terça-feira, setembro 06, 2005

A Razão do Elefante com Alzheimer

elefante
Durante muitos anos habituei-me a vê-lo sempre por ali. Sempre que lhe dava uma moeda ele tocava a sineta, com o mesmo entusiasmo. Para mim é como se ele sempre tivesse lá estado – quando nasci já ele era mestrado no toque da sineta, e os adultos falavam dele como se tivesse feito parte também da sua infância.
Os anos passaram e ele deixou de tocar a sineta com a mesma pujança. E nós compreendemos, afinal de contas estava velho e já devia estar farto daquilo. Quando se foi embora, esperámos em vão que fosse substituído por um mais novo que tocasse a sineta com o mesmo fulgôr. Confesso que tinha a esperança que o que viesse a seguir, mais novo, introduzisse algumas inovações e tocasse não uma, mas um conjunto de sinetas. O facto é que não conseguiram arranjar-lhe um substituto. Diziam que os mais novos já não se interessavam pelas sinetas, só queriam mesmo era estar de papo para o ar, sem que ninguém os chateasse. E a coisa foi ficando assim, e eu acabei por me esquecer completamente dele e da sineta. Até à semana passada.
Vi na televisão que o elefante da sineta tinha voltado. Mostraram-no a tentar tocar à sineta, como antigamente, mas tudo aquilo era confrangedor. É que a sineta já não estava lá, mas ele fazia os mesmos gestos, bem mais lentos do que outrora, à espera que alguma coisa tocasse. E a malta disfarçava, fingia que não percebia, e aplaudia o velho e ainda simpático elefante com alzheimer.

segunda-feira, setembro 05, 2005

A Razão das Entrevistas Pagas

egidio1
Na Focus da semana passada, a minha atenção recaíu sobre um inquérito a uma jovem empresária portuguesa. Na nota biográfica da senhora lia-se, entre outras coisas irrelevantes, que era a «primeira mulher do Mundo a organizar eventos de vale tudo.»
Ok…
Em Roma, diz o ditado, faz como o romanos. O melhor negócio que se pode ter num país onde vale tudo é uma empresa de eventos vale tudo:
- Vale arrancar olhos? Vale. Vale tudo.
- Vale sexo sem compromisso? Vale. Vale tudo.
- Vale molestar os anões besuntados em margarina vegetal? Vale. Vale tudo.
- Vale usar cavalos pentapérnicos e mulheres desnudas em alegres perseguições pelos bosques? Vale. Vale tudo.
- Vale enfiar os dedos na torradeira e cantar «A minha sogra é um boi» envergando umas cuecas de gola alta à laia de chapéu? Vale. Vale tudo.
- Vale fazer um comboiozinho gay-lésbico onde cada participante come o gelado do outro? Vale. Vale tudo.
- Vale enfiar a língua na orelha dos garçons do evento e dizer «acho que descobri a tua terceira visão»? Vale. Vale tudo.
- Vale uma tribo de somalis untadinhos que sodomizem obsessivamente, entre cânticos tribais, a organizadora do evento? Somalis?? Ai que nojo! Somalis não vale!

egidio2
No mesmo fim de semana, a mesma jovem empresária saía na Sábado a dizer que queria «colo». Será de insistir com os somalis?

domingo, setembro 04, 2005

A Razão da Resposta

resposta

O amor é a resposta.
Mas enquanto esperamos pela resposta, o sexo levanta questões bem pertinentes.

sábado, setembro 03, 2005

A Razão Honesta

honesta

Ri convulsivamente desde o momento em que peguei no seu livro até ao momento em que o pousei. Um dia tenciono lê-lo.

