O melhor da democracia é que esta dá a cada votante a chance de fazer algo realmente estúpido.
Art Spender
O melhor da democracia é que esta dá a cada votante a chance de fazer algo realmente estúpido.
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Em Portugal cultiva-se a filosofia do eterno retorno, também conhecida pelo regresso eterno. É este nosso lado saudosista que sofre daquilo que já teve e que deixou de ter. Pessoalmente acho que a nossa situação geográfica é a grande culpada nesta questão: impedidos de progredir para dentro por causa dos malditos e persistentes castelhanos, fomos obrigados a fazermo-nos ao mar, com todas as consequências que daí adviram.
Ir para o mar, ir em direcção a uma linha do horizonte inexorável e misteriosa, sem a certeza de que voltaríamos, foi o combustível deste nosso mito do eterno retorno (com as devidas vénias e desculpas a Mircea Eliade, que inventou o termo noutras circunstâncias que um dia terei imenso prazer em escrever aqui). Dizia eu que ir para o mar, com a devida imponderabilidade do vazio e daquilo que desconhecemos, contribuiu para que o regresso fosse algo valorizado e esperado pelos portugueses. O caso mais paradigmático deste eterno regresso é D.Sebastião, cujo regresso num dia de nevoeiro sobreviveu à sua existência e continua válido até hoje. Digamos que este será para sempre o regresso que nós esperaremos. Mas há outros. Nós gostamos que hajam. O regresso de Cavaco Silva e de Mário Soares, por exemplo. Podemos não gostar das figurinhas mas aplaudimos com fervorosa estupidez o seu regresso, porque para os portugueses o regresso é uma espécie de recomeço, de eliminação sumária de um passado que é sempre penoso e para esquecer. O regresso é para nós um reinício onde nunca somos intervenientes, mas sempre espectadores – alguém há-de regressar para mudar as nossas vidas, para nos salvar de nós próprios.
Não gosto de WC’s públicos por motivos vários, que estão normal e directamente relacionados com o facto do chão estar sempre molhado ou com o irritante facto de ter sempre um sítio que está queimado por beatas de tabaco (mas quem é que fuma num WC público??).
Quando tenho de lá ir perco sempre algum tempo com as mensagens atrás da porta. O grande mistério para mim é perceber quando é que elas são escritas.
Será... antes de?!! – aflitinhas aflitinhas, mas ainda com tempo para umas linhas!?
Será... durante?!! – não dá jeito, pela análise das mensagens, a altura a que estão escritas e a distância que compreende a porta da sanita deixa esta hipótese de lado.
Será...depois de?!! – não faz sentido que se queira lá estar, mais tempo que o necessário.
Com as mensagens de WC estamos perante de um acto (altamente) premeditado, porque temos de abrir a mala vasculhar lá dentro à procura de algo que escreva, ou então, entrar já com algo que escreva na mão... sendo que apenas a parte da mensagem tem alguma espontaneidade
E as mensagens são de temática variada:
Insultos escabrosos a outras mulheres pela honra amachucada:
- A Gonçalinda é uma P*** que se meteu com o meu Hilário Cosme.
- está sim?? Olhe... estou a ligar porque vi o seu número de telefone num WC público em Estarreja.... era para combinar um café, se puder ser, claro.
(Não me parece que seja uma forma inteligente de conhecer pessoas, mas enfim)
- eu tenho uma **** do tamanho de uma betoneira
(sinceramente como mulher, não sei se é bom ou não)
- Amo-te Hilário Cosme, para toda a nossa vida...
(O Hilário Cosme, nunca saberá desta prova de amor, porque ela foi feita no WC das mulheres e nem sei se o Hilário Cosme achará isto romântico, mas concerteza que gostará de saber que o seu nome foi perpetuado numa porta de WC principalmente se lá estiver escrito também qualquer coisa que fale do seu, soberbo, desempenho sexual.
Na verdade, adoro a escrita de casa de banho.
Ela informa, educa, distrai, diverte, tem raiva, sexo e intrigas. No fundo, tudo o que se quer num bom romance.
Video killed the radio star. Sempre que me falam em globalização o meu cérebro vagueia invariavelmente por esta música simpática dos velhotes Buggles. Goste-se ou não a globalização matou, a dada altura, a maior parte do que era feito localmente. Este não é um post anti-globalização, até porque pessoalmente acho que esta nos tornou mais conscientes do mundo à nossa volta – por vezes demasiado conscientes para o meu gosto. Este é um post com o mesmo travozinho saudosista e atravessado pela mesma alegria adolescente e inconsciente da música original. É um post «que se lixe». Que se lixe já não termos os iogurtes Longa Vida; que se lixe a Pasta Medicinal Couto; que se lixe a Laranjina C; que se lixem programas de rádio que nos faziam acordar cedo como o Pão com Manteiga (de um rapazinho que hoje está indiciado por pedofilia); que se lixem os Rajás, os chocolates Regina e as Bombokas; que se lixem os Pilote, os Cavaleiros Andantes, e os Tintins coleccionáveis; que se lixem o ZX Spectrum e o Atari; que se lixem os Sanjo (esbirros nacionais dos All Star); que se lixem os pirulitos e as pastilhas Gorila. Que se lixem o Subbuteo, e o Ludo, e a sueca.
