Não há raça de gente mais irritante, mais javarda, mais peçonhenta, e mais desprovida de um único pingo de decência, que os bufos. Esses filhos de um comboio cheio de meretrizes siflíticas, mal lavadas e a cheirar a bedum. Esses esbirros de gente que deixam um rasto de baba como lesmas nojentas. Esses estreptococos labregos que tresandam a merda num raio alargado de quilómetros.
Nascidos e criados nos 48 anos de ditadura os bufos viram a sua actividade ameaçada com a chegada da revolução e da liberdade de expressão. Mas foi uma preocupação de pouca dura porque o Estado português não levou muito tempo a institucionalizar os bufos e a torná-los parte do sistema, mesmo num regime democrático.
O Estado torna-se assim no grande criador de bufos do século XXI: um bufo que já não esconde o facto de ser bufo; um bufo que agora usa farda; um bufo que tem um escritório cheio de outros bufos; um bufo que como todos os outros labregos da disfunção pública, é pago por nós para bufar que nem uma mula com cio.
sexta-feira, outubro 28, 2005
A Razão do Bufo
quinta-feira, outubro 27, 2005
A Razão do Envelope
Nos tempos da outra senhora estava toda a gente proibida de abrir o envelope. Dava direito a prisão e tudo. Não significa isto que eles permanecessem fechados, e que a malta acatava a proibição. Não. Os envelopes continuavam a abrir-se em segredo, à porta fechada, e embora houvesse zunzuns que fulano tinha aberto o envelope, não passavam disso mesmo. Zunzuns.
Depois houve a revolução e as coisas mudaram gradualmente. Aqui e ali foram-se abrindo uns envelopes, timidamente. Apesar da liberdade, a malta não estava ainda muito habituada a abrir o envelope assim abertamente, de chofre. E muita gente deixou o envelope por abrir. Ficou lá por casa, arrumado algures entre os livros, na vã tentativa de se esquecerem dele, para não caírem na tentação de o abrir. E o tempo foi passando.
O país, antes fechado em si próprio e desconhecedor do mundo à sua volta, começou a olhar para fora e a ver que lá fora já muita gente tinha aberto o envelope, e que apesar disso tinham uma vida normal. E aí começaram a perder a timidez e desataram a abrir o envelope como se não houvesse amanhã. De repente toda a gente tinha um amigo que abriu o envelope. Um vizinho que abriu o envelope. Um colega de trabalho que abriu o envelope. De repente abrir o envelope dava direito a desfile, com o envelope aberto bem alto, na mão. Abrir o envelope passou a ser um acto normal, até que um dia quiseram torná-lo moda e invadiram as televisões de programas com malta que acenava, histérica, o seu envelope aberto para toda gente ver. E desde esse dia abrir o envelope passou a ser uma caricatura. Consentida. Mas uma caricatura. E muito envelope continuou por abrir.
quarta-feira, outubro 26, 2005
A Razão de Algo
Sempre nutri um fascínio inexplicável por abstracções, por coisas tão latas que se tornam inatingíveis, daí o fascínio. E por isso divertem-me as palavras que apontam para esse vazio onde tudo pode caber. Algo é uma dessas palavras.
Reparem que existe sempre algo. Algo que despoleta algo. Algo que nos faz pensar em algo. Algo que nos impede de dizer ou fazer algo. Algo que nos diverte ou que nos chateia. Algo que, se deixarmos de fazer, acelera que aconteça algo. Ou nem por isso.
E na procura de algo que preencha algo que nos faça sentir algo, há sempre algo que nos vai transformando em algo: algo experientes, algo contentes, algo desencantados, algo intransigentes, algo recompensados, algo esclarecidos.
A beleza de algo é que é tão único e ao mesmo tempo tão diverso que nunca podemos considerar algo como certo, nem tão pouco achar que há sempre algo errado, embora os haja, os certos e os errados, os positivos e os negativos, os justos e os injustos, os deliciosos e os intragáveis.
Algo séria, esta Razão…
terça-feira, outubro 25, 2005
A Razão do Bibelot
O nosso dia a dia é povoado por centenas de pequenos objectos que, diligente e repetidamente, lá desempenham a função para que foram criados. Existe entre eles uma hierarquia funcional que os distingue uns dos outros e segundo a qual determinamos que um objecto é mais importante que outro, no sentido de nos ser mais ou menos útil.
Na base dessa hierarquia, naquela categoria muito próxima da do bidé, temos o nível mais rasteirinho de objecto: o bibelot.
Embora tenha um nome estrangeirado e armado ao fino, o bibelot faz lembrar aqueles tios e tias de boas famílias, de nomes muito compridos, que decoram as capas de revista de sociedade, mas que não têm utilidade nenhuma. Aquilo que caracteriza o bibelot é exactamente a futilidade de não servir para nada a não ser para decorar um qualquer espaço, estando directamente dependente do mau gosto de quem decora ou de quem o compra.
Talvez por isso o bibelot seja o objecto mais procurado quando não sabemos o que oferecer a alguém. O bibelot não compromete, é um placebo comercial que desculpa a falta de imaginação ou de interesse de quem o compra.
Quando compramos um livro a alguém normalmente temos o cuidado de conciliar o conteúdo do livro com o tipo de pessoa a quem o vamos oferecer. Digamos que é uma compra com algum grau de intimidade. Quando compramos um bibelot estamos perfeitamente nas tintas se a pessoa vai ou não gostar dele, se vai olhar para ele, onde o vai colocar, etc. Sabemos à partida que se a pessoa a quem oferecermos o bibelot não gostar dele vai fazer aquele ar agradecido e grato à nossa frente e quando nos vir pelas costas irá embrulhá-lo cuidadosamente e oferecê-lo a outra pessoa noutra ocasião.
No entanto, apesar da sua inutilidade e perenidade, o bibelot divide-se em várias tipologias onde as mais conhecidas são:
Bibelots Religiosos – onde encontramos uma panóplia de cruzes, de santos, de cristos, e de budas (este último muito famoso nos últimos tempos).
Bibelots Miniaturizados – que vão desde frasquinhos de perfume, a pequenas réplicas em loiça de pratinhos e chaveninhas.
Bibelots do Mundo Animal – onde os mais conhecidos são o belo cavalinho de cristal, ou a colecção de elefantes de tromba para cima, ou ainda o célebre pinguim para o topo do frigorífico.
Bibelots de Exterior – com especial destaque para as duas águias, os dois leões ou os dois dragões a encabeçar os portões da vivenda ou, para um público mais refinado, os célebres anões de loiça em poses de jardinagem.
Bibelots de Design – continuam a não servir para nada, mas dão-se ares de obra de arte em exposição no MOMA.
Bibelots Temáticos – os mais fáceis de comprar quando conhecemos a obsessão da pessoa a quem pretendemos oferecer. Exs: colecções de vacas malhadas, colecção de gatos em todo o tipo de materiais, colecções de pequenos quadros com 842 nós de marinheiro, e assim por diante.
Se um dia tiverem que recorrer à compra de um bibelot, façam-no por uma boa causa: ofereçam-no ao patrão, à sogra, ou aos amigos da onça. Eles vão compreender.
segunda-feira, outubro 24, 2005
A Razão da Falta de Noção
Episódio I
Afonso de Albuquerque, depois de ter destruído vários portos tributários do Rei de Ormuz decidiu, ao comando de seis naus com cerca de 400 homens a bordo, entrar na baía de Ormuz tendo ficado cercado por 250 navios de guerra inimigos a que se juntava um exército em terra de cerca de 20.000 homens. Quando o Rei mandou um emissário a bordo para saber quais as suas intenções, Afonso de Albuquerque enviou-lhe uma curta mensagem: «Renda-se!»
Uma caravela portuguesa levava ostensivamente a bandeira das quinas no seu mastro mais alto ao entrar na baía de Cádiz, onde se encontrava a esquadra do Rei de Espanha, naquele tempo conhecida por «Invencível Armada». Interpelado pelos espanhóis para baixarem o seu estandarte à entrada do porto, abriu fogo à esquadra inteira, causando-lhe danos significativos e, após ter passado em combate por toda a fileira de navios de guerra espanhóis, acabou por saír incólume do porto de Cádiz, fugindo para Portugal.
