segunda-feira, julho 04, 2005

A Razão da Corrupção

corrupcao
Portugal tem um dos índices mais elevados de corrupção da Europa. Até aqui não há novidade nenhuma. Seria de esperar que os Governos que se sucedem em catadupa nesta nossa telenovela mexicana, a que chamamos simpaticamente de país, dedicassem uma boa parte do seu programa de governo ao combate à corrupção. No entanto isso não acontece, seja porque são incapazes de criar medidas eficazes para a combater, seja porque necessitam dela para serem eleitos e mantidos – o que nos leva ao efeito «pescadinha, não apenas com o rabo, mas com o corpo inteiro dentro da boca», qual contorcionista chinesa.
Estava eu a pensar nas contorcionistas chinesas, quando deparei com uma notícia interessante sobre os chineses, a corrupção, e os portugueses.
Antes dos portugueses saírem de Macau, 63% dos chineses que ali habitavam manifestavam-se preocupados com os índices de corrupção. Estando a administração do território de Macau entregue aos portugueses o que me surpreende é que a percentagem de chineses preocupados não atingisse os 100%.
Hoje em dia, 6 anos depois dos portugueses entregarem a administração do território aos seus donos legítimos, a percentagem de chineses preocupados com a corrupção baixou para 9%. Sintomático han?
Está portanto descoberta a medida mais eficaz no combate à corrupção no território luso: mandar o Estado português, e os portugueses, embora do país.
Em apenas 6 anos resolve-se exemplarmente uma questão quase milenar.

sábado, julho 02, 2005

A Razão Rectificativa

rectificativo

O Governo rectificou o orçamento geral dessa abstracção incómoda que é o Estado. A principal rectificação deu-se nas despesas do Estado, que aumentaram e passaram a ser 50% do orçamento. Metade do dinheiro que estes gajos me levam todos os meses vai direitinho para pagar os encargos que o Estado tem com ele próprio. Afinal as greves da Função Pública dão resultado. Bora prá praia malta!
Será que ainda vamos a tempo de rectificar o Governo? Não?! OK, então bora prá praia.

sexta-feira, julho 01, 2005

A Razão da Coisa

coisa
Falar da coisa não é coisa fácil. Apesar da coisa ser a forma mais fácil de falar de muita coisa. O que é certo é que crescemos com a coisa. E quando a coisa nalguma altura das nossas vidas não correu bem, houve sempre qualquer coisa que safou a coisa. Ou vice versa.
Habituámo-nos a muita coisa ao longo do tempo: aquela coisa política, aquela coisa privada, aquela coisa pública, aquela coisa estúpida, aquela coisa inexplicável, aquela coisa importante, e um sem número de coisas que nos chateiam, que nos aborrecem, que nos fazem felizes e nos fazem rir, mesmo quando a coisa não tem piada nenhuma.
Não estou obviamente a falar das coisinhas, que também têm a sua importância, mas não são a coisa. Nem sequer falo do coisinho, sempre insignificante, mas simpático. Muito menos do coiso, que tem lá o seu lugarzinho cativo a caminho de uma coisa qualquer.
Estou a falar daquela coisa que cresce connosco, que nos acompanha no dia-a-dia, e que torna a coisa numa coisa diferente. Quantas vezes não viram qualquer coisa numa determinada pessoa? Quantas vezes não vos ia dando uma coisa? Quantas vezes não vos apeteceu dizer uma coisa? Quantas vezes não vos apeteceu... qualquer coisa? E quantas vezes a coisa não ficou por aí mesmo...
A verdade é que há sempre qualquer coisa que não é uma coisa qualquer. Ou a falta de qualquer coisa, para a qual procuramos uma coisa qualquer. Uma coisa é certa: ter mão na coisa não é a mesma coisa que ter a coisa na mão. E isso faz toda a diferença se pensarmos bem na coisa. Há coisas que, de facto, nos fazem pensar que há com cada coisa...
Que coisa!

quinta-feira, junho 30, 2005

A Razão Deles

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A coisa começou no jardim de infância: tu emprestas-me os lápis de cera e eu deixo-te brincar um bocado com os meus power rangers. Quando chegaram ao liceu a coisa não era muito diferente: se me emprestares o descapotável que o teu pai te ofereceu eu apresento-te a Sónia, aquela bomba que chapinha na tua baba. Na universidade a coisa tendeu a sofisticar: se apoiares a minha lista convido-te a participar nuns encontros políticos onde vais conhecer gente que te interessa. Quando entraram na vida profissional já não estranhavam nada: descobre-me o que é que aqueles gajos querem lançar e eu arranjo-te o patrocínio que pretendes; faz aí um inside trading que eu garanto-te um volume jeitoso de acções; se escolheres a minha empresa vais ter benefícios na empresa do João; a minha irmã não tem jeito nenhum para nada, mas tu hás-de arranjar-lhe alguma coisa que ela saiba fazer na tua empresa.
Um dia decidiram dar um ar profissional à coisa. Aparecer nos jornais como verdadeiros salvadores do país. Decidiram mandar uns bitates para os incompetentes do governo. Decidiram dar nas vistas. E criaram o «Compra-me Isso Portugal»: um grupo de betos que troca favores entre si.
Está quase tudo comprado. Falta pouco. Esperem só mais um bocadinho.

quarta-feira, junho 29, 2005

A Razão da Cova da Moura

covadamoura

Tropecei por acaso num estudo feito na universidade de Cambridge, no Massachussets, onde se avalia o impacto da raça nos padrões de policiamento, aprisionamento e crime. O tema parece chato como a potassa, mas na realidade não é.

Dizem eles que o casting de elementos policiais deve ser definido em função do tipo de cidade ou bairro que patrulham. Isto significa que se o bairro for constituído por uma população de raça negra, os polícias deverão ser negros. Se o bairro for maioritariamente constituído por indivíduos de raça branca, os polícias deverão ser brancos. E assim por diante cobrindo todo o espectro do arco-iris. Um exemplo local: se patrulharem as zonas do Conde Redondo ou Parque Eduardo VII em Lisboa, os polícias deverão ser gays.

As razões deste casting não deixam de ser curiosas. O estudo demonstra que os polícias de uma determinada raça têm uma predisposição danada para lixar a vida aos tipos que não pertencem à sua raça – seguindo o método daqueles rapazes que simpaticamente ajudaram Rodney King a atravessar a rua em Los Angeles, e que culminou na maior revolta popular de que há memória. Por outro lado as raças predominantes de um determinado bairro gostam de fazer apostas chorudas para ver quem acerta primeiro com um zagalote na carola de um polícia que não é da sua raça. Abaixo da cabeça vale menos pontos.

O estudo conclui que, fazendo o casting policial certo, o número de prisões desce consideravelmente (entre 10% a 20%) e os chamados «crimes de propriedade» (furtos de bens pertencentes a outrem) reduzem-se em 20%. Isto porque os polícias são mais tolerantes para com os indivíduos da sua raça, e porque as populações locais colaboram mais facilmente com eles, dando-lhes indicações preciosas para a resolução dos crimes.

Nos «crimes violentos», fazer um casting correcto não tem impacto nenhum, e aqui a côr do polícia é perfeitamente irrelevante. O que interessa aqui é mesmo dar cabo deles e pronto, não se fala mais nisso.

Temos portanto aqui a solução para o arrastão. A partir da próxima semana as patrulhas policiais na Cova da Moura, serão constituídas por um batalhão de somalis perfeitamente untadinhos, e vamos deixar de ouvir falar em arrastões - até porque os habitantes do bairro vão ter dificuldade em andar a direito, em consequência das insuportáveis dores no esfíncter.

terça-feira, junho 28, 2005

A Razão do Orgasmo

orgasmo
No início dos tempos o orgasmo era uma coisa muito simples: só os homens é que o tinham, e servia para os avisar de quando é que tinham de parar.
Depois elas desataram a ter orgasmos e a coisa complicou-se de sobremaneira. Aquilo que era uma função básica da reprodução ganhou uma pluralidade de dimensões e, hoje em dia, o orgasmo tem mais funções que um telemóvel de última geração. Senão vejamos:
O orgasmo vende revistas: coloque-se a palavra «ORGASMO» a ocupar 1/3 da capa de uma revista e tem-se uma edição esgotada. O orgasmo é um barómetro de performance para eles e para elas – quantos mais, melhor. O orgasmo faz bem à pele. O orgasmo dá audiência ao Júlio Machado Vaz. O orgasmo desentope o nariz e tem efeitos anti-histamínicos. O orgasmo reduz a tensão e o stress. O orgasmo mais decibélico enfurece qualquer vizinho mais rebarbado. O orgasmo produz expressões faciais caricatas. O orgasmo aumenta a longevidade. O orgasmo tem efeitos inexplicáveis ao nível da auto-estima.
Se alguém duvida da capacidade feminina de complicar o que quer que seja, o orgasmo tira-vos todas as dúvidas. Ou seja, se têm dúvidas, tenham um.
Foto daqui

segunda-feira, junho 27, 2005

A Razão dos Mais Aptos

aptos

A sobrevivência do mais apto tem uma aplicação social que já foi largamente explorada por muita gente. Sabemos que evolução das sociedades está intimamente ligada à maior aptidão dos seus cidadãos: quanto mais talento e inteligência existirem, maiores as probabilidades de estes terem um impacto na sua sociedade. As sociedades que percebem esta verdade óbvia, e que investem para tornar os seus cidadãos mais aptos são aquelas que apresentam níveis de desenvolvimento mais elevados. Nalguns casos até importam talento – os Estados Unidos fazem-no com alguma frequência desde a 2ª Guerra Mundial.
Em Portugal a lei do mais apto tem uma aplicação que remonta à época medieval: os considerados mais aptos não são nem os mais inteligentes, nem os mais talentosos, nem os mais experientes, nem aqueles que poderiam fazer a diferença. A aptidão em Portugal depende do nome de família. Como as aptidões intelectuais e o talento não são coisas que se transmitem de geração para geração, temos sempre os mesmos nomes em sectores-chaves da economia e da política. Qual é o resultado disto? É o que vemos: uma novela mexicana controlada por grupos económicos que operam em regime de negócio familiar.
Portugal não é um país, é um negócio de famílias, e como tal anda ao sabor da falta de talento político, económico e social destas novas gerações de malta que cresceu a saber que não tinha que se esforçar muito para ir tomar conta do negócio do papá.
Quem achar que estou a ser muito radical pode sempre consultar as páginas dos jornais de há 100 anos atrás e ver os apelidos dos indivíduos que estavam na política e na economia de então. São os mesmos inaptos. Não admira que o país esteja cada vez mais na mesma.