E viva a globalização! Normalizada, instantânea (sem juntar água), e em directo. Vivam as frutas gigantes e brilhantes a saber ao mesmo; viva a fast food que nos garante que tudo sabe igual em locais diferentes; viva a roupinha para betos, para dreads, para grunges, para góticos, e para surfistas; vivam os bifes de vaca lúcida e os frangos sem febre. E acima de tudo vivam os blogs, a expressão máxima e positiva daquilo que é a globalização – e que nos mostram diariamente que, apesar de tudo, encerramos em cada um de nós um imenso universo nunca globalizável.
Passem um grande e globalizante dia.
Os países têm em geral um ícone pelo qual são conhecidos internacionalmente, que acaba por ser o seu logotipo virtual: os espanhóis têm os touros (confesso que não percebo esta sua adoração por cornos), os ingleses têm o Big Ben, os franceses têm a Torre Eiffel, os brasileiros têm o carnaval e as bundinhas, os irlandeses têm a harpa, os escoceses o whisky e o monstro fictício do Loch Ness, os holandeses têm os moínhos, e assim por diante. E os portugueses, qual é o deles?
Sempre que penso no ícone dos portugueses lembro-me inevitavelmente dos matraquilhos. Acho que não há coisinha que traduza melhor a nossa portugalidade que um tabuleiro de matraquilhos: pequeninos e desajeitados, sempre tensos (reparem que os bonecos estão sempre em sentido), prontos a serem manipulados por outros, impedidos de se mexerem muito por uma barra de ferro que os atravessa a meio, sempre com o mesmo modo de actuar (para trás e para a frente), uns contra os outros a pontapear uma ridícula e velha bola de madeira, só funcionando quando se mete a moeda, e sem qualquer utilidade que não seja para alguém se divertir.
O matraquilho é Portugal em todo o seu esplendor. Sempre agarrado a uma caixa, e à espera da próxima moeda. Eleve-se a coisa a ícone nacional. Nós merecemos.
Para mim o mundo está dividido entre as pessoas que olham para a árvore e as pessoas que olham para a floresta. Cada um de nós tem uma destas… chamemos-lhes vocações. Os que olham para a árvore normalmente reparam em pequenos pormenores, pequenos detalhes, que não deixam de ser importantes por serem pequenos. Sabem quando a árvore precisa de ser podada, quando lhe falta água, quando é necessário colher o fruto. Mas não se apercebem que a árvore faz parte de uma coisa maior a que chamamos de floresta. Não estão interessados em entender o que é a floresta mesmo quando tentamos mostrar-lhe que há mais árvores para além daquela, e que o seu conjunto forma uma massa maior e mais complexa. Não querem saber porque sentem que teriam de dar a mesma atenção a cada uma daquelas outras árvores e sabem que não conseguiriam fisicamente dispender o mesmo carinho que dedicam à sua árvore.
E depois há os outros, os que olham para a floresta como um todo harmonioso e complexo, e têm dificuldade em focar-se numa árvore específica. É a totalidade das árvores que para eles faz sentido, o efeito que a floresta tem como um todo, equilibrando o ecossistema em variados aspectos. Vêem a floresta como um único e articulado ser.
Os que olham a árvore precisam dos que olham a floresta e vice-versa. E porque todos estão conscientes da sua importância relativa neste processo, quer as árvores quer a floresta vão crescendo harmoniosamente. Chama-se a isto progresso.
Cheguei à conclusão que vivo num país míope cheio de árvores e florestas bonsai. Não se consegue ver a árvore nem se vislumbra o que poderá ser a floresta.
No passado fim de semana apeteceu-me andar de bicicleta. Enchi os pneus à minha «Agressor» (belo nome para uma marca de bicicletas a pedal), que teve dificuldade em lembrar-se de mim um ano e meio depois da nossa última aventura, e fui dar uma volta. No meu trajecto cruzei-me com um grupo de ciclistas que envergavam aquele capacete ridículo, calçavam uns sapatinhos próprios para a modalidade profissional, e vestiam lycra apertada, com os refegos da barriga a fazerem lembrar o bibendum da Michelin. Olhei para a figurinha deles, e para a minha, sem capacete, com uns All Star velhotes no final das calças de ganga, e pensei que o mundo está a ficar amaricado. É verdade: andamos a apaneleirar demasiado esta merda.
