terça-feira, novembro 22, 2005

A Razão da Paciência

paciencia

Tenha paciência mas vai ter que passar para a caixa ao lado porque esta vai fechar. Tenha paciência mas hoje acabaram logo antes do almoço, agora só amanhã. Tenha paciência mas isso não faço – há-de haver quem faça, mas não serei eu certamente. Tenha paciência e dê aí um jeitinho para eu passar. Tenham paciência mas vão ter de pagar mais impostos para o ano que vem.
Ao longo da nossa vida pedem-nos para ter paciência, quase diariamente. A coisa está tão enraízada no nosso discurso do dia a dia que tenho dúvidas se somos um povo bovinamente paciente porque nos martelam com isso todos os dias, ou se nos exigem algo que temos ancestralmente nos nossos lusos genes.
Cá para mim os espanhóis andam, há algumas gerações, a atirar drunfes para os caudais dos rios à saída da fronteira. Estamos todos pachorrentamente dopados e cheios de paciência à conta de doses diárias de soporíferos e ansiolíticos diluídos nas águas castelhanas (fora aqueles que tomamos voluntariamente todos os dias em terras lusitanas). Haja paciência, evitem a água: bebam vinho.

domingo, novembro 20, 2005

A Razão Própria

propria

Somos mais persuadidos pelas razões que descobrimos por nós próprios do que pelas razões que nos são dadas por outros.

Pascal


Por estas e por outras é que eu já desisti de vos convencer. Acreditem se quiserem.

sábado, novembro 19, 2005

A Razão Naturalista

naturalista
A minha teoria da evolução:
Darwin foi adoptado.


Steven Wright

sexta-feira, novembro 18, 2005

A Razão do Mictório

mictorio
A casa de banho é um dos locais mais importantes no dia a dia de uma pessoa. Sendo assim, porque raio é que os arquitectos não prestam mais atenção quando definem o espaço, e os elementos que lá são colocados?
Quem desenha os mictórios? Tenho a certeza absoluta que é uma mulher com recalcamentos: gostava de atingir o grau máximo da emancipação e fazer desenhos na parede (leia-se mijar de pé).
Todos sabemos qual é a função do mictório, albergar o líquido e não deixar que nada saia cá para fora. A forma como estes objectos são desenhados está longe de ser a ideal, porque quando tiramos a mangueira cá para fora e fazemos mira para os buraquinhos – o objectivo destes é de escoamento – começam a saltar pingas por todo o lado; se tentamos acertar nas paredes o resultado é o mesmo e as formas curvas, que tem como função evitar que haja ressalto do líquido, são feitas de forma a provocar o efeito contrário ao desejado.
Dizem que se deve lavar as mãos quando se vai à casa de banho, cá para mim devia haver uma muda de roupa e um chuveiro, pelo menos para os homens.
Se vamos para os urinóis de design ainda é pior. Quem é que no seu perfeito juízo faz urinóis planos?! É como mijar para a parede mas é bem pior. Quando mijamos para a parede podemos escolher a parede, a distância e evitamos mijar para os pés. Este tipo de receptáculo é feito de propósito para acertarmos nos pés. A distância à parede é mínima e o resguardo para os sapatos também. Resultado, se não acertamos nos pés é nas pernas.
Este tipo é encontrado nos bares e discotecas e por vezes tem uma cortina de água a correr constantemente o que não abona em nada para a poupança do líquido precioso.
As divisórias dos mictórios não são bem planeadas. Todos já tivemos a sensação de ter alguém ao nosso lado a lançar um olhar métrico sobre o nosso material. As divisórias deviam ser mais altas, não custava nada. Isto faz-me duvidar da orientação sexual dos arquitectos… A dimensão das divisórias é insuficiente. É desconfortável ter que “mudar a água às azeitonas” ombro com ombro com um desconhecido.
E como se isto não bastasse, estamos ameaçados de outra forma, mas só agora é que tomamos consciência disso: a gripe das aves! Estamos tranquilamente a “tirar a água do joelho” e, em pânico, vemos um pato, já na fase terminal da doença (apresenta-se nas cores azul e nos casos mais graves verde), a poucos centímetros do nosso joystick. Contrair a doença por esse canal não deve ser nada agradável.

