quarta-feira, dezembro 07, 2005

A Razão da Reencarnação

reencarnacao
H e D viveram um tórrido romance de amor. Eram almas gêmeas, diziam eles. Apaixonaram-se aos dois anos de idade, algures em 1423, casaram aos cinco, tiveram aos doze o primeiro de 38 filhos, morreram trisavós jurando amor eterno. H reencarnou numa foca no Ártico enquanto D, anos mais tarde, reencarnou num gnu em África. Depois H reencarnou num Panda na Ásia e D reencarnava num esturjão, algures no mar Ártico. O reencontro pareceu impossível durante gerações: H foi um crisântemo, um gladíolo, um rinoceronte com asma, uma avestruz com artrose, um golfinho com caspa, enquanto D foi uma galinha da Índia, uma vaca sagrada, um pinheiro bravo, e um jumento com gonorreia.
Um belo dia reencarnaram num homem e numa mulher. E reencontraram-se. Tinham ambos 20 anos. Voltaram a apaixonar-se perdidamente. Casaram. H tornou-se funcionário público e desatou a beber que nem um alce em época de cio. D trabalhava num escritório de contabilidade. Nunca tiveram filhos. H está preso por violência doméstica. D está com o braço esquerdo paralisado para o resto da vida. É lixada a reencarnação...

terça-feira, dezembro 06, 2005

A Razão do Crucifixo

crucifixo
A grandeza de um líder é determinada pela amplitude dos seus gestos políticos, económicos e sociais. É a velha história da árvore e da floresta. O liderzeco preocupa-se com as pequenas coisas e portanto a amplitude dos seus gestos é bastante reduzida. O liderzão está preocupado com a floresta e os seus gestos revelam-no: são largos, extensos, focados no futuro mas sem danificar o presente.
Pois bem, aqui na nossa telenovela mexicana Sócrates tem-se revelado bastante distante daqueles nossos líderes passados que, com a mania das grandezas, pensavam em grande. Pensar em grande é bom, porque nos torna também a nós grandes. Não encontramos esse inconformismo da pequeneza em Sócrates, muito pelo contrário: o aparelho do Estado consome mais de metade dos recursos do país? Então aumente-se os impostos para que a outra menos de metade pague a inoperância pegajosa das instituíções estatais. O país precisa de atraír investimento estrangeiro? Então taxe-se absurdamente as várias actividades económicas deste país para sacar o máximo possível a quem poderia dinamizar a economia. O país precisa de investir? Então invista-se em aeroportos desnecessários, para encapotar o investimento que Stanley Ho vai emprestar ao Estado português.
Tudo medidas pequeninas. À medida dos homens que nela pensam, e do homem que as aprova. A última medida pequenina foi a da proibição dos crucifixos nos estabelecimentos de ensino – uma muy distinta medida governamental que surgiu como resultado da pressão de um não menos distinto grupelho de laicos cidadãos nacionais. Eu até sou ateu e tanto se me dá que as escolas tenham crucifixos ou objectos de culto satânico. O que me chateia é legislar sobre esta matéria. Perder tempo com isto. Ceder a pressõzecas de uma cambada de labregos laicos que se sentem discriminados nas suas (livres) opções religiosas. O país está a ficar mais pequeno, e os portugueses cada vez têm menos culpa de terem eleito uma vara de liderzecos.

segunda-feira, dezembro 05, 2005

A Razão Dogmática

dogmatica
O responsável máximo pelo maior antro ancestral de paneleiragem decidiu mais uma vez repudiar os homossexuais, desta feita os que se dedicam ao sacerdócio. Esta medida de inspiração orwelliana, digna do «Animal Farm», estipula que aos olhos de Deus «somos todos iguais mas há alguns menos iguais que outros», e revela mais uma vez a hipocrisia, o mamutismo, e prepotência bacoca que a Santa Igreja insiste em exibir de geração em geração.
Quererá sua Santidade atirar-nos areia para os olhos? Terá sua Eminência noção das baixas clericais que tal repúdio causará? Pensará o Sumo Pontífice que ao repudiar os homossexuais toda a gente vai pensar que afinal as festas nocturnas com somalis criteriosamente untadinhos eram apenas homilias dedicadas a países desfavorecidos? Não sabemos. Só sabemos que a partir de hoje um pequeno trejeito mais amaricado, um menear de anca mais pronunciado, um gritinho histérico mais estridente serão considerados pela Santa Igreja como sintomas de forte homossexualidade, e portanto, repudiados (com a tradicional penalização de afinal não ter direito a entrada livre no Reino dos Céus). Falava há dias da ditadura económica de Sócrates, pois bem, temos aqui a nova Inquisição – as bruxas dos Século XXI acabaram de ser criadas: quem porventura tiver a oportunidade de observar um indivíduo a fazer coisas inexplicáveis com um cabo de uma vassoura na sua própria próstata, queira alertar o Santo Ofício.

