com um ar de vegetal pronto a ser ligado a uma máquina, e com instintos sexuais que ombreiam com os de um vulgar diospiro. Já experimentaram fazer sexo animal com um diospiro? Não? Então evitem, aquilo esborrata-se tudo nos preliminares.
E aquela malta vegetariana que, nos aviões, quer uma refeição personalizada? Não mereciam que a hospedeira de vôo lhes metesse um personalizado salpicão de Monforte pela goela abaixo, com os cumprimentos do comandante?

segunda-feira, janeiro 16, 2006

A Razão dos Obesos

obesos
De vez em quando vem à baila a questão da obesidade e lá ficam os media histéricos com o facto da população portuguesa começar a esgotar os tamanhos XXL. Convidam-se nutricionistas a dar entrevistas na televisão, entrevistam-se ex-obesos deprimidos e obesos bonacheirões, e culpa-se a junkfood, e os doces, e os refrigerantes e o raio que o parta.
A mim, mamífero desde cedo educado a conviver salutarmente com a bio-diversidade, o que me chateia é que se promova uma espécie de segregação dos gordos. Qual é o problema de um gajo se parecer com um ovo Kinder? Qual é o problema de um gajo tresandar a suor e ter o aspecto permanente de que acabou de sair vestido do duche? Porque raio se há-de embirrar com um tipo que paga dois lugares num avião ou num autocarro? Qual é o problema de um gajo ter de se levantar por camadas, e de não ter a mínima noção da côr das cuecas que está a usar?
O discurso profilático da obesidade como doença, tira-me do sério. Uma doença?? Um tipo que tem apetite para comer quatro frangos e duas alheiras regadas com tinto ao pequeno-almoço; repetir seis vezes a dose generosa de cozido ao almoço; lanchar trinta e duas duchéses; e jantar três leitõezinhos da bairrada como entrada de sete doses de tripas à moda do Porto, é um gajo doente? Desde quando é que um tipo com apetite pode ser rotulado de doente? Se excluirmos o Zézé Camarinha, nenhum.
Temos portanto aqui mais uma mistificação mediática para arrasar a redonda auto-estima dos gordos que, como sabemos, são seres mais bem dispostos que os magros. E tudo isto para quê? Para que Portugal continue a ser um país sorumbático e deprimido.

domingo, janeiro 15, 2006

A Razão das Políticas Sociais

Políticas Sociais
Não seria estranho se vos enterrassem vivos quando chegassem aos sessenta e cinco? Se isso fosse obrigatório para toda a gente? Depois da festa do vosso sexagésimo quinto aniversário, vinham buscar-vos e atiravam-vos para uma vala comum com outras pessoas da vossa idade, todas as prendas que receberam e enterravam-vos vivos. Não seria esquisito? Ainda bem que não fazem isso. Seria mesmo esquisito.
Mas, mais tarde ou mais cedo, vamos ter de começar a fazer qualquer coisa deste género. Seremos obrigados. Já não conseguimos tomar conta dos velhos e vai haver muitos milhões deles. Os avanços da medicina são uma espada de dois gumes porque uma das consequências é que ficamos com velhos a mais. O que fazemos com eles? Ninguém quer tomar conta deles. Os filhos metem-nos em lares. Até as pessoas que são pagas para tomar conta deles nos lares se estão nas tintas e tratam-nos mal. Ninguém se importa. Estou convicto que, mais tarde ou mais cedo, vamos ter de começar a matar os velhos antes que se tornem um fardo insuportável. Mas há uma coisa boa. Vamos poupar montes de dinheiro à Segurança Social e talvez o país não vá à falência.
Há sempre um lado positivo em tudo.


sexta-feira, dezembro 16, 2005

A Razão no Descanso

ferias

Entretanto passem um bom natal e entrem a pés juntos no 2006.