Um post de Miguel de Terceleiros em exclusivo para a Razão.

terça-feira, novembro 15, 2005

A Razão do Ressabiado

Um dos espécimes vulgaris deste país é o ressabiado. Ressabiado, digo eu, é aquele gajo que acha que vale mais do que aquilo que a realidade demonstra e que por causa disso anda permanentemente chateado porque ninguém nunca lhe reconhece aquilo que ele acha que merecia ter. Complicado? Não, se conhecerem uma personagem chamado Saramago – um estreptococo que um dia decidiu que o país era demasiado pequeno para albergar o seu insuflado ego e que por isso se mudou para uma ilha do país vizinho.

O que faz com que Saramago seja um labrego ressabiado? Qualquer indivíduo com coluna vertebral teria tomado a atitude que ele tomou assumindo-a com frontalidade. Quem leu isto sabe que coluna vertebral é algo que escasseia em Saramago e portanto de vez em quando temos de levar com as aleivosias deste estreptococo. A última delas foi o lançamento do seu último livro, pelo que sei uma obra de humor (como se um estreptococo invertebrado soubesse provocar o riso). Saramago decidiu fazer o lançamento do seu último livro no Brasil. Até aqui tudo bem. Vender para um mercado de 259 milhões de potenciais leitores é substancialmente diferente do que vender para um miserável mercado de 10 milhões. O que me chateia profundamente é que esta bosta fez questão de dizer que lhe dava muito prazer de lançar o seu último estertor no Brasil só porque não o fazia em Portugal. Pessoalmente até agradeço que Saramago publique os seus livros na República do Butão, no Uzbequistão, ou inclusivé na Somália. Até agradecia que os seus lançamentos fossem feitos o mais longe possível do meu miserável país. O que não tenho é pachorra para aturar é o seu ressabiamento crónico. Se isto fosse um país de gente séria Saramago nunca mais venderia um único livro à conta desta sua última diarreia ressabiada. Mas como vivemos em Portugal, qualquer cagalhão nobelizado atinge calmamente a 2ªedição.

segunda-feira, novembro 14, 2005

A Razão da Categoria

categoria
Há um problema de categoria neste país. Veja-se a dificuldade que temos em encaixar o país numa categoria: somos um país em vias de desenvolvimento ou somos um país desenvolvido? Tenho dúvidas. Se estamos em vias de desenvolvimento elas devem estar muito obstruídas porque isto não anda. Se somos um país desenvolvido alguém se esqueceu de nos avisar.
Convivo muito mal com esta falta de categoria.

A Razão das Sete Medidas

seven

Depois de alguns anos de reflexão política e de alguns meses a observar a esquizofrenia da governação de Sócrates, cheguei à conclusão que o programa de governo perfeito para Portugal conteria apenas sete medidas simples, que partilharei convosco:

1. Eliminar a Inveja
Há nesta telenovela mexicana um superavit de Inveja que se cristalizou ao ponto de já fazer parte da nossa cultura nacional. A Inveja destrutiva dos portugueses para com os portugueses impede que as coisas aconteçam, destrói a iniciativa privada e nivela por baixo qualquer hipótese de evolução. Quem tiver Inveja fica encarregado de pagar os impostos. Os que não a tiverem ficam isentos.

2. Erradicar a Preguiça
Há muito relaxado por aí sem vontade de trabalhar. Há muito labrego a fingir que trabalha. Quem estiver com Preguiça pode ir fazer a siesta para o país vizinho. Fica autorizado a voltar daqui a 30 anos. O país agradece. O problema do desemprego ficará praticamente resolvido com esta medida.

3. Taxar a Vaidade
É um paradoxo viver num país que se encontra em crise profunda e verificar que o número de inscrições em ginásios, spa's, e clínicas estéticas não pára de aumentar; que o número de automóveis per capita colocam Portugal no 5º lugar do ranking mundial de posse de automóvel. Se querem ser vaidosos paguem um IVA de 200% sobre essas paneleirices. E andem mais vezes de transportes públicos.