domingo, dezembro 04, 2005

A Razão do Notário

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Decerto que por uma razão ou por outra já tiveram, a dada altura das vossas vidas, que entrar num notário. Se assim foi, suponho que tenham tido oportunidade de reparar que nem toda a gente pode ser funcionário de um cartório notarial. É uma profissão peculiar que exige um património genético muito particular e está sujeita a uma política de recrutamento espartana, capaz de criar inveja à Al Qaeda.
Antes de mais é preciso realçar com alguma veemência que não se estuda para ser notário – nasce-se notário, e pronto! É um pouco como os atletas de competição: os sprinters têm uma estrutura óssea e muscular diferente dos fundistas; os tenistas com serviços mais eficazes são dotados de uma altura acima da média e têm uns bracinhos mais compridos que os restantes mortais. Também os notários têm as suas características diferenciadoras: o seu cérebro, por exemplo, funciona a um ritmo mais lento (como observamos nos casos mais graves de paralisia cerebral) o que possibilita o armazenamento de dados de uma forma mais metódica.
Para terem uma ideia de como um notário percepciona a realidade à sua volta reduzam a velocidade de um DVD em cerca de 80%: t-u-d-o f-i-c-a m-u-i-t-o l-e-n-t-o e as vozes adquirem um tom grave e arrastado, sendo relativamente dificil de apreender o sentido das frases. Não se admirem portanto que os notários não percebam à primeira o que vocês lhes estão a querer dizer, principalmente vocês, os nervosinhos. E evitem falar devagar para se fazerem entender melhor porque assim é mesmo muito complicado para eles, e demora o dobro do tempo a processar.
A capacidade pulmonar de um notário é francamente mais reduzida que a de um indivíduo normal, impedindo o cérebro de funcionar mais rápido e cansando-os de sobremaneira enquanto fazem o seu rotineiro percurso secretária-balcão-arquivo. Aliás a rotina é aquilo a que um notário aspira desde os seus tempos de estagiário – com o passar do tempo eles vão construíndo carris imaginários que percorrem todo o escritório, definindo os seus percursos possíveis. Um notário sénior já tem a sua rede rodoviária definida e move-se, lenta e religiosamente, em cima dos «seus» carris.
O facto de geneticamente possuírem um metabolismo estupidamente mais lento que todos nós, causa-lhes alguns problemas na fala (falam muito lento e muito baixo, sendo por vezes necessário encostarmos a orelha à sua boca – tarefa difícil e perigosa de desempenhar se tivermos um balcão à nossa frente) e problemas vários de concentração e coordenação: é muito vulgar observarmos um notário esgazeado a olhar para o infinito (é a chamada «pausa de hibernação» que, dependendo do seu estágio profissional, pode ocorrer várias vezes ao dia); vulgar é também a dificuldade que apresentam ao teclado de um computador ou de uma máquina de escrever. Os notários mais treinados conseguem atingir velocidades de 2 a 3 segundos entre uma tecla e outra.
Espontaneidade e improviso são conceitos totalmente desconhecidos pelos notários, e confrontá-los com algo inesperado pode ser perigoso dado que estes reagem violentamente – nunca se ostente uma folha de papel que não seja branca ou azul; nunca se apresente como documento oficial um passaporte em vez de um bilhete de identidade; nunca se ouse assinar algum documento a vermelho; e acima de tudo nunca se manifeste corporalmente de uma forma agitada – isso deixa-os nervosos, e o assunto que demoraria 2 horas a resolver poderá atingir uma duração de meses.
Para quem desespera sempre que se desloca a um cartório notarial deixo um pequeno truque que tornará a vossa vida, e a deles, mais fácil: cerca de 3 horas antes de entrarem no notário tomem 3 drunfes, o chamado «kit notário». E tudo fica mais fácil.