sexta-feira, setembro 02, 2005

A Razão Extraterrestre

believe
O nosso planeta, atestadinho de vida supostamente inteligente faz parte de um sistema de 9 planetas que rodopiam alegremente em torno do sol. Pelos vistos nenhum dos outros planetas tem qualquer espécie de vida, o que nos dá uma espécie de exclusividade que nos isenta de pagar condomínio na Via Láctea. Seria ingénuo da nossa parte, para além de probabilisticamente improvável, pensar que somos os únicos seres pensantes no universo. Não tenho grandes dúvidas que há por aí gajos mais pensantes do que, por exemplo, o nosso actual executivo. Bem, mas para isso nem precisamos de saír deste planeta... adiante.
Uma coisa que me faz alguma confusão nesta história das civilizações extraterrestres é que eles insistem em aparecer sempre no mesmo sítio: o interior dos Estados Unidos, em regiões habitadas por labregos de pescoço vermelho que não distinguem uma debulhadora mecânica de um boeing 747, quanto mais uma nave vinda do espaço sideral. Já alguém viu um OVNI em Paris ou em Milão? Claro que não, embora num lado e noutro encontremos restaurantes mais interessantes do que na hillbillylândia, o que me leva a crer que os aliens não estão puto interessados na gastronomia local.
Durante muito tempo questionei-me porque é que os extraterrestres não estabeleciam contacto connosco. Convenhamos que não é muito educado da parte deles entrarem por aqui adentro à surrelfa e limitarem-se a observar discretamente a malta sem tentar falar com connosco. Se fossem japoneses ainda se percebia, mas apesar de pequeninos os gajos não são amarelos - aparentemente são acinzentados (eu se andasse em naves espaciais que se deslocam em sacões violentos daqui para o infinito também ficaria cinzento, ou cinzento esverdeado). Mas mais tarde percebi que os tipos não estabelecem contacto porque são claramente mais inteligentes que nós: só alguém com dois dedos de testa (e os gajos têm, segundo testemunhos, pelo menos dois palmos) evitaria meter conversa com alguém com o gabarito intelectual de um labrego norte-americano.
A forma das naves, descritas por quem as viu de relance, também é esquisita: umas em forma pires de cibalinho e outras que fazem lembrar um charuto. Nunca ninguém viu nenhuma em forma de chávena, muito embora um agricultor da Pensilvânia insista que foi perseguido por uma que tinha a forma das mamas da Marisa Cruz, com megafones nos «mamilos» que repetiam «Bou-te biolar à vruta» em 5 línguas diferentes, mas sempre com sotaque tripeiro.
Uma coisa é certa: não estamos sózinhos. E alguns de nós estão mesmo muito bem acompanhados. O João Pinto, por exemplo. É caso para dizer «Acredita João Pinto!!».

quinta-feira, setembro 01, 2005

A Razão do Género

genero
Genericamente acho que se dá demasiado importância ao género. Divide-se o mundo em dois géneros e uma maçã, e atribui-se a cada um as suas virtudes e os seus defeitos, tentando infrutiferamente vislumbrar um sentido nas acções do «género oposto».
A própria designação «género oposto» é insidiosa, e remete para uma linha fronteiriça que não está lá, sugerindo que um género deverá sempre marrar contra o outro, o que normalmente acontece.
Mas o oligopólio dos dois géneros é algo tão irritantemente artificial como a linha do horizonte: já alguém alguma vez segurou a linha do horizonte firmemente, com ambas as mãos? Eu já, mas a vodka era de má qualidade e o barco balançava muito.
Pessoalmente acho que andamos todos a fazer género quando insistimos neste tratado de tordesilhas sexual, dividindo o mundo ao meio, metade para ti metade para mim, e depois passamos a vida empoleirados na cerca a tentar perceber o que está do outro lado e a tentar provar, ou comprovar, as diferenças que nos tornam o outro género. O sexismo é uma perda de tempo tão estúpida e vã quanto o racismo que, decididamente, não faz o meu género.
Por estas e por outras é que, quando o John Gray escreveu Os homens são Marte e as mulheres são de Vénus tive uma vontade irreprimível de lhe mandar lá a casa uma tribo de somalis de Plutão, devidamente untadinhos, com o intuito de lhe mostrar o quão retráctil pode ser uma próstata. Contive-me, claro.