No verão de 1574 D. Sebastião decidiu, sem prevenir ninguém, fazer uma investida a África deixando a corte em pânico sem saber onde estava o seu Rei. Quando desembarcou com meia dúzia de fidalgos alucinados em Ceuta os árabes retiraram pensando que aquele era um grupo avançado de uma força maior. Sem ninguém para combater, D. Sebastião ruma a Tânger onde lhe acontece o mesmo. Frustrado, volta para casa sem ter conseguido andar à porrada.
Vem-me sempre à cabeça a resposta do capitão António da Silveira, cercado pelos turcos em Diu:
«Fiquem sabendo que aqui estão portugueses acostumados a matar muitos mouros e têm por capitão António da Silveira, que tem um par de tomates mais fortes que as balas dos vossos canhões e que todos os portugueses aqui têm tomates e não temem quem não os tenha!».
Delicioso. Que falta de noção num excesso de nação.
domingo, outubro 23, 2005
sábado, outubro 22, 2005
A Razão do Exercício
sexta-feira, outubro 21, 2005
A Razão Geracional
A única coisa que a geração de 50 queria era esquecer-se da guerra e construir aquilo que tinha sido destruído pelos alucinados da geração anterior. E a coisa parecia simples e exequível.
quinta-feira, outubro 20, 2005
A Razão da Gripe das Árvores
A Organização Mundial de Saúde (OMS) emitiu hoje um comunicado a alertar para o risco de uma nova pandemia designada por «gripe das árvores». Embora ainda não existam casos de contaminação de humanos a OMS alerta para o risco do vírus sofrer mutações rápidas que possam vir a ser prejudiciais para a saúde humana. Os primeiros focos de infecção de árvores surgiram na região de Tugunska, na Sibéria há 2 semanas atrás, tendo sido detectados novos casos esta semana na região de Innsbruck, na Áustria. A OMS acredita que com os movimentos migratórios das árvores, o risco se possa alargar a toda a Europa Ocidental no espaço de um mês.
A OMS alerta ainda para o facto do vírus se desenvolver a velocidades diferentes de espécie para espécie de árvore, havendo potencialmente árvores mais perigosas que outras. A estirpe mais letal parece ter-se desenvolvido no Carvalho, tomando a designação de «gripe do carvalho» mas existem outras espécies igualmente perigosas.
Portugal é, segundo a OMS, o país europeu melhor preparado para enfrentar a gripe das árvores, não porque tenha aprisionado vacinação suficiente para a sua população, mas porque tem paulatinamente dizimado pelo fogo a sua população de árvores nos últimos 10 anos. Só em 2005 arderam 300.000 hectares de árvores de variadas espécies, correspondendo a 25% do total de área ardida na Europa do Sul.
A Direcção Geral de Saúde (DGS) já emitiu uma circular a desdramatizar a situação, afirmando que o risco da gripe das árvores entrar em território português é mínimo, e embora estime que 6.000 portugueses possam vir a ser vítimas de quedas de árvores durante 2006, nada disso estará directamente relacionado com o vírus.
A DGS publicou entretanto no seu site uma lista de árvores que poderão constituír maior risco para a saúde pública e com as quais deveremos tomar precauções:
Carvalho – por poder conter a estirpe mais perigosa do vírus. Se virem um carvalho rouco ou com uma leve espectoração queiram reportar às autoridades locais.
Eucalipto – apresenta um risco elevado de contágio. Os sintomas do virus são visiveis a olho nú, apresentando o eucalipto um tom esverdeado e escarrando copiosamente. Se o escarro fôr verde reportem às autoridades locais.
Pinheiro Manso – apresenta um risco nada manso e é a árvore com movimentos migratórios mais rápidos, podendo deslocar-se a uma velocidade de 2,5mm por hora. Se depararem com um pinheiro manso a lacrimejar seiva e a praguejar, informem as autoridades locais.
Sobreiro Alentejano – embora se mova muito muito devagar o risco de contágio é elevado, principalmente nas árvores que já foram descascadas. Os sintomas de contágio assumem a forma de arroto prolongado e de comichão nas partes baixas. Se detectarem um sobreiro a alucinar de comichão, reportem às autoridades locais.
Como não houve aprovisionamento de vacinas que cobrissem o total da população, a DGS recomenda a utilização da posologia tradicional, tendo colocado bidons de gasolina e serras mecânicas à disposição de todos os portugueses.
quarta-feira, outubro 19, 2005
A Razão da Baixa
Quanto mais penso nisso mais acho que este país tem uma fixação esquisita na «baixa». A coisa começa logo pela estatura física do povo, que é baixa; estende-se à economia do país, que anda sempre em baixa; invariavelmente isto tem um reflexo na auto-estima dos labregos que é, mais uma vez, baixa.
Mas se pensarmos mais um pouco, vemos que a baixa preenche outros e variados aspectos da nossa vida: à zona mais comercial e social das nossas cidades chamamos baixa; as revisões de crescimento do país e as revisões de ordenado são sempre feitas em baixa; a literacia dos tugas é baixa; adoramos a baixa de preços (a maior parte de nós espera religiosamente por ela); e grande parte do país vive em baixa: baixa de parto, baixa psicológica, ou qualquer outra baixa médica que impeça os mamíferos de contribuir para que algum dia isto volte a estar em alta.
terça-feira, outubro 18, 2005
A Razão das Minorias
Nada como pertencer a uma minoria num Estado de regime democrático. É claro que tem as suas desvantagens (principalmente em governos que gostam de favorecer os amigos), mas pesando bem as coisas no prato da balança as vantagens são mais numerosas. Senão vejamos:
As minorias políticas podem chatear à brava a maioria e criticar tudo e mais alguma coisa, defendendo soluções que levariam qualquer membro da maioria directamente para o manicómio. A minoria tem esta confortável margem de não-realização que lhes permite prometer as coisas mais absurdas porque eles bem sabem que ninguém nunca os irá levar a sério. É por estas e por outras que o Bloco de Esquerda nunca será um partido de maioria – eles não querem! Só querem mesmo é chatear, e eu gosto de os ver chatear inconsequentemente. É uma espécie de Levanta-te e Ri, por malta que tem mesmo jeito para a comédia.
As minorias sexuais fazem lobby em nome de uma discriminação que cada vez mais não está lá. Nunca o lobby gay teve tanto poder nesta nossa telenovela mexicana, com a natural discriminação de que tanto acusaram os heterossexuais. Infelizmente as lésbicas estão uns anos luz atrás, o que significa que daqui a uns anitos vamos ter de levar com este filme outra vez. Há-de chegar o dia em que iremos ter a Hetero Parade, e programas de trash tv que caricaturam os heteros como se de aberrações se tratassem...
As minorias étnicas refugiam-se num estatuto de desprivilegiados, marginalizados e desapoiados para justificarem comportamentos que levariam qualquer indivíduo da maioria para a prisão, directamente, sem passar pela casa da partida. Ser minoria étnica dá-lhes, no seu entender, uma qualquer espécie de direito acima dos cidadãos comuns. Por este andar cada minoria étnica terá direito ao seu arrastão mensal. Os meus somalis agradecem.
Finalmente os portugueses, cada vez mais em minoria num país povoado por labregos. A julgar pelas minorias anteriores algo de bom está para acontecer aos portugueses. Só pode.
segunda-feira, outubro 17, 2005
A Razão de Aviário
Primeiro tinha sido o Ceasescu, esse pelintra fascista de primeira; e depois o Yonutz, um javardolas que um dia lhe apareceu lá à porta com uma mão atrás e outra à frente a pedir emprego no aviário, e dois meses mais tarde saíu de lá com as duas mãos na sua mulher. Alberto não gramava romenos e agora ouvia aquelas histórias das gripes nos aviários da Roménia... Decidiu fazer uma inspecção aos seus animais.
As vacas não tinham gripe. Estavam um bocado excitadas com qualquer coisa que Alberto não conseguiu identificar, reviravam os olhos, babavam-se copiosamente e saltavam que nem coelhos, mas aquilo não era gripe em lado nenhum do mundo.
