Se há por aí história mal contada é aquela de Adão e Eva no paraíso. Senão vejamos: Deus cria o Homem (entre outras coisas) e manda-o para o paraíso. Isto já de si é suspeito. Porque não o mandou para outro sítio qualquer? Porque não o mandou à merda? Nunca saberemos, mas o que é certo é que o Homem lá foi diligentemente para aquilo que Deus convencionou por paraíso. Na realidade era um pardieiro vazio, sem interesse nenhum e completamente despovoado. Não fossem umas arvorezinhas aqui e ali e assemelhar-se-ia ao Alentejo profundo. Diz a história que Adão, farto de contar as árvores, que nem eram tantas como isso, meteu um requerimento a Deus para lhe arranjar companhia. Distraidamente Deus mandou-lhe uma ovelha e rapidamente descobriu o significado da contranatura. Decidiu então fazer um truque com uma costela de Adão, criando dali uma companheira para o entediado mamífero. Chamou-lhe de Eva.
Ainda hoje a ciência tenta perceber que conhecimentos de genética o gajo tinha para fazer um truque daqueles.
A questão das roupas é insidiosa… se os gajos estão no paraíso porque diabo têm que usar parras a tapar-lhes a genitália? Armani e Prada seriam mais plausíveis, bolas! Afinal de contas que paraíso era aquele??
Depois vem outra parte incongruente: aquela em que Deus, num lampejo de autoridade tipo «quem manda aqui sou eu e vou inventar uma merda para vos deixar a matutar» decide embirrar com as maçãs e proibir Adão e Eva de as comer. Qual é o problema das laranjas? E das papaias? Porque não proibir as bananas? Ou toda a gama de frutos secos? É só incongruências…
Chegamos então à parte da cobra que falava. Tudo bem. Eu até ter ouvido as declarações de Fátima Felgueiras, achava que as cobras não falavam, portanto isto até faz algum sentido no meio desta trapalhada toda. Mas a questão é que a cobra de Adão e Eva demonstra uma obsessão voyeurística qualquer por maçãs. Gosta de as ver serem comidas. Há gostos para tudo…
Finalmente os gajos comem a maçã e Deus aparece para os expulsar do paraíso e não se fala mais nisso. Porquê? A história acaba aqui porquê? E a vida porca que eles levaram depois, com a obsessão insidiosa que Adão desenvolveu por ovelhas? Nem Sócrates contava tão mal uma história destas…
quinta-feira, outubro 13, 2005
A Razão de Adão e Eva
quarta-feira, outubro 12, 2005
A Razão da Seita
Criar uma seita não é difícil, basta conhecer relativamente bem os papalvos que queremos evangelizar, adequando o discurso aos seus medos, às suas ansiedades e às suas necessidades. E depois é como fazer sabonetes – ou apostamos no básico e temos o sabão macaco que dá para tomar banho e lavar a roupa, ou vamos para uma coisinha mais sofisticada acrescentando aloevera ou ginseng que dão a ilusão que, para além de lavar, fazem mais qualquer coisinha.
Uma condição sine qua non de qualquer seita bem sucedida é a figura do seu líder espiritual – mais uma vez recorro à analogia da loja de bairro e do hiper: quantos de vós conhecem pessoalmente o gerente do hipermercado onde fazem compras? E quantos conhecem o dono da vossa loja de bairro? O hipermercado passa muito bem obrigado sem que vocês lhe conheçam o gerente, a loja de bairro não. O dono da mercearia confunde-se com a mercearia, é a sua alma, tal como o líder espiritual de uma qualquer seita.
Por isso quando se limpa o sebo a um desses líderes (muitas vezes eles limpam o sebo a si próprios, fartos da fantochada que criaram) acaba a seita.
E depois temos os seguidores – uma seita com um líder espiritual e sem seguidores é um terrível aborrecimento (garanto-vos eu que sou o líder espiritual de uma seita alucinada, mas sem ninguém que me siga). Para se ser seguidor de uma seita não são necessárias grandes habilitações: basta querer acreditar em qualquer coisa. Convém ser uma coisa assim distante e inatingível tipo: estar à espera das naves venusianas do comandante Ashtar que vêm buscar todos aqueles que acreditam; ou esperar pelo Cometa para lhe saltar para a sua cauda e zarpar rumo à outra ponta da galáxia; ou ainda aguardar de caçadeira na mão (numa onda mais Koreshiana) que me apareçam um dia uns gajos com as letras FBI nas costas.
Acreditar em coisas tangíveis como sentir na nuca a respiração de Hale Berry num dia nublado não são suficientemente motivadoras (vá-se lá saber porquê) para granjear um número considerável de seguidores.
Uma coisa que contribui para criar um espírito de corpo numa seita é o vestuário: pode ser mais ou menos elaborado dependendo do grau de loucura dos participantes, mas convém que seja uniforme – tudo de tanga laranja e capuz negro por exemplo; ou vestes compridas mais clássicas com padrões estranhos. O que interessa mesmo é que todos se vistam de igual, tipo salesianos.
Finalmente, a parte mais importante das seitas: o financiamento. Uma seita que não tenha apoios financeiros não é uma seita, é um grupo de escuteiros com distúrbios de personalidade (um silogismo, portanto). O apoio financeiro de uma seita não é pêra doce, e depende do grau de exigência do seu líder espiritual. Normalmente o jacto particular e o Ferrari Testarrossa fazem parte do cerimonial, mas outros fringe benefits podem ser acrescentados dependendo da quantitade e qualidade dos seguidores. Neste aspecto as seitas aprenderam com a secular experiência da Igreja Cristã, hoje muito mais discreta mas igualmente eficaz na arte de sacar o seu indiscriminadamente, sem recibos ou quaisquer deduções à colecta.
Para todos os que acham que a política já não tem futuro, sugiro uma pequena reengenharia na actividade profissional: façam a vossa seita. Tax Free.
terça-feira, outubro 11, 2005
A Razão dos Trafulhas
Robin Hood, Robin Hood, riding through the glen;
Robin Hood, Robin Hood, with his band of men.
Feared by the bad,
Loved by the good,
Robin Hood, Robin Hood, Robin Hood!
Os meus receios confirmaram-se. Este povo merece exactamente aquilo que tem: um bando de escroques corruptos que rouba para si em nome do povo.
Em Portugal, e estas autárquicas provam-no, podemos ser corruptos, ladrões, desonestos, bandalhos e javardos, desde que no processo vamos atirando com umas migalhas para o povo. O truque é assumir esta «postura de Robin dos Bosques»: roubar e enganar indiscriminadamente, escapando incólume ao braço da Justiça, que neste momento já se confunde com o Estado, considerado um ladrão maior e despersonalizado.
Quando se questiona que ou há moralidade ou comem todos, os portugueses preferem a parte da comezaina. Para eles não há problema nenhum em roubar ou ser roubado desde que uma parte do quinhão, mesmo que mínima, lhes toque a eles. O culto do espertalhaço continua, infelizmente, bem vivo nesta telenovela mexicana e continua a mostrar-nos todos os dias que, em Portugal, o crime compensa. De facto, isto não é um país mas apenas uma baderna mal frequentada.
segunda-feira, outubro 10, 2005
A Razão de Liliput
Bill Bernbach, um dos mais conhecidos gurus publicitários de todos os tempos, usou em tempos a seguinte frase para lançar o Volkswagen carocha no mercado americano: Small is beautifull. O gajo tinha alguma razão. Por um motivo qualquer que me transcende, achamos um piadão a tudo o que é pequenino (bem... nem a tudo, mas isso é outra história). Começamos com os animaizinhos: a maior parte dos mamíferos são indiscutivelmente mais bonitinhos quando são crias (tirando talvez a Monica Belucci). Os telemóveis, que cada vez ficam mais pequeninos, ao ponto de os perdermos nos bolsos de umas calças apertadas. Até o Steve Jobs não resistiu e criou o Ipod Nano, que corre o risco de ser confundido e engolido na medicação da manhã. Ao longo dos anos nasceu e consolidou-se uma «indústria do pequenino»: frasquinhos de perfume miniaturizados, baralhos de cartas mínimos, playstations portáteis e reduzidas, aparelhagens mini, computadores mais pequenos que uma folha A4, gelados e chocolates encolhidos. Até as bolachas aproveitaram esta mania do pequenino e lançaram um sem número de variantes anãs.