quarta-feira, agosto 31, 2005

A Razão da Aparência

Afinal de contas, o «homem do piano» era falso. Uma fraude. Um vergonhoso embuste.
O rapaz confessou ser alemão (e não checo, como se pensava), não saber tocar piano (embora os médicos que o assistiram digam que faz lembrar a Maria João Pires), não está amnésico (serviu-se da sua experiência com doentes mentais para fazer a sua figura de urso) e não caiu acidentalmente ao mar (atirou-se a ele conscientemente porque estava deprimido com a vida homossexual que levava).
Neste momento o jovem está a caminho da sua terra natal na antiga Alemanha Oriental à espera que haja lá alguém para orientá-lo.
Num lampejo raro de solidariedade e ajuda humanitária, a Razão fez hoje deslocar para lá uma tribo de somalis que irá dar ao confuso rapazinho um novo sentido para a sua vida. E um novo sentar também, porque este só irá poder sentar-se de novo a um piano com a ajuda de uma câmara de ar meio cheia.
Esta história, e o aproveitamento que os media fizeram dela, fizeram-me pensar em quantos «homens do piano» não andarão por aí, por esse Portugal fora, alimentados pela javardice bacoca dos jornalistas.
Em Portugal o que não falta são «homens instrumento». Não se limitam apenas ao piano – temos «homens viola» como o Carlos Cruz, «homens violoncelo» como o Bibi, «homens baixo» como o Marques Mendes, «homens contrabaixo» como o Santana, «homens violino» com o Carrilho, «homens sem tuba» como o Sócrates, «homens trombone de varas» como o Soares…
Este país é uma verdadeira orquestra! Sem maestro nem partitura…

terça-feira, agosto 30, 2005

A Razão do Compromisso

compromisso
Não é fácil compreender os termos comprometido, descomprometido ou mesmo compromisso, mas o mais difícil ainda é aceitar.
A sociedade actual presta-se a relacionamentos onde por vezes espreita esse vocábulo que é capaz de provocar estragos numa coisa que pode, potencialmente, transformar-se em algo bom.
Quando a palavra compromisso bate ao de leve à porta da nossa realidade, um arrepio de pânico invade o corpo dos mais racionalistas e acaricia os mais emotivos.
Não há grande margem para dúvidas que as mulheres lhe são mais afectas, enquanto os homens, só quando encostados à parede assumem a relação. O esmagamento é a melhor forma de conseguir que o macho engula este sapo. Não é novidade para ninguém - e se for, o que raio é que andaram a fazer nos últimos tempos, são cegos ou quê – que uma relação começa com duas pessoas que gostam de conversar, sair juntas para tomar uns
cafés ou jantar e quando chega a parte do pequeno almoço, cai a sombra do fantasma do compromisso.
Começam as perguntas manhosas que na maior parte das vezes levam à pergunta fatal:
- Afinal o que é que nós temos?
Alerta vermelho, liguem já para a Protecção Civil, catástrofe à vista, ela fez a pergunta!
- Bem… gosto de estar contigo, sinto-me bem quando estou ao teu lado e acho que nos damos bem em todos os aspectos. Devíamos continuar assim.
Assim, sem magoar ninguém, manda-se a bola para canto e ninguém se chateia. Tomara que as coisas fossem assim tão simples.
É claro que as mulheres não desistem facilmente, e com requintes dignos de Maquiavel, voltam à carga, agora com o 7º de Cavalaria a ajudar, quando as coisas já parecem esquecidas.
Conversação pós-coito, na altura em que o homem, satisfeito, só pensa em descansar e diz sim a quase tudo:
- Sabes, tenho medo de te estar a magoar…
- Magoar?!
- Sim, magoar! Não sei o que queres desta relação e temo que te esteja a usar. Se calhar estás à espera de uma relação mais séria mas eu não me sinto preparada para assumir seja o que for.
- Não te preocupes, já te disse (e aqui o “já te disse” é muito importante) que temos uma espécie de empatia químico/intelectual e não me magoas, a não ser quando me arranhas as costas. Gosto de estar contigo, ponto final.
O racionalismo masculino é poderoso mas há formas de dar a volta à situação. Nenhuma mulher, com as hormonas no devido lugar, deixa passar isto em branco. Tanto bate na mesma tecla que o homem se vê obrigado pela consciência pesada a tomar uma decisão.
Conversação pré-coito em que as mulheres estão mais racionais e menos sensíveis:
- Olha, acho que devíamos reflectir um pouco naquilo que aqui temos.
- Queres acabar, é isso?!
- Não é isso que eu estou a dizer, não quero é que penses que só estou contigo pelo sexo fantástico. Não me tomes por aqueles tipos que só pensam com o apêndice!
- Mas eu não penso assim. Só acho que te posso magoar, afinal eu não sou assim. Não estou habituada a estas coisas, e como tal podes pensar que te estou a usar.
Neste momento ele pensa “mas eu gosto de ser usado!” mas não o diz, uma piada nesta altura podia estragar tudo.
- Tu não me usas, o máximo que pode acontecer é que nos estejamos a usar mutuamente.
Ao olhar para a cara dela, dá-lhe a fraqueza e, com a sensação de estar a dar um tiro no pé, diz:
- Acho que devíamos assumir qualquer coisa…