Publicado a 9 de Setembro de 2005

sábado, dezembro 03, 2005

A Razão do Autarca

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autarca
Esta polémica toda sobre a OTA e o TGV deixa revelar que o governo é gerido por gajos com mentalidade de autarcas. Dentro de cada ministro há um autarca a querer saír e a fazer a merda do costume.
Sobre a OTA e o TGV falarei com mais detalhe amanhã. É uma conspiração tenebrosa que merece ser revelada com alguma solenidade.
Hoje vou dedicar-me aos autarcas e às suas razões. O político de autarquia está para o político nacional como a fisga está para a catapulta: ambos arremessam projécteis, mas uns fazem mais merda que outros. É tudo uma questão de dimensão.
Fazer merda em grande escala é uma característica de perfil que auspicia um futuro glorioso na liderança dos destinos da nação – um autarca típico não tem a capacidade intelectual nem financeira para dar cabo da economia do país com uma OTA ou com um TGV. O autarca local é, como a própria designação implica, um gajo que faz merda a um nível muito restrito. Tanto autarcas como políticos gastam o dinheiro dos contribuíntes em aleivosias disparatadas. Mas no caso dos autarcas são aleivosiazinhas, disparatezinhos, pequenos insuflares de egozinhos. É o Portugal dos Pequeninos da política. É a cabotinice provinciana que, quando atinge limites para além do normal, culmina na fuga para o Posto 6 de Copacabana, ou na participação em reality shows de qualidade sempre duvidosa. Mas na maior parte dos casos os autarcas ficam-se pelas rotundas e pelos semáforos. Autarca que não tenha construído umas belas rotundas e plantado uns belos semáforos não pode ser digno dessa função. É uma espécie de mijinha do cão para a posteridade, para um dia puderem dizer aos netos: «Estás a ver ali aquele semáforo? Foi o avô que o pôs lá!» E a criancinha olha esgazeada para o semáforo a tentar imaginar como é que aquela fraca figura teve força de levar aquilo em ombros para ali.

Um post dedicado aos semáforos da cidade algarvia de Lagos.

Publicado a 8 de Agosto de 2005

sexta-feira, dezembro 02, 2005

A Razão da Greve

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A coisa mais útil que se pode fazer num país que não produz a ponta de um chavelho é uma greve. As greves são libertadoras, são relaxantes, e acima de tudo são produtivas. Produzem belos dias de lazer, na praia, na cidade ou no campo, sem fazer absolutamente nenhum.
És funcionário público e achas mal trabalhares as mesmas horas que um empregado privado? Faz uma greve. És motorista da Carris e chateia-te fazer 40 horas de trabalho por semana? Faz uma greve. És professor e babas-te que nem um camelo? Faz uma greve no dia dos exames nacionais para lixares a vida a uma série de miúdos que inocentemente acharam que lhes ias ensinar alguma coisa de produtivo. És polícia e aborrecem-te os arrastões? Faz duas greves. És bombeiro e enerva-te haver falta de água para os fogos? Faz uma greve. És um magistrado e estás escandalizado porque já não podes ter 3 meses de férias judiciais? Faz uma greve. Mas antes de fazeres uma greve certifica-te se tens condições para fazer uma boa greve:

A boa greve faz-se de Verão. Não tem jeito nenhum fazer greves à chuva e ao frio. As disputas ideológicas ficam mais quentes no Verão.

A boa greve faz-se à segunda ou à sexta-feira (de preferência à segunda e à sexta-feira) porque assim podes gozar à brava com os babacas privados que vão de manhãzinha trabalhar para pagarem o prejuízo de tu não trabalhares porque estás em greve.

A boa greve faz-se com catering. Uma greve sem catering não é uma greve, é um grupo de javardos que acredita que vai conseguir alguma coisa do patronato só porque ficam todos juntos de pé e aos berros.

A boa greve começa à primeira hora do dia, mas só tem manifestação por volta das 20:30h em frente da Assembleia da República, já vazia. Isto permite-te dares um pulinho à praia, dares uma voltinha pelos centros comerciais, ver as garinas, e depois da manif (que não deve exceder os 60 minutos) ires alegremente jantar com os colegas.

Se pelo menos uma destas condições não estiver cumprida, queixa-te ao sindicato e faz uma greve para obteres condições. Lembra-te que só os bons bandalhos fazem boas greves. Avante Labregos!