quinta-feira, dezembro 15, 2005

A Razão do Maior

omaior
Geralmente a auto-estima de um país está directamente relacionada com os seus metros quadrados. Não há-de ser à toa que os bandalhos dos americanos têm uma auto-estima estupidamente (e a utilização deste adjectivo não é metafórica) elevada.
Porém é curioso ver como a rasteira auto-estima nacional procura tratar-se à base de placebos que têm a ver com o tamanho. Na realidade, esta obsessão pelo tamanho revela aquele que é um dos problemas basilares do país: não interessa a qualidade – estamos completamente focados na quantidade. Ser os melhores é algo que nos transcende. O que interessa mesmo é sermos os maiores, mesmo que o sejamos só lá no nosso bairro: ter a maior árvore de Natal da Europa; ter o maior pão com chouriço do mundo; ter a segunda maior ponte da Europa; isto sem falar das coisas que são «maiores» só porque se dizem da boca pra fora – o Benfica é o maior, o Porto é o maior, não interessando grande coisa porquê.
Ser o maior em Portugal é bom. Uma espécie de complexo de pila pequena que se gaba de ter a maior erecção. Há-de servir de muito...

quarta-feira, dezembro 14, 2005

A Razão do Presépio (II)

presepioII
Estava lá toda a gente: gays magos, vaca com distúrbios profundos do foro psicológico, burro manso, cornudo equivocado, virgem saciada, e criança nas palhas deitada. No meio de incenso, ouro e mirra alguém repara (num lampejo transcendente que faria corar Lobsang Rampa e mais a sua terceira visão – silogismo trapalhão do seu transcendental olho rectal) que havia uma zebra no cenário. A zebra estava a mais e não o sabia. Não havia registo de zebras em Jerusalém. Ninguém fazia ideia do que era aquele ser bicromático. Então alguém se lembra de que o vinho dava de comer a um milhão de portugueses. E tudo faz sentido a partir daí: o Salazar, o Américo Tomás, os páras de Tancos e o Salgado Zenha; o Álvaro Cunhal, tutor de Mário Soares, a chegar de Paris. A intentona e a Passionária. Os contrabandistas e o Paco Bandeira. O Ary dos Santos e os Sábados (tipo Papo-Seco) agitados.
De repente, no meio desta alucinação, provavelmente de origem geracional, tudo se confunde e tudo faz sentido. Assim como se fosse uma espécie de universo descodificado à boa maneira de Douglas Adams. E tudo recomeça de acordo com a sua maldição: tudo faz sentido como num sonho. E os pinguins continuam a sonhar com ameijoas enjoadas com crude: Dali Style, ou Vian style. E toda a gente percebe o que se está aqui a dizer como se não houvesse amanhã.
Abençoados os pobres de espírito, pois será deles o reino dos céus. A zebra continua impassível no meio disto tudo. Como se nada fosse.
Este foi um momento de impossibilidade quotidiana. Façam o favor de o aproveitar e de retirar o que de mais positivo nele encontrarem. Gesundheit!

terça-feira, dezembro 13, 2005

A Razão do Presépio

presepio
É sempre nesta altura do ano que inevitavelmente percebo que vivo num presépio povoado de figurinhas de barro, pintadas toscamente, que desempenham ano após ano os mesmos papéis. Em Portugal, tal como num presépio, nunca nada muda. As figurinhas são sempre as mesmas, dispostas nos mesmos sítios e fazem sempre a mesma coisa, ou seja, nada. Estão para ali com um ar petrificado, eternamente imobilizadas em torno de uma cabana com um burro, uma vaca, e um casal de tótós que admira incompreensivelmente uma criança loira estiraçada num berço feito de palhas. Há subjacente a tudo isto, uma expectativa qualquer que nenhuma das figurinhas entende. Uma expectativa de mudança e de melhoria gerada pelo nascimento da criança de cabelos loiros. Mas é uma expectativa cristalizada no próprio presépio. Daqui por um ano a criancinha continuará espojada no seu leito de palhas, rodeada por tótós e gays magos, e tudo continuará na mesma.