Um post de Miguel de Terceleiros em exclusivo para a Razão.

segunda-feira, agosto 29, 2005

A Razão da Selecção Natural

seleccaonatural
Um dos (muitos) fenómenos de Verão que me confunde, para além dos turistas que nos invadem, dos emigrantes que regressam, do despertar da música popular portuguesa – vulgo música pimba – e dos preços que sobem, são os homens de camisa aberta e de peito ao léu. Não basta que o Quim Barreiros lance um DVD e que tenha posters espalhados nas paredes de Lisboa?
O que será que passa com essas pessoas que assim que chega o verão, abrem a camisa e andam de peito ao léu? Se a imagem de Portugal (muitas vezes) não abona a nosso favor, com os homens que exportamos nas variadas frentes (política, alvernarias, hotelaria), com estes senhores a andarem na rua a exibirem orgulhosamente a barriga proeminente, as coisas só podem piorar. Não seria tão desesperante se os ditos senhores não fossem todos exemplos daquilo que eles imaginam ser a virilidade do verdadeiro macho latino.
Com a unhaca amarelinha, barriguita disforme, pelos de peito desgovernados enfeitados com o crucifixo (isto sem falar dos outros pelos que saem dos outros orifícios frontais). Mas o desesperante mesmo é vê-los a circular em todo o lado como machos dominantes em busca de presa. Acredito que tivessem melhor sorte se fossem jovens garbosos, de pelagem luzidia e boa dentição.
Caros senhores, as leis da natureza são básicas, ganha sempre o melhor exemplar.

Um post da Ana do 2º Esquerdo em exclusivo para a Razão.

domingo, agosto 28, 2005

A Razão Duvidosa

silenciosa
Se alvejarmos um mimo, deveremos usar silenciador?

sábado, agosto 27, 2005

A Razão Cocainómona

cocaina
A cocaína é a maneira que Deus tem de te dizer que andas a ganhar muito dinheiro.

sexta-feira, agosto 26, 2005

A Razão do Grau

grau
A recém eleita Miss Playboy Portugal foi entrevistada para a televisão (que emoção!) no fim de semana passado e quando lhe perguntaram o que tinha mudado na sua vida desde que foi eleita, a sua inteligente resposta foi: «A minha vida deu uma volta de 350 graus!»
Ok...


Temos uma tendência curiosa de atribuir graus às coisas, mesmo que não o façamos conscientemente. O grau mede a intensidade com que percepcionamos o mundo à nossa volta, fazendo parte de uma escala abstracta que usamos (não sei como, dada a nossa lusitana incapacidade genética para pensar no abstracto) para tomar todas as nossas decisões, desde as mais corriqueiras até às mais intrincadas.
Quando olhamos para os mamíferos que circulam à nossa volta sacamos da escala e atribuímo-lhes graus: gostamos muito de beltrano, gostamos assim assim de fulano, e não gostamos nada de sicrano.
A nossa paciência funciona em graus, e quando as coisas atingem um grau que consideramos inaceitável, salta-nos a tampa, às vezes a um grau violento. Outras vezes servimo-nos dos graus para mudarmos as nossas vidas – os mais radicais dão uma volta de 180 graus e mudam completamente de vida; outros, menos propensos a grandes rupturas fazem mudanças mais graduais, outros ainda fazem mudanças de 360 graus nas suas vidas e depois queixam-se que as coisas estão exactamente na mesma. Pudera... voltaram ao ponto de partida. Nisto de mudar de vida, pelo que me é dado observar, qualquer mudança inferior a 20 ou superior a 340 graus é de evitar: acabamos por ficar a enfrentar a mesma situação, mas ligeiramente virados para o lado, o que se torna ridículo. A não ser que estejam a pensar candidatar-se a Miss Playboy Portugal...