sexta-feira, junho 24, 2005

A Razão da Greve

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A coisa mais útil que se pode fazer num país que não produz a ponta de um chavelho é uma greve. As greves são libertadoras, são relaxantes, e acima de tudo são produtivas. Produzem belos dias de lazer, na praia, na cidade ou no campo, sem fazer absolutamente nenhum.
És funcionário público e achas mal trabalhares as mesmas horas que um empregado privado? Faz uma greve. És motorista da Carris e chateia-te fazer 40 horas de trabalho por semana? Faz uma greve. És professor e babas-te que nem um camelo? Faz uma greve no dia dos exames nacionais para lixares a vida a uma série de miúdos que inocentemente acharam que lhes ias ensinar alguma coisa de produtivo. És polícia e aborrecem-te os arrastões? Faz duas greves. És bombeiro e enerva-te haver falta de água para os fogos? Faz uma greve. És um magistrado e estás escandalizado porque já não podes ter 3 meses de férias judiciais? Faz uma greve. Mas antes de fazeres uma greve certifica-te se tens condições para fazer uma boa greve:

A boa greve faz-se de Verão. Não tem jeito nenhum fazer greves à chuva e ao frio. As disputas ideológicas ficam mais quentes no Verão.

A boa greve faz-se à segunda ou à sexta-feira (de preferência à segunda e à sexta-feira) porque assim podes gozar à brava com os babacas privados que vão de manhãzinha trabalhar para pagarem o prejuízo de tu não trabalhares porque estás em greve.

A boa greve faz-se com catering. Uma greve sem catering não é uma greve, é um grupo de javardos que acredita que vai conseguir alguma coisa do patronato só porque ficam todos juntos de pé e aos berros.

A boa greve começa à primeira hora do dia, mas só tem manifestação por volta das 20:30h em frente da Assembleia da República, já vazia. Isto permite-te dares um pulinho à praia, dares uma voltinha pelos centros comerciais, ver as garinas, e depois da manif (que não deve exceder os 60 minutos) ires alegremente jantar com os colegas.
Se pelo menos uma destas condições não estiver cumprida, queixa-te ao sindicato e faz uma greve para obteres condições. Lembra-te que só os bons bandalhos fazem boas greves. Avante Labregos!

quinta-feira, junho 23, 2005

Razões Histéricas

histericas
Esta história do arrastão deixou-me perplexo, não pelo arrastão em si, que já conhecia de outras guerras no Rio de Janeiro, mas pelas reacções que este provocou a vários níveis. De repente, criticar o arrastão e as suas consequências, é considerado ser uma atitude racista. Tudo isto porque o arrastão foi levado a cabo por rapazes com uma pigmentação mais acentuada, que lhes dá uma côr próxima do negro.
Parece que a atitude correcta a ter-se com o arrastão não é criarem-se medidas coercivas para que este não aconteça com a frequência de um piquenique. Parece que a atitude correcta é criticar o Estado e o seu regime social porque promove a segregação, desfavorece os mais pobres, e incita a fenómenos deste género.
Vi em tempos numa entrevista um jovem negro da Zona J que tinha sido preso por andar a assaltar carros, a gritar para a câmara «Eu sou português! Não são só os brancos que têm direitos!» e quer-me parecer que anda por aqui muita gente equivocada. O facto de ser português dá-lhe algum direito especial para destruir propriedade privada? Não me lembro de ter visto isto escrito na nossa constituíção, mas se lá está avisem-me para eu finalmente implodir por aí umas coisitas.
Quer-me parecer que este excesso de zelo de não querer parecer ou ser racista está a embotar o espírito de muita gente. Se fôr um negro a levar um camaçal de porrada por ter feito merda estamos perante um caso de violência racial, se fôr um branco a levar o mesmo camaçal não há problema? Tenham juizinho. As minorias precisam de ser respeitadas é um facto, mas enquanto respeitarem as regras da sociedade onde se inserem.
Pessoalmente estou-me nas tintas para a cor da pele de quem fez o arrastão, por mim até podiam ser lilases. O que me chateia solenemente é a histeria dos supostos defensores das minorias. Até parece que por serem minorias têm que ter um tratamento preferencial e distinto da maioria.

quarta-feira, junho 22, 2005

A Razão dos Maçons

macons
A malta receia aquilo que desconhece. Quanto mais secretismo e mistério se promover em torno de qualquer coisa, mais respeitinho se tem por essa coisa. Foi com base nesta premissa básica da natureza humana que se criaram as lojas maçónicas. Sempre envoltas num mistério cabalístico, as lojas maçónicas e os seus incógnitos membros são alvo das mais variadas especulações: conspiração mundial para colocar os seus membros nos lugares-chave do poder político e económico; tráfico de influências; festas pagãs envolvendo virgens bêbedas e desnudas; práticas impronunciáveis com animais de pequeno porte; embalamento de frutas escamosas sem recurso ao vácuo; e outro tipo de actividades que, na realidade, nada estão relacionadas com a razão de ser maçon (ou pedreiro-livre, se quiserem).
A verdadeira razão da maçonaria é algo de muito mais simples, embrulhada, por uma questão de marketing e credibilidade, num conjunto de rituais e vestimentas ridículas, com o objectivo de intimidar o mais incrédulo. Na realidade o objectivo do maçon é ter uma desculpa para deixar a mulher em casa e ir passar umas horas descontraídas com os amigos, em amena (e por vezes, alarve) cavaqueira. Algumas lojas admitem mulheres, mas nunca as dos próprios sócios (porque será?), embora a maioria das lojas se constituam seguindo escrupulosamente os estatutos do Clube do Bolinha.
Detentores de uma imaginação prodigiosa, os maçons estão na base do progresso social e são responsáveis por uma série infindável de invenções que tiveram como único objectivo fazer com que as suas mulheres não os controlem, nem os chateiem. Alguns exemplos:
No início do século XX inventaram o Country Club – um sítio de acesso exclusivo a indivíduos do sexo masculino onde podiam passar o fim de semana a comer, a beber e a jogar que nem uns javardos.
Anos mais tarde inventaram o Golfe. Na altura jogar golfe consistia apenas em enfiar a bola num único buraco. Como aquilo durava muito pouco tempo inventaram o green com 18 buracos – podiam estar uma tarde inteira a jogar uma única partida entre amigos e sem as mulheres.
Nos anos 30 inventaram o Chá das Cinco. Elas ficavam entretidinhas a preparar e a fazer o chá para as amigas e eles bazavam para se divertirem que nem uns perdidos.
Como o Chá das Cinco tinha uma duração muito reduzida, pensaram numa maneira de o alargar. E assim, nos anos 40 fizeram um upgrade inventando as Reuniões de Tupperware que tinham lugar antes do Chá das Cinco.
Nos anos 50 inventaram os Salões de Cabeleireiro. Nos anos 60 foram mais longe e inventaram o Movimento de Libertação das Mulheres (enquanto elas participavam nas reuniões e manifestações eles iam à sua vidinha fácil).
Nos anos 70 inventaram os cartões de crédito. Lá iam elas todas satisfeitas às compras estoirar o plafond dos cartões.
Nos anos 80 decidiram circunscrevê-las num determinado espaço, para melhor as controlar, e inventaram os Centros Comerciais.
Nos anos 90 inventaram a Internet e as Compras Online (que reduziram drasticamente a taxa de infidelidade das décadas anteriores porque elas já não precisavam de saír para ir às compras).
Na actual década inventaram o Investimento no Brasil, e lá vão eles em grupo «fazer negócio para a sua Empresa Brasileira» enquanto elas ficam por cá a tratar da casa e dos filhos.
Naturalmente que têm que ser secretistas e misteriosos. Estariam completamente lixados se não o fossem. Deixem lá os gajinhos a curtir em paz...