No meu tempo andávamos por aí de bicicleta para todo o lado, sem capacete e sem protecções especiais para os pés, para o rabo e para as costas. Chegávamos ao fim do dia moídos e cheios de arranhões, todos sujos do óleo das correntes, mas não andávamos por aí a fazer figurinhas tristes. E sobrevivemos.
Também não usávamos Mukina na água para desinfectar a fruta sempre que nos apetecia uma maçã. Comíamos directamente das árvores, preferencialmente roubadas no quintal do vizinho, o que dava um sabor especial à coisa, e continuámos a sobreviver.
As pastilhas elásticas não existiam em versão diet, aliás quanto mais açúcar tivessem melhor. Mas apesar disso não nos tornámos uns badochas como os putos de hoje. E os nossos dentes sobreviveram.
Os brinquedos não tinham quaisquer avisos de saúde ou de idade recomendada, e ainda assim não me lembro de ninguém ter morrido a tentar engolir o kit de montanhismo do action man – sobrevivemos a isto, é óbvio.
Bebíamos leite acabado de ser mungido, que fervíamos para o esterilizar. Não havia cá as mariquices do leite magro e meio gordo, muito menos leites enriquecidos especialmente dirigidos a grávidas, a intolerantes à lactose ou a atrasados mentais. E nós continuámos a sobreviver, naturalmente.
Os bolos-rei tinham uma fava e um brinde lá dentro, normalmente um boneco de loiça ou de metal, alusivo à época festiva. Alguns de nós escavacaram um dente ou outro a tentar descobrir o brinde, mas ninguém morreu sufocado com um S.Cristovão de loiça atravessado na laringe. Sobrevivemos, pois claro.
Hoje em dia estamos rendidos à mariquice: tudo tão esterilizadinho, tudo tão protegidinho, tudo cheio de medinho de tudo. É tudo tão imbecilmente «perigoso» e «danoso» que corremos o sério risco de nos tornarmos umas abróteas cheias de fobias, com miúfa de existir.
Afonso Henriques tinha uma visão: «um reino, um povo, um rei». Não era uma visão muito original, mas pronto, era a sua visão. Para concretizá-la, Afonso Henriques sabia que tinha de fazer uma única coisa: fundar. Fundar como se não houvesse amanhã. Fundar desaustinada e paulatinamente até não haver mais nada passível de ser fundado. E assim nasceu Portugal. O homem fundou que nem um alarve enquanto as suas forças o permitiram, deixando a fundação como um legado para os que vieram a seguir, e que continuaram a fundar. A visão de Afonso Henriques foi-se cumprindo geração após geração: a fundação como garante de expansão e de crescimento da nação, tem um je ne sais quoi de engenharia – afinal de contas uma fundação sólida dá azo a uma obra consistente e duradoura.
Sócrates tinha falta de visão. A verdade é que nunca fora um tipo muito imaginativo, mas agora fazia-lhe mesmo falta uma visão à la Afonso Henriques. Uma coisa que pudesse dar um rumo ao país, com o mesmo vigôr e a mesma intensidade de há 877 anos atrás. Estava a querer dar um novo sentido a este velho conceito da fundação quando o Belmiro lhe deu uma mãozinha: «E que tal implodires a fundação?».
Sócrates não pensou duas vezes. E teve a sua visão: «um país, várias fundações, muitas implosões». E assim renasceu Portugal, aquela grande cratera no ponto mais ocidental da Europa.
Que Portugal é um país de biscateiros desempregados a mamar do Fundo de Desemprego sem grande vontade de arranjar trabalho já eu sabia. O que eu não fazia ideia era como é que estes parasitas institucionalizados (não, desta vez não estou a falar do Governo) ocupavam os seus tempos livres. Descobri que passam o tempo nas obras. Não é que façam parte das obras… não. Estão lá a observar. A ver se os servo-croatas e os cabo-verdianos deixam aquilo em condições. Afinal de contas as obras estão a ser feitas no nosso país e aquilo é só estrangeirada sobre-habilitada para carregar tijolos e assentar vigas – «é preciso que alguém esteja de olho na merda que aqueles gajos podem fazer! É que os gajos vêm cá chupar-nos o dinheirinho e depois vão embora, e quem tem que levar com a obra somos nós!» dizia-me um deles, sem tirar os olhos do servente ucraniano.
E assim, por cada obra de construção civil existente nesta telenovela mexicana, temos um molhinho de desempregados a observar. Atentos. Críticos. Opinativos. A discutir entre si que o sacana do bósnio tem tanto jeito para aquilo como eles para trabalhar.
