quinta-feira, fevereiro 09, 2006

Razões Felinas

felinas
Os gatos têm uma característica que eu acho admirável: a impunidade. Quando um gato comete um erro ele normalmente não se sente responsável nem mostra embaraço. Se um gato faz uma coisa realmente estúpida, como saltar para cima de uma mesa e aterrar em cima de quatro chávenas de café, ele consegue dar aquele ar de que tudo aquilo é rotineiro. Os cães não são assim. Se um cão derruba um candeeiro nós conseguimos perceber quem foi só olhando para o cão; e ele fica com aquele ar comprometido e envergonhado. O gato não. Quando um gato parte qualquer coisa, dirige-se calma e calidamente para a sua próxima actividade.
«O que é que foi? O candeeiro? Não fui eu. Vão-se lixar, sou um gato! Há alguma coisa partida? Perguntem ao cão.»

George Carlin

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

A Razão do Choque Tecnológico

choquetecnologico
Está na moda falar em «choque tecnológico», uma das medidas mais mediatizadas do Governo desta telenovela mexicana, e que parece ser a cura para todos os males do país. Assim de repente, com Bill Gates à mistura, parece que Portugal voltou a ser um país próspero e importante com esta história do «choque tecnológico». Os media rejubilam com a expressão «choque», sugerindo-lhes alguma coisa impactante e rimbombante, digna de um qualquer noticiário. Eu continuo chocado com tudo isto porque me parece, mais uma vez, que estamos a ser engrupidos com conceitos, no mínimo, vagos. Principalmente porque sempre ouvi dizer que Portugal era um país que adoptava e implementava a um ritmo muito rápido tudo o que era nova tecnologia: a Via Verde por exemplo, onde somos pioneiros no mundo; o sistema de Multibanco, outro exemplo, onde somos o país mais avançado do mundo na aplicação de um sistema de informação interbancário; o telemóvel pré-pago, outra invenção portuguesa que revolucionou o mundo dos telemóveis em todo o mundo e que hoje em dia é o sistema mais utilizado no planeta.
Por sermos tão avançadinhos tecnologicamente é que esta converseta não me faz sentido nenhum. A não ser que quando falemos em «choque tecnológico» estejamos a falar de coisas mais pragmáticas do tipo: destruir à paulada todos os computadores do país; enfiar (com uma relativa violência) a cabeça do Sócrates, e já agora de todos os membros do executivo, num ecran plasma de última geração; atestar a força destrutiva de um laptop quando arremessado a uma velocidade superior a 20 km/h na direcção de umas gengivas desprotegidas. Isso sim, seria um choque tecnológico. Não teria grande interesse, é verdade, mas ao menos não seria um conceito vazio onde tudo cabe.
Continuo a achar que o nosso Desgoverno está equivocado. Preferiria ver o mesmo entusiasmo bacoco e provinciano aplicado a um «choque económico», ou a um «choque social», ou a um «choque ético», ou mesmo um «choque de civilidade». Eu por mim começava por estes dois últimos e logo me preocupava com o «choque tecnológico» mais tarde. O que este país precisa mesmo é de uns electrochoques.