segunda-feira, dezembro 12, 2005

A Razão do Calendário de Garagem

cdgaragem
No seguimento da série de objectos inúteis do quotidiano temos o calendário de garagem. Este objecto distingue-se dos vulgares calendários pela quantidade de mulheres total ou parcialmente desnudas em poses do tipo «anda cá que és meu» ou «só te deixava os ossinhos», e pela sua localização muito particular: não há oficina mecânica deste país que não tenha um calendário de garagem. Há quem diga que o calendário de garagem é o manifesto de masculinidade do mecânico – e que se porventura não encontrar um calendário de garagem na sua oficina habitual, é muito provável que o seu mecânico seja gay. Pessoalmente acho esta leitura excessiva, mas não deixo de me questionar sobre o sucesso e a proliferação dos calendários de garagem nas oficinas e sobre a sua verdadeira função. Assinalar os dias do ano parece estar fora de questão, uma vez que isso pode ser feito com um qualquer calendário que não exiba umas glândulas mamárias proeminentes. O que nos leva ao cerne da questão: as gajas do calendário.
A verdadeira razão do calendário de garagem é a produtividade provocada pela testosterona, potenciada pelas boazonas em poses de cadelas com cio: o polimento da carroceria faz-se em muito menos tempo; o alinhamento da direcção é impressionantemente mais apurado; a calibragem das rodas adquire uma precisão robótica; a focagem de faróis faz inveja a qualquer robot de fábrica.
E em cada mês que passa, uma nova boazona vem substituír a anterior mantendo elevados os índices de produtividade.
Pergunto-me se isto não deveria ser considerado uma best practise para a Função Pública. Um calendário de garagem em cada repartição poderia ser a solução para este país.

domingo, dezembro 11, 2005

A Razão do Universo

universo
Há uma teoria que diz que se alguém descobrir o que é e porque existe o Universo, este desaparecerá instantaneamente e será substituído por algo ainda mais bizarro e inexplicável.
Há outra teoria que diz que isto já aconteceu.
Douglas Adams

sábado, dezembro 10, 2005

A Razão do Sorriso

sorriso
Podes ir muito longe com um sorriso. Podes ir muito mais longe com um sorriso e uma arma.

Al Capone

sexta-feira, dezembro 09, 2005

A Razão da Estranheza

estranheza
Se não achaste algo de estranho ao longo do dia de hoje, então o dia de hoje não foi nada de especial.

John A. Wheeler

quinta-feira, dezembro 08, 2005

A Razão da Verdade

verdade
Só existem duas maneiras de dizer toda a verdade: anonimamente ou postumamente.

Thomas Sowell

quarta-feira, dezembro 07, 2005

A Razão da Reencarnação

reencarnacao
H e D viveram um tórrido romance de amor. Eram almas gêmeas, diziam eles. Apaixonaram-se aos dois anos de idade, algures em 1423, casaram aos cinco, tiveram aos doze o primeiro de 38 filhos, morreram trisavós jurando amor eterno. H reencarnou numa foca no Ártico enquanto D, anos mais tarde, reencarnou num gnu em África. Depois H reencarnou num Panda na Ásia e D reencarnava num esturjão, algures no mar Ártico. O reencontro pareceu impossível durante gerações: H foi um crisântemo, um gladíolo, um rinoceronte com asma, uma avestruz com artrose, um golfinho com caspa, enquanto D foi uma galinha da Índia, uma vaca sagrada, um pinheiro bravo, e um jumento com gonorreia.
Um belo dia reencarnaram num homem e numa mulher. E reencontraram-se. Tinham ambos 20 anos. Voltaram a apaixonar-se perdidamente. Casaram. H tornou-se funcionário público e desatou a beber que nem um alce em época de cio. D trabalhava num escritório de contabilidade. Nunca tiveram filhos. H está preso por violência doméstica. D está com o braço esquerdo paralisado para o resto da vida. É lixada a reencarnação...