4º Banir a Gula
Fala-se muito em obesidade infantil e criam-se medidas histéricas para a debelar, mas o problema da Gula não está nas crianças. Está nos seus pais e nos seus avós, que ficaram demasiado gulosos depois dos anos dourados dos fundos comunitários europeus. Pois bem queridos, essa mama acabou mas a vossa Gula parece não ter limite. Crie-se uma dieta especial para gulosos que consiste no recebimento compulsivo do ordenado mínimo nacional por um período de 10 anos.

5º Punir a Avareza
Esta medida teria aplicação exclusiva no Governo e nos organismos do Estado. Sempre que se implementasse mais uma «medida governamental de contenção» esta teria um efeito vitalício sobre os membros do governos, funcionários públicos e suas famílias, por 3 gerações vindouras.

6. Desincentivar a Luxúria
Nunca os produtos de luxo se venderam tanto em Portugal como nos dias de hoje. Só podem estar a gozar connosco.A medida a aplicar aqui seria linear: por cada produto de luxo adquirido, o seu comprador depositaria um valor idêntico na Segurança Social. Os reformados deixariam de passar fome neste país.

7. Proíbir a Ira
Manifestações como aquela que nunca aconteceu na Costa da Caparica, manifestações iradas dos beliscados funcionários públicos, e outras demonstrações quejandas de Ira teriam um tratamento simples: era tudo requisitado para campos de reabilitação da agricultura nacional, que anda pelas ruas da amargura à conta dos anteriores pecados.

Este seria um programa simples de governo para acabar com os pecados que se estão a tornar mortais para o país. E nem precisava de grande coragem política para os implementar, que é coisa que escasseia muito por aí...

domingo, novembro 13, 2005

A Razão Hipocondríaca

hipocondriaca

Conduzo demasiado depressa para me preocupar com os meus índices de colesterol.

Steven Wright

sábado, novembro 12, 2005

A Razão do Bridge

bridge
O sexo é como um jogo de bridge: se não tens um bom parceiro, é bom que tenhas uma boa mão.

Charles Pierce

sexta-feira, novembro 11, 2005

A Razão da Tara Perdida

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Os filósofos chamam-lhes de cortes epistemológicos. A maltosa do dia a dia é mais despudorada, ou eufemística se quiserem, e intitulam-no de «a puta da realidade».
A verdade é que há alturas em que as coisas não voltam a ser o que eram. A tara perdida é uma delas. A partir do momento que uma alma iluminada decidiu criar a tara perdida, Portugal nunca mais voltou a ser o mesmo. Até aquele momento tínhamos a nossa tara: podia até ser uma tara inconsequente, pequenina, insignificante, rídicula. Mas era a nossa tara. A tara que fez com que um pastor andasse à calhauzada com romanos nos Montes Hermínios; a tara que fez com que um gajo mandasse um par de lambadas na mãe e desatasse a fundar que nem um desalmado; a tara que fez com que meia dúzia de gajos numa casquinha se fizesse ao mar para dar novos mundos ao mundo; a tara que fez com que um puto maluco comprometesse à grande os destinos da nação; a mesma tara que fez com que uma gaja arreasse à grande e à portuguesa com uma pá num grupelho de labregos castelhanos; a tara que fez com que a língua portuguesa fosse muito maior que o território nacional; e que um grupo de chavalos capitães decidisse tomar o país de G3 carregadas de cravos vermelhos.
Depois da introdução da tara perdida não voltámos a ser os mesmos. Perdemos a tusa, dizem uns. Perdemos a noção dizem outros. Perdemos aquela dose de loucura que sempre fez com que nós, desde sempre um pequeno país no ponto mais ocidental da Europa, achássemos que éramos muito (mas muito mesmo) maiores que os nossos mais selvagens sonhos.
Hoje, com a tara perdida algures por aí e sem esperanças de alguma vez a reencontrarmos, somos a exacta imagem do nosso Primeiro Ministro: um gajo de voz esganiçada e de atitudes titubeantes, que mente todos dias ao país e a si próprio, sem tara nem objectivos.