Portugal, um país já de si pequenino, poderia aproveitar esta tendência mundial da miniaturização. Quem sabe não seria esta uma oportunidade para transformar o país de uma vez por todas, usando como directiva a frase de Bernbach: small is beautifull? Claro que teríamos de adaptar o conceito à realidade local, e dar-lhe uma forma mais adequada. Algo do género «tacanho é lindo!». Talvez não seja uma boa ideia...
domingo, outubro 09, 2005
sábado, outubro 08, 2005
A Razão da Democracia
O melhor da democracia é que esta dá a cada votante a chance de fazer algo realmente estúpido.
Art Spender
sexta-feira, outubro 07, 2005
A Razão do Regresso
Em Portugal cultiva-se a filosofia do eterno retorno, também conhecida pelo regresso eterno. É este nosso lado saudosista que sofre daquilo que já teve e que deixou de ter. Pessoalmente acho que a nossa situação geográfica é a grande culpada nesta questão: impedidos de progredir para dentro por causa dos malditos e persistentes castelhanos, fomos obrigados a fazermo-nos ao mar, com todas as consequências que daí adviram.
Ir para o mar, ir em direcção a uma linha do horizonte inexorável e misteriosa, sem a certeza de que voltaríamos, foi o combustível deste nosso mito do eterno retorno (com as devidas vénias e desculpas a Mircea Eliade, que inventou o termo noutras circunstâncias que um dia terei imenso prazer em escrever aqui). Dizia eu que ir para o mar, com a devida imponderabilidade do vazio e daquilo que desconhecemos, contribuiu para que o regresso fosse algo valorizado e esperado pelos portugueses. O caso mais paradigmático deste eterno regresso é D.Sebastião, cujo regresso num dia de nevoeiro sobreviveu à sua existência e continua válido até hoje. Digamos que este será para sempre o regresso que nós esperaremos. Mas há outros. Nós gostamos que hajam. O regresso de Cavaco Silva e de Mário Soares, por exemplo. Podemos não gostar das figurinhas mas aplaudimos com fervorosa estupidez o seu regresso, porque para os portugueses o regresso é uma espécie de recomeço, de eliminação sumária de um passado que é sempre penoso e para esquecer. O regresso é para nós um reinício onde nunca somos intervenientes, mas sempre espectadores – alguém há-de regressar para mudar as nossas vidas, para nos salvar de nós próprios.
segunda-feira, setembro 26, 2005
A Razão do Blog do Candidato Político
Divirto-me à brava com a perspectiva que os políticos portugueses têm dos blogs. Alguém lhes disse, a dada altura das suas miseráveis carreiras, que os blogs eram o 5º Poder e estes desataram a abri-los na internet na vã esperança de agarrar mais um bocadinho de poder.
Naturalmente que os políticos estão a anos-luz de distância de perceber o que é um blog, quanto mais o modo como devem usá-lo.
Sabemos que estamos perante um blog de um candidato político quando:
Parece que estamos a ouvir um monólogo televisivo, daqueles paternalistas e feitos a olhar directo para a câmara, a fazer de conta que estão a falar para nós. Convém perceber que um político nunca fala directo para nós – fala directo para um boletim de voto com a cruzinha no partido dele.
Não há qualquer coerência linguística de post para post, porque na realidade aquilo é escrito por um monte de assessores diferentes pagos para alinhavar, sem sucesso, aquilo que um político raramente consegue fazer: um discurso coerente e inteligente.
O blog só tem um post, que é nada mais nada menos que um chorrilho de promessas estúpidas retiradas de um panfleto político.
O blog só tem um post porque o político decidiu fazer aquilo sem acessores e a sua capacidade de dizer/escrever aquilo que pretende fazer é tão limitada que ele se fica mesmo por ali. Temos aqui um caso típico.
O blog tem a duração do período de campanha eleitoral demonstrando que o político está ali só para vender o seu peixe e não para estabelecer uma relação directa com o seu eleitorado.
O blog não admite comentários porque a percepção democrática do político não admite críticas nem respostas, nem esclarecimentos adicionais ao cidadão comum. O político só admite respostas, esclarecimentos, ou críticas, de outro político e preferencialmente quando passa em directo na televisão.
Na minha perspectiva o blog de um candidato político deve ser encarado de duas formas: ou vamos lá visitar o gajo para o insultar à laia de medida profilática, ou não se vai lá e pronto.
domingo, setembro 25, 2005
sábado, setembro 24, 2005
sexta-feira, setembro 23, 2005
Razões Inéditas
Um ser asado foi visto a sobrevoar os céus portugueses. Apareceu assim de repente, sem perceber-se de onde vinha. Nos organismos de segurança nacional piscavam luzinhas vermelhas, os taradinhos dos OVNIS ficaram entumescidos, a Santa Igreja começou a afiar o fervor religioso, e a GNR coçou a bolsa testicular.
A TVI fez um especial na região onde alguns labregos afirmavam ter visto o ser voador: «parecia um abion» grunhia um, «aquilo é um condôr do demo» estrebuchava outra. Os testemunhos sucediam-se mas não se conseguiu nunca obter nenhuma imagem que atestasse a veracidade do fenómeno. Até que um dia ele aparece de microfone na mão e ar lixado em frente da Assembleia da República. Dizia que a fábrica onde trabalhava não tinha reaberto depois do Verão, que há 3 meses que não recebia ordenado, que o Estado não lhe dava qualquer ajuda, que tinha dois filhos para criar, que não conseguia pagar a casa onde vivia, que já lhe escasseava o dinheiro para comer.
Nesse dia ficámos todos a saber que ele era o Ente Alado, o super-herói nacional.
quinta-feira, setembro 22, 2005
A Razão no WC
Não gosto de WC’s públicos por motivos vários, que estão normal e directamente relacionados com o facto do chão estar sempre molhado ou com o irritante facto de ter sempre um sítio que está queimado por beatas de tabaco (mas quem é que fuma num WC público??).
Quando tenho de lá ir perco sempre algum tempo com as mensagens atrás da porta. O grande mistério para mim é perceber quando é que elas são escritas.
Será... antes de?!! – aflitinhas aflitinhas, mas ainda com tempo para umas linhas!?
Será... durante?!! – não dá jeito, pela análise das mensagens, a altura a que estão escritas e a distância que compreende a porta da sanita deixa esta hipótese de lado.
Será...depois de?!! – não faz sentido que se queira lá estar, mais tempo que o necessário.
Com as mensagens de WC estamos perante de um acto (altamente) premeditado, porque temos de abrir a mala vasculhar lá dentro à procura de algo que escreva, ou então, entrar já com algo que escreva na mão... sendo que apenas a parte da mensagem tem alguma espontaneidade
E as mensagens são de temática variada:
Insultos escabrosos a outras mulheres pela honra amachucada:
- A Gonçalinda é uma P*** que se meteu com o meu Hilário Cosme.
- está sim?? Olhe... estou a ligar porque vi o seu número de telefone num WC público em Estarreja.... era para combinar um café, se puder ser, claro.
(Não me parece que seja uma forma inteligente de conhecer pessoas, mas enfim)
- eu tenho uma **** do tamanho de uma betoneira
(sinceramente como mulher, não sei se é bom ou não)
- Amo-te Hilário Cosme, para toda a nossa vida...
(O Hilário Cosme, nunca saberá desta prova de amor, porque ela foi feita no WC das mulheres e nem sei se o Hilário Cosme achará isto romântico, mas concerteza que gostará de saber que o seu nome foi perpetuado numa porta de WC principalmente se lá estiver escrito também qualquer coisa que fale do seu, soberbo, desempenho sexual.
Na verdade, adoro a escrita de casa de banho.
Ela informa, educa, distrai, diverte, tem raiva, sexo e intrigas. No fundo, tudo o que se quer num bom romance.
quarta-feira, setembro 21, 2005
A Razão da Estrela da Rádio
Video killed the radio star. Sempre que me falam em globalização o meu cérebro vagueia invariavelmente por esta música simpática dos velhotes Buggles. Goste-se ou não a globalização matou, a dada altura, a maior parte do que era feito localmente. Este não é um post anti-globalização, até porque pessoalmente acho que esta nos tornou mais conscientes do mundo à nossa volta – por vezes demasiado conscientes para o meu gosto. Este é um post com o mesmo travozinho saudosista e atravessado pela mesma alegria adolescente e inconsciente da música original. É um post «que se lixe». Que se lixe já não termos os iogurtes Longa Vida; que se lixe a Pasta Medicinal Couto; que se lixe a Laranjina C; que se lixem programas de rádio que nos faziam acordar cedo como o Pão com Manteiga (de um rapazinho que hoje está indiciado por pedofilia); que se lixem os Rajás, os chocolates Regina e as Bombokas; que se lixem os Pilote, os Cavaleiros Andantes, e os Tintins coleccionáveis; que se lixem o ZX Spectrum e o Atari; que se lixem os Sanjo (esbirros nacionais dos All Star); que se lixem os pirulitos e as pastilhas Gorila. Que se lixem o Subbuteo, e o Ludo, e a sueca.