quinta-feira, agosto 25, 2005

A Razão Abstracta

abstracta
Os portugueses são um povo com uma elevada taxa de iliteracia numérica, segundo consta em relatórios da Comunidade Europeia. Não somos grande coisa a fazer contas, o que aliás não é novidade nenhuma: basta olhar para o estado do déficit e do Orçamento Geral do Estado, ano após ano. Mas um recente estudo publicado por um «Instituto da Inteligência» vem retirar toda e qualquer esperança que esta situação venha a mudar nas próximas gerações. Diz este reputado instituto que a habilidade para a Matemática explica-se por estruturas cerebrais e mentais, determinadas por factores genéticos e hereditários. Em suma, não estamos geneticamente preparados para fazer grandes esforços mentais, nem para pensar no abstracto. Talvez o melhor seja encomendar o próximo estudo ao «Instituto da Estupidez».
Não sendo um povo vocacionado para o pensamento abstracto, resta aos portugueses o pensamento concreto. Seremos então geneticamente vocacionados para aquilo que é concreto? Pela lógica, se não somos uma coisa deveríamos ser outra, mas a lógica é algo que pertence ao domínio da matemática que, como vimos, não é o nosso campeonato.
Estava a pensar nisto em abstracto quando comecei a procurar exemplos concretos que pudessem demonstrar que compensamos a nossa falta de abstracção com coisas muitos concretas. E muito concretamente o que achei não foi nada animador.
Acho que mais vale abstraír-me destas questões concretas...

quarta-feira, agosto 24, 2005

A Razão do Silicone

silicone
Não é fácil enfrentar os cânones e desafiar as tendências estéticas do séc.XXI. Vende-se uma imagem estereotipada de beleza que integra saúde e juventude - não exactamente por esta ordem - e é inevitável resistir-se ao apelo.
Não será extraordinário, assim, que até os jovens sucumbam ao efeito "reciclagem" e se descartem do que a natureza lhes deu em prol de um reconhecimento social que lhes permita passear-se pelas praias e discotecas, assemelhando-se a modelos "seven days a week". A ideia não é conviver, mas apenas ver e ser visto; uma espécie de andróides animados, extremamente apelativos, que despertam desejo e imitam a perfeição.
Contudo, esta é uma tarefa que imprime esforço, qual gueixa de pés gazeados no culto dos seus joanetes bonsai. Contrastando com a pequenez dos ditos pés de gueixa, os ocidentais, pelo contrário, sobrevalorizam a volumetria. Talvez devido à miopia que as grandes urbes provocam, os olhos tendem a não conseguir enxergar as coisas pequenas...
A grande oportunidade de transformar esteticistas e cirurgiões plásticos em emissários da criação foi - Hélas! - o silicone!
Pode ser usado nas mais bizarras aplicações: seios, glúteos, lábios, maçãs do rosto, ou mesmo nas anatomias não imediatamente visíveis.
Mas o que é ainda mais extraordinário é podermos encontrá-lo nas grelhas metálicas de correcção odontológica, em pensos calo-amortecedores, micro palmilhas para sapatos de salto agulha, ou ainda nos tão milagrosos soutiens com bolsinhas do dito, ao que as menos abastadas de recursos anatómicos e/ou financeiros apelidam de "mamas de sair".
Divertido é desafiar os crédulos e incautos babadores compulsivos a testar a genuinidade das formas que pululam nos seus curtos horizontes, não pelo mero teste do toca-e-foge, mas quando, no lusco-fusco da privacidade da alcova, esmorecem mirando as próteses que lentamente se vão amontoando sobre a mesa de cabeceira...
« - Querida, não te importas de voltar a vestir o soutien? É que, assim despida, quase não te reconhecia...
- Querido, tira as lentes de contacto! Que pensas que fiz para conseguir olhar para ti? »
Silly, isn't it?
Um post de MJM em exclusivo para a Razão.