terça-feira, dezembro 06, 2005

A Razão do Crucifixo

crucifixo
A grandeza de um líder é determinada pela amplitude dos seus gestos políticos, económicos e sociais. É a velha história da árvore e da floresta. O liderzeco preocupa-se com as pequenas coisas e portanto a amplitude dos seus gestos é bastante reduzida. O liderzão está preocupado com a floresta e os seus gestos revelam-no: são largos, extensos, focados no futuro mas sem danificar o presente.
Pois bem, aqui na nossa telenovela mexicana Sócrates tem-se revelado bastante distante daqueles nossos líderes passados que, com a mania das grandezas, pensavam em grande. Pensar em grande é bom, porque nos torna também a nós grandes. Não encontramos esse inconformismo da pequeneza em Sócrates, muito pelo contrário: o aparelho do Estado consome mais de metade dos recursos do país? Então aumente-se os impostos para que a outra menos de metade pague a inoperância pegajosa das instituíções estatais. O país precisa de atraír investimento estrangeiro? Então taxe-se absurdamente as várias actividades económicas deste país para sacar o máximo possível a quem poderia dinamizar a economia. O país precisa de investir? Então invista-se em aeroportos desnecessários, para encapotar o investimento que Stanley Ho vai emprestar ao Estado português.
Tudo medidas pequeninas. À medida dos homens que nela pensam, e do homem que as aprova. A última medida pequenina foi a da proibição dos crucifixos nos estabelecimentos de ensino – uma muy distinta medida governamental que surgiu como resultado da pressão de um não menos distinto grupelho de laicos cidadãos nacionais. Eu até sou ateu e tanto se me dá que as escolas tenham crucifixos ou objectos de culto satânico. O que me chateia é legislar sobre esta matéria. Perder tempo com isto. Ceder a pressõzecas de uma cambada de labregos laicos que se sentem discriminados nas suas (livres) opções religiosas. O país está a ficar mais pequeno, e os portugueses cada vez têm menos culpa de terem eleito uma vara de liderzecos.

segunda-feira, dezembro 05, 2005

A Razão Dogmática

dogmatica
O responsável máximo pelo maior antro ancestral de paneleiragem decidiu mais uma vez repudiar os homossexuais, desta feita os que se dedicam ao sacerdócio. Esta medida de inspiração orwelliana, digna do «Animal Farm», estipula que aos olhos de Deus «somos todos iguais mas há alguns menos iguais que outros», e revela mais uma vez a hipocrisia, o mamutismo, e prepotência bacoca que a Santa Igreja insiste em exibir de geração em geração.
Quererá sua Santidade atirar-nos areia para os olhos? Terá sua Eminência noção das baixas clericais que tal repúdio causará? Pensará o Sumo Pontífice que ao repudiar os homossexuais toda a gente vai pensar que afinal as festas nocturnas com somalis criteriosamente untadinhos eram apenas homilias dedicadas a países desfavorecidos? Não sabemos. Só sabemos que a partir de hoje um pequeno trejeito mais amaricado, um menear de anca mais pronunciado, um gritinho histérico mais estridente serão considerados pela Santa Igreja como sintomas de forte homossexualidade, e portanto, repudiados (com a tradicional penalização de afinal não ter direito a entrada livre no Reino dos Céus). Falava há dias da ditadura económica de Sócrates, pois bem, temos aqui a nova Inquisição – as bruxas dos Século XXI acabaram de ser criadas: quem porventura tiver a oportunidade de observar um indivíduo a fazer coisas inexplicáveis com um cabo de uma vassoura na sua própria próstata, queira alertar o Santo Ofício.

