sábado, novembro 26, 2005

A Razão Ignorante

descansada

Quanto menos soubermos sobre como são feitas as salsichas e as leis, mais descansados dormiremos.


Otto von Bismarck

sexta-feira, novembro 25, 2005

A Razão do Adeus

adeus

De vez em quando reparo na influência que a religião tem na nossa língua e nas coisas mais básicas que ela expressa. «Adeus», aquela palavra que usamos vulgarmente para nos despedirmos uns dos outros, é um desses exemplos.
Quando um povo católico se despede a coisa fica carregada daquela inexorabilidade bacoca do reencontro – convém perceber que quando se manda alguém «a Deus» está-se inconscientemente a dizer «vai desta para melhor, meu querido». É que num país católico só vai a Deus quem deixa de existir num plano terreno, ou tratando os bois pelos nomes: quem morre! Podemos sempre acreditar que o sentido não é este, que na pior das hipóteses «adeus» significa «vai ali à casa de Deus». Mas seria rídiculo termos de passar pela igreja mais próxima sempre que nos despedíssemos de alguém. Para além de poder ser perigoso, por corrermos o risco de nunca mais de lá saírmos (a não ser que se evitássemos despedidas dentro das igrejas)
Franceses, Portugueses e Espanhóis (e seus derivados coloniais) usam alegremente esta espécie de maldição sempre que os seus caminhos se bifurcam. Mais valia assumirem a coisa de uma forma consciente e dizerem «vai morrer longe!».
Mas nem todos os povos têm este mau feitio dos católicos. Até os italianos, católicos convictos, se aperceberam do significado do termo e criaram o «Ciao». Também não acho que o «Ciao» seja uma palavra que dignifique a separação, até porque os italianos a usam arbitrariamente, seja para significar «Olá» seja para significar «Adeus» - que é a mesma coisa que dizer que «estares aqui ou estares ali, para mim é a mesma coisa» o que não é uma coisa educada para se dizer a outra pessoa, principalmente se gostarmos dela.
Os ingleses têm uma maneira mais civilizada de se despedirem. Se analisarmos o sentido de «goodbye» veremos que este significa algo do tipo «boa passagem» (que em português correcto seria «passa bem»). É infinitamente melhor do que mandar alguém «desta para melhor» (outra expressão nacional que significa exactamente o contrário daquilo que descreve). «Goodbye» encerra um desejo altruísta - com uma pitada de egocentrismo - de que o outro esteja bem mesmo quando não está perto de nós.
São os alemães que têm a maneira mais simples de despedida. Sem floreados e merdices desnecessárias: «Auf Wiedersehen» significa «até à vista» não tem segundos significados – vou deixar de te ver e portanto até um dia destes em que nos veremos novamente. Sempre é mais agradável do que «Adeus», com tudo o que isso implica.
Pessoalmente gosto da maneira japonesa da despedida, na zona de Tóquio: «Mata ai Masho». Não faço ideia do que significa, mas que soa bem soa.
E agora, se me permitem, vão todos morrer longe. E desenganem-se se acham que este é um post de despedida.

quinta-feira, novembro 24, 2005

A Razão Feudal

Li ontem que sempre que utilizar o aeroporto da Portela vou pagar uma taxa de sete euros para ajudar a pagar o aeroporto da OTA. Aqui está mais um excelente exemplo labrego da política económica de Sócrates: tome-se as decisões arbitrárias e tendenciosas que se quiser e faça-se os cidadãos pagarem mais uma taxa, para além dos impostos e do IRS. Daqui por uns anos, os alunos de ciência política das universidades portuguesas vão aprender com alguma surpresa que, no início do século XXI, um conjunto de imbecis liderados por um engenheiro, recriou um sistema de feudalismo económico semelhante ao que se praticava no século V.
Para mim não existe apenas uma forma de ditadura. Temos a ditadura política que cala e elimina toda a forma de oposição. E depois temos a ditadura económica, ainda mais perigosa porque surge sob uma falsa capa de democracia, e que paulatinamente vai sugando os cidadãos com uma taxa aqui, uma taxa ali, um agravamento aqui, um imposto acolá, e assim sucessivamente até à inconsciência.