terça-feira, fevereiro 07, 2006

A Razão Muçulmana

muslimdrawings
Desde que os dinamarqueses fizeram umas caricaturas de Maomé que os muçulmanos andam armados em alarves a destruír embaixadas por todo o mundo árabe. Na Turquia, esse país a resvalar perigosamente para a União Europeia, acabaram de matar um padre à conta de uma dúzia de rabiscos nórdicos. Para um ocidental parece um bocadinho excessivo, este protesto muçulmano...
Isto leva-me a pensar na violência latente do mundo árabe, no apedrejamento de mulheres, nas execuções públicas, nas chibatadas também elas públicas. Não acho normal esta violência e não concordo que esta tenha origem na religião, ou no Corão, se quiserem. O Corão pode ser culpado de muita coisa, mas não o é da violência compulsiva do fundamentalismo islâmico. Na minha opinião o problema disto tudo é da poligamia.
Já viram bem o que aqueles gajos sofrem diariamente? Façam as contas comigo: aquela malta tem mais de uma mulher, na pior (ou melhor) das hipóteses têm duas mulheres. O mais vulgar é terem umas cinco ou seis. Estão a imaginar o que é aturar 6 mamíferos diariamente? 6 gajas a chatear-vos a cabeça diariamente, cada uma com o seu lote de filhos babosos e choramingões, e com as suas crises de TPM a PARTIR-VOS CIRURGICAMENTE A CAROLA numa base diária? Imaginem o que vocês passam diariamente e agora multipliquem por seis, ou por sete, ou por vinte! Conseguem imaginar o estado de nervos em que vocês viveriam? Qual era a maneira que vocês teriam de lidar com esta questão? É claro que tinham que saír de casa e extravasar: punham bombas à volta da cintura e iam ao centro comercial mais próximo; iam dar porrada nos vizinhos isrealitas; e em dias mais complicados É CLARO QUE SE CHATEAVAM COM A MERDA DOS CARTOONS!! Até se chateavam com a falta dos cartoons, se fosse caso disso.
Portanto antes de criticarem gratuitamente estes protestos anti-cartoon pensem no que estes desgraçados penam diariamente. Ponham-se nos sapatos deles. E depois digam-me se também não iam arrear na malta do consulado mais próximo.

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

A Razão do Tempo

tempo
Tempo. O conceito mais abstracto e mais estúpido da nossa sociedade. Uns têm falta dele. Outros gostam de o fazer. Outros ainda ocupam-no para o gastar. Há quem peça tempo; há quem tenha tempo; há quem dê tempo; há quem perca tempo; há quem o ganhe e o desperdice. Quando falamos em tempo olhamos invariavelmente para um dos pulsos, ou à nossa volta para um qualquer dispositivo que tem por função dizer-nos em que fase dele estamos. Por ele e nele corremos, por causa dele nos enervamos e perdemos a paciência, e sem ele ficamos perdidos.
A todos aqueles que vieram aqui com ou sem tempo, na esperança de gastar tempo ou de passar um tempo agradável, digo-vos apenas que não houve tempo de pensar com tempo no post de hoje. Dêem-me mais um tempo.

domingo, fevereiro 05, 2006

A Razão dos Dez Mais Procurados

10MP
Há coisas que me fazem espécie na lista dos Dez Mais Procurados do FBI. Quando apanham um gajo que está na lista, o número onze sobe um lugar e passa a estar também na lista? E isto conta como uma promoção? Será que o tipo liga aos seus amigos criminosos e diz: «Consegui Bruno! Finalmente estou na lista»?
Então e quando aparece um tipo extremamente perigoso e têm de o pôr no primeiro lugar da lista? (Chamem a isto «entrada directa para o topo da tabela» se quiserem.) Os outros têm todos de descer um lugar? E não há um tipo que fica de fora? Como é que decidem quem é que vai ficar de fora? É o que está na décima posição? E como é que ele se sente a respeito disso? Não se sentirá menosprezado? Não achará que deviam ter escolhido outro gajo qualquer? Será que já aconteceu o tipo que fica fora da lista matar o que está em primeiro para recuperar o seu lugar?
Uma última pergunta: o FBI esforça-se mais para apanhar o número três do que para apanhar o número sete? Eu esforçava-me. Se não fôr assim, para que é que lhes dão números? É este tipo de pensamento que me impede de progredir na vida.

George Carlin

sábado, fevereiro 04, 2006

A Razão Base

base

ORDINARIAMENTE todos os ministros são inteligentes, escrevem bem, discursam com cortesia e pura dicção, vão a faustosas inaugurações e são excelentes convivas. Porém, são nulos a resolver crises. Não têm a austeridade, nem a concepção, nem o instinto político, nem a experiência que faz o ESTADISTA. É assim que há muito tempo em Portugal são regidos os destinos políticos. Política do acaso, política de compadrio, política de expediente. País governado ao acaso, governado por vaidades e por interesses, por especulação e corrupção, por privilégio e influência de camarilha, será possível conservar a sua independência?