E viva a globalização! Normalizada, instantânea (sem juntar água), e em directo. Vivam as frutas gigantes e brilhantes a saber ao mesmo; viva a fast food que nos garante que tudo sabe igual em locais diferentes; viva a roupinha para betos, para dreads, para grunges, para góticos, e para surfistas; vivam os bifes de vaca lúcida e os frangos sem febre. E acima de tudo vivam os blogs, a expressão máxima e positiva daquilo que é a globalização – e que nos mostram diariamente que, apesar de tudo, encerramos em cada um de nós um imenso universo nunca globalizável.
Passem um grande e globalizante dia.
terça-feira, setembro 20, 2005
A Razão dos Matraquilhos
Os países têm em geral um ícone pelo qual são conhecidos internacionalmente, que acaba por ser o seu logotipo virtual: os espanhóis têm os touros (confesso que não percebo esta sua adoração por cornos), os ingleses têm o Big Ben, os franceses têm a Torre Eiffel, os brasileiros têm o carnaval e as bundinhas, os irlandeses têm a harpa, os escoceses o whisky e o monstro fictício do Loch Ness, os holandeses têm os moínhos, e assim por diante. E os portugueses, qual é o deles?
Sempre que penso no ícone dos portugueses lembro-me inevitavelmente dos matraquilhos. Acho que não há coisinha que traduza melhor a nossa portugalidade que um tabuleiro de matraquilhos: pequeninos e desajeitados, sempre tensos (reparem que os bonecos estão sempre em sentido), prontos a serem manipulados por outros, impedidos de se mexerem muito por uma barra de ferro que os atravessa a meio, sempre com o mesmo modo de actuar (para trás e para a frente), uns contra os outros a pontapear uma ridícula e velha bola de madeira, só funcionando quando se mete a moeda, e sem qualquer utilidade que não seja para alguém se divertir.
O matraquilho é Portugal em todo o seu esplendor. Sempre agarrado a uma caixa, e à espera da próxima moeda. Eleve-se a coisa a ícone nacional. Nós merecemos.
segunda-feira, setembro 19, 2005
A Razão da Ditosa Pátria
Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.
Nem é ditosa, porque o não merece.
Nem minha amada, porque é só madrasta.
Nem pátria minha, porque eu não mereço
a pouca sorte de nascido nela.
Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta
quanto esse arroto de passadas glórias.
Amigos meus mais caros tenho nela,
saudosamente nela, mas amigos são
por serem meus amigos, e mais nada.
Torpe dejecto de romano império;
babugem de invasões; salsugem porca
de esgoto atlântico; irrisória face
de lama, de cobiça, e de vileza,
de mesquinhez, de fátua ignorância;
terra de escravos, cu pró ar ouvindo
ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;
terra de funcionários e de prostitutas,
devotos todos do milagre, castos
nas horas vagas de doença oculta;
terra de heróis a peso de ouro e sangue,
e santos com balcão de secos e molhados
no fundo da virtude;
terra triste à luz do sol calada, arrebicada, pulha,
cheia de afáveis para os estrangeiros
que deixam moedas e transportam pulgas,
oh pulgas lusitanas, pela Europa;
terra de monumentos em que o povo
assina a merda o seu anonimato;
terra-museu em que se vive ainda,
com porcos pela rua, em casas celtiberas;
terra de poetas tão sentimentais
que o cheiro de um sovaco os põe em transe;
terra de pedras esburgadas, secas
como esses sentimentos de oito séculos
de roubos e patrões, barões ou condes;
és terra de ninguém, ninguém, ninguém:
eu te pertenço. És cabra, és badalhoca,
és mais que cachorra pelo cio,
és peste e fome e guerra e dor de coração.
Eu te pertenço mas seres minha, não.
(cedido gentilmente por MJM)
domingo, setembro 18, 2005
sábado, setembro 17, 2005
sexta-feira, setembro 16, 2005
A Razão do Sol e da Peneira
«T» para os programas que podem ser visionados por toda a gente.
«10 AP» para os programas que já têm um palavrãozito ou outro, sendo que as letras AP significam que as crianças deverão assistir ao programa acompanhados pelos pais.
«12 AP» para programas onde o palavrãozito passa a palavrão e em que ocasionalmente se poderá vislumbrar um corpo desnudo mas nunca exibindo as partes pudendas.
«16» para programas onde o palavrão passa a um chorrilho de palavrões e onde se pode ver nus integrais com genitálias tímidas, de relance, fugazes.
«18» para programas onde genitálias desinibidas, chorrilhos de palavrões, cavalos pentapérnicos, anões e mulheres desnudas, pululam sofregamente no écran como se não houvesse amanhã.
Esta curiosa medida merece-me alguns comentários de ordem diversa:
Sobre a liberdade individual – a TVI, que defende acerrimamente os direitos do indivíduo, sendo clara a sua posição quanto ao aborto, tem aqui uma posição no mínimo paradoxal. Se um feto tem direito à vida e deve ser considerado um ser humano com direitos, porque raio é que uma criança com 9 anos não tem o direito de ver programas para além de designação «T»? Parece-me censura infantil, e logo, altamente reprovável.
Sobre a autoridade familiar - existem categorias que recomendam o acompanhamento dos pais. E o que dizer dos avós? não terão estes o discernimento para decidir o que os seus netos podem visionar? E os tios, qual é o problema deles? E os parentes afastados, perdem critério por terem uma consanguinidade mais diluída?
Sobre a exaustividade – porque raio é que as classificações são limitadas até à idade de 18? Pessoalmente acho que certos debates políticos deveriam ser limitados a indivíduos abaixo dos 3 anos; as intervenções de Soares deveriam estar limitadas a indivíduos acima dos 80; os noticiários da Manuela Moura Guedes não deveriam poder ser visionados por indivíduos do sexo masculino acima dos 6 meses, sob o perigo de se tornarem serial killers. Acho que esta história das idades merecia uma reflexão mais cuidada. A actual divisão é um desleixo.
Sobre a honestidade intelectual – e porque não abordar o visionamento de programas de uma forma mais honesta? O que tem a idade a ver com isto tudo? Conheço seres de 4 anos com maior maturidade mental que Sócrates. Quererão proibir o primeiro-ministro de ver televisão? Será isto uma conspiração insidiosa? Tendo em conta as características de programação da TVI acho que podiam ter sido mais inovadores e honestos na classificação e definir outros tipo de categorias do género:
«Programas VAM» onde se incluiriam todas as produções do Piet Hein. Sabemos bem que este senhor se especializou em programas para voyeurs com atraso mental.
«Programas ARPEP» emissões destinadas a adolescentes rebarbados com problemas de ejaculação precoce, tipo Morangos com Açúcar.
«Programas GLAPP» destinados a essa imensa minoria de gays e lésbicas à procura de protagonismo e aceitação social, e que acha que só porque aparecem na televisão, vão mudar a mentalidade vigente.
«Programas GGSE» destinados a todos aqueles gajos que gostam de ser enganados (para não dizer outra coisa que os integra automaticamente na categoria anterior), versando debates políticos, coberturas eleitorais, e jogos do Benfica.
E assim por diante até cobrir todo o espectro nacional de labregos, funcionários públicos, grevistas, coçadores de micose, desempregados compulsivos, notários, professores e outras classes profissionais de índole duvidosa.
Aqui temos mais um caso de cabotinice labrega a querer ser muito original e muito didáctica e muito socialmente responsável, enquanto se tapa o sol com a peneira...sejamos honestos meninos.
quinta-feira, setembro 15, 2005
A Razão da Árvore e da Floresta
Para mim o mundo está dividido entre as pessoas que olham para a árvore e as pessoas que olham para a floresta. Cada um de nós tem uma destas… chamemos-lhes vocações. Os que olham para a árvore normalmente reparam em pequenos pormenores, pequenos detalhes, que não deixam de ser importantes por serem pequenos. Sabem quando a árvore precisa de ser podada, quando lhe falta água, quando é necessário colher o fruto. Mas não se apercebem que a árvore faz parte de uma coisa maior a que chamamos de floresta. Não estão interessados em entender o que é a floresta mesmo quando tentamos mostrar-lhe que há mais árvores para além daquela, e que o seu conjunto forma uma massa maior e mais complexa. Não querem saber porque sentem que teriam de dar a mesma atenção a cada uma daquelas outras árvores e sabem que não conseguiriam fisicamente dispender o mesmo carinho que dedicam à sua árvore.