domingo, dezembro 04, 2005

A Razão do Notário

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Decerto que por uma razão ou por outra já tiveram, a dada altura das vossas vidas, que entrar num notário. Se assim foi, suponho que tenham tido oportunidade de reparar que nem toda a gente pode ser funcionário de um cartório notarial. É uma profissão peculiar que exige um património genético muito particular e está sujeita a uma política de recrutamento espartana, capaz de criar inveja à Al Qaeda.
Antes de mais é preciso realçar com alguma veemência que não se estuda para ser notário – nasce-se notário, e pronto! É um pouco como os atletas de competição: os sprinters têm uma estrutura óssea e muscular diferente dos fundistas; os tenistas com serviços mais eficazes são dotados de uma altura acima da média e têm uns bracinhos mais compridos que os restantes mortais. Também os notários têm as suas características diferenciadoras: o seu cérebro, por exemplo, funciona a um ritmo mais lento (como observamos nos casos mais graves de paralisia cerebral) o que possibilita o armazenamento de dados de uma forma mais metódica.
Para terem uma ideia de como um notário percepciona a realidade à sua volta reduzam a velocidade de um DVD em cerca de 80%: t-u-d-o f-i-c-a m-u-i-t-o l-e-n-t-o e as vozes adquirem um tom grave e arrastado, sendo relativamente dificil de apreender o sentido das frases. Não se admirem portanto que os notários não percebam à primeira o que vocês lhes estão a querer dizer, principalmente vocês, os nervosinhos. E evitem falar devagar para se fazerem entender melhor porque assim é mesmo muito complicado para eles, e demora o dobro do tempo a processar.
A capacidade pulmonar de um notário é francamente mais reduzida que a de um indivíduo normal, impedindo o cérebro de funcionar mais rápido e cansando-os de sobremaneira enquanto fazem o seu rotineiro percurso secretária-balcão-arquivo. Aliás a rotina é aquilo a que um notário aspira desde os seus tempos de estagiário – com o passar do tempo eles vão construíndo carris imaginários que percorrem todo o escritório, definindo os seus percursos possíveis. Um notário sénior já tem a sua rede rodoviária definida e move-se, lenta e religiosamente, em cima dos «seus» carris.
O facto de geneticamente possuírem um metabolismo estupidamente mais lento que todos nós, causa-lhes alguns problemas na fala (falam muito lento e muito baixo, sendo por vezes necessário encostarmos a orelha à sua boca – tarefa difícil e perigosa de desempenhar se tivermos um balcão à nossa frente) e problemas vários de concentração e coordenação: é muito vulgar observarmos um notário esgazeado a olhar para o infinito (é a chamada «pausa de hibernação» que, dependendo do seu estágio profissional, pode ocorrer várias vezes ao dia); vulgar é também a dificuldade que apresentam ao teclado de um computador ou de uma máquina de escrever. Os notários mais treinados conseguem atingir velocidades de 2 a 3 segundos entre uma tecla e outra.
Espontaneidade e improviso são conceitos totalmente desconhecidos pelos notários, e confrontá-los com algo inesperado pode ser perigoso dado que estes reagem violentamente – nunca se ostente uma folha de papel que não seja branca ou azul; nunca se apresente como documento oficial um passaporte em vez de um bilhete de identidade; nunca se ouse assinar algum documento a vermelho; e acima de tudo nunca se manifeste corporalmente de uma forma agitada – isso deixa-os nervosos, e o assunto que demoraria 2 horas a resolver poderá atingir uma duração de meses.
Para quem desespera sempre que se desloca a um cartório notarial deixo um pequeno truque que tornará a vossa vida, e a deles, mais fácil: cerca de 3 horas antes de entrarem no notário tomem 3 drunfes, o chamado «kit notário». E tudo fica mais fácil.

Publicado a 9 de Setembro de 2005

sábado, dezembro 03, 2005

A Razão do Autarca

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autarca
Esta polémica toda sobre a OTA e o TGV deixa revelar que o governo é gerido por gajos com mentalidade de autarcas. Dentro de cada ministro há um autarca a querer saír e a fazer a merda do costume.
Sobre a OTA e o TGV falarei com mais detalhe amanhã. É uma conspiração tenebrosa que merece ser revelada com alguma solenidade.
Hoje vou dedicar-me aos autarcas e às suas razões. O político de autarquia está para o político nacional como a fisga está para a catapulta: ambos arremessam projécteis, mas uns fazem mais merda que outros. É tudo uma questão de dimensão.
Fazer merda em grande escala é uma característica de perfil que auspicia um futuro glorioso na liderança dos destinos da nação – um autarca típico não tem a capacidade intelectual nem financeira para dar cabo da economia do país com uma OTA ou com um TGV. O autarca local é, como a própria designação implica, um gajo que faz merda a um nível muito restrito. Tanto autarcas como políticos gastam o dinheiro dos contribuíntes em aleivosias disparatadas. Mas no caso dos autarcas são aleivosiazinhas, disparatezinhos, pequenos insuflares de egozinhos. É o Portugal dos Pequeninos da política. É a cabotinice provinciana que, quando atinge limites para além do normal, culmina na fuga para o Posto 6 de Copacabana, ou na participação em reality shows de qualidade sempre duvidosa. Mas na maior parte dos casos os autarcas ficam-se pelas rotundas e pelos semáforos. Autarca que não tenha construído umas belas rotundas e plantado uns belos semáforos não pode ser digno dessa função. É uma espécie de mijinha do cão para a posteridade, para um dia puderem dizer aos netos: «Estás a ver ali aquele semáforo? Foi o avô que o pôs lá!» E a criancinha olha esgazeada para o semáforo a tentar imaginar como é que aquela fraca figura teve força de levar aquilo em ombros para ali.