terça-feira, agosto 23, 2005

Razões Amoroso-Gastronómicas

gastronomicoamorosas
Acho que tenho razão naquilo que vou dizer: as relações crescem e complexificam-se com a variação gastronómica e social.
Quando estamos com um grupo de amigos e conhecemos uma pessoa que é amiga de amigo, que tem uma conversa engraçada, culta, com sentido de humor, que fazer para privar com ela?! Convida-se para um café!
Podemos até nem tomar café mas convidamos sempre para um café. O povo português é muito adepto das relações sociais acompanhadas com café. Fecham-se negócios, marcam-se blind date’s, encontros de amigos, e o começo dos engates.
Quem é que nunca sentiu as cotoveladas e olhares cúmplices dos amigos quando se diz “Vou tomar café com fulana”?
Ir tomar café com alguém do sexo oposto implica que a relação está a evoluir. Um café a dois permite aquelas conversas de reconhecimento, é uma prospecção de terreno. Fala-se de tudo e mais alguma coisa, tiram-se nabos da púcara, provoca-se, enfim é o aperitivo óptimo. Aprofunda-se o conhecimento e recolhem-se pistas para o passo que se vai dar a seguir.
Tomar café não demora o tempo de engolir a pequena quantidade de líquido que repousa no fundo da chávena, é bem mais que isso. Pode ser doce ou amargo, escuro e forte ou macio e descafeínado, mas é sempre uma boa opção. Se estiver a correr bem pede-se outra coisa e marca-se outro. A correr mal desmarca-se e parte-se para outra coisa com a desculpa:
-Tenho mesmo que ir embora, tenho o meu voluntariado nos Anjos da Noite, depois eu ligo-te.
- Mas são três da tarde!
- É que… sabes lá começámos cedo, até nos chamam os Anjos do Dia.
Devaneios à parte, quando corre bem, corre mesmo bem.
Alguns cafés depois, estamos prontos para o passo seguinte, o jantar. Convida-se a pessoa quando já recolhemos informações suficientes para saber que o jantar não vai ser embaraçoso. É necessário um grau de intimidade grande para avançar para este nível.
Dentro ou fora de casa, com mais ou menos elaboração, um jantar implica uma série de condicionantes. Um homem deve saber que vinho escolher, é uma das regras universais do engate e acreditem que as mulheres incham de orgulho por saber que o homem que as acompanha sabe do que fala. Uma mulher deve ser delicada e saber ser servida, faz parte das convenções sociais, mas é giro.
Ver o companheiro a pegar nos talheres e nos copos certos é bom mas se falhar não é grave. Grave é ver o nosso interlocutor a meter a cabeça quase dentro do prato ou a sorver sopa ruidosamente. Isto é capaz de destruir o trabalho que tivemos com uma série de cafés de reconhecimento.
Como defende um amigo “Nós somos aquilo que comemos”, por isso há que ter cuidado ao escolher a comida. E se queremos causar boa impressão não devemos pedir coisas que sejam difíceis de comer, como marisco que tenha que ser partido, geralmente dá mau resultado.
- Ooops, lá vai mais uma perna de santola.
Pede aperitivo, digestivo, fuma, quanto fuma, como fuma... qual a relação que mantêm com o empregado, enfim uma série de coisas que influenciam o estudo da pessoa que está à nossa frente e nos permite traçar um retrato robot psicológico que vai influenciar a nossa escolha.
Não consigo, nem devo, explicar como se chega à refeição mais importante do dia, mas posso adiantar-vos que é o topo da relação amoroso/gastronómica.
Só se toma o pequeno-almoço com uma pessoa por quem nos sentimos atraídos, na manhã seguinte à subida de todos os outros degraus.
É claro que se pode inverter a pirâmide – na maior parte das vezes é assim que evolui.
- Este pequeno-almoço estava óptimo, jantamos logo à noite?!