Eça de Queiroz, 1867

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

A Razão do Terminal

theterminal
Em que sítio encontramos os niveis de QI mais rasteiros do planeta? Se estão a pensar na Assembleia da República andam lá perto mas não acertaram. A resposta certa é: nos aeroportos.
A estupidez que se respira num aeroporto é inigualável, incomparável e irrepreensivelmente insuperável. Se tivesse que alinhar numa folha A4 as coisas mais estúpidas a que já assisti na minha vida, a maioria delas teriam acontecido num aeroporto.
Há um embrutecimento qualquer que reina nos aeroportos e que parece subsistir ao longo do tempo. Começando pelo preço das coisas dentro de um aeroporto. É tudo irrealmente caro, como se o simples facto de voarmos de um sítio para o outro nos fizesse entrar num transe maléfico qualquer que nos compele a pagar alegremente um café pelo mesmo preço que pagamos uma refeição na tasca da esquina.
E depois há a questão das perguntas quando fazemos o check in:
«Foi você que fez a sua mala»?
Apetece responder: «Claro que não. Que estupidez. Ontem à noite convidei a célula local da Al Qaeda para jantar lá em casa e, em troca de uma refeição quente, obriguei os gajos a fazerem-me a mala.»
«A sua bagagem esteve sempre consigo?»
E nós: «Bem... nem toda. Tenho aí umas cuecas que estão comigo há coisa de dois anos, quando estive no Corte Inglês. As calças já estão comigo há mais tempo, o que poderá constatar pelo aspecto delas. Os peúgos estão comigo há relativamente pouco tempo, comprei-os há dias. Recentes recentes são as camisas. Comprei-as ontem. Quer ver o talão?»
«Algum desconhecido lhe deu alguma coisa para transportar?»
Merecem: «Você acha que eu sou criado de alguém?? Você costuma transportar coisas de gajos que não conhece de lado nenhum? Você tem uma deficiência mental ou tem por hábito fazer perguntas estúpidas? Quer transportar a minha bagagem para algum lado?»
Exasperante.
E depois temos aquela cena do detector de metais. Qualquer dia um gajo tem que passar nú no detector de metais. Eu costumo fazer de propósito e levar as Catterpillar com biqueira de ferro. Alarmes por todo o lado. Os gajos à rasca sem saberem onde está o metal. A fila atrás de mim a engrossar e eles à procura à rasca. E aí eu digo-lhes que tenho implantes metálicos nos calcanhares e eles acreditam. Broncos.
Se há sítio onde um fumador se sente discriminado é nos aeroportos. Não percebo porque não se pode fumar à vontade dentro de um aeroporto – é uma espécie de despressurização antes de entrarmos no avião? É claro que há zonas de fumadores, mas têm sempre um espaço limitado (em Londres parece um curral de gado) e encontram-se sempre povoadas de gajos de aspecto acinzentado a esfumaçar que nem uns alarves, um cigarro atrás do outro. Só de olhar para eles dá vontade de deixar de fumar e engordar que nem um cachalote.
É vulgar ouvirmos uma voz do além a chamar um passageiro que já devia estar no avião e que anda a alucinar algures dentro do free shop do aeroporto – a comprar como se não houvesse amanhã. Será que estes gajos ficam tão entorpecidos dentro de um aeroporto que se esquecem que há centenas de pessoas que não levantam vôo só porque eles gostam de ouvir o barulhinho da máquina do multibanco? Não faço ideia. Mas sou adepto de que em cada aeroporto deveria haver uma tribo somali, devidamente untadinha de pau de cabinda, para sodomizar à bruta (entre cânticos guerreiros da terra deles) os tipos que me fazem perder tempo.