Um post dedicado aos semáforos da cidade algarvia de Lagos.

Publicado a 8 de Agosto de 2005

sexta-feira, dezembro 02, 2005

A Razão da Greve

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A coisa mais útil que se pode fazer num país que não produz a ponta de um chavelho é uma greve. As greves são libertadoras, são relaxantes, e acima de tudo são produtivas. Produzem belos dias de lazer, na praia, na cidade ou no campo, sem fazer absolutamente nenhum.
És funcionário público e achas mal trabalhares as mesmas horas que um empregado privado? Faz uma greve. És motorista da Carris e chateia-te fazer 40 horas de trabalho por semana? Faz uma greve. És professor e babas-te que nem um camelo? Faz uma greve no dia dos exames nacionais para lixares a vida a uma série de miúdos que inocentemente acharam que lhes ias ensinar alguma coisa de produtivo. És polícia e aborrecem-te os arrastões? Faz duas greves. És bombeiro e enerva-te haver falta de água para os fogos? Faz uma greve. És um magistrado e estás escandalizado porque já não podes ter 3 meses de férias judiciais? Faz uma greve. Mas antes de fazeres uma greve certifica-te se tens condições para fazer uma boa greve:

A boa greve faz-se de Verão. Não tem jeito nenhum fazer greves à chuva e ao frio. As disputas ideológicas ficam mais quentes no Verão.

A boa greve faz-se à segunda ou à sexta-feira (de preferência à segunda e à sexta-feira) porque assim podes gozar à brava com os babacas privados que vão de manhãzinha trabalhar para pagarem o prejuízo de tu não trabalhares porque estás em greve.

A boa greve faz-se com catering. Uma greve sem catering não é uma greve, é um grupo de javardos que acredita que vai conseguir alguma coisa do patronato só porque ficam todos juntos de pé e aos berros.

A boa greve começa à primeira hora do dia, mas só tem manifestação por volta das 20:30h em frente da Assembleia da República, já vazia. Isto permite-te dares um pulinho à praia, dares uma voltinha pelos centros comerciais, ver as garinas, e depois da manif (que não deve exceder os 60 minutos) ires alegremente jantar com os colegas.

Se pelo menos uma destas condições não estiver cumprida, queixa-te ao sindicato e faz uma greve para obteres condições. Lembra-te que só os bons bandalhos fazem boas greves. Avante Labregos!

Publicado a 24 de Junho de 2005

quinta-feira, dezembro 01, 2005

A Razão do Labrego

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País de longa tradição no desenvolvimento do labrego nacional, Portugal chegou a um ponto de saturação do número de labregos per capita. Dados recentes do INE apontam para que a população labrega seja neste momento muito superior à portuguesa. «Começamos a ter dificuldade em separar os portugueses dos labregos, uma vez que os primeiros parecem ter sido perfeitamente aculturados pelos segundos» afirma o responsável máximo por esta instituíção.
O Governo já admitiu ser maioritariamente constituído por labregos de 2ªgeração, não prevendo que a situação se altere nos próximos 4 anos, o que coloca Portugal no primeiro país europeu a ter uma maioria de população labrega, governada por labregos.
O impacto do nacional labreguismo já começou a sentir-se na economia nacional – é característica do labrego a completa ausência de noção de gestão, o despesismo descontrolado e tendencioso, uma compulsiva tendência de prometer uma coisa, fazendo exactamente o contrário, e a fuga a toda e qualquer espécie de imposto.
Especialistas internacionais no fenómeno expansionista do labrego, afirmam que o processo é irreversível e que dentro de poucos anos Portugal não terá portugueses. Sugerem ainda que se comece a mudar nome do país para Labregal.
O número de escolas para labregos tem aumentado exponencialmente nos últimos 10 anos, com todos os inconvenientes que estas acarretam: taxas de insucesso escolar perto dos 100%, não pagamento de propinas, e uma tendência compulsiva de arrastões diários num raio de 2km em torno de cada escola.
O número de empresas labregas também aumentado, mas aqui a situação é menos grave porque, como se sabe, a duração de vida de uma empresa labrega é de um ano, exactamente o tempo que levam a esgotar-se os fundos europeus de incentivo à criação de empresas.
Estima-se um novo fluxo de emigração nacional com características muito diferentes das que assistimos na década de 60 do século XX: a mão-de-obra especializada e sem paciência para os labregos nacionais começa calmamente a abandonar o país.
Os labregos andam tão preocupados (fizeram contas e descobriram que os que ficam são todos uns labregos tesos) que lançaram esta semana o programa social “Adopte um Português”. Quem quiser ficar e ser adoptado por um labrego basta inscrever-se no centro de segurança social da sua zona de residência.
Cantem comigo o novo hino nacional: «Labregos do mar…»