Publicado a 24 de Junho de 2005

quinta-feira, dezembro 01, 2005

A Razão do Labrego

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País de longa tradição no desenvolvimento do labrego nacional, Portugal chegou a um ponto de saturação do número de labregos per capita. Dados recentes do INE apontam para que a população labrega seja neste momento muito superior à portuguesa. «Começamos a ter dificuldade em separar os portugueses dos labregos, uma vez que os primeiros parecem ter sido perfeitamente aculturados pelos segundos» afirma o responsável máximo por esta instituíção.
O Governo já admitiu ser maioritariamente constituído por labregos de 2ªgeração, não prevendo que a situação se altere nos próximos 4 anos, o que coloca Portugal no primeiro país europeu a ter uma maioria de população labrega, governada por labregos.
O impacto do nacional labreguismo já começou a sentir-se na economia nacional – é característica do labrego a completa ausência de noção de gestão, o despesismo descontrolado e tendencioso, uma compulsiva tendência de prometer uma coisa, fazendo exactamente o contrário, e a fuga a toda e qualquer espécie de imposto.
Especialistas internacionais no fenómeno expansionista do labrego, afirmam que o processo é irreversível e que dentro de poucos anos Portugal não terá portugueses. Sugerem ainda que se comece a mudar nome do país para Labregal.
O número de escolas para labregos tem aumentado exponencialmente nos últimos 10 anos, com todos os inconvenientes que estas acarretam: taxas de insucesso escolar perto dos 100%, não pagamento de propinas, e uma tendência compulsiva de arrastões diários num raio de 2km em torno de cada escola.
O número de empresas labregas também aumentado, mas aqui a situação é menos grave porque, como se sabe, a duração de vida de uma empresa labrega é de um ano, exactamente o tempo que levam a esgotar-se os fundos europeus de incentivo à criação de empresas.
Estima-se um novo fluxo de emigração nacional com características muito diferentes das que assistimos na década de 60 do século XX: a mão-de-obra especializada e sem paciência para os labregos nacionais começa calmamente a abandonar o país.
Os labregos andam tão preocupados (fizeram contas e descobriram que os que ficam são todos uns labregos tesos) que lançaram esta semana o programa social “Adopte um Português”. Quem quiser ficar e ser adoptado por um labrego basta inscrever-se no centro de segurança social da sua zona de residência.
Cantem comigo o novo hino nacional: «Labregos do mar…»

Nota: Quem acha que eu estou a reinar que faça uma visita aqui

Publicado a 21 de Junho de 2005

quarta-feira, novembro 30, 2005

A Razão da Aliança

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O George Lucas lançou recentemente o último episódio da 2ªtrilogia da série de três trilogias que tinha inicialmente pensado, mas que decidiu a meio caminho transformar em apenas duas por falta de verba e pachorra. Confuso han?
Falo obviamente do Star Wars. Eu sou um fã da primeira trilogia e acho que a paneleirice dos efeitos especiais de última geração que tomaram conta da segunda trilogia, tornaram o produto final mais pobre. Ainda assim divirto-me com os seis episódios. Não haja dúvida que aquilo é mesmo ficção ciêntífica, mas não pelo facto de retratar o futuro e envolver naves espaciais, galáxias distantes, e seres esquisitos à porrada com andróides. Aquilo é ficção porque supostamente retrata uma aliança humana que, sabemos hoje, seria impossível de obter.
Imaginem que o exército revoltoso da Aliança era formado pelos 25 países da união europeia, e conseguem ter uma perspectiva daquilo que provavelmente aconteceria.
Os franceses recusar-se-iam a combater pela Aliança até que esta adoptasse o francês como língua oficial. Os ingleses formariam um grupinho à parte e nunca se perceberia se faziam parte da Aliança ou não. Os alemães fariam campos de extermínio de droids e siths e ficariam assim entretidos. Os holandeses evitariam andar à porrada e praticariam uma política de tolerância com as forças Imperiais, procurando retirar dividendos daquilo a que chamariam uma «parceria comercial sem fins políticos». Os espanhóis atiravam-se de peito feito a todas as naves imperiais e extinguir-se-iam logo de seguida. Os italianos criariam uma unidade especial de combate (os carabinieri rabetini) especializada em atacar o Império pela rectaguarda, mas só depois de terem recebido as "luvas" de combate. Os dinamarqueses andariam felizes como a merda a conduzir as suas naves todos nús, promovendo alegres orgias inter-estelares. Os gregos criariam a «Ala dos Namorados», uma força gay de intervenção, distinguindo-se por usar sabres de queijo feta com uma mestria capaz de engordurar qualquer soldado do Império. Os belgas especializar-se-iam em desbastar as crianças Sith. Os polacos, lituanos, checos e todas as nações do leste europeu, combateriam valentemente a qualquer preço, desde que não os mandassem embora da Aliança. Os portugueses, esses rapazes do Quinto Império, nunca teriam qualquer intervenção no conflito. A bordo da sua única nave, um chasso comprado a prestações e em segunda mão pelo ministério da defesa, chegariam sempre tarde a qualquer batalha interestelar, conquistando a alcunha de «o cú da Aliança». Pequeninos e ruídosos, sempre em autocomiseração, percorreriam galáxias em direcção a lado nenhum. O costume…

May the force be with you.