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

A Razão do Jardim à Beira Mar Plantado

jardim
Alguém algures levou demasiado a sério esta analogia do «jardim à beira mar plantado». Sabemos bem que os jardins ficam mais viçosos se forem bem adubados. Sabemos bem que um bom adubo é constituído por uma boa dose de esterco. Mas não exageremos! Há demasiado esterco no adubo! Há demasiado adubo no jardim!
Podem parar de adubar, se fazem o obséquio.

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

A Razão Semântica

semantica
Para um esquimó não existe a palavra branco. Não é estranho? Um gajo que vive rodeado de branco não ter essa palavra? Na realidade o esquimó não tem a palavra branco porque consegue identificar tantos tipos de branco diferentes que não lhe passa pela cabeça utilizar a designação mais simples.
A mesma coisa acontece aos beduínos em relação ao castanho: a maioria das cores quentes são para eles variantes do castanho, daí que o simples castanho não existe no seu vocabulário.
No caso dos portugueses o fenómeno dá-se com a palavra «político». É que há tantas variantes de bosta...

terça-feira, janeiro 31, 2006

A Razão Cola Cao

colacao
«Aquilo que não me destrói torna-me mais forte». Já leram maior imbecilidade que esta? Isto faz-me pensar que afinal a sabedoria popular não é tão lúcida como nos quer fazer parecer. Imaginem coisas que não nos destroem, do tipo: uma deficiência renal; a espinal medula em gelatina; o cérebro a funcionar só de um lado (com a consequente baba a escorrer de um dos lados da boca); os fémures trituradinhos por um catterpillar desgovernado; a bacia no lado errado das costas; um bocado do vosso baço numa qualquer placa de Petri; a glândula pituitária a latejar desenfreadamente; o intestino a sair-vos pelo anús; e daí por diante. Tudo isto são coisas que não nos destroem, pelo menos no sentido literal da coisa. Mas daí a pensar que isto nos fortalece vai uma distância considerável. Estão a imaginar dizerem para alguém «graças a Deus que amputei a minha perna esquerda a semana passada, há anos que não me sentia tão vigoroso»? Está tudo doido ou quê? Aquilo que não me destrói não só não me torna mais forte como me deixa em muito mau estado. Não nos iludemos. Sejamos lúcidos
.

segunda-feira, janeiro 30, 2006

A Razão do Entalado

entalado
Cerco de Lisboa. Ano de 1147.
Mal sabia Martim Moniz, a correr alarvemente para a fresta de uma das portas do Castelo de São Jorge (hoje designada por Porta de Martim Moniz), que estava a iniciar uma tradição. Ao morrer entalado na porta do castelo que queria tomar, permitindo assim que os seus companheiros penetrassem nas defesas inimigas, Martim Moniz deu origem a uma das mais antigas tradições nacionais: a tradição do entalado.
Desde esse momento, gerações e gerações de indivíduos entalaram-se alegremente para que outros pudessem safar-se à grande e à portuguesa, neste jardim à beira-mar semeado.
Desde então pouco mudou, à excepção de uma pequena nuance: são cada vez mais os entalados – pouco menos de 10 milhões, para ser mais preciso.

domingo, janeiro 29, 2006

A Razão Pedagógica

pedagogica
Aqui fica uma boa maneira de entreter o vosso filho de quatro anos quando o metem na cama e, ao mesmo tempo, de lhe estimular a imaginação:

«Vim desejar-te boa noite e ajeitar-te os lençóis, Joãozinho. Tiveste um dia em cheio, por isso, trata de dormir bem. E não te esqueças de ter cuidado com o Papão. Lembras-te do que o pai te disse sobre o Papão? De como mata rapazinhos? O que achas Joãozinho, achas que o Papão está aqui escondido no teu quarto? Será que está no armário? Será que vai saltar lá de dentro e matar-te mal eu me vá embora? Pode ser que sim. Nunca se sabe.
Talvez esteja debaixo da cama. Também gosta de se esconder lá. Se calhar vai abrir um buraco no colchão e matar-te. Não deixes que ele te mate Joãozinho. Sabes o que ele faz? Espeta um tubo de metal afiado pelo teu nariz e chupa-te os miolos. E isso dói muito.
Agora, vou apagar a luz e deixar-te sozinho no escuro. E não quero ouvir barulho. Se ouvir algum barulho vindo deste quarto, venho cá e bato-te. Tenta dormir bem. A propósito, o pai viu um monstro a passear no corredor ontem à noite. Tinha um papel na mão com o teu nome escrito. Boa noite.»