Nota: Quem acha que eu estou a reinar que faça uma visita aqui

Publicado a 21 de Junho de 2005

quarta-feira, novembro 30, 2005

A Razão da Aliança

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O George Lucas lançou recentemente o último episódio da 2ªtrilogia da série de três trilogias que tinha inicialmente pensado, mas que decidiu a meio caminho transformar em apenas duas por falta de verba e pachorra. Confuso han?
Falo obviamente do Star Wars. Eu sou um fã da primeira trilogia e acho que a paneleirice dos efeitos especiais de última geração que tomaram conta da segunda trilogia, tornaram o produto final mais pobre. Ainda assim divirto-me com os seis episódios. Não haja dúvida que aquilo é mesmo ficção ciêntífica, mas não pelo facto de retratar o futuro e envolver naves espaciais, galáxias distantes, e seres esquisitos à porrada com andróides. Aquilo é ficção porque supostamente retrata uma aliança humana que, sabemos hoje, seria impossível de obter.
Imaginem que o exército revoltoso da Aliança era formado pelos 25 países da união europeia, e conseguem ter uma perspectiva daquilo que provavelmente aconteceria.
Os franceses recusar-se-iam a combater pela Aliança até que esta adoptasse o francês como língua oficial. Os ingleses formariam um grupinho à parte e nunca se perceberia se faziam parte da Aliança ou não. Os alemães fariam campos de extermínio de droids e siths e ficariam assim entretidos. Os holandeses evitariam andar à porrada e praticariam uma política de tolerância com as forças Imperiais, procurando retirar dividendos daquilo a que chamariam uma «parceria comercial sem fins políticos». Os espanhóis atiravam-se de peito feito a todas as naves imperiais e extinguir-se-iam logo de seguida. Os italianos criariam uma unidade especial de combate (os carabinieri rabetini) especializada em atacar o Império pela rectaguarda, mas só depois de terem recebido as "luvas" de combate. Os dinamarqueses andariam felizes como a merda a conduzir as suas naves todos nús, promovendo alegres orgias inter-estelares. Os gregos criariam a «Ala dos Namorados», uma força gay de intervenção, distinguindo-se por usar sabres de queijo feta com uma mestria capaz de engordurar qualquer soldado do Império. Os belgas especializar-se-iam em desbastar as crianças Sith. Os polacos, lituanos, checos e todas as nações do leste europeu, combateriam valentemente a qualquer preço, desde que não os mandassem embora da Aliança. Os portugueses, esses rapazes do Quinto Império, nunca teriam qualquer intervenção no conflito. A bordo da sua única nave, um chasso comprado a prestações e em segunda mão pelo ministério da defesa, chegariam sempre tarde a qualquer batalha interestelar, conquistando a alcunha de «o cú da Aliança». Pequeninos e ruídosos, sempre em autocomiseração, percorreriam galáxias em direcção a lado nenhum. O costume…

May the force be with you.