As cabras também não tinham nenhuns sintomas de gripe, embora Alberto tenha estranhado a sua falta de pelagem a fazer lembrar os chiuauas. As ovelhas apresentavam uma pelagem azulada com fiapos de laranja e, em vez de balir, grasnavam. Mas nada de gripe. Os coelhos andavam esquisitos, pendurados de cabeça para baixo na antena de televisão, tipo morcegos. Ainda agarrou num e espetou-lhe um termómetro no rabo mas nada, estava impecável tirando aquele olhar vítreo. O burro espirrava insistentemente, mas Alberto sabia que aquilo não era gripe: o animal sempre tivera alergia aos fenos. Um pouco antes de chegar ao aviário Alberto deu uma vista de olhos nos patos. Tirando o facto de andarem todos a nadar de costas no lago e a grasnar algo que fazia lembrar um fado antigo do Vitor Espadinha, não detectou nada que se parecesse com gripe.
Finalmente chegou ao aviário. Estava estranhamente silencioso. Alberto aproximou-se pé ante pé e esgueirou-se numa portinhola: as galinhas percorriam todo o aviário em fila indiana e dançavam a conga em surdina; o galo estava deitado e regalado com 6 frangas e não tinha mãos a medir. Os pintos faziam mosh para cima dos ovos.
Nada de gripe, pensou Alberto, tudo normal.
domingo, outubro 16, 2005
sábado, outubro 15, 2005
sexta-feira, outubro 14, 2005
A Razão dos Escuteiros
Crianças vestidas de idiotas lideradas por idiotas vestidos de crianças. Se há organização juvenil que me irrita de sobremaneira são os escuteiros (eles gostam que lhe chamemos de escoteiros), todos fardadinhos de meiazinhas pelo joelho, cantando a marchar em direcção a um qualquer bosque onde irão exercer os seus rituais de plástico, inventados por um gajo que para além de pedófilo, gostava de se automutilar na genitália usando o seu canivete de mato. Sim, Baden Powell tinha problemas. O que eu não percebo é porque ao fim destes anos todos, estas criaturas continuam a povoar o planeta, divididos por agrupamentos, grupos, alcateias e clãs.
Os escuteiros fazem-me lembrar aquelas tribos perdidas do Amazonas, que continuam a fazer a sua vidinha alheadas daquilo que se passa à sua volta, com uma agravante: os gajos não estão no Amazonas. E é uma pena.
Os idiotas vestidos de crianças ainda os percebo: o mundo dos adultos é muito feio e os gajos recusam-se a crescer, quais Peter Pans com atraso mental e problemas de integração. Para eles nada é melhor que usar o belo do calçanito e uivar à lua até à idade da reforma. Há quem use drogas, estes preferem os calções. Mal por mal, os calções são mais baratos.
Quem eu não percebo mesmo são as crianças. O que leva um jovem mamífero a usar um calção ou uma saia peliçada e a desbravar mato como se não houvesse amanhã? Quão motivador pode ser saír em grupo para observar a nidificação das garças reais? Que excitante poderá ser acender uma fogueira usando duas pedras e um isqueiro?
Será que existe um tratamento de electrochoques que lhes resolva isto?
Enquanto não vislumbro uma resposta concreta para este fenómeno vou continuar a achar que tudo isto é um grande equívoco: que na realidade os escuteiros são uma fachada para deboches dionísicos no mato – tudo direitinho e compostinho até à zona mais cerrada do bosque, e a partir daí ninguém é de ninguém, tudo nú, mais cavalos e anões. Baden Powell style, somalis não incluídos.
quinta-feira, outubro 13, 2005
A Razão de Adão e Eva
Se há por aí história mal contada é aquela de Adão e Eva no paraíso. Senão vejamos: Deus cria o Homem (entre outras coisas) e manda-o para o paraíso. Isto já de si é suspeito. Porque não o mandou para outro sítio qualquer? Porque não o mandou à merda? Nunca saberemos, mas o que é certo é que o Homem lá foi diligentemente para aquilo que Deus convencionou por paraíso. Na realidade era um pardieiro vazio, sem interesse nenhum e completamente despovoado. Não fossem umas arvorezinhas aqui e ali e assemelhar-se-ia ao Alentejo profundo. Diz a história que Adão, farto de contar as árvores, que nem eram tantas como isso, meteu um requerimento a Deus para lhe arranjar companhia. Distraidamente Deus mandou-lhe uma ovelha e rapidamente descobriu o significado da contranatura. Decidiu então fazer um truque com uma costela de Adão, criando dali uma companheira para o entediado mamífero. Chamou-lhe de Eva.
Ainda hoje a ciência tenta perceber que conhecimentos de genética o gajo tinha para fazer um truque daqueles.
A questão das roupas é insidiosa… se os gajos estão no paraíso porque diabo têm que usar parras a tapar-lhes a genitália? Armani e Prada seriam mais plausíveis, bolas! Afinal de contas que paraíso era aquele??
Depois vem outra parte incongruente: aquela em que Deus, num lampejo de autoridade tipo «quem manda aqui sou eu e vou inventar uma merda para vos deixar a matutar» decide embirrar com as maçãs e proibir Adão e Eva de as comer. Qual é o problema das laranjas? E das papaias? Porque não proibir as bananas? Ou toda a gama de frutos secos? É só incongruências…
Chegamos então à parte da cobra que falava. Tudo bem. Eu até ter ouvido as declarações de Fátima Felgueiras, achava que as cobras não falavam, portanto isto até faz algum sentido no meio desta trapalhada toda. Mas a questão é que a cobra de Adão e Eva demonstra uma obsessão voyeurística qualquer por maçãs. Gosta de as ver serem comidas. Há gostos para tudo…
Finalmente os gajos comem a maçã e Deus aparece para os expulsar do paraíso e não se fala mais nisso. Porquê? A história acaba aqui porquê? E a vida porca que eles levaram depois, com a obsessão insidiosa que Adão desenvolveu por ovelhas? Nem Sócrates contava tão mal uma história destas…
quarta-feira, outubro 12, 2005
A Razão da Seita
Criar uma seita não é difícil, basta conhecer relativamente bem os papalvos que queremos evangelizar, adequando o discurso aos seus medos, às suas ansiedades e às suas necessidades. E depois é como fazer sabonetes – ou apostamos no básico e temos o sabão macaco que dá para tomar banho e lavar a roupa, ou vamos para uma coisinha mais sofisticada acrescentando aloevera ou ginseng que dão a ilusão que, para além de lavar, fazem mais qualquer coisinha.
Uma condição sine qua non de qualquer seita bem sucedida é a figura do seu líder espiritual – mais uma vez recorro à analogia da loja de bairro e do hiper: quantos de vós conhecem pessoalmente o gerente do hipermercado onde fazem compras? E quantos conhecem o dono da vossa loja de bairro? O hipermercado passa muito bem obrigado sem que vocês lhe conheçam o gerente, a loja de bairro não. O dono da mercearia confunde-se com a mercearia, é a sua alma, tal como o líder espiritual de uma qualquer seita.
Por isso quando se limpa o sebo a um desses líderes (muitas vezes eles limpam o sebo a si próprios, fartos da fantochada que criaram) acaba a seita.
E depois temos os seguidores – uma seita com um líder espiritual e sem seguidores é um terrível aborrecimento (garanto-vos eu que sou o líder espiritual de uma seita alucinada, mas sem ninguém que me siga). Para se ser seguidor de uma seita não são necessárias grandes habilitações: basta querer acreditar em qualquer coisa. Convém ser uma coisa assim distante e inatingível tipo: estar à espera das naves venusianas do comandante Ashtar que vêm buscar todos aqueles que acreditam; ou esperar pelo Cometa para lhe saltar para a sua cauda e zarpar rumo à outra ponta da galáxia; ou ainda aguardar de caçadeira na mão (numa onda mais Koreshiana) que me apareçam um dia uns gajos com as letras FBI nas costas.
Acreditar em coisas tangíveis como sentir na nuca a respiração de Hale Berry num dia nublado não são suficientemente motivadoras (vá-se lá saber porquê) para granjear um número considerável de seguidores.
Uma coisa que contribui para criar um espírito de corpo numa seita é o vestuário: pode ser mais ou menos elaborado dependendo do grau de loucura dos participantes, mas convém que seja uniforme – tudo de tanga laranja e capuz negro por exemplo; ou vestes compridas mais clássicas com padrões estranhos. O que interessa mesmo é que todos se vistam de igual, tipo salesianos.