George Carlin

sábado, janeiro 28, 2006

A Razão Nua e Crua

nuaecrua
Olá. Somos nós que controlamos as vossas vidas. Nós tomamos as decisões que vos afectam a todos. Não é interessante saber que as pessoas que vos gerem a vida têm a frontalidade para o admitir desta forma? Sofram, palhaços. Sabemos de tudo o que fazem e sabemos para onde vão. Para que acham que servem as câmaras? E os satélites? E os números da Segurança Social? Vocês pertencem-nos. E ninguém pode alterar isso. Recolham assinaturas, façam manifestações, levem processos a tribunal, votem, escrevam cartas a quem quiserem. Não vai adiantar nada. Porque nós controlamos as vossas vidas. E temos planos para vocês. Agora voltem para a cama.

George Carlin

sexta-feira, janeiro 27, 2006

A Razão da Consciência

consciencia
Nos dias que correm fala-se muito em consciência (e nos dias que andam a passo também). Pede-se ao País que tome consciência do período difícil que atravessa. Pede-se às pessoas que ajam em consciência nos momentos considerados decisivos para Portugal. Exige-se que os contribuintes se consciencializem que só pagando mais impostos, mais taxas e mais tachos é que o País poderá, em consciência, saír da crise. Pede-se muita coisa em nome da consciência. E isso está profundamente errado.
Ser consciente em Portugal é um acto de contra-natura. E está historicamente provado: Viriato e o seu grupo de amigos pastores, à calhauzada nos Montes Hermínios contra o exército mais organizado do Mundo, eram conscientes? Não.
Afonso Henriques agiu em consciência quando ficou a dever ao Papa o dinheiro que habilitava Portugal a ser considerado, aos olhos de Deus, um País? Não.
Eram conscientes aqueles gajos que se meteram em casquinhas de noz para irem descobrir novos mundos? Também não.
Foram conscientes os tipos do Corpo Expedicionário que foram combater os alemães na 1ª Guerra Mundial utilizando, por falta de armas, os métodos da calhauzada imortalizados por Viriato? Obviamente que não.

Se nós somos um povo que sempre cresceu à conta de uma bela e imensa dose de inconsciência, porque raio querem agora que sejamos conscientes? Que inconsciência!

quinta-feira, janeiro 26, 2006

A Razão da Problemática

problemática
Por mais que tentemos não conseguimos dar à nossa existência um carácter simples. É mais forte que nós. Há sempre uma problemática qualquer que acaba por nos deixar lixados. Conseguiríamos viver sem esta problemática? Duvido. A não ser que apreciássemos viver em estado de absoluta felicidade, ostentando o tempo todo aquele sorrisinho esgazeado e estúpido.
Como diz alguém que conheço: «A problemática é aquilo que nos permite identificar se somos felizes – se ela não existisse como é que iríamos saber se o éramos?». E então arranjamos problemáticas para nos irmos entretendo a vida inteira: a problemática do déficit, muito em voga nos dias que correm; a problemática do emprego, outro blockbuster; a problemática da importação das ovas de esturjão e o seu impacto nas políticas autárquicas (esta é marginal, a problemática bem entendido – e por vezes a política autárquica também).
E já repararam na dimensão da problemática? Não se fala no «problema do déficit», fala-se na Problemática, o que sugere que há um conjunto de pequenos e intrincados problemas que tornam qualquer solução numa coisinha verdadeiramente complexa e distante.
Ter um problema é coisa de meninos. Enfrentar uma problemática é uma coisa a sério, sem solução à vista.