Só um engenheiro é incapaz de perceber que este sistema feudal vai estrangular o país no médio prazo... mas também quem disse que ele vai querer cá estar no médio prazo?

terça-feira, novembro 22, 2005

A Razão da Paciência

paciencia

Tenha paciência mas vai ter que passar para a caixa ao lado porque esta vai fechar. Tenha paciência mas hoje acabaram logo antes do almoço, agora só amanhã. Tenha paciência mas isso não faço – há-de haver quem faça, mas não serei eu certamente. Tenha paciência e dê aí um jeitinho para eu passar. Tenham paciência mas vão ter de pagar mais impostos para o ano que vem.
Ao longo da nossa vida pedem-nos para ter paciência, quase diariamente. A coisa está tão enraízada no nosso discurso do dia a dia que tenho dúvidas se somos um povo bovinamente paciente porque nos martelam com isso todos os dias, ou se nos exigem algo que temos ancestralmente nos nossos lusos genes.
Cá para mim os espanhóis andam, há algumas gerações, a atirar drunfes para os caudais dos rios à saída da fronteira. Estamos todos pachorrentamente dopados e cheios de paciência à conta de doses diárias de soporíferos e ansiolíticos diluídos nas águas castelhanas (fora aqueles que tomamos voluntariamente todos os dias em terras lusitanas). Haja paciência, evitem a água: bebam vinho.

domingo, novembro 20, 2005

A Razão Própria

propria

Somos mais persuadidos pelas razões que descobrimos por nós próprios do que pelas razões que nos são dadas por outros.

Pascal


Por estas e por outras é que eu já desisti de vos convencer. Acreditem se quiserem.

sábado, novembro 19, 2005

A Razão Naturalista

naturalista
A minha teoria da evolução:
Darwin foi adoptado.


Steven Wright

sexta-feira, novembro 18, 2005

A Razão do Mictório

mictorio
A casa de banho é um dos locais mais importantes no dia a dia de uma pessoa. Sendo assim, porque raio é que os arquitectos não prestam mais atenção quando definem o espaço, e os elementos que lá são colocados?
Quem desenha os mictórios? Tenho a certeza absoluta que é uma mulher com recalcamentos: gostava de atingir o grau máximo da emancipação e fazer desenhos na parede (leia-se mijar de pé).
Todos sabemos qual é a função do mictório, albergar o líquido e não deixar que nada saia cá para fora. A forma como estes objectos são desenhados está longe de ser a ideal, porque quando tiramos a mangueira cá para fora e fazemos mira para os buraquinhos – o objectivo destes é de escoamento – começam a saltar pingas por todo o lado; se tentamos acertar nas paredes o resultado é o mesmo e as formas curvas, que tem como função evitar que haja ressalto do líquido, são feitas de forma a provocar o efeito contrário ao desejado.
Dizem que se deve lavar as mãos quando se vai à casa de banho, cá para mim devia haver uma muda de roupa e um chuveiro, pelo menos para os homens.
Se vamos para os urinóis de design ainda é pior. Quem é que no seu perfeito juízo faz urinóis planos?! É como mijar para a parede mas é bem pior. Quando mijamos para a parede podemos escolher a parede, a distância e evitamos mijar para os pés. Este tipo de receptáculo é feito de propósito para acertarmos nos pés. A distância à parede é mínima e o resguardo para os sapatos também. Resultado, se não acertamos nos pés é nas pernas.
Este tipo é encontrado nos bares e discotecas e por vezes tem uma cortina de água a correr constantemente o que não abona em nada para a poupança do líquido precioso.
As divisórias dos mictórios não são bem planeadas. Todos já tivemos a sensação de ter alguém ao nosso lado a lançar um olhar métrico sobre o nosso material. As divisórias deviam ser mais altas, não custava nada. Isto faz-me duvidar da orientação sexual dos arquitectos… A dimensão das divisórias é insuficiente. É desconfortável ter que “mudar a água às azeitonas” ombro com ombro com um desconhecido.
E como se isto não bastasse, estamos ameaçados de outra forma, mas só agora é que tomamos consciência disso: a gripe das aves! Estamos tranquilamente a “tirar a água do joelho” e, em pânico, vemos um pato, já na fase terminal da doença (apresenta-se nas cores azul e nos casos mais graves verde), a poucos centímetros do nosso joystick. Contrair a doença por esse canal não deve ser nada agradável.