E depois há os outros, os que olham para a floresta como um todo harmonioso e complexo, e têm dificuldade em focar-se numa árvore específica. É a totalidade das árvores que para eles faz sentido, o efeito que a floresta tem como um todo, equilibrando o ecossistema em variados aspectos. Vêem a floresta como um único e articulado ser.
Os que olham a árvore precisam dos que olham a floresta e vice-versa. E porque todos estão conscientes da sua importância relativa neste processo, quer as árvores quer a floresta vão crescendo harmoniosamente. Chama-se a isto progresso.
Cheguei à conclusão que vivo num país míope cheio de árvores e florestas bonsai. Não se consegue ver a árvore nem se vislumbra o que poderá ser a floresta.
quarta-feira, setembro 14, 2005
A Razão da Abrótea
No passado fim de semana apeteceu-me andar de bicicleta. Enchi os pneus à minha «Agressor» (belo nome para uma marca de bicicletas a pedal), que teve dificuldade em lembrar-se de mim um ano e meio depois da nossa última aventura, e fui dar uma volta. No meu trajecto cruzei-me com um grupo de ciclistas que envergavam aquele capacete ridículo, calçavam uns sapatinhos próprios para a modalidade profissional, e vestiam lycra apertada, com os refegos da barriga a fazerem lembrar o bibendum da Michelin. Olhei para a figurinha deles, e para a minha, sem capacete, com uns All Star velhotes no final das calças de ganga, e pensei que o mundo está a ficar amaricado. É verdade: andamos a apaneleirar demasiado esta merda.
No meu tempo andávamos por aí de bicicleta para todo o lado, sem capacete e sem protecções especiais para os pés, para o rabo e para as costas. Chegávamos ao fim do dia moídos e cheios de arranhões, todos sujos do óleo das correntes, mas não andávamos por aí a fazer figurinhas tristes. E sobrevivemos.
Também não usávamos Mukina na água para desinfectar a fruta sempre que nos apetecia uma maçã. Comíamos directamente das árvores, preferencialmente roubadas no quintal do vizinho, o que dava um sabor especial à coisa, e continuámos a sobreviver.
As pastilhas elásticas não existiam em versão diet, aliás quanto mais açúcar tivessem melhor. Mas apesar disso não nos tornámos uns badochas como os putos de hoje. E os nossos dentes sobreviveram.
Os brinquedos não tinham quaisquer avisos de saúde ou de idade recomendada, e ainda assim não me lembro de ninguém ter morrido a tentar engolir o kit de montanhismo do action man – sobrevivemos a isto, é óbvio.
Bebíamos leite acabado de ser mungido, que fervíamos para o esterilizar. Não havia cá as mariquices do leite magro e meio gordo, muito menos leites enriquecidos especialmente dirigidos a grávidas, a intolerantes à lactose ou a atrasados mentais. E nós continuámos a sobreviver, naturalmente.
Os bolos-rei tinham uma fava e um brinde lá dentro, normalmente um boneco de loiça ou de metal, alusivo à época festiva. Alguns de nós escavacaram um dente ou outro a tentar descobrir o brinde, mas ninguém morreu sufocado com um S.Cristovão de loiça atravessado na laringe. Sobrevivemos, pois claro.
Hoje em dia estamos rendidos à mariquice: tudo tão esterilizadinho, tudo tão protegidinho, tudo cheio de medinho de tudo. É tudo tão imbecilmente «perigoso» e «danoso» que corremos o sério risco de nos tornarmos umas abróteas cheias de fobias, com miúfa de existir.
terça-feira, setembro 13, 2005
A Razão da Fundação
Afonso Henriques tinha uma visão: «um reino, um povo, um rei». Não era uma visão muito original, mas pronto, era a sua visão. Para concretizá-la, Afonso Henriques sabia que tinha de fazer uma única coisa: fundar. Fundar como se não houvesse amanhã. Fundar desaustinada e paulatinamente até não haver mais nada passível de ser fundado. E assim nasceu Portugal. O homem fundou que nem um alarve enquanto as suas forças o permitiram, deixando a fundação como um legado para os que vieram a seguir, e que continuaram a fundar. A visão de Afonso Henriques foi-se cumprindo geração após geração: a fundação como garante de expansão e de crescimento da nação, tem um je ne sais quoi de engenharia – afinal de contas uma fundação sólida dá azo a uma obra consistente e duradoura.
Sócrates tinha falta de visão. A verdade é que nunca fora um tipo muito imaginativo, mas agora fazia-lhe mesmo falta uma visão à la Afonso Henriques. Uma coisa que pudesse dar um rumo ao país, com o mesmo vigôr e a mesma intensidade de há 877 anos atrás. Estava a querer dar um novo sentido a este velho conceito da fundação quando o Belmiro lhe deu uma mãozinha: «E que tal implodires a fundação?».
Sócrates não pensou duas vezes. E teve a sua visão: «um país, várias fundações, muitas implosões». E assim renasceu Portugal, aquela grande cratera no ponto mais ocidental da Europa.
segunda-feira, setembro 12, 2005
A Razão do Desempregado Compulsivo
Que Portugal é um país de biscateiros desempregados a mamar do Fundo de Desemprego sem grande vontade de arranjar trabalho já eu sabia. O que eu não fazia ideia era como é que estes parasitas institucionalizados (não, desta vez não estou a falar do Governo) ocupavam os seus tempos livres. Descobri que passam o tempo nas obras. Não é que façam parte das obras… não. Estão lá a observar. A ver se os servo-croatas e os cabo-verdianos deixam aquilo em condições. Afinal de contas as obras estão a ser feitas no nosso país e aquilo é só estrangeirada sobre-habilitada para carregar tijolos e assentar vigas – «é preciso que alguém esteja de olho na merda que aqueles gajos podem fazer! É que os gajos vêm cá chupar-nos o dinheirinho e depois vão embora, e quem tem que levar com a obra somos nós!» dizia-me um deles, sem tirar os olhos do servente ucraniano.
E assim, por cada obra de construção civil existente nesta telenovela mexicana, temos um molhinho de desempregados a observar. Atentos. Críticos. Opinativos. A discutir entre si que o sacana do bósnio tem tanto jeito para aquilo como eles para trabalhar.
O Estado português, essa abstracção incómoda, promove à custa dos contribuintes o aparecimento de um novo tipo de labrego, o «voyeur da obra» pagando-lhes regularmente para coçar a micose à frente de uma qualquer betoneira.
Na semana passada, os «voyeurs da obra» tiveram o seu Stonehenge nacional, financiado pelo Estado e disponibilizado por Belmiro de Azevedo: a destruição das 2 torres. Com um título que parece ter saído da escrita de Tolkien, este evento provocou uma migração de milhares de labregos voyeurs de vários pontos do país, para verem in loco dois prédios a serem implodidos. A dada altura alguém teve a brilhante ideia de reduzir o desemprego em Portugal, convidando os labregos a visitar as instalações alguns minutos antes da derrocada. Mas os madraços, espertos, preferiram mais uma vez ficar de fora e a olhar de uma distância segura – é que demasiada proximidade lhes retira a capacidade de discernimento.
domingo, setembro 11, 2005
A Razão do Estágio
Eu costumo dizer, por piada, que Portugal não se salva enquanto todos os portugueses não forem obrigados, por lei, a fazer um estágio de alguns anos no estrangeiro, mas proibidos de encontrarem-se uns com os outros. Esta proibição é da maior importância, para impedi-los de assarem colectivamente sardinhas, cozerem bacalhau com fervor nacionalista ou trocarem sofregamente as últimas novidades do Chiado.
sábado, setembro 10, 2005
A Razão Fácil
sexta-feira, setembro 09, 2005
A Razão do Notário
Decerto que por uma razão ou por outra já tiveram, a dada altura das vossas vidas, que entrar num notário. Se assim foi, suponho que tenham tido oportunidade de reparar que nem toda a gente pode ser funcionário de um cartório notarial. É uma profissão peculiar que exige um património genético muito particular e está sujeita a uma política de recrutamento espartana, capaz de criar inveja à Al Qaeda.