Portugal é um país problemático. E isto não é um problema.

quarta-feira, janeiro 25, 2006

A Razão da Opinião

opiniao
Na sociedade actual o papel da opinião está demasiado valorizado. Ter opinião, hoje em dia, é algo tão necessário como andar vestido. Ir para o emprego em cuecas é a mesma coisa que não ter opinião sobre um assunto qualquer: as pessoas sentem-se despidas e com uma ligeira sensação de frio nas partes baixas (especialmente se estivermos em Janeiro e vivermos na zona da Covilhã, apascentando ovelhas).
Como ninguém se sente à vontade de andar por aí em cuecas (e ainda bem, porque nos poupam um espectáculo verdadeiramente triste na maioria dos casos) toda a gente se sente no dever, e alguns até se sentem no direito, de ter uma opinião e de a esfregar directamente na nossa cara. Voltando à analogia da roupa é como se tirassem as cuecas e as metessem debaixo do nosso nariz. E há cuecas, meus amigos, que não são mesmo flôr que se cheire.
Há alguns anos atrás era raro encontrar alguém com opinião. Os entrevistados na televisão ou não tinham opinião e assumiam-no frontalmente, ou presenteavam-nos com verdadeiras pérolas de sabedoria. Hoje vemos a peixeira do Bolhão exibir com galhardia uma opinião sobre importância dos sons guturais na apanha da ameijoa. E mais incrível: as pessoas ouvem-na!
E depois temos os «opinadores profissionais»: gajos que são pagos para despejar o seu autoclismo intelectual em cima de todos nós. Todos estes gajos me parecem clones do Nuno Rogeiro – o homem que sabe sempre alguma coisa sobre quase tudo.
A profusão de opiniões é tanta que assistimos à categorização da opinião. É como se ter opinião já não bastasse. Tem que se ter uma opinião abalizada, ou uma opinião coerente, ou uma firme opinião, ou uma opinião desinteressada, ou uma opinião controversa, ou vice-versa.
A coisa chegou a um ponto tão ridículo que até as instituíções já têm opinião: a opinião do Governo, a opinião da Comissão de Trabalhadores, a Opinião do Partido, e assim por diante. Ainda ninguém me explicou como é que a opinião institucional é formada: será que é decidida por uns quantos e imposta aos outros de modo coercivo e com requintes de sadismo? Uma coisa é certa – nunca ouvi um funcionário da PT contrariar a opinião da sua empresa, à excepção talvez de um tipo que conheci, que trabalhava na instalação de telefones, e que teve um acidente esquisito (sufocou nos próprios testículos).
Outro fenómeno interessante são os «provocadores de opinião»: quantas vezes não vos pediram a opinião sobre o serviço do hotel onde dormiram? Ou sobre a qualidade de serviço da tripulação do avião onde viajaram? E vocês acham que a vossa opinião alguma vez serviu para alguma coisa? Conseguem imaginar todo o departamento de atendimento da TAP a rir à gargalhada da vossa honesta opinião sobre as sandes congeladas que vos serviram a bordo?
Voltando ao início, acho que a opinião se está a banalizar. Mas isto é só a minha opinião.

terça-feira, janeiro 24, 2006

A Razão da TPM

tpm
Anda toda a gente preocupada com a SIDA, com a Gripe das Aves e com toda a espécie de doenças infecto-contagiosas quando se deviam preocupar com aquilo que é o verdadeiro flagelo da humanidade. Falo obviamente da TPM. Se acabassem com a tensão pré-menstrual o mundo ficaria bem mais seguro. Principalmente nos dias de hoje, onde as mulheres atingem facilmente lugares de poder. Ficou toda a gente contente com o facto da Angela Merkl ter ocupado a liderança na Alemanha: vocês fazem ideia do perigo que constitui a TPM da Angela Merkl e o que isso representa para o futuro da Europa e do Mundo? Certamente que não.
Pertencer-se ao sexo masculino neste início de milénio deveria dar direito a subsídio estatal qualquer, por estarmos mensalmente sujeitos aos efeitos e consequências da TPM. O stress pós-traumático é uma brincadeira de crianças para quem enfrenta mensalmente as manifestações da tensão pré-menstrual: um simples «não», uma simples contrariedade, pode perigar a existência do homem do século XXI. E pensar que tudo começou um século antes com um grupo de gajas a queimarem a sua roupa interior e a extravasarem todos os sintomas da coisa...
O que é a gripe das aves comparada com isto? Porque não se arranja uma vacina para a TPM? Porque não se fala disto nos noticiários? Eu digo-vos porquê: porque elas já tomaram conta disto!