terça-feira, junho 21, 2005

A Razão do Labrego

Labrego Nacional

País de longa tradição no desenvolvimento do labrego nacional, Portugal chegou a um ponto de saturação do número de labregos per capita. Dados recentes do INE apontam para que a população labrega seja neste momento muito superior à portuguesa. «Começamos a ter dificuldade em separar os portugueses dos labregos, uma vez que os primeiros parecem ter sido perfeitamente aculturados pelos segundos» afirma o responsável máximo por esta instituíção.
O Governo já admitiu ser maioritariamente constituído por labregos de 2ªgeração, não prevendo que a situação se altere nos próximos 4 anos, o que coloca Portugal no primeiro país europeu a ter uma maioria de população labrega, governada por labregos.
O impacto do nacional labreguismo já começou a sentir-se na economia nacional – é característica do labrego a completa ausência de noção de gestão, o despesismo descontrolado e tendencioso, uma compulsiva tendência de prometer uma coisa, fazendo exactamente o contrário, e a fuga a toda e qualquer espécie de imposto.
Especialistas internacionais no fenómeno expansionista do labrego, afirmam que o processo é irreversível e que dentro de poucos anos Portugal não terá portugueses. Sugerem ainda que se comece a mudar nome do país para Labregal.
O número de escolas para labregos tem aumentado exponencialmente nos últimos 10 anos, com todos os inconvenientes que estas acarretam: taxas de insucesso escolar perto dos 100%, não pagamento de propinas, e uma tendência compulsiva de arrastões diários num raio de 2km em torno de cada escola.
O número de empresas labregas também aumentado, mas aqui a situação é menos grave porque, como se sabe, a duração de vida de uma empresa labrega é de um ano, exactamente o tempo que levam a esgotar-se os fundos europeus de incentivo à criação de empresas.
Estima-se um novo fluxo de emigração nacional com características muito diferentes das que assistimos na década de 60 do século XX: a mão-de-obra especializada e sem paciência para os labregos nacionais começa calmamente a abandonar o país.
Os labregos andam tão preocupados (fizeram contas e descobriram que os que ficam são todos uns labregos tesos) que lançaram esta semana o programa social “Adopte um Português”. Quem quiser ficar e ser adoptado por um labrego basta inscrever-se no centro de segurança social da sua zona de residência.
Cantem comigo o novo hino nacional: «Labregos do mar…»

Nota: Quem acha que eu estou a reinar que faça uma visita aqui

segunda-feira, junho 20, 2005

A Razão do Tamanho

tamanho
O tamanho interessa? Esta é uma das perguntas recorrentes do sexo masculino e um dos segredos mais bem guardados do sexo feminino. Devo dizer-vos que o segredo só é dos mais bem guardados porque nós acreditamos em tudo o que nos dizem. A resposta, com uma certa dose de maternalismo, é mecânica e surge pronta, estando há milhares de anos presente nos genes delas: «Claro que não! O que realmente interessa é a performance!» e depois fazem aquele sorrisinho sabido. E eles acreditam.
Pois bem rapazes, tenho más notícias para vocês. É claro que interessa, seus parvalhões inveterados! E vou dar-vos alguns exemplos na nossa linguagem para ver se percebem, se deixam de fazer essa pergunta estúpida, e se aprendem a viver com aquilo que têm. Reflictam comigo meninos:
As Mamocas – o tamanho interessa?
A julgar pela quantidade de metros cúbicos de baba que vocês segregam só de ver uma simples fotografia de uma rapariga a ostentar uma caixa toráxica generosa eu diria que sim.
Um Apartamento – o tamanho interessa?
Quem acredita que ter um T1 é mesma coisa do que ter um T6 com jardim e piscina ou é um perfeito imbecil ou foi alvo de um lobotomia. É claro que o que interessa, na óptica delas, é o que se faz dentro de um T1... acreditem se quiserem, patós.
O Ordenado – o tamanho interessa?
Claro que não. O que interessa é o que vocês fazem com ele não é? Estou a fazer-me entender ou precisam de mais exemplos?
As Férias - o tamanho interessa?
A quem se contentar com um intenso fim de semana alargado por ano recomendo o Japão como destino de residência. Ao menos ali o tamanho é nivelado por baixo em muitos aspectos.
O Automóvel – o tamanho interessa?
Este exemplo é para aqueles que já têm filhos. Imaginem que têm um carrinho com dois lugares, cheio de performance e querem ir passear com a vossa família ao fim de semana. De que vos serve a merda da performance se a porcaria do carro não tem tamanho para vos levar a família toda lá dentro. Han?
Se ainda têm dúvidas sobre esta questão, olhem para o ar de felicidade da rapariga da foto em cima, e deixem de fazer perguntas estúpidas. Cresçam, meninos... (no sentido lato do termo, nada de mal entendidos).

sexta-feira, junho 17, 2005

A Razão da Mioleira

mioleira
Quando um dos sábios morria, os Astecas tinham como costume eleger alguém que gozava o privilégio de lhe comer o cérebro (uma derivante do “comer as papas na cabeça”). Acreditavam que, dessa maneira, a sabedoria do sábio defunto passaria para quem lhe comesse os miolos. Tirando um ou outro caso de gajos que de repente, depois do repasto, desatavam a relatar pormenores obscuros da vida do sábio envolvendo animais, virgens e anões, nunca ficou provado que a coisa funcionasse.
A verdade é que os Astecas tinham razão. Eu fui alimentado a mioleira de vaca antes dos bovinos começarem a enlouquecer com encefalopatia spongiforme e garanto-vos que topo as vacas à distância. Identifico-as facilmente no meio de uma multidão. Não têm segredos para mim.

quinta-feira, junho 16, 2005

Razões de Identificação

mafiosas

Quando os brancos começaram a explorar o Oeste norte-americano e tiveram os primeiros contactos com as culturas das tribos índias acharam piada ao facto dos seus nomes invocarem sempre um elemento da natureza que, acreditavam os índios, transpareciam na personalidade do indivíduo que o ostentava. Cavalo Louco, Touro Sentado, Nuvem Vermelha, Bisonte Estafado, Alce Alucinado, eram nomes vulgares entre os índios.

Cem anos depois, no mesmo país, a comunidade italiana ligada a negócios menos lícitos começou a usar uma nomenclatura muito semelhante, que destacava uma característica física, uma característica emocional predominante, ou ainda uma façanha levada a cabo pelo indivíduo. Surgem então «Baby Face» Nelson; Vinnie «The Butcher» Gretti; Paulie «The Clown» Pizzi; Angie «Cocksucker» Freschi; Lou «The Ripper» Cicci; Ricco «The Bat» Rossi; Dino «The Limp» Itti; e muitos outros. O fenómeno ainda dura até aos dias de hoje.

Lembrei-me disto porque tenho imensa dificuldade em memorizar os nomes dos nossos políticos. Seja porque são criaturas sem o mínimo de relevância, seja porque as suas carreiras têm laivos de mercenarismo, aparecendo e desaparecendo tão rapidamente da vida política que se torna difícil associar o nome ao homem. Talvez utilizando o método dos mafiosos (que até nem vem nada a despropósito) se consiga ter uma noção mais clara de quem é quem.
Aqui vai um conjunto de sugestões:

José «Equivocado» Sócrates
Marques «Matraquilho» Mendes
Paulo «Arrefinfa-me» Portas
Jerónimo «Sem Palavras» de Sousa
Vitor «Bocas» Constâncio
Durão «Chernobyl» Barroso
Bagão «Mangas de Alpaca» Félix
Manuela Ferreira «Collants de Ferro» Leite
Santana «Kreutzfeld Jacobs» Lopes
Freitas «Ambidextro» do Amaral
Campos «Dois Ordenados» e Cunha
Mariano «O Gago» Gago
Jorge «The Clown» Coelho
Manuel Maria «O Bárbaro» Carrilho
Manuel «Ainda aí Estás?» Monteiro

Seguramente que assim me vou lembrar destes gajos.

quarta-feira, junho 15, 2005

Razões Inevitáveis

inevitaveis
A selva estava a arder e a única solução era atravessar o rio para a outra margem, protegida do incêndio. O escorpião estava na margem errada e olhava nervosamente os elefantes, antílopes, e outros mamíferos quadrúpedes que se faziam ao rio para atingir a margem segura. O incêndio avançava na direcção do escorpião que, infelizmente, não sabia nadar. «Lá estou eu aqui a ser obrigado a escolher entre o nada e o coisa nenhuma» pensava o escorpião, incomodado com o calor abafado que se aproximava cada vez mais.
Perto dele uma zebra preparava-se para saltar para o rio e nadar para a outra margem. O escorpião decidiu arriscar: «Ouve lá» disse ele à zebra, «não te importas que faça a travessia do rio no teu dorso?». A zebra levantou o sobrolho, respondendo «Estás armado em parvo? Tu és um escorpião – se eu te deixar vir no meu dorso o mais provável é tu dares cabo de mim em dois tempos... tem juízo.» O escorpião desesperou «Já pensaste que se eu der cabo de ti em dois tempos morro afogado no rio? Sou escorpião mas não sou estúpido. Vá lá, não me deixes aqui para morrer queimado.»
A zebra viu alguma lógica na resposta do escorpião e decidiu levá-lo no dorso até à outra margem. Quando estavam a meio do rio sentiu uma picada lancinante no dorso, seguida de um entorpecimento rápido. O escorpião tinha-lhe afincado o ferrão com toda a fé. «Mas tu és estúpido???» gritou a zebra «Vamos morrer os dois!»
«Bem sei» disse o escorpião «mas eu sou um escorpião, é mais forte que eu...»