Antes de mais é preciso realçar com alguma veemência que não se estuda para ser notário – nasce-se notário, e pronto! É um pouco como os atletas de competição: os sprinters têm uma estrutura óssea e muscular diferente dos fundistas; os tenistas com serviços mais eficazes são dotados de uma altura acima da média e têm uns bracinhos mais compridos que os restantes mortais. Também os notários têm as suas características diferenciadoras: o seu cérebro, por exemplo, funciona a um ritmo mais lento (como observamos nos casos mais graves de paralisia cerebral) o que possibilita o armazenamento de dados de uma forma mais metódica.
Para terem uma ideia de como um notário percepciona a realidade à sua volta reduzam a velocidade de um DVD em cerca de 80%: t-u-d-o f-i-c-a m-u-i-t-o l-e-n-t-o e as vozes adquirem um tom grave e arrastado, sendo relativamente dificil de aprender o sentido das frases. Não se admirem portanto que os notários não percebam à primeira o que vocês lhes estão a querer dizer, principalmente vocês, os nervosinhos. E evitem falar devagar para se fazerem entender melhor porque assim é mesmo muito complicado para eles, e demora o dobro do tempo a processar.
A capacidade pulmonar de um notário é francamente mais reduzida que a de um indivíduo normal, impedindo o cérebro de funcionar mais rápido e cansando-os de sobremaneira enquanto fazem o seu rotineiro percurso secretária-balcão-arquivo. Aliás a rotina é aquilo a que um notário aspira desde os seus tempos de estagiário – com o passar do tempo eles vão construíndo carris imaginários que percorrem o todo escritório definindo os seus percursos possíveis. Um notário sénior já tem a sua rede rodoviária definida e move-se, lenta e religiosamente, em cima dos «seus» carris.
O facto de geneticamente possuírem um metabolismo estupidamente mais lento que todos nós, causa-lhes alguns problemas na fala (falam muito lento e muito baixo, sendo por vezes necessário encostarmos a orelha à sua boca – tarefa difícil e perigosa de desempenhar se tivermos um balcão à nossa frente) e problemas vários de concentração e coordenação: é muito vulgar observarmos um notário esgazeado a olhar para o infinito (é a chamada «pausa de hibernação» que, dependendo do seu estágio profissional, pode ocorrer várias vezes ao dia); vulgar é também a dificuldade que apresentam ao teclado de um computador ou de uma máquina de escrever. Os notários mais treinados conseguem atingir velocidades de 2 a 3 segundos entre uma tecla e outra.
Espontaneidade e improviso são conceitos totalmente desconhecidos pelos notários, e confrontá-los com algo inesperado pode ser perigoso dado que estes reagem violentamente – nunca se ostente uma folha de papel que não seja branca ou azul; nunca se apresente como documento oficial um passaporte em vez de um bilhete de identidade; nunca se ouse assinar algum documento a vermelho; e acima de tudo nunca se manifeste corporalmente de uma forma agitada – isso deixa-os nervosos, e o assunto que demoraria 2 horas a resolver poderá atingir uma duração de meses.
Para quem desespera sempre que se desloca a um cartório notarial deixo um pequeno truque que tornará a vossa vida, e a deles, mais fácil: cerca de 3 horas antes de entrarem no notário tomem 3 drunfes, o chamado «kit notário». E tudo fica mais fácil.
quinta-feira, setembro 08, 2005
A Razão Importada
Aqui em Portugal importa-se tudo. Leis, ideias, filosofias, teorias, assuntos, estéticas, ciência, estilo, indústrias, modas, maneiras, pilhérias, tudo nos vem em caixotes pelo paquete. A civilização custa-nos caríssima, com os direitos de alfândega; e é em segunda mão, não foi feita para nós, fica-nos curta nas mangas.
quarta-feira, setembro 07, 2005
A Razão do Atraso
Desde que nasci que ouço que o país está vinte anos atrasado em relação à Europa. Embora esta informação seja muito relativa (quem me diz a mim que não são os gajos que estão vinte anos adiantados?) a verdade é que o atraso faz parte da nossa portugalidade. Um tipo que chega a horas a qualquer sítio em Portugal ou é estrangeiro, ou atrasado mental (lá está, atrasado). A regra dos vinte minutos de atraso é escrupulosamente cumprida em qualquer reunião portuguesa – e não vale a pena chegar a horas, porque quem a agendou irá seguramente chegar atrasado vinte minutos.
Uma obra em Portugal só é considerada uma obra quando apresenta um atraso vergonhoso – senão fôr vergonhoso, é considerada uma obrinha, uma obreca, ou um bico d’obra. Outra coisa que tende também a atrasar em Portugal é o pagamento de qualquer coisa: salários em atraso é normal, prestações em atraso também, impostos em atraso idem.
Mas nisto do pagar atrasado, é o Estado português – essa abstracção incómoda – que bate todos os recordes: num jornal económico lia-se recentemente que os organismos do Estado pagavam, em média, 183 dias depois de terem recebido qualquer serviço. Eu por exemplo há 1.460 dias que espero (entre cartas insultuosas) que o Estado português me devolva o IRS que cobrou indevidamente.
O atraso estende-se a todos os sectores da sociedade nacional, e é algo perfeita e bovinamente natural para o vulgar cidadão: no ensino os estudantes deixam disciplinas em atraso, nos transportes o atraso faz parte do horário, as obras públicas vivem em permanente atraso, os processos atrasam-se uma eternidade nos tribunais, a polícia chega sempre atrasada ao local do crime, até a paciência dos portugueses está em atraso – senão estivesse já tinha havido merda da grossa.
Mas a grande e derradeira prova que o país está mesmo vinte anos atrasado é-nos dada pelos atrasados mentais da política nacional e pelas próximas eleições presidenciais – onde os intervenientes foram repescados de uma realidade política que existiu há vinte e cinco anos atrás. Desde então parece que não aconteceu nada… só atraso.
terça-feira, setembro 06, 2005
A Razão do Elefante com Alzheimer
Durante muitos anos habituei-me a vê-lo sempre por ali. Sempre que lhe dava uma moeda ele tocava a sineta, com o mesmo entusiasmo. Para mim é como se ele sempre tivesse lá estado – quando nasci já ele era mestrado no toque da sineta, e os adultos falavam dele como se tivesse feito parte também da sua infância.
Os anos passaram e ele deixou de tocar a sineta com a mesma pujança. E nós compreendemos, afinal de contas estava velho e já devia estar farto daquilo. Quando se foi embora, esperámos em vão que fosse substituído por um mais novo que tocasse a sineta com o mesmo fulgôr. Confesso que tinha a esperança que o que viesse a seguir, mais novo, introduzisse algumas inovações e tocasse não uma, mas um conjunto de sinetas. O facto é que não conseguiram arranjar-lhe um substituto. Diziam que os mais novos já não se interessavam pelas sinetas, só queriam mesmo era estar de papo para o ar, sem que ninguém os chateasse. E a coisa foi ficando assim, e eu acabei por me esquecer completamente dele e da sineta. Até à semana passada.
Vi na televisão que o elefante da sineta tinha voltado. Mostraram-no a tentar tocar à sineta, como antigamente, mas tudo aquilo era confrangedor. É que a sineta já não estava lá, mas ele fazia os mesmos gestos, bem mais lentos do que outrora, à espera que alguma coisa tocasse. E a malta disfarçava, fingia que não percebia, e aplaudia o velho e ainda simpático elefante com alzheimer.
segunda-feira, setembro 05, 2005
A Razão das Entrevistas Pagas
Na Focus da semana passada, a minha atenção recaíu sobre um inquérito a uma jovem empresária portuguesa. Na nota biográfica da senhora lia-se, entre outras coisas irrelevantes, que era a «primeira mulher do Mundo a organizar eventos de vale tudo.»
Ok…
- Vale arrancar olhos? Vale. Vale tudo.
- Vale sexo sem compromisso? Vale. Vale tudo.
- Vale molestar os anões besuntados em margarina vegetal? Vale. Vale tudo.
- Vale usar cavalos pentapérnicos e mulheres desnudas em alegres perseguições pelos bosques? Vale. Vale tudo.
- Vale enfiar os dedos na torradeira e cantar «A minha sogra é um boi» envergando umas cuecas de gola alta à laia de chapéu? Vale. Vale tudo.