Um post de Miguel de Terceleiros em exclusivo para a Razão.

segunda-feira, agosto 22, 2005

A Razão do Ponto G

gpoint
A obsessão em descobrir o Ponto G é recorrente, e normalmente espicaçada pelas revistas femininas.
Diz quem o inventou, que o Ponto G é um centro de prazer só existente nas mulheres e que, quando devidamente estimulado, é responsável pelos mais intensos, ruidosos e glorificantes orgasmos.
A história é tão bem contada que homens e mulheres o procuram freneticamente, mais parecendo cavaleiros da Távola Redonda na demanda do Santo Graal: elas procuram-no pelas razões óbvias; eles procuram-no como último recurso para aumentar a sua depauperada auto-estima.
Tudo isto é um grande equívoco. Podem parar de procurar.
Se querem mesmo descobrir o Ponto G, entrem ao sábado à noite no Bairro Alto, preferencialmente depois da meia-noite, e dirijam-se ao «Frágil». Aí encontrarão um Ponto G! Se não ficarem satisfeitos esperem mais duas horas e desloquem-se ao «Lux»: outro Ponto G.
Não hão-de faltar G's nestes locais à procura de estimulação. Divirtam-se.

domingo, agosto 21, 2005

Razões Divinas

divinas
Se Deus quisesse que nós voássemos tinha-nos dado bilhetes.

Mel Brooks

sábado, agosto 20, 2005

A Razão do Livre Arbítrio

livre arbítrio
Não acredito no livre arbítrio. Alguém está a escrever a história toda. E eu morro no final.

A Razão Genética

genetica
Se os teus pais não tiveram filhos, as hipóteses de tu não os vires a ter são muito elevadas.

sexta-feira, agosto 19, 2005

A Razão do Croissant

croissant
A razão do insucesso de qualquer negócio em Portugal está relacionado com aquilo que costumo designar pelo «síndrome do croissant», uma derivada da famosa expressão «onde mija um português, mijam logo dois ou três».
O «síndrome do croissant» tem o seu início e o seu fim em meados dos anos 80, no século passado, altura em que muitos dos leitores deste blog se preparavam diligentemente para nascer.
Antes dos anos 80 não existiam croissants, imaginem vocês. As pastelarias exibiam orgulhosas duchéses, coriáceas bolas de berlim, empertigados ecláires, esbeltos pastéis de nata, abnegados jesuítas, e muitos outros docinhos que apaziguavam a gulodice bovina de muita gente. A palavra snack ainda não fazia parte da vida dos mamíferos daquele tempo.
Então, surgido do nada, ou provavelmente surgido do empreendorismo de um emigrante da bidon ville (que é praticamente a mesma coisa que nada) surge a primeira croissanterie - assim mesmo, em estrangeiro para parecer mais fino. Ávidos por tudo aquilo que vinha do estrangeiro, na boa tradição do provincianismo nacional, os portugueses acorreram em massa. E o sucesso da primeira croissanteria foi tão grande que, num curto espaço de tempo, o país se transformou numa imensa croissanterie. Era impossível descobrir uma pastelaria. Porta sim porta sim, as croissanterias espalharam-se como um ébola desvairado, por todo o país, ameaçando a sobrevivência do queque e do mil folhas. Cidades houve em que surgiu a «rua das croissanterias». Os portugueses atafulhavam-se de croissants como se não houvesse amanhã.
E de repente, cerca de 5 anos depois da croissanteria original, acabaram tão rapidamente como tinham começado. Tipo dinossauros. A razão: não havia mercado para tanta oferta - estava descoberto o «síndrome do croissant».
Curiosamente, os pequenos empresários portugueses não aprenderam nada e, hoje em dia, o país apresenta um número absurdo de falências que está directamente relacionado com este fenómeno.
Em Portugal, a maneira mais rápida de atingir a falência é ter uma boa ideia lucrativa, que só vai ser lucrativa nos primeiros meses porque será selvaticamente copiada até à exaustão: videoclubes; lojas de posters; ginásios; casas de frangos; lojas de artesanato; restaurantes; cibercafés; etc.
Conclusão: tudo tem de dar lucro no muito curto prazo, um princípio que não é nada saudável para o futuro económico, quer do negócio, quer do país.