Um post de Miguel de Terceleiros em exclusivo para a Razão.

terça-feira, novembro 15, 2005

A Razão do Ressabiado

Um dos espécimes vulgaris deste país é o ressabiado. Ressabiado, digo eu, é aquele gajo que acha que vale mais do que aquilo que a realidade demonstra e que por causa disso anda permanentemente chateado porque ninguém nunca lhe reconhece aquilo que ele acha que merecia ter. Complicado? Não, se conhecerem uma personagem chamado Saramago – um estreptococo que um dia decidiu que o país era demasiado pequeno para albergar o seu insuflado ego e que por isso se mudou para uma ilha do país vizinho.

O que faz com que Saramago seja um labrego ressabiado? Qualquer indivíduo com coluna vertebral teria tomado a atitude que ele tomou assumindo-a com frontalidade. Quem leu isto sabe que coluna vertebral é algo que escasseia em Saramago e portanto de vez em quando temos de levar com as aleivosias deste estreptococo. A última delas foi o lançamento do seu último livro, pelo que sei uma obra de humor (como se um estreptococo invertebrado soubesse provocar o riso). Saramago decidiu fazer o lançamento do seu último livro no Brasil. Até aqui tudo bem. Vender para um mercado de 259 milhões de potenciais leitores é substancialmente diferente do que vender para um miserável mercado de 10 milhões. O que me chateia profundamente é que esta bosta fez questão de dizer que lhe dava muito prazer de lançar o seu último estertor no Brasil só porque não o fazia em Portugal. Pessoalmente até agradeço que Saramago publique os seus livros na República do Butão, no Uzbequistão, ou inclusivé na Somália. Até agradecia que os seus lançamentos fossem feitos o mais longe possível do meu miserável país. O que não tenho é pachorra para aturar é o seu ressabiamento crónico. Se isto fosse um país de gente séria Saramago nunca mais venderia um único livro à conta desta sua última diarreia ressabiada. Mas como vivemos em Portugal, qualquer cagalhão nobelizado atinge calmamente a 2ªedição.

segunda-feira, novembro 14, 2005

A Razão da Categoria

categoria
Há um problema de categoria neste país. Veja-se a dificuldade que temos em encaixar o país numa categoria: somos um país em vias de desenvolvimento ou somos um país desenvolvido? Tenho dúvidas. Se estamos em vias de desenvolvimento elas devem estar muito obstruídas porque isto não anda. Se somos um país desenvolvido alguém se esqueceu de nos avisar.
Convivo muito mal com esta falta de categoria.

A Razão das Sete Medidas

seven

Depois de alguns anos de reflexão política e de alguns meses a observar a esquizofrenia da governação de Sócrates, cheguei à conclusão que o programa de governo perfeito para Portugal conteria apenas sete medidas simples, que partilharei convosco:

1. Eliminar a Inveja
Há nesta telenovela mexicana um superavit de Inveja que se cristalizou ao ponto de já fazer parte da nossa cultura nacional. A Inveja destrutiva dos portugueses para com os portugueses impede que as coisas aconteçam, destrói a iniciativa privada e nivela por baixo qualquer hipótese de evolução. Quem tiver Inveja fica encarregado de pagar os impostos. Os que não a tiverem ficam isentos.

2. Erradicar a Preguiça
Há muito relaxado por aí sem vontade de trabalhar. Há muito labrego a fingir que trabalha. Quem estiver com Preguiça pode ir fazer a siesta para o país vizinho. Fica autorizado a voltar daqui a 30 anos. O país agradece. O problema do desemprego ficará praticamente resolvido com esta medida.

3. Taxar a Vaidade
É um paradoxo viver num país que se encontra em crise profunda e verificar que o número de inscrições em ginásios, spa's, e clínicas estéticas não pára de aumentar; que o número de automóveis per capita colocam Portugal no 5º lugar do ranking mundial de posse de automóvel. Se querem ser vaidosos paguem um IVA de 200% sobre essas paneleirices. E andem mais vezes de transportes públicos.