Finalmente, a parte mais importante das seitas: o financiamento. Uma seita que não tenha apoios financeiros não é uma seita, é um grupo de escuteiros com distúrbios de personalidade (um silogismo, portanto). O apoio financeiro de uma seita não é pêra doce, e depende do grau de exigência do seu líder espiritual. Normalmente o jacto particular e o Ferrari Testarrossa fazem parte do cerimonial, mas outros fringe benefits podem ser acrescentados dependendo da quantitade e qualidade dos seguidores. Neste aspecto as seitas aprenderam com a secular experiência da Igreja Cristã, hoje muito mais discreta mas igualmente eficaz na arte de sacar o seu indiscriminadamente, sem recibos ou quaisquer deduções à colecta.
Para todos os que acham que a política já não tem futuro, sugiro uma pequena reengenharia na actividade profissional: façam a vossa seita. Tax Free.
terça-feira, outubro 11, 2005
A Razão dos Trafulhas
Robin Hood, Robin Hood, riding through the glen;
Robin Hood, Robin Hood, with his band of men.
Feared by the bad,
Loved by the good,
Robin Hood, Robin Hood, Robin Hood!
Os meus receios confirmaram-se. Este povo merece exactamente aquilo que tem: um bando de escroques corruptos que rouba para si em nome do povo.
Em Portugal, e estas autárquicas provam-no, podemos ser corruptos, ladrões, desonestos, bandalhos e javardos, desde que no processo vamos atirando com umas migalhas para o povo. O truque é assumir esta «postura de Robin dos Bosques»: roubar e enganar indiscriminadamente, escapando incólume ao braço da Justiça, que neste momento já se confunde com o Estado, considerado um ladrão maior e despersonalizado.
Quando se questiona que ou há moralidade ou comem todos, os portugueses preferem a parte da comezaina. Para eles não há problema nenhum em roubar ou ser roubado desde que uma parte do quinhão, mesmo que mínima, lhes toque a eles. O culto do espertalhaço continua, infelizmente, bem vivo nesta telenovela mexicana e continua a mostrar-nos todos os dias que, em Portugal, o crime compensa. De facto, isto não é um país mas apenas uma baderna mal frequentada.
segunda-feira, outubro 10, 2005
A Razão de Liliput
Bill Bernbach, um dos mais conhecidos gurus publicitários de todos os tempos, usou em tempos a seguinte frase para lançar o Volkswagen carocha no mercado americano: Small is beautifull. O gajo tinha alguma razão. Por um motivo qualquer que me transcende, achamos um piadão a tudo o que é pequenino (bem... nem a tudo, mas isso é outra história). Começamos com os animaizinhos: a maior parte dos mamíferos são indiscutivelmente mais bonitinhos quando são crias (tirando talvez a Monica Belucci). Os telemóveis, que cada vez ficam mais pequeninos, ao ponto de os perdermos nos bolsos de umas calças apertadas. Até o Steve Jobs não resistiu e criou o Ipod Nano, que corre o risco de ser confundido e engolido na medicação da manhã. Ao longo dos anos nasceu e consolidou-se uma «indústria do pequenino»: frasquinhos de perfume miniaturizados, baralhos de cartas mínimos, playstations portáteis e reduzidas, aparelhagens mini, computadores mais pequenos que uma folha A4, gelados e chocolates encolhidos. Até as bolachas aproveitaram esta mania do pequenino e lançaram um sem número de variantes anãs.
Portugal, um país já de si pequenino, poderia aproveitar esta tendência mundial da miniaturização. Quem sabe não seria esta uma oportunidade para transformar o país de uma vez por todas, usando como directiva a frase de Bernbach: small is beautifull? Claro que teríamos de adaptar o conceito à realidade local, e dar-lhe uma forma mais adequada. Algo do género «tacanho é lindo!». Talvez não seja uma boa ideia...
domingo, outubro 09, 2005
sábado, outubro 08, 2005
A Razão da Democracia
O melhor da democracia é que esta dá a cada votante a chance de fazer algo realmente estúpido.
Art Spender
sexta-feira, outubro 07, 2005
A Razão do Regresso
Em Portugal cultiva-se a filosofia do eterno retorno, também conhecida pelo regresso eterno. É este nosso lado saudosista que sofre daquilo que já teve e que deixou de ter. Pessoalmente acho que a nossa situação geográfica é a grande culpada nesta questão: impedidos de progredir para dentro por causa dos malditos e persistentes castelhanos, fomos obrigados a fazermo-nos ao mar, com todas as consequências que daí adviram.
Ir para o mar, ir em direcção a uma linha do horizonte inexorável e misteriosa, sem a certeza de que voltaríamos, foi o combustível deste nosso mito do eterno retorno (com as devidas vénias e desculpas a Mircea Eliade, que inventou o termo noutras circunstâncias que um dia terei imenso prazer em escrever aqui). Dizia eu que ir para o mar, com a devida imponderabilidade do vazio e daquilo que desconhecemos, contribuiu para que o regresso fosse algo valorizado e esperado pelos portugueses. O caso mais paradigmático deste eterno regresso é D.Sebastião, cujo regresso num dia de nevoeiro sobreviveu à sua existência e continua válido até hoje. Digamos que este será para sempre o regresso que nós esperaremos. Mas há outros. Nós gostamos que hajam. O regresso de Cavaco Silva e de Mário Soares, por exemplo. Podemos não gostar das figurinhas mas aplaudimos com fervorosa estupidez o seu regresso, porque para os portugueses o regresso é uma espécie de recomeço, de eliminação sumária de um passado que é sempre penoso e para esquecer. O regresso é para nós um reinício onde nunca somos intervenientes, mas sempre espectadores – alguém há-de regressar para mudar as nossas vidas, para nos salvar de nós próprios.
segunda-feira, setembro 26, 2005
A Razão do Blog do Candidato Político
Divirto-me à brava com a perspectiva que os políticos portugueses têm dos blogs. Alguém lhes disse, a dada altura das suas miseráveis carreiras, que os blogs eram o 5º Poder e estes desataram a abri-los na internet na vã esperança de agarrar mais um bocadinho de poder.
Naturalmente que os políticos estão a anos-luz de distância de perceber o que é um blog, quanto mais o modo como devem usá-lo.
Sabemos que estamos perante um blog de um candidato político quando:
Parece que estamos a ouvir um monólogo televisivo, daqueles paternalistas e feitos a olhar directo para a câmara, a fazer de conta que estão a falar para nós. Convém perceber que um político nunca fala directo para nós – fala directo para um boletim de voto com a cruzinha no partido dele.
Não há qualquer coerência linguística de post para post, porque na realidade aquilo é escrito por um monte de assessores diferentes pagos para alinhavar, sem sucesso, aquilo que um político raramente consegue fazer: um discurso coerente e inteligente.
O blog só tem um post, que é nada mais nada menos que um chorrilho de promessas estúpidas retiradas de um panfleto político.
O blog só tem um post porque o político decidiu fazer aquilo sem acessores e a sua capacidade de dizer/escrever aquilo que pretende fazer é tão limitada que ele se fica mesmo por ali. Temos aqui um caso típico.
O blog tem a duração do período de campanha eleitoral demonstrando que o político está ali só para vender o seu peixe e não para estabelecer uma relação directa com o seu eleitorado.
O blog não admite comentários porque a percepção democrática do político não admite críticas nem respostas, nem esclarecimentos adicionais ao cidadão comum. O político só admite respostas, esclarecimentos, ou críticas, de outro político e preferencialmente quando passa em directo na televisão.
Na minha perspectiva o blog de um candidato político deve ser encarado de duas formas: ou vamos lá visitar o gajo para o insultar à laia de medida profilática, ou não se vai lá e pronto.
domingo, setembro 25, 2005
sábado, setembro 24, 2005
sexta-feira, setembro 23, 2005
Razões Inéditas
Um ser asado foi visto a sobrevoar os céus portugueses. Apareceu assim de repente, sem perceber-se de onde vinha. Nos organismos de segurança nacional piscavam luzinhas vermelhas, os taradinhos dos OVNIS ficaram entumescidos, a Santa Igreja começou a afiar o fervor religioso, e a GNR coçou a bolsa testicular.