A assistente social contava pacientemente a horda desorganizada de miúdos à medida que estes entravam no autocarro alugado. Tinha levado dois anos a convencer a Câmara a ceder-lhe um autocarro para levar os miúdos à praia. Era capaz de jurar que metade daqueles miúdos da Cova da Moura nunca tinha pisado numa praia. Quando o último entrou, ela subiu os degraus do autocarro, pegou no microfone dizendo «Bom dia meninos, daqui a momentos estaremos na praia de Carcavelos, quero que me prometam que se vão portar bem...»

terça-feira, junho 14, 2005

A Razão da Borla

borlistas

Por razões históricas, a palavra portughese tem um significado muito particular em Itália. Portughese é o termo que os italianos usam para designar os borlistas. A nossa fama precede-nos além fronteiras, e houve pelo menos um povo que, no passado, nos topou. Os italianos têm razão, somos o país da borla. Somos uns borlistas inveterados desde o início da nação. Como não podia deixar de ser, o primeiro borlista nacional foi o nosso fundador Afonso Henriques que ficou com o país à borla, nunca pagando a bula ao Papa, e determinando todo um espírito nacional, vigente até aos dias de hoje.
O português tem dificuldade em pagar seja o que fôr, não porque está endividado até às orelhas (que por si só seria uma boa razão para não pagar seja o que fôr) mas porque pagar não faz parte do feitio nacional. Para um tuga, pagar é um acto obsceno. Tudo o que é à borla, mesmo que o preço seja uma coisinha insignificante e acessível, tem sucesso garantido nesta nossa novela mexicana. Depois de ter sido cliente do Ikea de Madrid durante alguns anos, lembro-me de ter visitado o Ikea tuga na sua primeira semana de existência e de ter visto em acção o “síndrome dos portughese”: os lápis que o Ikea põe gratuitamente à disposição dos clientes para tomarem nota, medirem espaços, etc. estavam esgotados. Sempre que os empregados os repunham, hordas desenfreadas de tugas borlistas atiravam-se a eles às mãos cheias – se é à borla é para levar tudo o que houver!!
As manifestações deste síndrome repetem-se: veja-se por exemplo a quantidade de blogs per capita que existem neste país – teriam um blog se tivessem de pagar por ele? Eu não. Até acho que me deviam pagar para isto. Veja-se o sucesso dos recém-surgidos jornais diários à borla. Veja-se o caso das propinas do ensino universitário. Veja-se a polémica das scuts. A malta quer usufruir mas não quer pagar.

Eu acho bem que ninguém pague nada. Aliás acho mesmo que devíamos deixar de usar o Euro ou outro qualquer tipo de moeda, regressando àquele tempo em que a aquisição de um bem era feita através da troca por outro bem. Talvez assim fossemos obrigados a produzir alguma coisa para podermos adquirir outra.

sexta-feira, junho 10, 2005

Razões Freudianas


Cada indivíduo tem entre 20.000 e 40.000 pensamentos por dia (embora ainda esteja sujeito a prova se os membros do Governo, bem como os deputados da Assembleia da República, conseguem atingir uma centena diária). Dizem esses iluminados, os psicólogos, que 1/3 do dia pensamos em sexo, ou seja, na melhor das hipóteses pensamos em sexo 13.333 vezes por dia, 555 vezes por hora, 9 vezes por minuto, 1 vez em cada 6 segundos. Como é que ainda arranjamos espaço para pensar noutras coisas? Deixem lá de pensar nisso e reflictam comigo. Ignorem esses pequenos flashes de 6 em 6 segundos ok? Façam um esforço.

quinta-feira, junho 09, 2005

As Razões da Aliança

starwars

O George Lucas lançou recentemente o último episódio da 2ªtrilogia da série de três trilogias que tinha inicialmente pensado, mas que decidiu a meio caminho transformar em apenas duas por falta de verba e pachorra. Confuso han?
Falo obviamente do Star Wars. Eu sou um fã da primeira trilogia e acho que a paneleirice dos efeitos especiais de última geração que tomaram conta da segunda trilogia, tornaram o produto final mais pobre. Ainda assim divirto-me com os seis episódios. Não haja dúvida que aquilo é mesmo ficção ciêntífica, mas não pelo facto de retratar o futuro e envolver naves espaciais, galáxias distantes, e seres esquisitos à porrada com andróides. Aquilo é ficção porque supostamente retrata uma aliança humana que, sabemos hoje, seria impossível de obter.
Imaginem que o exército revoltoso da Aliança era formado pelos 25 países da união europeia, e conseguem ter uma perspectiva daquilo que provavelmente aconteceria.
Os franceses recusar-se-iam a combater pela Aliança até que esta adoptasse o francês como língua oficial. Os ingleses formariam um grupinho à parte e nunca se perceberia se faziam parte da Aliança ou não. Os alemães fariam campos de extermínio de droids e siths e ficariam assim entretidos. Os holandeses evitariam andar à porrada e praticariam uma política de tolerância com as forças Imperiais, procurando retirar dividendos daquilo a que chamariam uma “parceria comercial sem fins políticos”. Os espanhóis atiravam-se de peito feito a todas as naves imperiais e extinguir-se-iam logo de seguida. Os italianos criariam uma unidade especial de combate (os carabinieri rabetini) especializada em atacar o Império pela rectaguarda, mas só depois de terem recebido as "luvas" de combate. Os dinamarqueses andariam felizes como a merda a conduzir as suas naves todos nús, promovendo alegres orgias inter-estelares. Os gregos criariam a «Ala dos Namorados», uma força gay de intervenção, distinguindo-se por usar sabres de queijo feta com uma mestria capaz de engordurar qualquer soldado do Império. Os belgas especializar-se-iam em desbastar as crianças Sith. Os polacos, lituanos, checos e todas as nações do leste europeu, combateriam valentemente a qualquer preço, desde que não os mandassem embora da Aliança. Os portugueses, esses rapazes do Quinto Império, nunca teriam qualquer intervenção no conflito. A bordo da sua única nave, um chaço comprado a prestações e em segunda mão pelo ministério da defesa, chegariam sempre tarde a qualquer batalha interestelar, conquistando a alcunha de “o cú da Aliança”. Pequeninos e ruidosos, sempre em autocomiseração, percorreriam galáxias em direcção a lado nenhum. O costume…

May the force be with you.

quarta-feira, junho 08, 2005

A Razão do Estudante

estudante

Ser estudante em Portugal não é uma tarefa fácil. Os professores são aquilo que se conhece e que já tive oportunidade de referir numa Razão anterior. Mas como se não bastasse isso, há tudo o resto:

É dificílimo arranjar um lugar para estacionar o BMW perto das universidades. Os parques estão lotados e os alunos perdem imenso tempo à procura de um lugar, chegando tarde às aulas e perdendo matéria que é fundamental para o seu bom desempenho curricular.

As propinas são elevadissimas, o que obriga os alunos a sacrifícios sobre-humanos, tendo de optar em fumar menos um maço de tabaco por semana, e evitar ir a menos um concerto por mês. Uma verdadeira calamidade.

O acesso à informação tornou-se cada vez mais difícil com a internet. É que a informação disponível é tanta que, para além de tornar difícil qualquer síntese, deixou-se de ter a noção da veracidade da mesma.

Os estudantes a quem os pais não ofereceram o BMW têm que se deslocar penosamente para os estabelecimentos de ensino utilizando a rede viária de transportes públicos, tendo muitas vezes que esperar mais de 10 minutos pelo seu autocarro. Inadmissível num país dito desenvolvido.

Os alunos de ciências exactas ainda têm uma vida pior que os outros: têm que aprender a escrever sem erros na língua portuguesa, uma tarefa irrelevante, dado que as suas opções de trabalho estão longe de necessitarem do uso da língua portuguesa.

Para agravar ainda mais a situação dos estudantes nacionais há a questão dos exames, que provocam um stress desnecessário interferindo brutalmente no seu rendimento, e levando-os à prática da toma desregulada de anti-depressivos e de estimulantes de natureza variada.