4º Banir a Gula
Fala-se muito em obesidade infantil e criam-se medidas histéricas para a debelar, mas o problema da Gula não está nas crianças. Está nos seus pais e nos seus avós, que ficaram demasiado gulosos depois dos anos dourados dos fundos comunitários europeus. Pois bem queridos, essa mama acabou mas a vossa Gula parece não ter limite. Crie-se uma dieta especial para gulosos que consiste no recebimento compulsivo do ordenado mínimo nacional por um período de 10 anos.

5º Punir a Avareza
Esta medida teria aplicação exclusiva no Governo e nos organismos do Estado. Sempre que se implementasse mais uma «medida governamental de contenção» esta teria um efeito vitalício sobre os membros do governos, funcionários públicos e suas famílias, por 3 gerações vindouras.

6. Desincentivar a Luxúria
Nunca os produtos de luxo se venderam tanto em Portugal como nos dias de hoje. Só podem estar a gozar connosco.A medida a aplicar aqui seria linear: por cada produto de luxo adquirido, o seu comprador depositaria um valor idêntico na Segurança Social. Os reformados deixariam de passar fome neste país.

7. Proíbir a Ira
Manifestações como aquela que nunca aconteceu na Costa da Caparica, manifestações iradas dos beliscados funcionários públicos, e outras demonstrações quejandas de Ira teriam um tratamento simples: era tudo requisitado para campos de reabilitação da agricultura nacional, que anda pelas ruas da amargura à conta dos anteriores pecados.

Este seria um programa simples de governo para acabar com os pecados que se estão a tornar mortais para o país. E nem precisava de grande coragem política para os implementar, que é coisa que escasseia muito por aí...

domingo, novembro 13, 2005

A Razão Hipocondríaca

hipocondriaca

Conduzo demasiado depressa para me preocupar com os meus índices de colesterol.

Steven Wright

sábado, novembro 12, 2005

A Razão do Bridge

bridge
O sexo é como um jogo de bridge: se não tens um bom parceiro, é bom que tenhas uma boa mão.

Charles Pierce

sexta-feira, novembro 11, 2005

A Razão da Tara Perdida

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Os filósofos chamam-lhes de cortes epistemológicos. A maltosa do dia a dia é mais despudorada, ou eufemística se quiserem, e intitulam-no de «a puta da realidade».
A verdade é que há alturas em que as coisas não voltam a ser o que eram. A tara perdida é uma delas. A partir do momento que uma alma iluminada decidiu criar a tara perdida, Portugal nunca mais voltou a ser o mesmo. Até aquele momento tínhamos a nossa tara: podia até ser uma tara inconsequente, pequenina, insignificante, rídicula. Mas era a nossa tara. A tara que fez com que um pastor andasse à calhauzada com romanos nos Montes Hermínios; a tara que fez com que um gajo mandasse um par de lambadas na mãe e desatasse a fundar que nem um desalmado; a tara que fez com que meia dúzia de gajos numa casquinha se fizesse ao mar para dar novos mundos ao mundo; a tara que fez com que um puto maluco comprometesse à grande os destinos da nação; a mesma tara que fez com que uma gaja arreasse à grande e à portuguesa com uma pá num grupelho de labregos castelhanos; a tara que fez com que a língua portuguesa fosse muito maior que o território nacional; e que um grupo de chavalos capitães decidisse tomar o país de G3 carregadas de cravos vermelhos.
Depois da introdução da tara perdida não voltámos a ser os mesmos. Perdemos a tusa, dizem uns. Perdemos a noção dizem outros. Perdemos aquela dose de loucura que sempre fez com que nós, desde sempre um pequeno país no ponto mais ocidental da Europa, achássemos que éramos muito (mas muito mesmo) maiores que os nossos mais selvagens sonhos.
Hoje, com a tara perdida algures por aí e sem esperanças de alguma vez a reencontrarmos, somos a exacta imagem do nosso Primeiro Ministro: um gajo de voz esganiçada e de atitudes titubeantes, que mente todos dias ao país e a si próprio, sem tara nem objectivos.