A TVI fez um especial na região onde alguns labregos afirmavam ter visto o ser voador: «parecia um abion» grunhia um, «aquilo é um condôr do demo» estrebuchava outra. Os testemunhos sucediam-se mas não se conseguiu nunca obter nenhuma imagem que atestasse a veracidade do fenómeno. Até que um dia ele aparece de microfone na mão e ar lixado em frente da Assembleia da República. Dizia que a fábrica onde trabalhava não tinha reaberto depois do Verão, que há 3 meses que não recebia ordenado, que o Estado não lhe dava qualquer ajuda, que tinha dois filhos para criar, que não conseguia pagar a casa onde vivia, que já lhe escasseava o dinheiro para comer.
Nesse dia ficámos todos a saber que ele era o Ente Alado, o super-herói nacional.
quinta-feira, setembro 22, 2005
A Razão no WC
Não gosto de WC’s públicos por motivos vários, que estão normal e directamente relacionados com o facto do chão estar sempre molhado ou com o irritante facto de ter sempre um sítio que está queimado por beatas de tabaco (mas quem é que fuma num WC público??).
Quando tenho de lá ir perco sempre algum tempo com as mensagens atrás da porta. O grande mistério para mim é perceber quando é que elas são escritas.
Será... antes de?!! – aflitinhas aflitinhas, mas ainda com tempo para umas linhas!?
Será... durante?!! – não dá jeito, pela análise das mensagens, a altura a que estão escritas e a distância que compreende a porta da sanita deixa esta hipótese de lado.
Será...depois de?!! – não faz sentido que se queira lá estar, mais tempo que o necessário.
Com as mensagens de WC estamos perante de um acto (altamente) premeditado, porque temos de abrir a mala vasculhar lá dentro à procura de algo que escreva, ou então, entrar já com algo que escreva na mão... sendo que apenas a parte da mensagem tem alguma espontaneidade
E as mensagens são de temática variada:
Insultos escabrosos a outras mulheres pela honra amachucada:
- A Gonçalinda é uma P*** que se meteu com o meu Hilário Cosme.
- está sim?? Olhe... estou a ligar porque vi o seu número de telefone num WC público em Estarreja.... era para combinar um café, se puder ser, claro.
(Não me parece que seja uma forma inteligente de conhecer pessoas, mas enfim)
- eu tenho uma **** do tamanho de uma betoneira
(sinceramente como mulher, não sei se é bom ou não)
- Amo-te Hilário Cosme, para toda a nossa vida...
(O Hilário Cosme, nunca saberá desta prova de amor, porque ela foi feita no WC das mulheres e nem sei se o Hilário Cosme achará isto romântico, mas concerteza que gostará de saber que o seu nome foi perpetuado numa porta de WC principalmente se lá estiver escrito também qualquer coisa que fale do seu, soberbo, desempenho sexual.
Na verdade, adoro a escrita de casa de banho.
Ela informa, educa, distrai, diverte, tem raiva, sexo e intrigas. No fundo, tudo o que se quer num bom romance.
quarta-feira, setembro 21, 2005
A Razão da Estrela da Rádio
Video killed the radio star. Sempre que me falam em globalização o meu cérebro vagueia invariavelmente por esta música simpática dos velhotes Buggles. Goste-se ou não a globalização matou, a dada altura, a maior parte do que era feito localmente. Este não é um post anti-globalização, até porque pessoalmente acho que esta nos tornou mais conscientes do mundo à nossa volta – por vezes demasiado conscientes para o meu gosto. Este é um post com o mesmo travozinho saudosista e atravessado pela mesma alegria adolescente e inconsciente da música original. É um post «que se lixe». Que se lixe já não termos os iogurtes Longa Vida; que se lixe a Pasta Medicinal Couto; que se lixe a Laranjina C; que se lixem programas de rádio que nos faziam acordar cedo como o Pão com Manteiga (de um rapazinho que hoje está indiciado por pedofilia); que se lixem os Rajás, os chocolates Regina e as Bombokas; que se lixem os Pilote, os Cavaleiros Andantes, e os Tintins coleccionáveis; que se lixem o ZX Spectrum e o Atari; que se lixem os Sanjo (esbirros nacionais dos All Star); que se lixem os pirulitos e as pastilhas Gorila. Que se lixem o Subbuteo, e o Ludo, e a sueca.
E viva a globalização! Normalizada, instantânea (sem juntar água), e em directo. Vivam as frutas gigantes e brilhantes a saber ao mesmo; viva a fast food que nos garante que tudo sabe igual em locais diferentes; viva a roupinha para betos, para dreads, para grunges, para góticos, e para surfistas; vivam os bifes de vaca lúcida e os frangos sem febre. E acima de tudo vivam os blogs, a expressão máxima e positiva daquilo que é a globalização – e que nos mostram diariamente que, apesar de tudo, encerramos em cada um de nós um imenso universo nunca globalizável.
Passem um grande e globalizante dia.
terça-feira, setembro 20, 2005
A Razão dos Matraquilhos
Os países têm em geral um ícone pelo qual são conhecidos internacionalmente, que acaba por ser o seu logotipo virtual: os espanhóis têm os touros (confesso que não percebo esta sua adoração por cornos), os ingleses têm o Big Ben, os franceses têm a Torre Eiffel, os brasileiros têm o carnaval e as bundinhas, os irlandeses têm a harpa, os escoceses o whisky e o monstro fictício do Loch Ness, os holandeses têm os moínhos, e assim por diante. E os portugueses, qual é o deles?
Sempre que penso no ícone dos portugueses lembro-me inevitavelmente dos matraquilhos. Acho que não há coisinha que traduza melhor a nossa portugalidade que um tabuleiro de matraquilhos: pequeninos e desajeitados, sempre tensos (reparem que os bonecos estão sempre em sentido), prontos a serem manipulados por outros, impedidos de se mexerem muito por uma barra de ferro que os atravessa a meio, sempre com o mesmo modo de actuar (para trás e para a frente), uns contra os outros a pontapear uma ridícula e velha bola de madeira, só funcionando quando se mete a moeda, e sem qualquer utilidade que não seja para alguém se divertir.
O matraquilho é Portugal em todo o seu esplendor. Sempre agarrado a uma caixa, e à espera da próxima moeda. Eleve-se a coisa a ícone nacional. Nós merecemos.
segunda-feira, setembro 19, 2005
A Razão da Ditosa Pátria
Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.
Nem é ditosa, porque o não merece.
Nem minha amada, porque é só madrasta.
Nem pátria minha, porque eu não mereço
a pouca sorte de nascido nela.
Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta
quanto esse arroto de passadas glórias.
Amigos meus mais caros tenho nela,
saudosamente nela, mas amigos são
por serem meus amigos, e mais nada.
Torpe dejecto de romano império;
babugem de invasões; salsugem porca
de esgoto atlântico; irrisória face
de lama, de cobiça, e de vileza,
de mesquinhez, de fátua ignorância;
terra de escravos, cu pró ar ouvindo
ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;
terra de funcionários e de prostitutas,
devotos todos do milagre, castos
nas horas vagas de doença oculta;
terra de heróis a peso de ouro e sangue,
e santos com balcão de secos e molhados
no fundo da virtude;
terra triste à luz do sol calada, arrebicada, pulha,
cheia de afáveis para os estrangeiros
que deixam moedas e transportam pulgas,
oh pulgas lusitanas, pela Europa;
terra de monumentos em que o povo
assina a merda o seu anonimato;
terra-museu em que se vive ainda,
com porcos pela rua, em casas celtiberas;
terra de poetas tão sentimentais
que o cheiro de um sovaco os põe em transe;
terra de pedras esburgadas, secas
como esses sentimentos de oito séculos
de roubos e patrões, barões ou condes;
és terra de ninguém, ninguém, ninguém:
eu te pertenço. És cabra, és badalhoca,
és mais que cachorra pelo cio,
és peste e fome e guerra e dor de coração.
Eu te pertenço mas seres minha, não.
(cedido gentilmente por MJM)
domingo, setembro 18, 2005
sábado, setembro 17, 2005
sexta-feira, setembro 16, 2005
A Razão do Sol e da Peneira
«T» para os programas que podem ser visionados por toda a gente.
«10 AP» para os programas que já têm um palavrãozito ou outro, sendo que as letras AP significam que as crianças deverão assistir ao programa acompanhados pelos pais.
«12 AP» para programas onde o palavrãozito passa a palavrão e em que ocasionalmente se poderá vislumbrar um corpo desnudo mas nunca exibindo as partes pudendas.
«16» para programas onde o palavrão passa a um chorrilho de palavrões e onde se pode ver nus integrais com genitálias tímidas, de relance, fugazes.