Realmente, ser estudante em Portugal, não é vida para ninguém.

terça-feira, junho 07, 2005

A Razão Expectante

megafone
A todo o momento espero ouvir uma voz metálica a surgir de um megafone colocado algures num sítio alto que me diz: «bem vindo ao nosso parque temático, esperamos que se esteja a divertir tanto como nós!»
Aí tudo faria sentido: o Gonçalvismo, o Soarismo, o Cavaquismo, o Guterrismo, o Chernismo, os Santanetes e os Socráticos. Faria aquele olhar estupefacto das vítimas dos apanhados e diria certamente: «Eh pá, que vocês foram mesmo convincentes nesta parvoeira absoluta».
E a voz megafónica continuaria: «durante a tarde poderá divertir-se e assistir em directo ao discurso de restrição do nosso andróide que simula um primeiro ministro; ao longo da tarde assistirá a um compacto que mostrará todas as equipas nacionais a perder sucessivas finais de futebol; se mudar para o 2ºcanal poderá ver o que não deve ser um desempenho olímpico; ao início da noite terá o escândalo do dia- “Árbitros de Futebol Pederastas na Casa Pia”- aquele que é conhecido pelo escândalo do Apito Cagado. À noite não pode perder um selvático programa de humor onde o ministro das finanças exige contenção a toda a gente à excepção dele próprio. Se não tem nada programado para os próximos 5 minutos dirija-se à auto-estrada mais próxima e assista a um espectáculo único de mortandade ao volante por negligência boçal (...)»
Há uns anitos que espero que a voz apareça, mas nada. Os gajos estão determinados a fazer com que eu acredite que tudo isto é verdade. Estão a fazer um bom trabalho. Profissional até.

segunda-feira, junho 06, 2005

A Razão Pombalina

pombal
Depois do terramoto e do tsunami que mataram 30.000 pessoas e destruíram 17.000 dos 20.000 edifícios de Lisboa no ano de 1755, surgiu um indivíduo que aproveitou o caos instalado para alterar profundamente o estado da nação.
Chamava-se Sebastião José de Carvalho e Melo, mas ficaria a ser conhecido para a posteridade como «Marquês de Pombal». Responsável pela reconstrução de Lisboa, ele escreveu um manifesto intitulado «As Vantagens que o Rei de Portugal Pode Retirar do Terramoto de 1755». Neste manifesto afirmava que «existem ocasiões em que um rio só estabelece o seu curso natural através de uma situação de cheia. Do mesmo modo existem alturas em que para estabelecer um Estado Ideal, é necessário que parte do Estado seja eliminada. Depois deste fenómeno, uma nova luz emergirá.»
Uma afirmação um tanto radical mas que cada vez faz mais sentido. Quer parecer-me que são cada vez mais relevantes algumas medidas pombalinas. Gosto particularmente da «solução jesuíta» aplicada a toda a classe política nacional: todos enfiados num barquinho em direcção ao Atlântico, para de seguida ser afundado ao largo. Era remédio santo. E talvez ficássemos mais próximos do Estado Ideal.

sexta-feira, junho 03, 2005

A Razão dos Índices de Leitura

Leitura
Até ter este blog acreditei piamente que os portugueses liam pouco. Na realidade nunca questionei os relatórios existentes sobre os índices de leitura nacionais. Estes estudos estão, obviamente, enviezados.
Isso dos portugueses serem os europeus que menos livros e jornais lêem é uma verdadeira intrujice. Os portugueses são os que menos compram livros e jornais, é um facto (e pelo andar da telenovela cada vez têm menos dinheiro para o fazer), mas isso não significa que não os leiam.
A bela da verdade é que os portugueses têm um dos maiores índices de leitura do mundo. Damos um baile assombroso a todos os povos alfabetizados no que toca a ler, e para mal da nossa reputação de povo iliterado e embrutecido, não temos estudos decentes que provem o contrário. A culpa não é nossa, mas das empresas de research que pululam alegremente neste país: esses incompetentes anestesiados por uma miopia que os impede de olhar para além dos números, e que acabam erradamente por cruzar índices de leitura com frequência de compra de publicações.
A verdade, meus amigos, descobri-a eu ao observar os indíces e tempos de leitura deste modesto blog. Na realidade os portugueses têm uma capacidade sobre-humana para a leitura: lêem tão rápido que enganam todas as estatísticas. O homem que vocês vêem na banca de jornais a pegar num jornal e a desfolhá-lo rapidamente para logo de seguida o voltar a arrumar no molho de jornais NÂO ESTÁ A LER AS GORDAS – está a ler todo o jornal a uma velocidade tal, que não é visível a olho nú. Naturalmente que não o vai comprar depois de o ler, e volta a arrumá-lo. Aqueles bandos de indivíduos que povoam qualquer loja FNAC deste país, sem fazer uma única compra, estão na realidade a ler inúmeras prateleiras de livros, em tempo absolutamente impensável. Façam o teste: peguem numa camera de filmar e apontem para um destes mamíferos aparentemente a ler desinteressadamente uma página do livro que é destaque do dia. Depois visionem a filmagem reduzindo substancialmente o número de imagens por segundo. Verão que esse indivíduo está ali na realidade a ler livros inteiros a uma velocidade alucinante .
Como é que foi que eu descobri isto? perguntarão vocês. Olhando para o vosso perfil de leitura neste blog! responderei eu. Graças a vocês foi esclarecida toda esta questão, pelo que só me resta agradecer-vos.
Reparem no seguinte: os meus posts contêm em média 330 carateres; segundo o sitemeter o tempo de leitura de cada post neste blog é de 120 segundos; isto significa que vocês lêem a uma velocidade de 3 caracteres por segundo (seus grandes alucinados!). Não admira que não sejam detectados nas sondagens...

quinta-feira, junho 02, 2005

A Razão da Compensação

compensacao
O efeito borboleta é uma teoria romântica mas interessante. Afirma que o bater de asas de uma borboleta num ponto do planeta causa um tsunami no outro lado do planeta. Causa e consequência.
As religiões ocidentais também abordam esta questão com frequência, postulando que toda a acção tem uma consequência, benéfica ou não, dependendo da natureza ética dessa acção. Isto significa que se fôrmos mauzinhos em determinada circunstância, acabamos por receber de volta a paga da nossa maldade. Os anglo-saxónicos expressam isto de uma forma muito simples, na frase “what goes around comes around” – uma espécie de boomerang ético, passível de nos acertar em cheio na tromba quando nos portamos bem, ou quando nos portamos mal. A sabedoria popular também contém uma expressão que se aplica: “cá se fazem cá se pagam” (uma derivada simplista da visão cristã do sistema de admissão das alminhas no céu ou no inferno).
Eu não gosto da designação “efeito borboleta”: remete-me sempre para um universo de paneleiragem inconsequente, fruto de estados de alcoolémia em bares de reputação totalmente duvidosa. Prefiro chamá-la de Lei da Compensação.
Portugal é terreno fértil para a Lei da Compensação. Senão vejamos:
- O Governo é incompetente e mentiroso e em compensação nós pagamos mais impostos.
- Os funcionários públicos são umas aventesmas catatónicas e em compensação os privados têm que trabalhar a dobrar.
- Os portugueses têm o défice mais alto da Europa mas em compensação ninguém tem umas praias melhores que as nossas.
- A produtividade das empresas portuguesas é algo que inspirava um episódio da twilight zone mas em compensação os empresários portugueses gostam de bujardar formas de aumentar a produtividade do país.
- O desemprego vai continuar a aumentar nos próximos dois anos mas em compensação mais gente terá tempo livre para usufruir do tempo solarengo que nos caracteriza.
Perante tanta compensação é de estranhar que sejamos um dos povos mais descompensados do mundo, a julgar pela quantidade de anti-depressivos que mandamos para o bucho diariamente.

quarta-feira, junho 01, 2005

A Razão Fronteiriça

fronteirica

Em Paris e nos seus arredores vivem 15 milhões de pessoas: um Portugal e meio numa única cidade. Somos pequeninos, é um facto (embora ocupemos muito espaço) No entanto, embora pequenos, a frase «small is beautifull» não se aplica à nossa realidade. Na verdade, quando aplicada a nós, poderíamos dizer que «small is painfull». Esta moínha constante de ser português começa a enervar-me de sobremaneira. Daí que me tenha lembrado de uma solução rápida para solucionar a crise e o déficit.
Uma vez que o Estado quer que sejam os cidadãos portugueses a pagar pela sua incompetência e ineficiência, sugiro que uma destas noites, quem não trabalhe para o Estado, faça as suas malinhas e atravesse a fronteira. Ficariam aqui os governantes e os funcionários públicos. Os restantes 8 milhões de portugueses iriam viver para outro país da Europa. Como existem 22 países da CE em melhor situação que nós, a dificuldade seria escolher.
A partir dessa noite Portugal assumiria aquilo que na realidade é: um país de disfunção pública.
Quem alinhar ponha a mão no ar.

terça-feira, maio 31, 2005

A Razão Presidencial

presidencial

Defendo firmemente que o Presidente da República deve ter uma função reguladora sobre a acção do Governo, para evitar excessos e absurdos políticos. Por isso não me chateei por aí além com o facto deste ter despedido o desgoverno dos santanetes. Achei prepotente e tendencioso, mas os gajos andavam a pedi-las. A coisa era um verdadeiro desastre.
Pelas mesmas razões acho que o Presidente deveria neste momento voltar a intervir, despedindo os socráticos. Se um tipo ganha as eleições porque no seu programa de governo estão descritos alguns pressupostos, e ao fim de dois meses decide fazer exactamente o contrário do que prometeu, é porque é um javardolas mentiroso, e merece ir de charola rapidamente. E onde está agora o Presidente? Não devia ele agir em defesa do seu povo? Ou vai continuar tendencioso, embora pouco prepotente neste caso? Esta pergunta é mera retórica. Eu conheço a bem resposta. Por isso mesmo é que defendo firmemente que o Presidente, para além de ter uma acção reguladora, deveria ser visitado vitaliciamente por uma tribo de somalis. Devidamente untadinhos, pois claro.

segunda-feira, maio 30, 2005

A Razão do Divórcio

divorcio

Se quando casamos juramos «até que a morte nos separe» e depois nos divorciamos, significará isto que metade da população portuguesa está morta? Será que isto resolve o problema da segurança social? É que não faz sentido nenhum descontar para um defunto...