Alguém procure a tara s.f.f.

quinta-feira, novembro 10, 2005

A Razão Cocoon

cocoon
O que é que se pode esperar de uma época cujas atitudes de revolta foram perpetuadas pela terceira idade?
Pouco, mas a verdade é que os idosos de hoje já não são como antigamente e o país está como está porque está porque os novos velhos não têm tino.
Antigamente, nos bons velhos tempos, quando atingiam uma determinada idade fechavam-se em casa ou nos lares e tinham a delicadeza de fingir que se tinham finado antes do tempo. Era uma espécie de estágio.
Hoje, não. Estão uns autênticos alucinados e andam aí na rua como se não houvesse amanhã. E para muitos provavelmente não haverá.
Antes, no tempo em que respeitavam os mais novos, quando os encontrávamos na farmácia era porque estavam a comprar a pomada para o hemorroidal. Não andavam por aí nos posters publicitários a promover descaradamente uma vida sexual capaz de fazer inveja a uma marta com cio.
Antes, quando os víamos no banco era porque tinham ido depositar mais umas economias para o futuro dos filhos e netos, e não porque tinham decidido recorrer a créditos especias para viagens de luxo, vestidos com camisolas «I went to Polynesia and all I bought you was this lousy T-shirt».
Antes, quando tinham alguma decência, se os víamos acompanhados de miúdas de 18 anos era porque tinham ido esperar a neta à Faculdade.
Antes, quando apareciam na televisão era porque tinham chegado aos 100 anos e a família queria aparecer no telejornal. Não era de forma alguma para se candidatarem a presidentes da República Portuguesa.
Francamente! Já não há respeito.

quarta-feira, novembro 09, 2005

A Razão dos Eufemismos

eufemismos
Irrita-me profundamente a mania que agora toda a gente tem de abusar dos eufemismos.
Senão vejamos: Um gago, já não é aquele gajo que... que... que... demora imenso tempo a falar: é um individuo com desordens a nível da fluência.
Um estúpido é uma pessoa com dificuldades ao nível da aprendizagem e um grande estúpido, uma com dificuldades ainda mais acrescidas.
Já ninguém é bêbado neste país, mas sim alguém que sofre de problemas comportamentais ao nível da bebida.
Esse mesmo labrego alcoolizado também não dá todos os dias um enxerto de porrada na mulher. Ela é que é mais uma das vítimas de violência doméstica.
Isto, aparentemente divertido, tem levado a uma crescente desculpabilização semântica dos criminosos, dos ladrões, dos corruptos, dos violadores e até da actuação do Governo (que consegue albergar inúmeros exemplares de cada um destes grupos).
Neste país, ninguém rouba – desvia. Ninguém aldraba – defrauda expectativas. Ninguém aumenta impostos – toma medidas de incremento. E ninguém está mais uma vez a ir ao «eufemismo mais profundo» dos portugueses – está é a pedir um esforço de contenção e abnegação aos contribuintes. Por isso, não percebo porque é que noutras formas de insulto mais prosaicas ainda não substituímos o «Vai à merda» pelo: «Por favor dirija-se ao excedente alimentar mais próximo»”. Ou o vulgar «eu quero que tu te lixes e vás dar banho ao cão», por um «eu gostaria imenso que você aparasse as suas arestas antes de banhar o canídeo».
Da mesma forma que deveríamos deixar de dizer «Que grande corno que tu me saíste» e passar a exclamar «Você, sua vítima de adultério assumida e reincidente» ou até mesmo substituir o famoso « Tu és um grande filho da p...» por «A excelentíssima senhora sua mãe é a maior mulher de negócios que eu, o meu pai, o meu tio e o grupo de forcados amadores de Coruche já alguma vez conheceu».
Só assim, poderemos dizer que somos um verdadeiro país de eufemistas, que é como quem diz: uma cambada de paneleiros.