Alguém procure a tara s.f.f.

quinta-feira, novembro 10, 2005

A Razão Cocoon

cocoon
O que é que se pode esperar de uma época cujas atitudes de revolta foram perpetuadas pela terceira idade?
Pouco, mas a verdade é que os idosos de hoje já não são como antigamente e o país está como está porque está porque os novos velhos não têm tino.
Antigamente, nos bons velhos tempos, quando atingiam uma determinada idade fechavam-se em casa ou nos lares e tinham a delicadeza de fingir que se tinham finado antes do tempo. Era uma espécie de estágio.
Hoje, não. Estão uns autênticos alucinados e andam aí na rua como se não houvesse amanhã. E para muitos provavelmente não haverá.
Antes, no tempo em que respeitavam os mais novos, quando os encontrávamos na farmácia era porque estavam a comprar a pomada para o hemorroidal. Não andavam por aí nos posters publicitários a promover descaradamente uma vida sexual capaz de fazer inveja a uma marta com cio.
Antes, quando os víamos no banco era porque tinham ido depositar mais umas economias para o futuro dos filhos e netos, e não porque tinham decidido recorrer a créditos especias para viagens de luxo, vestidos com camisolas «I went to Polynesia and all I bought you was this lousy T-shirt».
Antes, quando tinham alguma decência, se os víamos acompanhados de miúdas de 18 anos era porque tinham ido esperar a neta à Faculdade.
Antes, quando apareciam na televisão era porque tinham chegado aos 100 anos e a família queria aparecer no telejornal. Não era de forma alguma para se candidatarem a presidentes da República Portuguesa.
Francamente! Já não há respeito.

quarta-feira, novembro 09, 2005

A Razão dos Eufemismos

eufemismos
Irrita-me profundamente a mania que agora toda a gente tem de abusar dos eufemismos.
Senão vejamos: Um gago, já não é aquele gajo que... que... que... demora imenso tempo a falar: é um individuo com desordens a nível da fluência.
Um estúpido é uma pessoa com dificuldades ao nível da aprendizagem e um grande estúpido, uma com dificuldades ainda mais acrescidas.
Já ninguém é bêbado neste país, mas sim alguém que sofre de problemas comportamentais ao nível da bebida.
Esse mesmo labrego alcoolizado também não dá todos os dias um enxerto de porrada na mulher. Ela é que é mais uma das vítimas de violência doméstica.
Isto, aparentemente divertido, tem levado a uma crescente desculpabilização semântica dos criminosos, dos ladrões, dos corruptos, dos violadores e até da actuação do Governo (que consegue albergar inúmeros exemplares de cada um destes grupos).
Neste país, ninguém rouba – desvia. Ninguém aldraba – defrauda expectativas. Ninguém aumenta impostos – toma medidas de incremento. E ninguém está mais uma vez a ir ao «eufemismo mais profundo» dos portugueses – está é a pedir um esforço de contenção e abnegação aos contribuintes. Por isso, não percebo porque é que noutras formas de insulto mais prosaicas ainda não substituímos o «Vai à merda» pelo: «Por favor dirija-se ao excedente alimentar mais próximo»”. Ou o vulgar «eu quero que tu te lixes e vás dar banho ao cão», por um «eu gostaria imenso que você aparasse as suas arestas antes de banhar o canídeo».
Da mesma forma que deveríamos deixar de dizer «Que grande corno que tu me saíste» e passar a exclamar «Você, sua vítima de adultério assumida e reincidente» ou até mesmo substituir o famoso « Tu és um grande filho da p...» por «A excelentíssima senhora sua mãe é a maior mulher de negócios que eu, o meu pai, o meu tio e o grupo de forcados amadores de Coruche já alguma vez conheceu».
Só assim, poderemos dizer que somos um verdadeiro país de eufemistas, que é como quem diz: uma cambada de paneleiros.