sexta-feira, maio 27, 2005

Razões Lusas

lusas
O puto era maluco e tinha a mania das grandezas. A culpa não era dele: deram-lhe um reino para brincar aos 3 anos e meio, estavam mesmo a pedir o que viria a acontecer. Não é que eu duvide que um tipo com 3 anos e meio tenha capacidade para liderar um país – o Sócrates tem a idade mental de dois anos e está à frente do Governo (a culpa não é dele, ninguém tem culpa de ser eleito por um bando de papalvos). Mas estou a desviar-me do que interessa:
O puto era maluco e tinha a mania das grandezas. Mandava na telenovela mexicana desde tenra idade e nutria uma obsessão invulgar pelo Norte de África (tinha sido por ali que em tempos idos tinham chegado os somalis que o sodomizaram repetidamente aquando do seu 13º aniversário). Nunca se percebeu se o gajo tinha gostado ou não. Aquela obsessão não deixava transparecer se era um desejo de vingança, se era saudade daqueles efebos viris. Mas também nunca ninguém perdeu muito tempo a pensar nisso.
A obsessão foi crescendo com a idade e, aos 20 anos decide fazer a sua primeira expedição ao Norte de África tendo desembarcado, com meia dúzia de combatentes em Ceuta encarando a invasão numa perspectiva de desporto radical. Os árabes retiraram-se rapidamente pensando que aquele meia dúzia de malucos não se aventurariam assim, se não tivessem as costas quentes. Sem ninguém para andar à porrada o puto maluco dirigiu-se para Tânger, onde também ali os árabes pensaram que se tratava de um primeiro grupo de um extenso exército invasor, bazando de seguida.
O puto maluco chateou-se com aquilo tudo, queria andar à porrada e não havia ninguém em quem bater. Então decidiu voltar à telenovela mexicana, e recrutar um exército maior para andar à porrada em Alcácer Quibir.
4 anos e 18.000 homens depois ali estava ele, novamente em Tânger, de peito feito para dar cabo daquela merda toda. A 4 de Agosto, em Alcácer Quibir, o puto maluco e o grupo de 18.000 babacas que o seguia foi exemplarmente dizimado em apenas um dia, inspirando dois mitos nacionais: o «Sebastianismo», que consiste em não fazer absolutamente nada e esperar que as coisas se resolvam per si, surgidas no meio do nevoeiro; e a «Morte na Praia» cujos exemplos mais recentes podemos encontrar nas finais do Euro 2004 e na Taça Uefa 2005.
Haja nevoeiro, porque pelo menos assim não se vê o que aí vem à frente (nem atrás).

quinta-feira, maio 26, 2005

A Razão dos Treinadores de Bancada

treinadores

Em Portugal há uma mania de mandar uns bitates inconsequentes sobre tudo e mais alguma, mesmo que não se perceba um chavelho do que se está a dizer. É o chamado Treino de Bancada.
Os treinadores de bancada estão normalmente associados ao fenómeno futebolístico, mas esse é o seu nível mais básico. Encontramos treinadores de bancada em todas as áreas: no desporto, nos negócios, nas nossas vidas pessoais, e ultimamente até no Governo eles aparecem a dar os seus bitates de especialistas em inconsequência javarda.
O que me está a deixar preocupado é que, depois do meu post de ontem, comecei a ver os empresários portugueses armados em treinadores de bancada da actuação do Governo quanto a esta questão do défice. Todos acham que, por serem empresários, têm competência para mandar os bitates que lhes apetecer para ensinarem aos rapazes do Executivo (nome enganoso que sugere algum tipo de acção, que nunca chega a acontecer) como se gere o país. Mas mais grave que isso é que estas alimárias gestoras andam a dizer que o melhor mesmo é aumentar os impostos. Querem lá ver que os nabos são mais do que eu pensava? Eu se fosse ao governo fazia uma inspecção económica às empresas desses treinadores de bancada – vai-se a ver e têm défices muito maiores que o do Estado. A julgar pela qualidade dos bitates estamos totalmente entregues à bicharada. Emigrar, meus amigos, é sempre uma opção.

quarta-feira, maio 25, 2005

A Razão do Défice

defice

Aí está ele outra vez como assunto do dia. Tão recorrente que já chateia. Sabemos que o período de graça de um governo em Portugal termina quando se puxa o assunto do défice.
O défice só é um assunto recorrente desta telenovela mexicana porque o Estado, essa abstracção incómoda, não tem a mínima ideia do que é gerir, nem sequer uma casa de meninas.
A resposta automática de qualquer energúmeno governamental, independentemente da sua côr política, para a solução do défice é invariavelmente a mesma: aumente-se os impostos! Esta postura só demonstra o nível intelectual e a preparação técnica das alimárias que insistimos em colocar no poder.
Imaginem que aqueles rapazes que agora se dizem Governo eram a equipa de gestão de uma empresa chamada Portugal. Imaginem que essa empresa apresentava um prejuízo de 7% no final do ano. Para que o boneco seja mais fácil de entender imaginem que essa empresa chamada Portugal produzia um único bem: nabos. O negócio dos nabos não ia nada bem e o prejuízo era certinho se não se fizesse nada. Qual era a solução para acabar com o prejuízo? Segundo a equipa de gestão o problema resolvia-se aumentando o preço dos nabos. Inteligente não? Fazer os consumidores pagarem pela ineficiência daquela empresa de nabos.
Não era mais lógico olharem para dentro da empresa e cortarem custos fixos? Seria o que qualquer gestor mediano faria. Reduzia pessoal, optimizava o processo de produção eliminando desperdícios. Ou seja, arrumava a sua própria casa e não ia tentar sacar o que pudesse ao consumidor só para tapar um buraco, fruto da sua incapacidade de gestão.
Enquanto não tivermos uns nabos capazes, vamos continuar a ouvir falar deste défice, e mais: vamos pagar para que um conjunto de babacas continue a enterrar o país. Assim a modos que impunemente. Voltei a ter assunto.

segunda-feira, maio 23, 2005

A Razão da Falta de Assunto

faltadeassunto
Tenho pouco jeito para a chamada conversa mole, e uma verdadeira admiração por aquelas pessoas que conseguem manter uma conversa sem dizer absolutamente nada de relevante ou de interessante. Só para encher chouriços. Isto lembra-me que costumo ser bastante telegráfico ao telefone, digo o essencial, não por estar preocupado com o tarifário (se bem que há por aí cada tarifário…) mas porque não considero o telefone um instrumento social. O telefone é algo que uso com uma perspectiva perfeitamente funcional com o objectivo de dizer algo de muito concreto, e rapidamente. A conversa, essa é para se ter olhos nos olhos. Não consigo conversar decentemente com alguém que não consigo olhar direitinho nos olhos. O que me leva aquela malta que tem imensa dificuldade em fitar os olhos do seu interlocutor: pode ser uma manifestação de timidez, mas não deixa de enervar ver aqueles olhos a passear por todo o lado só para evitarem os meus. E os que falam sem olhar nos olhos e a rabiscar uma folha de papel parecendo que o raciocínio se desenvolve à proporção da quantidade de tinta que vai jorrando para o papel. Esses ainda me chateiam mais, porque me distraem, porque mesmo não querendo a minha atenção se vai centrando nos rabiscos que eles vão fazendo e o seu discurso começa a desaparecer em fade out na minha cabeça, ao ponto de ficar tudo em silêncio, só com o ruído do rabisco.
Tudo isto para dizer que ando com falta de assunto, e que este post já está atestadinho de conversa mole.

quinta-feira, maio 19, 2005

As Razões da Depressão Nacional

depressaonacional
Somos o país que mais anti-depressivos consome per capita. Temos um dos piores índices de analfabetismo da Europa. Temos um dos índices de produtividade mais baixo da Europa. Temos um dos índices mais altos de corrupção do Mundo. Tivemos 3 governos diferentes em dois anos. Temos um défice estupidamente alto. Temos uma taxa rídicula de crescimento económico. A nossa taxa de desemprego continua a aumentar de mês para mês. Temos uma das taxas mais baixas da Europa na frequência e conclusão de cursos universitários. Temos os gestores mais improdutivos da Europa. Temos o escândalo da Casa Pia. Temos o escândalo do Apito Dourado. Temos o escândalo de Felgueiras. Temos o escândalo do Nobre Guedes. Temos um número assustador de falências empresariais. Somos o 23º país dos 25 da União Europeia. Temos o índice de obesidade infantil mais alto da Europa. Perdemos em casa a final do Europeu de Futebol para os gregos. Perdemos a final do Mundial de Futebol de Praia no Brasil para os franceses. Perdemos em casa a final da UEFA para os russos. O nosso sector primário é inexistente. O nosso sector secundário é pouco concorrencial. O nosso sector terciário é ineficiente. A nossa média de salários está muito abaixo da média europeia. Os nossos impostos estão muito acima da média europeia.
Até uma lontra ficaria deprimida com isto.