terça-feira, novembro 08, 2005

A Razão Alucinógena

alucionogena

Estou a escrever este post num hotel em Amsterdam. Vou-me coibir de vos explicar as razões que me fazem estar neste momento em Amsterdam, e ainda por cima a escrever um post. Imaginem o que vos apetecer.
Há pouco fui à janela do meu quarto no 4º piso e pus-me a ver a vista. Nada de especial a vista. A não ser pelo facto de lá embaixo, ao lado de um parque de estacionamento de bicicletas, estar uma cabra branca a pastar num canteiro. Ora eu vim directo do aeroporto para o hotel e portanto qualquer hipótese de estar perante o efeito secundário de substâncias alucinógenas deve ser terminantemente posta de lado. A cabra é real. E branca. E pasta.
Daqui por uma hora talvez veja um dragão de Komodo a alçar a perna para fazer a sua mijinha territorial na esquina do hotel. Daqui por duas horas talvez me depare com uma anémona descorada a coçar a micose no bar do hotel, tentando encetar uma conversa de engate com uma alforreca escorbútica com problemas de bebida. Talvez até seja confrontado, daqui por três horas, com anões coloridos e besuntados em manteiga a tentar trilhar o mamilo nas dobradiças da porta do hotel, ao mesmo tempo que cantam «Adio adieu» do grande Cid. Talvez veja isso tudo e mais um par de botas. Mas enquanto o space cake que pedi ao room service não chega, vejo uma cabra branca a pastar no passeio.

segunda-feira, novembro 07, 2005

A Razão Descrente

descrente
Acredito em Deus? Acreditava até a mãe ter sofrido o acidente. Caiu em cima de um croquete, facto que exacerbou a sua melancolia. Esteve em coma durante meses e meses, incapaz de fazer outra coisa que não fosse cantar Granada a um arenque imaginário. Porque razão ficou esta mulher, na primavera de vida, tão afectada? Será por ter desafiado as convenções ao casar-se com um saco de papel castanho na cabeça? E como posso acreditar em Deus se na semana passada trilhei a língua no rolo da máquina de escrever eléctrica? Sinto-me atormentado pela dúvida. E se tudo é uma ilusão e nada existe? Se assim é, paguei demasiado dinheiro pelo tapete. Se ao menos Deus me enviasse um sinal claro! Como o de fazer um depósito vultoso em meu nome num banco suíço.

Woody Allen

domingo, novembro 06, 2005

A Razão Reveladora

reveladora
Em democracia os partidos dedicam a a maior parte das suas energias a tentar provar que os outros partidos não são competentes para governar – e todos são bem sucedidos a fazer isto. E têm razão.

H.L.Mencken

sábado, novembro 05, 2005

A Razão Alienada

alienada
As ruas de Filadélfia são seguras.
As pessoas é que as tornam inseguras.


Frank Rizzo, Mayor de Filadélfia


sexta-feira, novembro 04, 2005

A Razão da Rescisão

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Devido a uma recente medida governamental Portugal será brevemente o país europeu com mais praticantes de artes-marciais e defesa pessoal. É que segundo o Governo, se é que desta vez eles não estão a mentir, os labregos que planeiam viver do fundo de desemprego à conta dos contribuintes deixarão de receber o pastel se o seu acordo de rescisão de trabalho fôr amigável. A solução passa por uma rescisão litigiosa. E nada mais litigioso do que arrefinfar um pontapé à Van Damme nas trombas do patrão, para poder receber um subsídio do Estado.
«Eu até já me apetecia ir-lhe aos fagotes» confidenciava um labrego a fazer tempo numa empresa para receber o seu, «então agora vou ter mesmo que fazer o gosto ao dedo».
Desde o início desta semana que se tem observado uma inscrição massiva de adeptos nas academias de artes-marciais. As modalidades mais procuradas têm sido o manejo do varapau dos pauliteiros de Miranda e o brandir selvático da Moca de Rio Maior, se bem que outras modalidades orientais como o Jiu Jitsu, o Taekwondo e o Shotokan tenham também observado uma adesão assinalável.A medida governamental teve um natural impacto na política de formação das empresas a operar em território nacional: os cargos de direcção e supervisão estão a ser alvo de uma reciclagem em defesa pessoal. É que os patrões não se importam de enveredar por um litigiosinho ou outro, mas não estão dispostos a sofrer traumatismos vários, a bem das contas públicas.
Face a estes recentes desenvolvimentos, o Governo está a equacionar a legalização de armas de fogo para tornar a medida mais eficaz, estando esta medida dependente do relatório, em curso, sobre o volume das pensões de viuvez e o seu agravamento na dívida pública.