Publicado a 6 de Setembro de 2005

terça-feira, novembro 29, 2005

A Razão do Feng Shui

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yinyang
Depois de ter sido verdadeiramente massacrado por um amigo arquitecto, que insistiu que eu me devia imbuír do espírito de Feng Shui para criar energias positivas numa vida que não me andava a correr lá muito bem, decidi fazer algumas alterações na minha casa, seguindo rigorosamente os seus ensinamentos:
Na entrada pendurei um Ba Gua raso. Não fica lá grande coisa e dá um ar folclórico à entrada mas é suposto ser um catalizador de excelentes energias. Disso e do couro cabeludo que lá deixei por ter pendurado aquela merda muito baixo.
Na maçaneta da porta de entrada pendurei 3 moedas chinesas numa fita vermelha, para atraír «dinheiro auspicioso». Passam a vida a roubar-me as moedas, e eu passei a ser o melhor cliente da loja dos chinocas na esquina do meu prédio.
Comprei dois cães Fu em porcelana que coloquei do lado de fora da porta, um de cada lado, para guardar a casa. Os vizinhos gostam de lhes mandar uns violentos pontapés.
Instalei um pequeno lago artificial na varanda da casa, onde coloquei 8 peixinhos dourados e um peixinho preto. Era suposto o peixinho preto atraír tudo o que é negativo e indesejável, mas o sacana do peixe desatou a comer os peixes dourados e eu gasto uma fortuna a substituí-los todas as semanas. O peixe preto está tão bem alimentado que a varanda já começou a dar de si.
Nas traseiras da casa, na ponta do lado esquerdo, mandei construír uma cascata ruidosa. A cascata é suposto fazer correr mais dinheiro. E aparentemente funciona: com as indemnizações que os vizinhos me pediram a minha conta bancária parece mesmo um rio a escoar.
Dispus plantas de flor vermelha ao longo do corredor, em grupos de 3, até à porta de entrada. Já escorreguei várias vezes na merda das folhas e na última das quedas deixei de poder virar o pescoço para a direita. O ortopedista diz que é permanente.
Apontei uma luz no lado de fora para a minha porta de entrada de modo a estar iluminada durante a noite. Desde então passo a vida a explicar aos bêbados locais que a minha casa não é um bar de alterne.
Atestei todas as divisões da minha casa com plantas de folhagem verde em formas de moedas. Ainda estou para perceber que porra de efeito é que faz a forma da merda das flores.
Para criar um constante fluxo de energia mudo a minha mobília de sítio todos os dois meses. Um processo cansativo, e que requer muita energia para levar em ombros aquela porcaria toda. À conta disto, os vizinhos do andar de baixo fazem manifestações violentas à porta de minha casa e destroem-me sistematicamente os cães Fu.
Frequentemente limpo os meus armários da roupa, que ofereço à minha empregada ou a instituíções de beneficência. Segundo o Feng Shui manter roupa usada no armário interfere nas energias, tipo «bate na válvula e volta pra trás». Estou a ficar sem grandes opções de escolha, vou ter de ir aos saldos brevemente.
Deixei de ouvir os Da Weasel e agora só ouço música com sons de floresta, de mar, ou de chuva a caír. Junto-lhe uns pauzinhos de insenso para dar um cheiro relaxante ao ambiente. A polícia já me entrou pela casa adentro algumas vezes julgando tratar-se da sede de uma seita Koreshiana. Pouco falta…
Pintei a minha caixa de correio com flores de cores garridas. Ficou foleiro à brava, mas assim não corro o risco de receber más notícias.
Retirei o espelho do tecto do meu quarto (mas mantive a cama redonda) e acrescentei espelhos em todas as divisões pequenas da casa, para criar uma maior sensação de espaço: confesso que ainda não me habituei a ver-me ao espelho enquanto estou sentado na pia.
Era suposto eu estar em paz e em perfeita harmonia com o que me rodeia, atravessado por uma onda de energia inexplicavelmente tranquilizante, mas não! Estou uma pilha de nervos, a minha casa parece ter sido decorada pelos chineses contorcionistas do Circo Chen, os vizinhos dão-me cabo da cabeça, o peixe negro já parece uma toninha, e a minha vontade é de contratar uma tribo somali feng shungueira que dê um andar diferente ao meu amigo arquitecto. Raizupartam!