terça-feira, novembro 08, 2005

A Razão Alucinógena

alucionogena

Estou a escrever este post num hotel em Amsterdam. Vou-me coibir de vos explicar as razões que me fazem estar neste momento em Amsterdam, e ainda por cima a escrever um post. Imaginem o que vos apetecer.
Há pouco fui à janela do meu quarto no 4º piso e pus-me a ver a vista. Nada de especial a vista. A não ser pelo facto de lá embaixo, ao lado de um parque de estacionamento de bicicletas, estar uma cabra branca a pastar num canteiro. Ora eu vim directo do aeroporto para o hotel e portanto qualquer hipótese de estar perante o efeito secundário de substâncias alucinógenas deve ser terminantemente posta de lado. A cabra é real. E branca. E pasta.
Daqui por uma hora talvez veja um dragão de Komodo a alçar a perna para fazer a sua mijinha territorial na esquina do hotel. Daqui por duas horas talvez me depare com uma anémona descorada a coçar a micose no bar do hotel, tentando encetar uma conversa de engate com uma alforreca escorbútica com problemas de bebida. Talvez até seja confrontado, daqui por três horas, com anões coloridos e besuntados em manteiga a tentar trilhar o mamilo nas dobradiças da porta do hotel, ao mesmo tempo que cantam «Adio adieu» do grande Cid. Talvez veja isso tudo e mais um par de botas. Mas enquanto o space cake que pedi ao room service não chega, vejo uma cabra branca a pastar no passeio.

segunda-feira, novembro 07, 2005

A Razão Descrente

descrente
Acredito em Deus? Acreditava até a mãe ter sofrido o acidente. Caiu em cima de um croquete, facto que exacerbou a sua melancolia. Esteve em coma durante meses e meses, incapaz de fazer outra coisa que não fosse cantar Granada a um arenque imaginário. Porque razão ficou esta mulher, na primavera de vida, tão afectada? Será por ter desafiado as convenções ao casar-se com um saco de papel castanho na cabeça? E como posso acreditar em Deus se na semana passada trilhei a língua no rolo da máquina de escrever eléctrica? Sinto-me atormentado pela dúvida. E se tudo é uma ilusão e nada existe? Se assim é, paguei demasiado dinheiro pelo tapete. Se ao menos Deus me enviasse um sinal claro! Como o de fazer um depósito vultoso em meu nome num banco suíço.

Woody Allen

domingo, novembro 06, 2005

A Razão Reveladora

reveladora
Em democracia os partidos dedicam a a maior parte das suas energias a tentar provar que os outros partidos não são competentes para governar – e todos são bem sucedidos a fazer isto. E têm razão.

H.L.Mencken

sábado, novembro 05, 2005

A Razão Alienada

alienada
As ruas de Filadélfia são seguras.
As pessoas é que as tornam inseguras.


Frank Rizzo, Mayor de Filadélfia


sexta-feira, novembro 04, 2005

A Razão da Rescisão

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Devido a uma recente medida governamental Portugal será brevemente o país europeu com mais praticantes de artes-marciais e defesa pessoal. É que segundo o Governo, se é que desta vez eles não estão a mentir, os labregos que planeiam viver do fundo de desemprego à conta dos contribuintes deixarão de receber o pastel se o seu acordo de rescisão de trabalho fôr amigável. A solução passa por uma rescisão litigiosa. E nada mais litigioso do que arrefinfar um pontapé à Van Damme nas trombas do patrão, para poder receber um subsídio do Estado.
«Eu até já me apetecia ir-lhe aos fagotes» confidenciava um labrego a fazer tempo numa empresa para receber o seu, «então agora vou ter mesmo que fazer o gosto ao dedo».
Desde o início desta semana que se tem observado uma inscrição massiva de adeptos nas academias de artes-marciais. As modalidades mais procuradas têm sido o manejo do varapau dos pauliteiros de Miranda e o brandir selvático da Moca de Rio Maior, se bem que outras modalidades orientais como o Jiu Jitsu, o Taekwondo e o Shotokan tenham também observado uma adesão assinalável.A medida governamental teve um natural impacto na política de formação das empresas a operar em território nacional: os cargos de direcção e supervisão estão a ser alvo de uma reciclagem em defesa pessoal. É que os patrões não se importam de enveredar por um litigiosinho ou outro, mas não estão dispostos a sofrer traumatismos vários, a bem das contas públicas.
Face a estes recentes desenvolvimentos, o Governo está a equacionar a legalização de armas de fogo para tornar a medida mais eficaz, estando esta medida dependente do relatório, em curso, sobre o volume das pensões de viuvez e o seu agravamento na dívida pública.