quarta-feira, maio 18, 2005

A Razão da Vaidade

vaidade
Quando Narciso morreu, o seu lago de prazer passou de uma taça de águas doces para um cálice de lágrimas salgadas, e as Ninfas dos Montes lamentaram-se, enquanto atravessavam os bosques, no seu dever de cantar ao lago e reconfortá-lo.
E quando elas viram que o lago tinha mudado de uma taça de águas doces para um cálice de lágrimas salgadas, soltaram as tranças verdes dos seus cabelos e choraram para o lago, dizendo-lhe: «Não estamos admiradas que mergulhes dessa maneira no luto por Narciso, tão belo ele era.»
«Mas o Narciso era belo?», perguntou o lago.
«Quem o poderá saber melhor do que tu?», responderam as Ninfas. «Por nós passou sempre ele, mas foi por ti que procurou e se deitou nas tuas margens, e olhou para ti. E foi no espelho das tuas águas que reflectiu a sua própria beleza».
E o lago respondeu: «Mas eu amei Narciso porque enquanto ele se alongava sobre as minhas margens e olhava para mim, em baixo, no espelho dos seus olhos, eu vi sempre a minha beleza reflectida.»
Oscar Wilde

terça-feira, maio 17, 2005

A Razão do Trabalho Menor

trabalhomenor
Há uns tempos tive um colega moçambicano a estagiar durante algumas semanas comigo. Era um tipo novo, e era a primeira vez que tinha viajado para fora de Moçambique. No seu último dia de estágio confessou-me uma coisa deliciosa: a coisa que o impressionou mais em Portugal, logo à chegada, foi ver brancos a fazer “trabalhos menores”, como descarregar o lixo, varrer as ruas,, ou simplesmente servir à mesa. No seu país estes são trabalhos em que os brancos não tocam, é impensável ver um branco servir à mesa num restaurante de Maputo. Existem certos trabalhos que só servem para a comunidade negra. Mais tarde tive a oportunidade de constatar isto em Maputo e de me lembrar que, em Portugal, um dos países mais pobres da Europa, gostamos de nos armar ao fino e de preferir engrossar a lista de desempregados a fazer trabalhos considerados, vá-se lá saber porquê, menores.
Gostaria que alguém me explicasse porque raio é que um tipo que retira o lixo diariamente do nosso caixote de lixo, ou seja, um tipo que limpa a nossa merda, é um “trabalhador menor”? – conheço muitos administradores de empresas que não só não limpam merda nenhuma, como ainda fazem mais merda, e são considerados quadros superiores (?). Tão finos que nós somos…

Nota: Ainda no que respeita aos técnicos de recolha de lixo, já repararam que estes agora são todos loiros, de olho azul, e licenciados em “trabalhos maiores”?

segunda-feira, maio 16, 2005

A Razão da Eurovisão

eurovisao

O Festival da Eurovisão é prova cabal que Portugal é um país de masoquistas persistentes a raiar a estupidez. Não há história neste Festival de um país que tenha sido tão mal pontuado em tantas edições e que ainda assim insista em aparecer. Os organizadores do Festival da Eurovisão estão desesperados: já tentaram tudo para desmotivar a participação portuguesa e a malta continua a aparecer – tipo aqueles convidados que tornam qualquer festa numa verdadeira chatice, mas que já aparecem há tanto tempo que ninguém tem coragem de lhes fechar a porta na cara. Ao longo dos anos Portugal tem vindo, com poucas excepções, a ser ostensivamente relegado para os últimos lugares – qualquer país teria percebido que aquilo devia querer dizer alguma coisa, que não valia a pena insistir, que os senhores não nos queriam lá. Mas não. Os portugueses ainda não perceberam e, ao fim de mais de 40 anos de participações falhadas e constrangedoras, teimam a aparecer com as suas roupinhas atestadas de lantejoulas, a quererem parecer muito moderninhos.
Se considerarmos o Festival da Eurovisão como um veículo difusor da imagem de Portugal na Europa, então está explicado porque é que o número de turistas tem baixado assustadoramente de ano para ano.

sexta-feira, maio 13, 2005

A Razão da Instalação

200154687-011

Este início de um novo milénio está a ser marcado por uma verdadeira crise de criatividade e imaginação. O resultado está à vista: a televisão torna-se um periscópio para a vida privada de uma série de gente; a publicidade anda pelas ruas da amargura, tão morninha e sem sal; o marketing das empresas deixou de ter qualquer estratégia que não seja a de dar descontos a torto e a direito; o mercado empresarial não arranja soluções para ganhar competitividade; as quarentonas encalhadas desataram a escrever livros sobre a vida sentimental das trintonas em vias de encalhanço (que vendem que nem paposecos); mas onde a coisa me enerva de sobremaneira é no domínio da arte.
A arte, que vive dessa capacidade humana de se autorecriar e autodesafiar, está uma verdadeira bosta intercontinental. Isto porque toda a gente acha que é capaz de produzir arte: um bocadinho à semelhança das quarentonas encalhadas que acham que sabem escrever livros só porque há milhares de atrasados mentais que são capazes de ler tudo o que se lhes põe à frente.
É neste contexto que surge um fenomenozinho de moda, chamado “a instalação”. A instalação artística está para a exposição de arte, como a bifana atascada em óleo está para os lombinhos de foie gras regados com Porto. Para fazer uma instalação é necessária uma sala mais ou menos ampla, de preferência num sítio de reputação cultural irreprimível, e um monte de tralha que é atirada ao acaso para o espaço que existe disponível: atire-se, por exemplo, um monte de bambus para um canto da sala, polvilhe-se com açucar mascavado e dê-se o título abstracto de “a infringibilidade secular” e pronto: tem-se uma instalação. Faça-se o mesmo com o resto de feijoada que ficou no fundo da panela de pressão da avó, chama-se de “gerontes esquecidos” et voilá, outra instalação. E depois é ver o artista (eu chamo-os de instaladores) de peito feito e a achar que aquela merda vale grande coisa; é ver a malta a pagar para ver aqueles estreptococos sublimados e a achar que foi enganada à grande e à francesa, mas a disfarçar para não parecer que não têm estatura cultural para entender uma coisa daquelas.
Uma vez que a instalação está ao alcance de todos, numa espécie de javardoso “do it yourself” artístico-bacoco, lembrei-me de fazer uma instalação diferente. Uma instalação viva, onde em vez de objectos e pedaços de porcaria, usaria pessoas à séria. Pensei em chamá-la de “Somalia Retumbante”: consistiria num grupo alargado desses instaladores clarividentes, nus e dispostos ao longo de uma sala, debruçados sobre vários tipos de mesas (para dar uma certa diversificação à coisa). Cada um dos instaladores seria paulatinamente sodomizado por uma tribo que efebos somalis devidamente untadinhos, que se revezariam obedientemente de hora a hora. A instalação concluiria todos os dias com os instaladores a serem transportados de cadeira de rodas para fora do recinto, agarrados a uma algália. Começo a achar que tenho jeito para isto…é preocupante...

quinta-feira, maio 12, 2005

Razões Bonificadas

bonificadas

Uma vez que gostamos de importar “boas práticas” do estrangeiro porque parecem sempre ser mais finas, só espero que ninguém no Ministério de Educação se lembre de aplicar isto:
No Reino Unido decidiram criar regras de compensação para os exames de acesso à Universidade, no sentido de favorecer os alunos que tenham sofrido alguma experiência traumática no dia do exame. Se um familiar do aluno tiver falecido no dia do exame, este terá uma bonificação até 5% na nota final (varia de acordo com o grau de proximidade familiar – um pai vale definitivamente mais que um tio, por exemplo). Se morrer a mascote (um hamster, por exemplo) tem 2% de bonificação. Se o aluno assistir a evento traumático tem 3% de bonificação. Se o aluno partir uma perna ou sofrer um ataque de asma tem 3% de bonificação. Uma alergia ao polén vale 2% de bonificação, e uma vulgar dôr de cabeça vale 1%.
Estou a imaginar o que a criatividade de um aluno tuga faria com este tipo de regras: Joãozinho começava a manhã antes do exame a dizimar toda a sua família (5% para o pai, 5% para a mãe, 5% para o irmão e 3% para a avózinha), estrangulava energicamente o caniche lá de casa (mais 2%). Implodia o seu prédio e assistia aquilo tudo a desmoronar-se com 20 famílias lá dentro (mais 3%). Rachava a cabeça com um tijolo (mais 3%), ficava com uma imensa enxaqueca à conta disso (mais 1%).
Depois ia fazer o exame com uma bonificação de 27% garantindo assim sua entrada na universidade. Em famílias numerosas a taxa de admissão na universidade tenderia a ser maior…

quarta-feira, maio 11, 2005

Razões Cabotinas

cabotinas
O Estado português (essa abstracção incómoda) tem o triste hábito de implementar as medidas europeias primeiro que toda a gente, num provinciano exercício de mostrar que é tão ou mais europeu que os outros. Até parece que se formos os primeiros a implementar as coisas de uma forma leonina acabamos por ser considerados um país desenvolvido, por osmose. Na boa tradição de cabotinismo, nem perdemos um minuto a pensar se a aplicação das medidas europeias é válida no nosso contexto ou não. E como não pensamos nisso, nem sequer nos passa pela cabeça constestá-las em sede própria, na altura e no local onde estas são decididas. A atitude parece ser “os senhores lá na Europa é que sabem, e se eles decidiram assim é porque é para fazer assim”.
Depois admiram-se que a imagem dos portugueses teime em associar-se à da mulher a dias ou da porteira… “Ò dona Maria, hoje vá dar uma limpeza em profundidade nos tapetes da sala – xim xenhor!”