O Estado português, essa abstracção incómoda, promove à custa dos contribuintes o aparecimento de um novo tipo de labrego, o «voyeur da obra» pagando-lhes regularmente para coçar a micose à frente de uma qualquer betoneira.
Na semana passada, os «voyeurs da obra» tiveram o seu Stonehenge nacional, financiado pelo Estado e disponibilizado por Belmiro de Azevedo: a destruição das 2 torres. Com um título que parece ter saído da escrita de Tolkien, este evento provocou uma migração de milhares de labregos voyeurs de vários pontos do país, para verem in loco dois prédios a serem implodidos. A dada altura alguém teve a brilhante ideia de reduzir o desemprego em Portugal, convidando os labregos a visitar as instalações alguns minutos antes da derrocada. Mas os madraços, espertos, preferiram mais uma vez ficar de fora e a olhar de uma distância segura – é que demasiada proximidade lhes retira a capacidade de discernimento.
Decerto que por uma razão ou por outra já tiveram, a dada altura das vossas vidas, que entrar num notário. Se assim foi, suponho que tenham tido oportunidade de reparar que nem toda a gente pode ser funcionário de um cartório notarial. É uma profissão peculiar que exige um património genético muito particular e está sujeita a uma política de recrutamento espartana, capaz de criar inveja à Al Qaeda.
Antes de mais é preciso realçar com alguma veemência que não se estuda para ser notário – nasce-se notário, e pronto! É um pouco como os atletas de competição: os sprinters têm uma estrutura óssea e muscular diferente dos fundistas; os tenistas com serviços mais eficazes são dotados de uma altura acima da média e têm uns bracinhos mais compridos que os restantes mortais. Também os notários têm as suas características diferenciadoras: o seu cérebro, por exemplo, funciona a um ritmo mais lento (como observamos nos casos mais graves de paralisia cerebral) o que possibilita o armazenamento de dados de uma forma mais metódica.
Para terem uma ideia de como um notário percepciona a realidade à sua volta reduzam a velocidade de um DVD em cerca de 80%: t-u-d-o f-i-c-a m-u-i-t-o l-e-n-t-o e as vozes adquirem um tom grave e arrastado, sendo relativamente dificil de aprender o sentido das frases. Não se admirem portanto que os notários não percebam à primeira o que vocês lhes estão a querer dizer, principalmente vocês, os nervosinhos. E evitem falar devagar para se fazerem entender melhor porque assim é mesmo muito complicado para eles, e demora o dobro do tempo a processar.
A capacidade pulmonar de um notário é francamente mais reduzida que a de um indivíduo normal, impedindo o cérebro de funcionar mais rápido e cansando-os de sobremaneira enquanto fazem o seu rotineiro percurso secretária-balcão-arquivo. Aliás a rotina é aquilo a que um notário aspira desde os seus tempos de estagiário – com o passar do tempo eles vão construíndo carris imaginários que percorrem o todo escritório definindo os seus percursos possíveis. Um notário sénior já tem a sua rede rodoviária definida e move-se, lenta e religiosamente, em cima dos «seus» carris.
O facto de geneticamente possuírem um metabolismo estupidamente mais lento que todos nós, causa-lhes alguns problemas na fala (falam muito lento e muito baixo, sendo por vezes necessário encostarmos a orelha à sua boca – tarefa difícil e perigosa de desempenhar se tivermos um balcão à nossa frente) e problemas vários de concentração e coordenação: é muito vulgar observarmos um notário esgazeado a olhar para o infinito (é a chamada «pausa de hibernação» que, dependendo do seu estágio profissional, pode ocorrer várias vezes ao dia); vulgar é também a dificuldade que apresentam ao teclado de um computador ou de uma máquina de escrever. Os notários mais treinados conseguem atingir velocidades de 2 a 3 segundos entre uma tecla e outra.
Espontaneidade e improviso são conceitos totalmente desconhecidos pelos notários, e confrontá-los com algo inesperado pode ser perigoso dado que estes reagem violentamente – nunca se ostente uma folha de papel que não seja branca ou azul; nunca se apresente como documento oficial um passaporte em vez de um bilhete de identidade; nunca se ouse assinar algum documento a vermelho; e acima de tudo nunca se manifeste corporalmente de uma forma agitada – isso deixa-os nervosos, e o assunto que demoraria 2 horas a resolver poderá atingir uma duração de meses.
Para quem desespera sempre que se desloca a um cartório notarial deixo um pequeno truque que tornará a vossa vida, e a deles, mais fácil: cerca de 3 horas antes de entrarem no notário tomem 3 drunfes, o chamado «kit notário». E tudo fica mais fácil.