quinta-feira, novembro 03, 2005

A Razão do Cheiro a Queimado

queimado

Um grupo de cidadãos argentinos, insatisfeito com os serviços prestados pelos caminhos de ferros do seu país, decidiu demonstrar o seu desagrado incendiando uma estação de comboios.
É curioso ver como os povos culturalmente próximos dos nossos amigos castelhanos mantêm alguns tiques ancestrais dos seus fundadores. Pessoalmente considero o acto um bocadinho boçal. Não percebo a aversão que os argentinos têm às caixas de reclamações/sugestões.
No entanto este incidente leva-me a pensar no que aconteceria se Portugal tivesse sido conquistado pelos espanhóis. Haveria muita coisa a que atear fogo por aí…
Descontentes com a morosidade e a tendenciosidade da Justiça em Portugal os portugueses queimariam todos os tribunais. Depois, insatisfeitos por estarem a endividarem-se para descontar para um chorrilho de labregos da Função Pública, incendiariam repartições de finanças, notários, escolas e universidades, esquadras de polícia, quartéis dos vários ramos das forças armadas, e ministérios vários.
Desagradados com as despesistas e desviantes políticas autárquicas, incendiariam câmaras municipais, transformando os seus funcionários em verdadeiras tochas humanas. Finalmente, porque não gostariam decerto que o seu primeiro ministro lhes mentisse constantemente, fariam um derradeiro auto de fé na Assembleia da República (não sem antes terem passado por Belém, chateados com os dois pesos e duas medidas do seu Presidente) e queimariam todo o executivo em estacas improvisadas para o efeito. Os jornalistas da TVI a cobrir o evento teriam o mesmo quente destino. As unidades de queimados dos hospitais públicos não teriam mãos a medir: iriam certamente faltar fitas métricas para tanta mão.
Quando acabassem de queimar os motivos do seu descontentamento, os portugueses iriam perceber que todo o país tinha ardido. Felizmente que não deixámos os espanhóis cá entrar. Felizmente que somos um povo civilizado. Assim só queimamos mesmo os nossos parcos e últimos recursos naturais.

quarta-feira, novembro 02, 2005

A Razão de Adelina

adelina
Adelina tinha uma vida pacata, igual a milhões de vidas por esse mundo fora. Um dia comprou um saco e as coisas mudaram. As pessoas do bairro, que sempre lhe falaram muito bem, começaram a baixar os olhos, a desviar o olhar, a passar para o outro lado da rua, quando passavam por ela. Adelina não conseguia deixar de reparar nos cochichos sempre que entrava num sítio público. Os clientes da sua pastelaria deixaram de aparecer, o banco deixou de financiar os seus empréstimos, a Judiciária fez-lhe uma rusga e levou-lhe o livro de contas, as Finanças não a largavam, até o Sr. Libano da farmácia se recusava a vender-lhe os medicamentos.
Adelina não era supersticiosa e portanto recusava-se a acreditar que o saco tinha atraído aquela desgraça toda. Mas o facto é que a sua situação piorava de dia para dia. Até que um dia, cansada daquilo tudo, Adelina pegou nas economias que tinha amealhado ao longo dos anos e tomou a decisão da sua vida. Foi para o Brasil. E levou com ela o saco azul.
Hoje Adelina tem uma vidinha mais ou menos. Arrebitou as mamocas com silicone. Fez um botoxzinho. Arranjou um penteado novo com madeixas loiras e consulta frequentemente um sobrançólogo, que lhe dá importantes dicas sobre como tratar as sobrancelhas. Desde que casou com um reformado endinheirado passa a vida no Posto 6 de Copacabana, a trabalhar o bronze. O saco azul continua consigo. E ela continua a acreditar que ele não teve culpa nenhuma.

terça-feira, novembro 01, 2005

A Razão que Ressona

ressona

Ri e o mundo inteiro rirá contigo.
Ressona e dormirás sózinho.


Anthony Burgess