- Vale fazer um comboiozinho gay-lésbico onde cada participante come o gelado do outro? Vale. Vale tudo.
- Vale enfiar a língua na orelha dos garçons do evento e dizer «acho que descobri a tua terceira visão»? Vale. Vale tudo.
- Vale uma tribo de somalis untadinhos que sodomizem obsessivamente, entre cânticos tribais, a organizadora do evento? Somalis?? Ai que nojo! Somalis não vale!
domingo, setembro 04, 2005
A Razão da Resposta
sábado, setembro 03, 2005
A Razão Honesta
sexta-feira, setembro 02, 2005
A Razão Extraterrestre
O nosso planeta, atestadinho de vida supostamente inteligente faz parte de um sistema de 9 planetas que rodopiam alegremente em torno do sol. Pelos vistos nenhum dos outros planetas tem qualquer espécie de vida, o que nos dá uma espécie de exclusividade que nos isenta de pagar condomínio na Via Láctea. Seria ingénuo da nossa parte, para além de probabilisticamente improvável, pensar que somos os únicos seres pensantes no universo. Não tenho grandes dúvidas que há por aí gajos mais pensantes do que, por exemplo, o nosso actual executivo. Bem, mas para isso nem precisamos de saír deste planeta... adiante.
Uma coisa que me faz alguma confusão nesta história das civilizações extraterrestres é que eles insistem em aparecer sempre no mesmo sítio: o interior dos Estados Unidos, em regiões habitadas por labregos de pescoço vermelho que não distinguem uma debulhadora mecânica de um boeing 747, quanto mais uma nave vinda do espaço sideral. Já alguém viu um OVNI em Paris ou em Milão? Claro que não, embora num lado e noutro encontremos restaurantes mais interessantes do que na hillbillylândia, o que me leva a crer que os aliens não estão puto interessados na gastronomia local.
Durante muito tempo questionei-me porque é que os extraterrestres não estabeleciam contacto connosco. Convenhamos que não é muito educado da parte deles entrarem por aqui adentro à surrelfa e limitarem-se a observar discretamente a malta sem tentar falar com connosco. Se fossem japoneses ainda se percebia, mas apesar de pequeninos os gajos não são amarelos - aparentemente são acinzentados (eu se andasse em naves espaciais que se deslocam em sacões violentos daqui para o infinito também ficaria cinzento, ou cinzento esverdeado). Mas mais tarde percebi que os tipos não estabelecem contacto porque são claramente mais inteligentes que nós: só alguém com dois dedos de testa (e os gajos têm, segundo testemunhos, pelo menos dois palmos) evitaria meter conversa com alguém com o gabarito intelectual de um labrego norte-americano.
A forma das naves, descritas por quem as viu de relance, também é esquisita: umas em forma pires de cibalinho e outras que fazem lembrar um charuto. Nunca ninguém viu nenhuma em forma de chávena, muito embora um agricultor da Pensilvânia insista que foi perseguido por uma que tinha a forma das mamas da Marisa Cruz, com megafones nos «mamilos» que repetiam «Bou-te biolar à vruta» em 5 línguas diferentes, mas sempre com sotaque tripeiro.
Uma coisa é certa: não estamos sózinhos. E alguns de nós estão mesmo muito bem acompanhados. O João Pinto, por exemplo. É caso para dizer «Acredita João Pinto!!».
quinta-feira, setembro 01, 2005
A Razão do Género
A própria designação «género oposto» é insidiosa, e remete para uma linha fronteiriça que não está lá, sugerindo que um género deverá sempre marrar contra o outro, o que normalmente acontece.
Mas o oligopólio dos dois géneros é algo tão irritantemente artificial como a linha do horizonte: já alguém alguma vez segurou a linha do horizonte firmemente, com ambas as mãos? Eu já, mas a vodka era de má qualidade e o barco balançava muito.
Pessoalmente acho que andamos todos a fazer género quando insistimos neste tratado de tordesilhas sexual, dividindo o mundo ao meio, metade para ti metade para mim, e depois passamos a vida empoleirados na cerca a tentar perceber o que está do outro lado e a tentar provar, ou comprovar, as diferenças que nos tornam o outro género. O sexismo é uma perda de tempo tão estúpida e vã quanto o racismo que, decididamente, não faz o meu género.
Por estas e por outras é que, quando o John Gray escreveu Os homens são Marte e as mulheres são de Vénus tive uma vontade irreprimível de lhe mandar lá a casa uma tribo de somalis de Plutão, devidamente untadinhos, com o intuito de lhe mostrar o quão retráctil pode ser uma próstata. Contive-me, claro.
quarta-feira, agosto 31, 2005
A Razão da Aparência
Afinal de contas, o «homem do piano» era falso. Uma fraude. Um vergonhoso embuste.O rapaz confessou ser alemão (e não checo, como se pensava), não saber tocar piano (embora os médicos que o assistiram digam que faz lembrar a Maria João Pires), não está amnésico (serviu-se da sua experiência com doentes mentais para fazer a sua figura de urso) e não caiu acidentalmente ao mar (atirou-se a ele conscientemente porque estava deprimido com a vida homossexual que levava).
Neste momento o jovem está a caminho da sua terra natal na antiga Alemanha Oriental à espera que haja lá alguém para orientá-lo.
Num lampejo raro de solidariedade e ajuda humanitária, a Razão fez hoje deslocar para lá uma tribo de somalis que irá dar ao confuso rapazinho um novo sentido para a sua vida. E um novo sentar também, porque este só irá poder sentar-se de novo a um piano com a ajuda de uma câmara de ar meio cheia.
Esta história, e o aproveitamento que os media fizeram dela, fizeram-me pensar em quantos «homens do piano» não andarão por aí, por esse Portugal fora, alimentados pela javardice bacoca dos jornalistas.
Em Portugal o que não falta são «homens instrumento». Não se limitam apenas ao piano – temos «homens viola» como o Carlos Cruz, «homens violoncelo» como o Bibi, «homens baixo» como o Marques Mendes, «homens contrabaixo» como o Santana, «homens violino» com o Carrilho, «homens sem tuba» como o Sócrates, «homens trombone de varas» como o Soares…
Este país é uma verdadeira orquestra! Sem maestro nem partitura…
terça-feira, agosto 30, 2005
A Razão do Compromisso
A sociedade actual presta-se a relacionamentos onde por vezes espreita esse vocábulo que é capaz de provocar estragos numa coisa que pode, potencialmente, transformar-se em algo bom.
Quando a palavra compromisso bate ao de leve à porta da nossa realidade, um arrepio de pânico invade o corpo dos mais racionalistas e acaricia os mais emotivos.
Não há grande margem para dúvidas que as mulheres lhe são mais afectas, enquanto os homens, só quando encostados à parede assumem a relação. O esmagamento é a melhor forma de conseguir que o macho engula este sapo. Não é novidade para ninguém - e se for, o que raio é que andaram a fazer nos últimos tempos, são cegos ou quê – que uma relação começa com duas pessoas que gostam de conversar, sair juntas para tomar uns cafés ou jantar e quando chega a parte do pequeno almoço, cai a sombra do fantasma do compromisso.
Começam as perguntas manhosas que na maior parte das vezes levam à pergunta fatal:
- Afinal o que é que nós temos?
Alerta vermelho, liguem já para a Protecção Civil, catástrofe à vista, ela fez a pergunta!
- Bem… gosto de estar contigo, sinto-me bem quando estou ao teu lado e acho que nos damos bem em todos os aspectos. Devíamos continuar assim.
Assim, sem magoar ninguém, manda-se a bola para canto e ninguém se chateia. Tomara que as coisas fossem assim tão simples.
É claro que as mulheres não desistem facilmente, e com requintes dignos de Maquiavel, voltam à carga, agora com o 7º de Cavalaria a ajudar, quando as coisas já parecem esquecidas.
Conversação pós-coito, na altura em que o homem, satisfeito, só pensa em descansar e diz sim a quase tudo:
- Sabes, tenho medo de te estar a magoar…
- Magoar?!
- Sim, magoar! Não sei o que queres desta relação e temo que te esteja a usar. Se calhar estás à espera de uma relação mais séria mas eu não me sinto preparada para assumir seja o que for.
- Não te preocupes, já te disse (e aqui o “já te disse” é muito importante) que temos uma espécie de empatia químico/intelectual e não me magoas, a não ser quando me arranhas as costas. Gosto de estar contigo, ponto final.