Publicado a 6 de Setembro de 2005

terça-feira, novembro 29, 2005

A Razão do Feng Shui

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yinyang
Depois de ter sido verdadeiramente massacrado por um amigo arquitecto, que insistiu que eu me devia imbuír do espírito de Feng Shui para criar energias positivas numa vida que não me andava a correr lá muito bem, decidi fazer algumas alterações na minha casa, seguindo rigorosamente os seus ensinamentos:
Na entrada pendurei um Ba Gua raso. Não fica lá grande coisa e dá um ar folclórico à entrada mas é suposto ser um catalizador de excelentes energias. Disso e do couro cabeludo que lá deixei por ter pendurado aquela merda muito baixo.
Na maçaneta da porta de entrada pendurei 3 moedas chinesas numa fita vermelha, para atraír «dinheiro auspicioso». Passam a vida a roubar-me as moedas, e eu passei a ser o melhor cliente da loja dos chinocas na esquina do meu prédio.
Comprei dois cães Fu em porcelana que coloquei do lado de fora da porta, um de cada lado, para guardar a casa. Os vizinhos gostam de lhes mandar uns violentos pontapés.
Instalei um pequeno lago artificial na varanda da casa, onde coloquei 8 peixinhos dourados e um peixinho preto. Era suposto o peixinho preto atraír tudo o que é negativo e indesejável, mas o sacana do peixe desatou a comer os peixes dourados e eu gasto uma fortuna a substituí-los todas as semanas. O peixe preto está tão bem alimentado que a varanda já começou a dar de si.
Nas traseiras da casa, na ponta do lado esquerdo, mandei construír uma cascata ruidosa. A cascata é suposto fazer correr mais dinheiro. E aparentemente funciona: com as indemnizações que os vizinhos me pediram a minha conta bancária parece mesmo um rio a escoar.
Dispus plantas de flor vermelha ao longo do corredor, em grupos de 3, até à porta de entrada. Já escorreguei várias vezes na merda das folhas e na última das quedas deixei de poder virar o pescoço para a direita. O ortopedista diz que é permanente.
Apontei uma luz no lado de fora para a minha porta de entrada de modo a estar iluminada durante a noite. Desde então passo a vida a explicar aos bêbados locais que a minha casa não é um bar de alterne.
Atestei todas as divisões da minha casa com plantas de folhagem verde em formas de moedas. Ainda estou para perceber que porra de efeito é que faz a forma da merda das flores.
Para criar um constante fluxo de energia mudo a minha mobília de sítio todos os dois meses. Um processo cansativo, e que requer muita energia para levar em ombros aquela porcaria toda. À conta disto, os vizinhos do andar de baixo fazem manifestações violentas à porta de minha casa e destroem-me sistematicamente os cães Fu.
Frequentemente limpo os meus armários da roupa, que ofereço à minha empregada ou a instituíções de beneficência. Segundo o Feng Shui manter roupa usada no armário interfere nas energias, tipo «bate na válvula e volta pra trás». Estou a ficar sem grandes opções de escolha, vou ter de ir aos saldos brevemente.
Deixei de ouvir os Da Weasel e agora só ouço música com sons de floresta, de mar, ou de chuva a caír. Junto-lhe uns pauzinhos de insenso para dar um cheiro relaxante ao ambiente. A polícia já me entrou pela casa adentro algumas vezes julgando tratar-se da sede de uma seita Koreshiana. Pouco falta…
Pintei a minha caixa de correio com flores de cores garridas. Ficou foleiro à brava, mas assim não corro o risco de receber más notícias.
Retirei o espelho do tecto do meu quarto (mas mantive a cama redonda) e acrescentei espelhos em todas as divisões pequenas da casa, para criar uma maior sensação de espaço: confesso que ainda não me habituei a ver-me ao espelho enquanto estou sentado na pia.
Era suposto eu estar em paz e em perfeita harmonia com o que me rodeia, atravessado por uma onda de energia inexplicavelmente tranquilizante, mas não! Estou uma pilha de nervos, a minha casa parece ter sido decorada pelos chineses contorcionistas do Circo Chen, os vizinhos dão-me cabo da cabeça, o peixe negro já parece uma toninha, e a minha vontade é de contratar uma tribo somali feng shungueira que dê um andar diferente ao meu amigo arquitecto. Raizupartam!

Publicado a 27 de Abril de 2005