Publicado a 27 de Abril de 2005

segunda-feira, novembro 28, 2005

A Razão do Professor

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profe
Ao fim de tantas reformas de ensino ainda não perceberam que o que deviam reformar, perpétua e drasticamente, eram os professores. Está provado que na sua génese, o professor é aquele tipo de pessoa que não tem jeito nem talento para fazer coisa nenhuma, e que consequentemente decide passar o resto da vida a falar do que os outros fizeram. Enfim, um javardola pouco imaginativo. Senão vejamos: a sua capacidade de concentração atinge o limite ao fim de cada 50 minutos, findos os quais tem que ir a correr para um reduto (vulgo, sala dos professores) de forma a certificar-se que existem seres com o mesmo miserável destino e poder aguentar os próximos 50 minutos. Também não é por acaso que o professor representa a classe humana mais pavloviana que existe: só se mexe quando toca a sineta, e saliva que nem um animal (todos nós nos lembramos dos perdigotos que apanhávamos quando por azar ficávamos na carteira da frente). Depois é um ser que não aguenta os mesmos meses de actividade que outro qualquer trabalhador – embora diga que está atafulhado de reuniões, sabemos bem que, na realidade, está na taberna mais próxima a decidir o aproveitamento das suas vítimas entre copos entremeados de tinto e branco, conforme o seu estado de humor. E que dizer de um ser cuja função consiste em pegar num pedaço de giz que esfrega freneticamente numa ardósia negra e que tem como ponto alto mensal a reunião de pais? Nada, suponho. O facto de a maioria deles nunca saber onde vai ser colocado no país dá-lhes um modus vivendi cigano que se reflecte na maneira como instruem as suas vítimas: tudo é transitório (até a inteligência do próprio professor), e nada é dado como certo (nem a roupa interior que se vestiu no próprio dia). Outra coisa curiosa é que os professores nunca têm identidade própria: ou são prófes, ou setôres. Quais as implicações de tudo isto? Não faço a mínima ideia, agora uma coisa é certa - se porventura depararem com um blog feito por um professor façam apenas uma pergunta: oh professor, posso ir um bocadinho lá fora?

Publicado a 25 de Janeiro de 2005

domingo, novembro 27, 2005

A Razão do Medo

medo

Uma pesquisa recente mostrou que o maior medo de uma pessoa normal é ter de fazer um discurso público. Isto superou até o medo da morte, que apareceu em terceiro lugar na lista. Portanto o que isto significa é que num qualquer funeral a maior parte das pessoas preferiria estar no lugar do morto do que fazer a elegia fúnebre.

Jerry Seinfeld

A partir de amanhã e durante os próximos sete dias, integrado nas comemorações do primeiro ano de existência da Razão tem sempre Cliente, será publicado o best off da Razão: uma escolha perfeitamente tendenciosa, subjectiva e pessoal, dos posts que me deram mais gozo a escrever.

sábado, novembro 26, 2005

A Razão Ignorante

descansada

Quanto menos soubermos sobre como são feitas as salsichas e as leis, mais descansados dormiremos.


Otto von Bismarck

sexta-feira, novembro 25, 2005

A Razão do Adeus

adeus

De vez em quando reparo na influência que a religião tem na nossa língua e nas coisas mais básicas que ela expressa. «Adeus», aquela palavra que usamos vulgarmente para nos despedirmos uns dos outros, é um desses exemplos.
Quando um povo católico se despede a coisa fica carregada daquela inexorabilidade bacoca do reencontro – convém perceber que quando se manda alguém «a Deus» está-se inconscientemente a dizer «vai desta para melhor, meu querido». É que num país católico só vai a Deus quem deixa de existir num plano terreno, ou tratando os bois pelos nomes: quem morre! Podemos sempre acreditar que o sentido não é este, que na pior das hipóteses «adeus» significa «vai ali à casa de Deus». Mas seria rídiculo termos de passar pela igreja mais próxima sempre que nos despedíssemos de alguém. Para além de poder ser perigoso, por corrermos o risco de nunca mais de lá saírmos (a não ser que se evitássemos despedidas dentro das igrejas)
Franceses, Portugueses e Espanhóis (e seus derivados coloniais) usam alegremente esta espécie de maldição sempre que os seus caminhos se bifurcam. Mais valia assumirem a coisa de uma forma consciente e dizerem «vai morrer longe!».
Mas nem todos os povos têm este mau feitio dos católicos. Até os italianos, católicos convictos, se aperceberam do significado do termo e criaram o «Ciao». Também não acho que o «Ciao» seja uma palavra que dignifique a separação, até porque os italianos a usam arbitrariamente, seja para significar «Olá» seja para significar «Adeus» - que é a mesma coisa que dizer que «estares aqui ou estares ali, para mim é a mesma coisa» o que não é uma coisa educada para se dizer a outra pessoa, principalmente se gostarmos dela.
Os ingleses têm uma maneira mais civilizada de se despedirem. Se analisarmos o sentido de «goodbye» veremos que este significa algo do tipo «boa passagem» (que em português correcto seria «passa bem»). É infinitamente melhor do que mandar alguém «desta para melhor» (outra expressão nacional que significa exactamente o contrário daquilo que descreve). «Goodbye» encerra um desejo altruísta - com uma pitada de egocentrismo - de que o outro esteja bem mesmo quando não está perto de nós.
São os alemães que têm a maneira mais simples de despedida. Sem floreados e merdices desnecessárias: «Auf Wiedersehen» significa «até à vista» não tem segundos significados – vou deixar de te ver e portanto até um dia destes em que nos veremos novamente. Sempre é mais agradável do que «Adeus», com tudo o que isso implica.
Pessoalmente gosto da maneira japonesa da despedida, na zona de Tóquio: «Mata ai Masho». Não faço ideia do que significa, mas que soa bem soa.
E agora, se me permitem, vão todos morrer longe. E desenganem-se se acham que este é um post de despedida.