O racionalismo masculino é poderoso mas há formas de dar a volta à situação. Nenhuma mulher, com as hormonas no devido lugar, deixa passar isto em branco. Tanto bate na mesma tecla que o homem se vê obrigado pela consciência pesada a tomar uma decisão.
Conversação pré-coito em que as mulheres estão mais racionais e menos sensíveis:
- Olha, acho que devíamos reflectir um pouco naquilo que aqui temos.
- Queres acabar, é isso?!
- Não é isso que eu estou a dizer, não quero é que penses que só estou contigo pelo sexo fantástico. Não me tomes por aqueles tipos que só pensam com o apêndice!
- Mas eu não penso assim. Só acho que te posso magoar, afinal eu não sou assim. Não estou habituada a estas coisas, e como tal podes pensar que te estou a usar.
Neste momento ele pensa “mas eu gosto de ser usado!” mas não o diz, uma piada nesta altura podia estragar tudo.
- Tu não me usas, o máximo que pode acontecer é que nos estejamos a usar mutuamente.
Ao olhar para a cara dela, dá-lhe a fraqueza e, com a sensação de estar a dar um tiro no pé, diz:
- Acho que devíamos assumir qualquer coisa…
Um post de Miguel de Terceleiros em exclusivo para a Razão.
segunda-feira, agosto 29, 2005
A Razão da Selecção Natural
O que será que passa com essas pessoas que assim que chega o verão, abrem a camisa e andam de peito ao léu? Se a imagem de Portugal (muitas vezes) não abona a nosso favor, com os homens que exportamos nas variadas frentes (política, alvernarias, hotelaria), com estes senhores a andarem na rua a exibirem orgulhosamente a barriga proeminente, as coisas só podem piorar. Não seria tão desesperante se os ditos senhores não fossem todos exemplos daquilo que eles imaginam ser a virilidade do verdadeiro macho latino.
Com a unhaca amarelinha, barriguita disforme, pelos de peito desgovernados enfeitados com o crucifixo (isto sem falar dos outros pelos que saem dos outros orifícios frontais). Mas o desesperante mesmo é vê-los a circular em todo o lado como machos dominantes em busca de presa. Acredito que tivessem melhor sorte se fossem jovens garbosos, de pelagem luzidia e boa dentição.
Caros senhores, as leis da natureza são básicas, ganha sempre o melhor exemplar.
Um post da Ana do 2º Esquerdo em exclusivo para a Razão.
domingo, agosto 28, 2005
sábado, agosto 27, 2005
sexta-feira, agosto 26, 2005
A Razão do Grau
Ok...
Temos uma tendência curiosa de atribuir graus às coisas, mesmo que não o façamos conscientemente. O grau mede a intensidade com que percepcionamos o mundo à nossa volta, fazendo parte de uma escala abstracta que usamos (não sei como, dada a nossa lusitana incapacidade genética para pensar no abstracto) para tomar todas as nossas decisões, desde as mais corriqueiras até às mais intrincadas.
Quando olhamos para os mamíferos que circulam à nossa volta sacamos da escala e atribuímo-lhes graus: gostamos muito de beltrano, gostamos assim assim de fulano, e não gostamos nada de sicrano.
A nossa paciência funciona em graus, e quando as coisas atingem um grau que consideramos inaceitável, salta-nos a tampa, às vezes a um grau violento. Outras vezes servimo-nos dos graus para mudarmos as nossas vidas – os mais radicais dão uma volta de 180 graus e mudam completamente de vida; outros, menos propensos a grandes rupturas fazem mudanças mais graduais, outros ainda fazem mudanças de 360 graus nas suas vidas e depois queixam-se que as coisas estão exactamente na mesma. Pudera... voltaram ao ponto de partida. Nisto de mudar de vida, pelo que me é dado observar, qualquer mudança inferior a 20 ou superior a 340 graus é de evitar: acabamos por ficar a enfrentar a mesma situação, mas ligeiramente virados para o lado, o que se torna ridículo. A não ser que estejam a pensar candidatar-se a Miss Playboy Portugal...
quinta-feira, agosto 25, 2005
A Razão Abstracta
Não sendo um povo vocacionado para o pensamento abstracto, resta aos portugueses o pensamento concreto. Seremos então geneticamente vocacionados para aquilo que é concreto? Pela lógica, se não somos uma coisa deveríamos ser outra, mas a lógica é algo que pertence ao domínio da matemática que, como vimos, não é o nosso campeonato.
Estava a pensar nisto em abstracto quando comecei a procurar exemplos concretos que pudessem demonstrar que compensamos a nossa falta de abstracção com coisas muitos concretas. E muito concretamente o que achei não foi nada animador.
Acho que mais vale abstraír-me destas questões concretas...
quarta-feira, agosto 24, 2005
A Razão do Silicone
Não será extraordinário, assim, que até os jovens sucumbam ao efeito "reciclagem" e se descartem do que a natureza lhes deu em prol de um reconhecimento social que lhes permita passear-se pelas praias e discotecas, assemelhando-se a modelos "seven days a week". A ideia não é conviver, mas apenas ver e ser visto; uma espécie de andróides animados, extremamente apelativos, que despertam desejo e imitam a perfeição.
Contudo, esta é uma tarefa que imprime esforço, qual gueixa de pés gazeados no culto dos seus joanetes bonsai. Contrastando com a pequenez dos ditos pés de gueixa, os ocidentais, pelo contrário, sobrevalorizam a volumetria. Talvez devido à miopia que as grandes urbes provocam, os olhos tendem a não conseguir enxergar as coisas pequenas...
A grande oportunidade de transformar esteticistas e cirurgiões plásticos em emissários da criação foi - Hélas! - o silicone!
Pode ser usado nas mais bizarras aplicações: seios, glúteos, lábios, maçãs do rosto, ou mesmo nas anatomias não imediatamente visíveis.
Mas o que é ainda mais extraordinário é podermos encontrá-lo nas grelhas metálicas de correcção odontológica, em pensos calo-amortecedores, micro palmilhas para sapatos de salto agulha, ou ainda nos tão milagrosos soutiens com bolsinhas do dito, ao que as menos abastadas de recursos anatómicos e/ou financeiros apelidam de "mamas de sair".
Divertido é desafiar os crédulos e incautos babadores compulsivos a testar a genuinidade das formas que pululam nos seus curtos horizontes, não pelo mero teste do toca-e-foge, mas quando, no lusco-fusco da privacidade da alcova, esmorecem mirando as próteses que lentamente se vão amontoando sobre a mesa de cabeceira...
« - Querida, não te importas de voltar a vestir o soutien? É que, assim despida, quase não te reconhecia...
- Querido, tira as lentes de contacto! Que pensas que fiz para conseguir olhar para ti? »
terça-feira, agosto 23, 2005
Razões Amoroso-Gastronómicas
Quando estamos com um grupo de amigos e conhecemos uma pessoa que é amiga de amigo, que tem uma conversa engraçada, culta, com sentido de humor, que fazer para privar com ela?! Convida-se para um café!
Podemos até nem tomar café mas convidamos sempre para um café. O povo português é muito adepto das relações sociais acompanhadas com café. Fecham-se negócios, marcam-se blind date’s, encontros de amigos, e o começo dos engates.
Quem é que nunca sentiu as cotoveladas e olhares cúmplices dos amigos quando se diz “Vou tomar café com fulana”?
Ir tomar café com alguém do sexo oposto implica que a relação está a evoluir. Um café a dois permite aquelas conversas de reconhecimento, é uma prospecção de terreno. Fala-se de tudo e mais alguma coisa, tiram-se nabos da púcara, provoca-se, enfim é o aperitivo óptimo. Aprofunda-se o conhecimento e recolhem-se pistas para o passo que se vai dar a seguir.
Tomar café não demora o tempo de engolir a pequena quantidade de líquido que repousa no fundo da chávena, é bem mais que isso. Pode ser doce ou amargo, escuro e forte ou macio e descafeínado, mas é sempre uma boa opção. Se estiver a correr bem pede-se outra coisa e marca-se outro. A correr mal desmarca-se e parte-se para outra coisa com a desculpa:
-Tenho mesmo que ir embora, tenho o meu voluntariado nos Anjos da Noite, depois eu ligo-te.
- Mas são três da tarde!
- É que… sabes lá começámos cedo, até nos chamam os Anjos do Dia.
Devaneios à parte, quando corre bem, corre mesmo bem.