«18» para programas onde genitálias desinibidas, chorrilhos de palavrões, cavalos pentapérnicos, anões e mulheres desnudas, pululam sofregamente no écran como se não houvesse amanhã.
Esta curiosa medida merece-me alguns comentários de ordem diversa:
Sobre a liberdade individual – a TVI, que defende acerrimamente os direitos do indivíduo, sendo clara a sua posição quanto ao aborto, tem aqui uma posição no mínimo paradoxal. Se um feto tem direito à vida e deve ser considerado um ser humano com direitos, porque raio é que uma criança com 9 anos não tem o direito de ver programas para além de designação «T»? Parece-me censura infantil, e logo, altamente reprovável.
Sobre a autoridade familiar - existem categorias que recomendam o acompanhamento dos pais. E o que dizer dos avós? não terão estes o discernimento para decidir o que os seus netos podem visionar? E os tios, qual é o problema deles? E os parentes afastados, perdem critério por terem uma consanguinidade mais diluída?
Sobre a exaustividade – porque raio é que as classificações são limitadas até à idade de 18? Pessoalmente acho que certos debates políticos deveriam ser limitados a indivíduos abaixo dos 3 anos; as intervenções de Soares deveriam estar limitadas a indivíduos acima dos 80; os noticiários da Manuela Moura Guedes não deveriam poder ser visionados por indivíduos do sexo masculino acima dos 6 meses, sob o perigo de se tornarem serial killers. Acho que esta história das idades merecia uma reflexão mais cuidada. A actual divisão é um desleixo.
Sobre a honestidade intelectual – e porque não abordar o visionamento de programas de uma forma mais honesta? O que tem a idade a ver com isto tudo? Conheço seres de 4 anos com maior maturidade mental que Sócrates. Quererão proibir o primeiro-ministro de ver televisão? Será isto uma conspiração insidiosa? Tendo em conta as características de programação da TVI acho que podiam ter sido mais inovadores e honestos na classificação e definir outros tipo de categorias do género:
«Programas VAM» onde se incluiriam todas as produções do Piet Hein. Sabemos bem que este senhor se especializou em programas para voyeurs com atraso mental.
«Programas ARPEP» emissões destinadas a adolescentes rebarbados com problemas de ejaculação precoce, tipo Morangos com Açúcar.
«Programas GLAPP» destinados a essa imensa minoria de gays e lésbicas à procura de protagonismo e aceitação social, e que acha que só porque aparecem na televisão, vão mudar a mentalidade vigente.
«Programas GGSE» destinados a todos aqueles gajos que gostam de ser enganados (para não dizer outra coisa que os integra automaticamente na categoria anterior), versando debates políticos, coberturas eleitorais, e jogos do Benfica.
E assim por diante até cobrir todo o espectro nacional de labregos, funcionários públicos, grevistas, coçadores de micose, desempregados compulsivos, notários, professores e outras classes profissionais de índole duvidosa.
Aqui temos mais um caso de cabotinice labrega a querer ser muito original e muito didáctica e muito socialmente responsável, enquanto se tapa o sol com a peneira...sejamos honestos meninos.
quinta-feira, setembro 15, 2005
A Razão da Árvore e da Floresta
Para mim o mundo está dividido entre as pessoas que olham para a árvore e as pessoas que olham para a floresta. Cada um de nós tem uma destas… chamemos-lhes vocações. Os que olham para a árvore normalmente reparam em pequenos pormenores, pequenos detalhes, que não deixam de ser importantes por serem pequenos. Sabem quando a árvore precisa de ser podada, quando lhe falta água, quando é necessário colher o fruto. Mas não se apercebem que a árvore faz parte de uma coisa maior a que chamamos de floresta. Não estão interessados em entender o que é a floresta mesmo quando tentamos mostrar-lhe que há mais árvores para além daquela, e que o seu conjunto forma uma massa maior e mais complexa. Não querem saber porque sentem que teriam de dar a mesma atenção a cada uma daquelas outras árvores e sabem que não conseguiriam fisicamente dispender o mesmo carinho que dedicam à sua árvore.
E depois há os outros, os que olham para a floresta como um todo harmonioso e complexo, e têm dificuldade em focar-se numa árvore específica. É a totalidade das árvores que para eles faz sentido, o efeito que a floresta tem como um todo, equilibrando o ecossistema em variados aspectos. Vêem a floresta como um único e articulado ser.
Os que olham a árvore precisam dos que olham a floresta e vice-versa. E porque todos estão conscientes da sua importância relativa neste processo, quer as árvores quer a floresta vão crescendo harmoniosamente. Chama-se a isto progresso.
Cheguei à conclusão que vivo num país míope cheio de árvores e florestas bonsai. Não se consegue ver a árvore nem se vislumbra o que poderá ser a floresta.
quarta-feira, setembro 14, 2005
A Razão da Abrótea
No passado fim de semana apeteceu-me andar de bicicleta. Enchi os pneus à minha «Agressor» (belo nome para uma marca de bicicletas a pedal), que teve dificuldade em lembrar-se de mim um ano e meio depois da nossa última aventura, e fui dar uma volta. No meu trajecto cruzei-me com um grupo de ciclistas que envergavam aquele capacete ridículo, calçavam uns sapatinhos próprios para a modalidade profissional, e vestiam lycra apertada, com os refegos da barriga a fazerem lembrar o bibendum da Michelin. Olhei para a figurinha deles, e para a minha, sem capacete, com uns All Star velhotes no final das calças de ganga, e pensei que o mundo está a ficar amaricado. É verdade: andamos a apaneleirar demasiado esta merda.
No meu tempo andávamos por aí de bicicleta para todo o lado, sem capacete e sem protecções especiais para os pés, para o rabo e para as costas. Chegávamos ao fim do dia moídos e cheios de arranhões, todos sujos do óleo das correntes, mas não andávamos por aí a fazer figurinhas tristes. E sobrevivemos.
Também não usávamos Mukina na água para desinfectar a fruta sempre que nos apetecia uma maçã. Comíamos directamente das árvores, preferencialmente roubadas no quintal do vizinho, o que dava um sabor especial à coisa, e continuámos a sobreviver.
As pastilhas elásticas não existiam em versão diet, aliás quanto mais açúcar tivessem melhor. Mas apesar disso não nos tornámos uns badochas como os putos de hoje. E os nossos dentes sobreviveram.
Os brinquedos não tinham quaisquer avisos de saúde ou de idade recomendada, e ainda assim não me lembro de ninguém ter morrido a tentar engolir o kit de montanhismo do action man – sobrevivemos a isto, é óbvio.
Bebíamos leite acabado de ser mungido, que fervíamos para o esterilizar. Não havia cá as mariquices do leite magro e meio gordo, muito menos leites enriquecidos especialmente dirigidos a grávidas, a intolerantes à lactose ou a atrasados mentais. E nós continuámos a sobreviver, naturalmente.
Os bolos-rei tinham uma fava e um brinde lá dentro, normalmente um boneco de loiça ou de metal, alusivo à época festiva. Alguns de nós escavacaram um dente ou outro a tentar descobrir o brinde, mas ninguém morreu sufocado com um S.Cristovão de loiça atravessado na laringe. Sobrevivemos, pois claro.
Hoje em dia estamos rendidos à mariquice: tudo tão esterilizadinho, tudo tão protegidinho, tudo cheio de medinho de tudo. É tudo tão imbecilmente «perigoso» e «danoso» que corremos o sério risco de nos tornarmos umas abróteas cheias de fobias, com miúfa de existir.
terça-feira, setembro 13, 2005
A Razão da Fundação
Afonso Henriques tinha uma visão: «um reino, um povo, um rei». Não era uma visão muito original, mas pronto, era a sua visão. Para concretizá-la, Afonso Henriques sabia que tinha de fazer uma única coisa: fundar. Fundar como se não houvesse amanhã. Fundar desaustinada e paulatinamente até não haver mais nada passível de ser fundado. E assim nasceu Portugal. O homem fundou que nem um alarve enquanto as suas forças o permitiram, deixando a fundação como um legado para os que vieram a seguir, e que continuaram a fundar. A visão de Afonso Henriques foi-se cumprindo geração após geração: a fundação como garante de expansão e de crescimento da nação, tem um je ne sais quoi de engenharia – afinal de contas uma fundação sólida dá azo a uma obra consistente e duradoura.