quinta-feira, novembro 24, 2005

A Razão Feudal

Li ontem que sempre que utilizar o aeroporto da Portela vou pagar uma taxa de sete euros para ajudar a pagar o aeroporto da OTA. Aqui está mais um excelente exemplo labrego da política económica de Sócrates: tome-se as decisões arbitrárias e tendenciosas que se quiser e faça-se os cidadãos pagarem mais uma taxa, para além dos impostos e do IRS. Daqui por uns anos, os alunos de ciência política das universidades portuguesas vão aprender com alguma surpresa que, no início do século XXI, um conjunto de imbecis liderados por um engenheiro, recriou um sistema de feudalismo económico semelhante ao que se praticava no século V.
Para mim não existe apenas uma forma de ditadura. Temos a ditadura política que cala e elimina toda a forma de oposição. E depois temos a ditadura económica, ainda mais perigosa porque surge sob uma falsa capa de democracia, e que paulatinamente vai sugando os cidadãos com uma taxa aqui, uma taxa ali, um agravamento aqui, um imposto acolá, e assim sucessivamente até à inconsciência.

Só um engenheiro é incapaz de perceber que este sistema feudal vai estrangular o país no médio prazo... mas também quem disse que ele vai querer cá estar no médio prazo?

terça-feira, novembro 22, 2005

A Razão da Paciência

paciencia

Tenha paciência mas vai ter que passar para a caixa ao lado porque esta vai fechar. Tenha paciência mas hoje acabaram logo antes do almoço, agora só amanhã. Tenha paciência mas isso não faço – há-de haver quem faça, mas não serei eu certamente. Tenha paciência e dê aí um jeitinho para eu passar. Tenham paciência mas vão ter de pagar mais impostos para o ano que vem.
Ao longo da nossa vida pedem-nos para ter paciência, quase diariamente. A coisa está tão enraízada no nosso discurso do dia a dia que tenho dúvidas se somos um povo bovinamente paciente porque nos martelam com isso todos os dias, ou se nos exigem algo que temos ancestralmente nos nossos lusos genes.
Cá para mim os espanhóis andam, há algumas gerações, a atirar drunfes para os caudais dos rios à saída da fronteira. Estamos todos pachorrentamente dopados e cheios de paciência à conta de doses diárias de soporíferos e ansiolíticos diluídos nas águas castelhanas (fora aqueles que tomamos voluntariamente todos os dias em terras lusitanas). Haja paciência, evitem a água: bebam vinho.

domingo, novembro 20, 2005

A Razão Própria

propria

Somos mais persuadidos pelas razões que descobrimos por nós próprios do que pelas razões que nos são dadas por outros.

Pascal


Por estas e por outras é que eu já desisti de vos convencer. Acreditem se quiserem.

sábado, novembro 19, 2005

A Razão Naturalista

naturalista
A minha teoria da evolução:
Darwin foi adoptado.