Alguns cafés depois, estamos prontos para o passo seguinte, o jantar. Convida-se a pessoa quando já recolhemos informações suficientes para saber que o jantar não vai ser embaraçoso. É necessário um grau de intimidade grande para avançar para este nível.
Dentro ou fora de casa, com mais ou menos elaboração, um jantar implica uma série de condicionantes. Um homem deve saber que vinho escolher, é uma das regras universais do engate e acreditem que as mulheres incham de orgulho por saber que o homem que as acompanha sabe do que fala. Uma mulher deve ser delicada e saber ser servida, faz parte das convenções sociais, mas é giro.
Ver o companheiro a pegar nos talheres e nos copos certos é bom mas se falhar não é grave. Grave é ver o nosso interlocutor a meter a cabeça quase dentro do prato ou a sorver sopa ruidosamente. Isto é capaz de destruir o trabalho que tivemos com uma série de cafés de reconhecimento.
Como defende um amigo “Nós somos aquilo que comemos”, por isso há que ter cuidado ao escolher a comida. E se queremos causar boa impressão não devemos pedir coisas que sejam difíceis de comer, como marisco que tenha que ser partido, geralmente dá mau resultado.
- Ooops, lá vai mais uma perna de santola.
Pede aperitivo, digestivo, fuma, quanto fuma, como fuma... qual a relação que mantêm com o empregado, enfim uma série de coisas que influenciam o estudo da pessoa que está à nossa frente e nos permite traçar um retrato robot psicológico que vai influenciar a nossa escolha.
Não consigo, nem devo, explicar como se chega à refeição mais importante do dia, mas posso adiantar-vos que é o topo da relação amoroso/gastronómica.
Só se toma o pequeno-almoço com uma pessoa por quem nos sentimos atraídos, na manhã seguinte à subida de todos os outros degraus.
É claro que se pode inverter a pirâmide – na maior parte das vezes é assim que evolui.
- Este pequeno-almoço estava óptimo, jantamos logo à noite?!
Um post de Miguel de Terceleiros em exclusivo para a Razão.
segunda-feira, agosto 22, 2005
A Razão do Ponto G
Diz quem o inventou, que o Ponto G é um centro de prazer só existente nas mulheres e que, quando devidamente estimulado, é responsável pelos mais intensos, ruidosos e glorificantes orgasmos.
A história é tão bem contada que homens e mulheres o procuram freneticamente, mais parecendo cavaleiros da Távola Redonda na demanda do Santo Graal: elas procuram-no pelas razões óbvias; eles procuram-no como último recurso para aumentar a sua depauperada auto-estima.
Tudo isto é um grande equívoco. Podem parar de procurar.
Se querem mesmo descobrir o Ponto G, entrem ao sábado à noite no Bairro Alto, preferencialmente depois da meia-noite, e dirijam-se ao «Frágil». Aí encontrarão um Ponto G! Se não ficarem satisfeitos esperem mais duas horas e desloquem-se ao «Lux»: outro Ponto G.
Não hão-de faltar G's nestes locais à procura de estimulação. Divirtam-se.
domingo, agosto 21, 2005
sábado, agosto 20, 2005
A Razão do Livre Arbítrio
A Razão Genética
sexta-feira, agosto 19, 2005
A Razão do Croissant
O «síndrome do croissant» tem o seu início e o seu fim em meados dos anos 80, no século passado, altura em que muitos dos leitores deste blog se preparavam diligentemente para nascer.
Antes dos anos 80 não existiam croissants, imaginem vocês. As pastelarias exibiam orgulhosas duchéses, coriáceas bolas de berlim, empertigados ecláires, esbeltos pastéis de nata, abnegados jesuítas, e muitos outros docinhos que apaziguavam a gulodice bovina de muita gente. A palavra snack ainda não fazia parte da vida dos mamíferos daquele tempo.
Então, surgido do nada, ou provavelmente surgido do empreendorismo de um emigrante da bidon ville (que é praticamente a mesma coisa que nada) surge a primeira croissanterie - assim mesmo, em estrangeiro para parecer mais fino. Ávidos por tudo aquilo que vinha do estrangeiro, na boa tradição do provincianismo nacional, os portugueses acorreram em massa. E o sucesso da primeira croissanteria foi tão grande que, num curto espaço de tempo, o país se transformou numa imensa croissanterie. Era impossível descobrir uma pastelaria. Porta sim porta sim, as croissanterias espalharam-se como um ébola desvairado, por todo o país, ameaçando a sobrevivência do queque e do mil folhas. Cidades houve em que surgiu a «rua das croissanterias». Os portugueses atafulhavam-se de croissants como se não houvesse amanhã.
E de repente, cerca de 5 anos depois da croissanteria original, acabaram tão rapidamente como tinham começado. Tipo dinossauros. A razão: não havia mercado para tanta oferta - estava descoberto o «síndrome do croissant».
Curiosamente, os pequenos empresários portugueses não aprenderam nada e, hoje em dia, o país apresenta um número absurdo de falências que está directamente relacionado com este fenómeno.
Em Portugal, a maneira mais rápida de atingir a falência é ter uma boa ideia lucrativa, que só vai ser lucrativa nos primeiros meses porque será selvaticamente copiada até à exaustão: videoclubes; lojas de posters; ginásios; casas de frangos; lojas de artesanato; restaurantes; cibercafés; etc.
Conclusão: tudo tem de dar lucro no muito curto prazo, um princípio que não é nada saudável para o futuro económico, quer do negócio, quer do país.
quinta-feira, agosto 18, 2005
A Razão do Turismo Sexual
Em Portugal, as mulheres fingem não perceber.
«Conhecemos mais coisas se estivermos com alguém que viva lá» diz ela. Entretanto vai-lhes pagando as despesas e dormindo com eles. Uma vez entusiasmou-se e chegou a trazer um com ela. A coisa não durou muito tempo: ele conheceu outra por cá e saíu de casa. Desde essa altura M. deixa-os lá ficar.
Conheço esta malta toda, e por vezes pergunto-me como é que a «ida às putas» se sofisticou tanto...
quarta-feira, agosto 17, 2005
A Razão do Borda D'Água
Felizmente há umas quantas que se mantêm, firmes e hirtas, a resistir à passagem do tempo e à euforia (cada vez mais depressiva) do consumo. E uma delas é o Almanaque Borda D’Água.
Este «reportório útil para toda a gente», como vem descrito na capa, parece ter nascido no tempo de Viriato (quando este andava a atirar calhaus nos Montes Hermínios) e mantém-se orgulhosamente idêntico ao seu primeiro número, publicado há 77 anos atrás, alheio às modernices do papel moderno e da encadernação deluxe, obrigando-nos ao ritual de rasgar as suas páginas para podermos chegar ao conteúdo.
O «Verdadeiro Almanaque Borda D’Água» é uma lição para todas essas marcas multinacionais que por aí aparecem, com investimentos que fariam corar um ministro das finanças. É a lição da persistência teimosa, e do amor desinteressado por aquilo que se faz com gosto. O swoosh da Nike (nome dado pelos especialistas ao vêzinho do logotipo) é uma paneleirice moderna comparada com o Velho da Cartola – o muy digno, e sempre na moda, logotipo do Borda D’Água.
Desfolhar um Borda D’Água é fazer uma viagem no tempo, regressando aos tempos em que os dias demoravam a passar, em que a EDP se via à brocha para fazer dinheiro, em que o IVA era uma realidade tão distante como um episódio do «Star Wars», e em que os dias se contavam, sol a sol, pelas luas.
Havia malta que contava os dias até ao próximo Almanaque Borda D’Água, essa verdadeira enciclopédia de conhecimento que parecia conter tudo o que interessava em meia dúzia de páginas: as previsões do tempo para o ano inteiro, quando preparar a terra para o milho e para a batata de regadio, quando semear amores-perfeitos, a que horas nascia e se punha o sol; ali se aprendia que o dia 17 de Novembro era o dia da Sta. Isabel da Hungria, e que nos primeiros sábados do mês havia feira em Sta. Bárbara de Nexe.
Muito antes dos vendedores ambulantes do Planeta Agostini, já o Borda D’Água andava por aí a ensinar a malta que o signo de Gêmeos transmutava a sensibilidade lunar e que o signo de Virgem tinha como flôr preferencial a camélia (talvez seja daqui que tenha surgido a expressão «para ser virgem é preciso ser camela», tendo-se perdido o «i» algures na imensidão dos tempos).