Sócrates tinha falta de visão. A verdade é que nunca fora um tipo muito imaginativo, mas agora fazia-lhe mesmo falta uma visão à la Afonso Henriques. Uma coisa que pudesse dar um rumo ao país, com o mesmo vigôr e a mesma intensidade de há 877 anos atrás. Estava a querer dar um novo sentido a este velho conceito da fundação quando o Belmiro lhe deu uma mãozinha: «E que tal implodires a fundação?».
Sócrates não pensou duas vezes. E teve a sua visão: «um país, várias fundações, muitas implosões». E assim renasceu Portugal, aquela grande cratera no ponto mais ocidental da Europa.
segunda-feira, setembro 12, 2005
A Razão do Desempregado Compulsivo
Que Portugal é um país de biscateiros desempregados a mamar do Fundo de Desemprego sem grande vontade de arranjar trabalho já eu sabia. O que eu não fazia ideia era como é que estes parasitas institucionalizados (não, desta vez não estou a falar do Governo) ocupavam os seus tempos livres. Descobri que passam o tempo nas obras. Não é que façam parte das obras… não. Estão lá a observar. A ver se os servo-croatas e os cabo-verdianos deixam aquilo em condições. Afinal de contas as obras estão a ser feitas no nosso país e aquilo é só estrangeirada sobre-habilitada para carregar tijolos e assentar vigas – «é preciso que alguém esteja de olho na merda que aqueles gajos podem fazer! É que os gajos vêm cá chupar-nos o dinheirinho e depois vão embora, e quem tem que levar com a obra somos nós!» dizia-me um deles, sem tirar os olhos do servente ucraniano.
E assim, por cada obra de construção civil existente nesta telenovela mexicana, temos um molhinho de desempregados a observar. Atentos. Críticos. Opinativos. A discutir entre si que o sacana do bósnio tem tanto jeito para aquilo como eles para trabalhar.
O Estado português, essa abstracção incómoda, promove à custa dos contribuintes o aparecimento de um novo tipo de labrego, o «voyeur da obra» pagando-lhes regularmente para coçar a micose à frente de uma qualquer betoneira.
Na semana passada, os «voyeurs da obra» tiveram o seu Stonehenge nacional, financiado pelo Estado e disponibilizado por Belmiro de Azevedo: a destruição das 2 torres. Com um título que parece ter saído da escrita de Tolkien, este evento provocou uma migração de milhares de labregos voyeurs de vários pontos do país, para verem in loco dois prédios a serem implodidos. A dada altura alguém teve a brilhante ideia de reduzir o desemprego em Portugal, convidando os labregos a visitar as instalações alguns minutos antes da derrocada. Mas os madraços, espertos, preferiram mais uma vez ficar de fora e a olhar de uma distância segura – é que demasiada proximidade lhes retira a capacidade de discernimento.
domingo, setembro 11, 2005
A Razão do Estágio
Eu costumo dizer, por piada, que Portugal não se salva enquanto todos os portugueses não forem obrigados, por lei, a fazer um estágio de alguns anos no estrangeiro, mas proibidos de encontrarem-se uns com os outros. Esta proibição é da maior importância, para impedi-los de assarem colectivamente sardinhas, cozerem bacalhau com fervor nacionalista ou trocarem sofregamente as últimas novidades do Chiado.
sábado, setembro 10, 2005
A Razão Fácil
sexta-feira, setembro 09, 2005
A Razão do Notário
Decerto que por uma razão ou por outra já tiveram, a dada altura das vossas vidas, que entrar num notário. Se assim foi, suponho que tenham tido oportunidade de reparar que nem toda a gente pode ser funcionário de um cartório notarial. É uma profissão peculiar que exige um património genético muito particular e está sujeita a uma política de recrutamento espartana, capaz de criar inveja à Al Qaeda.
Antes de mais é preciso realçar com alguma veemência que não se estuda para ser notário – nasce-se notário, e pronto! É um pouco como os atletas de competição: os sprinters têm uma estrutura óssea e muscular diferente dos fundistas; os tenistas com serviços mais eficazes são dotados de uma altura acima da média e têm uns bracinhos mais compridos que os restantes mortais. Também os notários têm as suas características diferenciadoras: o seu cérebro, por exemplo, funciona a um ritmo mais lento (como observamos nos casos mais graves de paralisia cerebral) o que possibilita o armazenamento de dados de uma forma mais metódica.
Para terem uma ideia de como um notário percepciona a realidade à sua volta reduzam a velocidade de um DVD em cerca de 80%: t-u-d-o f-i-c-a m-u-i-t-o l-e-n-t-o e as vozes adquirem um tom grave e arrastado, sendo relativamente dificil de aprender o sentido das frases. Não se admirem portanto que os notários não percebam à primeira o que vocês lhes estão a querer dizer, principalmente vocês, os nervosinhos. E evitem falar devagar para se fazerem entender melhor porque assim é mesmo muito complicado para eles, e demora o dobro do tempo a processar.
A capacidade pulmonar de um notário é francamente mais reduzida que a de um indivíduo normal, impedindo o cérebro de funcionar mais rápido e cansando-os de sobremaneira enquanto fazem o seu rotineiro percurso secretária-balcão-arquivo. Aliás a rotina é aquilo a que um notário aspira desde os seus tempos de estagiário – com o passar do tempo eles vão construíndo carris imaginários que percorrem o todo escritório definindo os seus percursos possíveis. Um notário sénior já tem a sua rede rodoviária definida e move-se, lenta e religiosamente, em cima dos «seus» carris.
O facto de geneticamente possuírem um metabolismo estupidamente mais lento que todos nós, causa-lhes alguns problemas na fala (falam muito lento e muito baixo, sendo por vezes necessário encostarmos a orelha à sua boca – tarefa difícil e perigosa de desempenhar se tivermos um balcão à nossa frente) e problemas vários de concentração e coordenação: é muito vulgar observarmos um notário esgazeado a olhar para o infinito (é a chamada «pausa de hibernação» que, dependendo do seu estágio profissional, pode ocorrer várias vezes ao dia); vulgar é também a dificuldade que apresentam ao teclado de um computador ou de uma máquina de escrever. Os notários mais treinados conseguem atingir velocidades de 2 a 3 segundos entre uma tecla e outra.
Espontaneidade e improviso são conceitos totalmente desconhecidos pelos notários, e confrontá-los com algo inesperado pode ser perigoso dado que estes reagem violentamente – nunca se ostente uma folha de papel que não seja branca ou azul; nunca se apresente como documento oficial um passaporte em vez de um bilhete de identidade; nunca se ouse assinar algum documento a vermelho; e acima de tudo nunca se manifeste corporalmente de uma forma agitada – isso deixa-os nervosos, e o assunto que demoraria 2 horas a resolver poderá atingir uma duração de meses.
Para quem desespera sempre que se desloca a um cartório notarial deixo um pequeno truque que tornará a vossa vida, e a deles, mais fácil: cerca de 3 horas antes de entrarem no notário tomem 3 drunfes, o chamado «kit notário». E tudo fica mais fácil.
quinta-feira, setembro 08, 2005
A Razão Importada
Aqui em Portugal importa-se tudo. Leis, ideias, filosofias, teorias, assuntos, estéticas, ciência, estilo, indústrias, modas, maneiras, pilhérias, tudo nos vem em caixotes pelo paquete. A civilização custa-nos caríssima, com os direitos de alfândega; e é em segunda mão, não foi feita para nós, fica-nos curta nas mangas.
quarta-feira, setembro 07, 2005
A Razão do Atraso
Desde que nasci que ouço que o país está vinte anos atrasado em relação à Europa. Embora esta informação seja muito relativa (quem me diz a mim que não são os gajos que estão vinte anos adiantados?) a verdade é que o atraso faz parte da nossa portugalidade. Um tipo que chega a horas a qualquer sítio em Portugal ou é estrangeiro, ou atrasado mental (lá está, atrasado). A regra dos vinte minutos de atraso é escrupulosamente cumprida em qualquer reunião portuguesa – e não vale a pena chegar a horas, porque quem a agendou irá seguramente chegar atrasado vinte minutos.