Steven Wright

sexta-feira, novembro 18, 2005

A Razão do Mictório

mictorio
A casa de banho é um dos locais mais importantes no dia a dia de uma pessoa. Sendo assim, porque raio é que os arquitectos não prestam mais atenção quando definem o espaço, e os elementos que lá são colocados?
Quem desenha os mictórios? Tenho a certeza absoluta que é uma mulher com recalcamentos: gostava de atingir o grau máximo da emancipação e fazer desenhos na parede (leia-se mijar de pé).
Todos sabemos qual é a função do mictório, albergar o líquido e não deixar que nada saia cá para fora. A forma como estes objectos são desenhados está longe de ser a ideal, porque quando tiramos a mangueira cá para fora e fazemos mira para os buraquinhos – o objectivo destes é de escoamento – começam a saltar pingas por todo o lado; se tentamos acertar nas paredes o resultado é o mesmo e as formas curvas, que tem como função evitar que haja ressalto do líquido, são feitas de forma a provocar o efeito contrário ao desejado.
Dizem que se deve lavar as mãos quando se vai à casa de banho, cá para mim devia haver uma muda de roupa e um chuveiro, pelo menos para os homens.
Se vamos para os urinóis de design ainda é pior. Quem é que no seu perfeito juízo faz urinóis planos?! É como mijar para a parede mas é bem pior. Quando mijamos para a parede podemos escolher a parede, a distância e evitamos mijar para os pés. Este tipo de receptáculo é feito de propósito para acertarmos nos pés. A distância à parede é mínima e o resguardo para os sapatos também. Resultado, se não acertamos nos pés é nas pernas.
Este tipo é encontrado nos bares e discotecas e por vezes tem uma cortina de água a correr constantemente o que não abona em nada para a poupança do líquido precioso.
As divisórias dos mictórios não são bem planeadas. Todos já tivemos a sensação de ter alguém ao nosso lado a lançar um olhar métrico sobre o nosso material. As divisórias deviam ser mais altas, não custava nada. Isto faz-me duvidar da orientação sexual dos arquitectos… A dimensão das divisórias é insuficiente. É desconfortável ter que “mudar a água às azeitonas” ombro com ombro com um desconhecido.
E como se isto não bastasse, estamos ameaçados de outra forma, mas só agora é que tomamos consciência disso: a gripe das aves! Estamos tranquilamente a “tirar a água do joelho” e, em pânico, vemos um pato, já na fase terminal da doença (apresenta-se nas cores azul e nos casos mais graves verde), a poucos centímetros do nosso joystick. Contrair a doença por esse canal não deve ser nada agradável.

Um post de Miguel de Terceleiros em exclusivo para a Razão.

terça-feira, novembro 15, 2005

A Razão do Ressabiado

Um dos espécimes vulgaris deste país é o ressabiado. Ressabiado, digo eu, é aquele gajo que acha que vale mais do que aquilo que a realidade demonstra e que por causa disso anda permanentemente chateado porque ninguém nunca lhe reconhece aquilo que ele acha que merecia ter. Complicado? Não, se conhecerem uma personagem chamado Saramago – um estreptococo que um dia decidiu que o país era demasiado pequeno para albergar o seu insuflado ego e que por isso se mudou para uma ilha do país vizinho.

O que faz com que Saramago seja um labrego ressabiado? Qualquer indivíduo com coluna vertebral teria tomado a atitude que ele tomou assumindo-a com frontalidade. Quem leu isto sabe que coluna vertebral é algo que escasseia em Saramago e portanto de vez em quando temos de levar com as aleivosias deste estreptococo. A última delas foi o lançamento do seu último livro, pelo que sei uma obra de humor (como se um estreptococo invertebrado soubesse provocar o riso). Saramago decidiu fazer o lançamento do seu último livro no Brasil. Até aqui tudo bem. Vender para um mercado de 259 milhões de potenciais leitores é substancialmente diferente do que vender para um miserável mercado de 10 milhões. O que me chateia profundamente é que esta bosta fez questão de dizer que lhe dava muito prazer de lançar o seu último estertor no Brasil só porque não o fazia em Portugal. Pessoalmente até agradeço que Saramago publique os seus livros na República do Butão, no Uzbequistão, ou inclusivé na Somália. Até agradecia que os seus lançamentos fossem feitos o mais longe possível do meu miserável país. O que não tenho é pachorra para aturar é o seu ressabiamento crónico. Se isto fosse um país de gente séria Saramago nunca mais venderia um único livro à conta desta sua última diarreia ressabiada. Mas como vivemos em Portugal, qualquer cagalhão nobelizado atinge calmamente a 2ªedição.

segunda-feira, novembro 14, 2005

A Razão da Categoria

categoria
Há um problema de categoria neste país. Veja-se a dificuldade que temos em encaixar o país numa categoria: somos um país em vias de desenvolvimento ou somos um país desenvolvido? Tenho dúvidas. Se estamos em vias de desenvolvimento elas devem estar muito obstruídas porque isto não anda. Se somos um país desenvolvido alguém se esqueceu de nos avisar.
Convivo muito mal com esta falta de categoria.