Nota de cariz ciêntífico: a origem da TPM está relacionada com a perda da serotonina, uma substância que regula os estados de humor. Por amor de Deus façam as vossas mulheres felizes! A todo o custo! (mas não abusem no crédito – o país já está endividado quanto baste)

segunda-feira, janeiro 23, 2006

A Razão dos Animais Falantes

animais falantes
«Isso foi no tempo em que os animais falavam».
Quantas vezes já ouviram esta expressão? Pois é. Aparentemente há muito muito tempo atrás os animais tinham a capacidade de falar. Ninguém consegue dizer exactamente qual foi a altura em que eles perderam esta faculdade. Só se sabe que um dia houve um big bang linguístico qualquer e os gajos perderam o pio. O papagaio foi o único que se safou, mas ficou limitado a repetir tudo o que ouvia: uma versão com penas de José Sócrates sempre que se desloca ao estrangeiro.
A cobra com sotaque tripeiro, o papaformigas com sotaque beirão, o jumento que dominava cinco idiomas, e a vaca que recitava Yeats com um sotaque genuinamente irlandês, emudeceram de um dia para o outro. O curioso nesta história toda é que nunca se fala no Homem neste processo de perda da fala.
Parece que o crescimento da espécie humana está correlacionado com este silêncio animal. Até então o Homem nunca teve grandes hipóteses de sobrevivência num mundo de animais falantes. «Olha ali um grupo de cromagnons a quererem lixar o mamute à pedrada» dizia um tigre de Bengala para outro colega deficiente, «tu vai lá ali num instante chamar os nossos amigos rinocerontes». E o outro ia. E os cromagnons lixavam-se.
Quando os animais perderam a fala as coisas complicaram-se de sobremaneira. É que dizer «topa-me ali à direita uma task force de australopitecos» sem poder usar palavras, requeria um poder mímico que nenhum animal estava preparado para usar. Como é que um gajo diz «australopiteco» em mímica? E os animais lixaram-se.

domingo, janeiro 22, 2006

A Razão a Voar

a voar
Acho que as instruções de segurança que as hospedeiras de vôo dão antes da descolagem podiam ser melhoradas de forma significativa se fossem mais honestas e completas. Deviam incluir descrições gráficas acompanhadas por vídeos de animação e imagem real dos efeitos devastadores de um acidente aéreo no corpo humano. Deviam citar exemplos de mutilações. Deviam incluír também descrições detalhadas dos estragos provocados nos pulmões e na pele pelo fogo e pela inalação de fumo, demonstrando que sobreviver ao despenhamento de um avião, muitas vezes, não vale de muito. As pessoas merecem saber a verdade.
E que tal se os anúncios que antecedem o vôo fossem feitos numa cadência mais jovem e descontraída: «Olá. Tudo bem? É assim: estamos quase a levantar vôo, tá? Depois vamos voar uma beca e devemos chegar lá prái a meio da tarde. Pode ser? Daqui a um bocado, morfamos qualquer coisa, bebemos umas bejecas e até podemos ver um filme. Ok? Ah!... e tentem não carregar muito no botão para não nos acordarem. A não ser que aconteça uma cena altamente marada. Yá? Obrigado. Já agora, o comandante diz que é melhor fazerem aquela cena com os cintos.»


sábado, janeiro 21, 2006

A Razão Casapiana

casapia
Fala-se muito sobre o que separa os homens dos rapazes. Eu digo-vos o que separa os homens dos rapazes: são as leis anti-sodomia.