Uma obra em Portugal só é considerada uma obra quando apresenta um atraso vergonhoso – senão fôr vergonhoso, é considerada uma obrinha, uma obreca, ou um bico d’obra. Outra coisa que tende também a atrasar em Portugal é o pagamento de qualquer coisa: salários em atraso é normal, prestações em atraso também, impostos em atraso idem.
Mas nisto do pagar atrasado, é o Estado português – essa abstracção incómoda – que bate todos os recordes: num jornal económico lia-se recentemente que os organismos do Estado pagavam, em média, 183 dias depois de terem recebido qualquer serviço. Eu por exemplo há 1.460 dias que espero (entre cartas insultuosas) que o Estado português me devolva o IRS que cobrou indevidamente.
O atraso estende-se a todos os sectores da sociedade nacional, e é algo perfeita e bovinamente natural para o vulgar cidadão: no ensino os estudantes deixam disciplinas em atraso, nos transportes o atraso faz parte do horário, as obras públicas vivem em permanente atraso, os processos atrasam-se uma eternidade nos tribunais, a polícia chega sempre atrasada ao local do crime, até a paciência dos portugueses está em atraso – senão estivesse já tinha havido merda da grossa.
Mas a grande e derradeira prova que o país está mesmo vinte anos atrasado é-nos dada pelos atrasados mentais da política nacional e pelas próximas eleições presidenciais – onde os intervenientes foram repescados de uma realidade política que existiu há vinte e cinco anos atrás. Desde então parece que não aconteceu nada… só atraso.
terça-feira, setembro 06, 2005
A Razão do Elefante com Alzheimer
Durante muitos anos habituei-me a vê-lo sempre por ali. Sempre que lhe dava uma moeda ele tocava a sineta, com o mesmo entusiasmo. Para mim é como se ele sempre tivesse lá estado – quando nasci já ele era mestrado no toque da sineta, e os adultos falavam dele como se tivesse feito parte também da sua infância.
Os anos passaram e ele deixou de tocar a sineta com a mesma pujança. E nós compreendemos, afinal de contas estava velho e já devia estar farto daquilo. Quando se foi embora, esperámos em vão que fosse substituído por um mais novo que tocasse a sineta com o mesmo fulgôr. Confesso que tinha a esperança que o que viesse a seguir, mais novo, introduzisse algumas inovações e tocasse não uma, mas um conjunto de sinetas. O facto é que não conseguiram arranjar-lhe um substituto. Diziam que os mais novos já não se interessavam pelas sinetas, só queriam mesmo era estar de papo para o ar, sem que ninguém os chateasse. E a coisa foi ficando assim, e eu acabei por me esquecer completamente dele e da sineta. Até à semana passada.
Vi na televisão que o elefante da sineta tinha voltado. Mostraram-no a tentar tocar à sineta, como antigamente, mas tudo aquilo era confrangedor. É que a sineta já não estava lá, mas ele fazia os mesmos gestos, bem mais lentos do que outrora, à espera que alguma coisa tocasse. E a malta disfarçava, fingia que não percebia, e aplaudia o velho e ainda simpático elefante com alzheimer.
segunda-feira, setembro 05, 2005
A Razão das Entrevistas Pagas
Na Focus da semana passada, a minha atenção recaíu sobre um inquérito a uma jovem empresária portuguesa. Na nota biográfica da senhora lia-se, entre outras coisas irrelevantes, que era a «primeira mulher do Mundo a organizar eventos de vale tudo.»
Ok…
- Vale arrancar olhos? Vale. Vale tudo.
- Vale sexo sem compromisso? Vale. Vale tudo.
- Vale molestar os anões besuntados em margarina vegetal? Vale. Vale tudo.
- Vale usar cavalos pentapérnicos e mulheres desnudas em alegres perseguições pelos bosques? Vale. Vale tudo.
- Vale enfiar os dedos na torradeira e cantar «A minha sogra é um boi» envergando umas cuecas de gola alta à laia de chapéu? Vale. Vale tudo.
- Vale fazer um comboiozinho gay-lésbico onde cada participante come o gelado do outro? Vale. Vale tudo.
- Vale enfiar a língua na orelha dos garçons do evento e dizer «acho que descobri a tua terceira visão»? Vale. Vale tudo.
- Vale uma tribo de somalis untadinhos que sodomizem obsessivamente, entre cânticos tribais, a organizadora do evento? Somalis?? Ai que nojo! Somalis não vale!
domingo, setembro 04, 2005
A Razão da Resposta
sábado, setembro 03, 2005
A Razão Honesta
sexta-feira, setembro 02, 2005
A Razão Extraterrestre
O nosso planeta, atestadinho de vida supostamente inteligente faz parte de um sistema de 9 planetas que rodopiam alegremente em torno do sol. Pelos vistos nenhum dos outros planetas tem qualquer espécie de vida, o que nos dá uma espécie de exclusividade que nos isenta de pagar condomínio na Via Láctea. Seria ingénuo da nossa parte, para além de probabilisticamente improvável, pensar que somos os únicos seres pensantes no universo. Não tenho grandes dúvidas que há por aí gajos mais pensantes do que, por exemplo, o nosso actual executivo. Bem, mas para isso nem precisamos de saír deste planeta... adiante.
Uma coisa que me faz alguma confusão nesta história das civilizações extraterrestres é que eles insistem em aparecer sempre no mesmo sítio: o interior dos Estados Unidos, em regiões habitadas por labregos de pescoço vermelho que não distinguem uma debulhadora mecânica de um boeing 747, quanto mais uma nave vinda do espaço sideral. Já alguém viu um OVNI em Paris ou em Milão? Claro que não, embora num lado e noutro encontremos restaurantes mais interessantes do que na hillbillylândia, o que me leva a crer que os aliens não estão puto interessados na gastronomia local.
Durante muito tempo questionei-me porque é que os extraterrestres não estabeleciam contacto connosco. Convenhamos que não é muito educado da parte deles entrarem por aqui adentro à surrelfa e limitarem-se a observar discretamente a malta sem tentar falar com connosco. Se fossem japoneses ainda se percebia, mas apesar de pequeninos os gajos não são amarelos - aparentemente são acinzentados (eu se andasse em naves espaciais que se deslocam em sacões violentos daqui para o infinito também ficaria cinzento, ou cinzento esverdeado). Mas mais tarde percebi que os tipos não estabelecem contacto porque são claramente mais inteligentes que nós: só alguém com dois dedos de testa (e os gajos têm, segundo testemunhos, pelo menos dois palmos) evitaria meter conversa com alguém com o gabarito intelectual de um labrego norte-americano.
A forma das naves, descritas por quem as viu de relance, também é esquisita: umas em forma pires de cibalinho e outras que fazem lembrar um charuto. Nunca ninguém viu nenhuma em forma de chávena, muito embora um agricultor da Pensilvânia insista que foi perseguido por uma que tinha a forma das mamas da Marisa Cruz, com megafones nos «mamilos» que repetiam «Bou-te biolar à vruta» em 5 línguas diferentes, mas sempre com sotaque tripeiro.
Uma coisa é certa: não estamos sózinhos. E alguns de nós estão mesmo muito bem acompanhados. O João Pinto, por exemplo. É caso para dizer «Acredita João Pinto!!».
quinta-feira, setembro 01, 2005
A Razão do Género
A própria designação «género oposto» é insidiosa, e remete para uma linha fronteiriça que não está lá, sugerindo que um género deverá sempre marrar contra o outro, o que normalmente acontece.
Mas o oligopólio dos dois géneros é algo tão irritantemente artificial como a linha do horizonte: já alguém alguma vez segurou a linha do horizonte firmemente, com ambas as mãos? Eu já, mas a vodka era de má qualidade e o barco balançava muito.
Pessoalmente acho que andamos todos a fazer género quando insistimos neste tratado de tordesilhas sexual, dividindo o mundo ao meio, metade para ti metade para mim, e depois passamos a vida empoleirados na cerca a tentar perceber o que está do outro lado e a tentar provar, ou comprovar, as diferenças que nos tornam o outro género. O sexismo é uma perda de tempo tão estúpida e vã quanto o racismo que, decididamente, não faz o meu género.
Por estas e por outras é que, quando o John Gray escreveu Os homens são Marte e as mulheres são de Vénus tive uma vontade irreprimível de lhe mandar lá a casa uma tribo de somalis de Plutão, devidamente untadinhos, com o intuito de lhe mostrar o quão retráctil pode ser uma próstata. Contive-me, claro.