terça-feira, maio 10, 2005

A Razão das Obras

construtorcivil

O construtor civil e toda a turba que o precede (pedreiros, pintores, canalizadores e electricistas) são o paradigma da nossa nacionalidade. Não há classe de gente que represente tão bem os portugueses como esta turminha bacoca. Ouvi de um belga uma vez que “só se percebe a essência do povo português depois de se ler Eça e de se fazer obras em casa”. Só lhe posso dar razão, apesar de os belgas também não serem flores que se cheirem...
Uma obra em Portugal é sempre a mesma coisa: é obra. No início é só facilidades e orçamentos baratos, no meio é só facilidades e orçamentos acrescidos, e no fim (se é que podemos usar esta palavra) é sempre um “do mal o menos” e um custo proibitivo.
O que determina o final de uma obra em Portugal não é, curiosamente, a conclusão do último acabamento. Não. Normalmente uma obra é dada como acabada quando se acaba o dinheiro ou a paciência de quem a paga. E portanto, tal como o próprio país, tudo fica inacabado e atabalhoadamente concluído. Uma espécie de Santana Lopismo vigente que contamina todo este sector.
O construtor civil e a sua turminha só percebem uma linguagem: desenvolveram desde cedo um sentimento masoquista que só lhes permite funcionar quando levam pontapés na boca. Tratá-los com profissionalismo é contribuir para que a obra dure 4 vezes mais tempo. Aplicando uns pontapés na boca aqui e ali a obra consegue concluir-se no dobro do tempo.
Sabendo disto, quando decidi fazer obras em casa, segui os conselhos de um amigo alemão e defini com o meu construtor civil um contrato penalizador. Ele definia um prazo para a obra e por cada dia que ele se atrasasse pagar-me-ia uma determinada quantia. Medida Santa: já vou no terceiro construtor, o dinheiro das penalizações já deu para fazer uma piscina que não estava inicialmente prevista, e pelos vistos vou passar umas férias à borla no Brasil à conta do gajo que está lá agora. Recomendo-vos. O Brasil, não as obras.

segunda-feira, maio 09, 2005

A Razão do Estado

estado
O Estado é uma abstracção incómoda. Quando falamos dos problemas estruturais do país, e de outros, acabamos sempre por chegar à conclusão de que a culpa é do “Estado”. Mas o que é isso o Estado? Se perguntarmos a um político ele vai dizer-nos que o Estado somos todos nós. Todos nós? Mas querem tornar-me parte desse compadrio de incompetentes? Eu não sou Estado coisíssima nenhuma! E vamos lá desmistificar a coisa de uma vez por todas: se o Estado é o organismo regulador da sociedade, então não é nada mais do que o conjunto de indivíduos que compõem o Governo, e dos funcionários públicos das instituíçoes que executam aquilo que lhes mandam. Esses gajos é que são o Estado: um conjunto de gajos que tenta encher a mula em 4 anos, e uma turba de gajos cujo princípio de vida é saltar de letra em letra fazendo o menos possível no maior espaço tempo possível (nunca tiveram a sensação de que tudo se passa em câmara lenta dentro de uma repartição pública? Nunca vos apeteceu fazer fast forward? Eu já, mas receei que eles se magoassem nos cantos das secretárias).
O Estado é portanto composto por estas duas forças antagónicas: uns bandalhos que querem mamar tudo rapidamente antes que se acabe o mandato; e uns mongos com um conceito de rapidez que ombreia com a lesma, o caracol, e a tartaruga alaúde. Conclusão: andamos sempre em Estado de Sítio à conta destes javardolas.

sexta-feira, maio 06, 2005

A Razão do Jet 6

jet6
Todos os países têm o seu jet set. O jet set é uma espécie de nova nobreza. O povo gosta de os ver, gosta de saber das suas vidas pseudo-glamorosas, de saber o que vestem, onde vão, com quem vão, etc. Nessa Europa fora o jet set é entendido como criador de tendências e de modas. Em Portugal também. Com uma pequena nuance: são jet 6. Isso coloca-os em desvantagem quando comparados com os seus colegas europeus. Mas não interessa nada desde que vendam revistas e lhes paguem para andar em festas.
Portugal é um país pobrezinho e portanto tem o jet set que merece: feios, porcos e estúpidos, parecendo saídos de um filme de Felini. Para se pertencer ao jet set nacional não são precisas grandes habilitações: o ensino primário é suficiente. Convém no entanto aparecer na televisão nacional, o que é escrupulosamente cumprido pelos jet seises tugas. Mas para além disso convém ser fotografado em festas que não interessam a ninguém a fazer pendant com alguém endinheirado.
O segredo do sucesso de um jet 6 nacional é uma receita muito básica: quem consiga grangear fama a desbastar tribos inteiras de somalis ultrapassa a fase do estágio; depois abocanha-se um falo famoso num programa televisivo (ou num Jaguar qualquer), estica-se a fronha com botox, atesta-se o lábio superior com silicone, fala-se nisso tudo numa revista côr-de-rosa e já está: é-se do jet 6.
Ter um QI acima da média é prejudicial – é bem dizerem-se umas alarvidades sem sentido para que o povo se consiga identificar com eles. Mas acima de tudo o que um membro do jet 6 tem que ter é uma imensa vontade de dizer, sempre com a boquinha em “U”, coisas inteligentes do tipo “estar vivo é o contrário de estar morto” (frase emblemática dessa rainha bacoca do jet 6, Lili Caneças).

quinta-feira, maio 05, 2005

A Razão do Queixume

queixa
Na maior parte dos países que conheço o acto de reclamar é algo assertivo. Nesses países as pessoas reclamam e é suposto acontecer alguma coisa. Existem até gabinetes especializados na recepção e gestão das reclamações. Ali, a reclamação é entendida como a denúncia de alguma coisa que não está bem com o intuito de a corrigir. O próprio acto de fazer a reclamação tem uma designação formal, chama-se “apresentar uma queixa” ou “apresentar uma reclamação”.
Em Portugal a reclamação não existe. Os portugueses têm, no entanto, um sucedâneo pobre da reclamação, vulgarmente designado por queixume.
O queixume é uma queixa para a qual não se exige nenhuma solução. É a queixa inconsequente e sem solução à vista. E portanto o objectivo do queixume é podermo-nos queixar e reclamar conformadamente sabendo de antemão que nada irá resultar desse acto. A reclamação está para a dor de cabeça tal como o queixume está para a moínha irritante que não tem intensidade suficiente para nos levar a tomar um comprimido, mas que ainda assim nos vai chateando.
A reclamação é feita de peito cheio, voz grossa, e murro na mesa. O queixume é feito a pedir desculpa, de forma balbuciante e com pézinhos de lã.
Sempre acreditei que o desenvolvimento de um povo é largamente influenciado pela capacidade que esse povo demonstra em autocorrigir-se, e autoaperfeiçoar aspectos que considere merecedores de correcção. A reclamação tem essa virtude de mudar o status quo de um povo. O queixume não. É uma manifestação de impotência e falta de iniciativa. É o “lusitanian way of life” amplificado por duas gerações que não estavam autorizadas a abrir a boca.

quarta-feira, maio 04, 2005

A Razão dos Gambuzinos

gambuzino
A minha primeira caçada aos gambuzinos aconteceu pelos tempos em que eu andava ainda na escola. Convidaram-me e explicaram-me. Até me ofereceram o saco conveniente e necessário.
Excitado, preparei-me em casa. Treinei devidamente, emboscado atrás da porta, a tentar caçar experimentalmente o meu pai, que subia a escada. Pareceu-me que não gostou. Os pais, não é...?
Na noite da caçada, lá fomos. Eu entusiasmado, com a lanterna e o saco apropriado. E também a moca que estava atrás da porta, que à noite há ladrões, foi a justificação que me veio à cabeça no momento. Todos concordaram.
Mas não me venham dizer que não há gambuzinos. Apanhei três. Um deles parece-me que se chamava António André e ficou coxo. Ainda está, creio. Uma fractura excelente, mesmo pela rótula.
Tudo me leva a crer que a caça aos gambuzinos é realmente importante. Temos que apanhá-los. Temos mesmo. Seja lá como for.

terça-feira, maio 03, 2005

A Razão do Stress

stress
Há 230.000 anos atrás habitou neste planeta uma espécie hominídea designada por neanderthal. Pelo nome poderia deduzir-se que era alemão, mas não (se bem que quando olho para os alemães me vem à cabeça o neanderthal), só se chama assim porque o primeiro fóssil deste espécime foi encontrado na região de Neanderthal, perto de Dusseldorf. Os Neanderthais tinham uma vida lixada: vestiam-se com peles de animais, viviam em condições precárias, não tinham canalização, as hipóteses de carreira eram diminutas (principalmente depois de terem chegado os Cromagnons) mas ainda assim os neanderthais não tinham stress. Não existem registos de um neanderthal stressado.
Viriato, um pastor dos Montes Hermínios, que ficou conhecido entre as legiões romanas como o Che Guevara lusitano, fez a vida negra ao Império Romano utilizando um tipo de combate que na altura se chamava “toca e foge” (hoje chama-se “guerrilha”) não se conhecendo quaisquer sintomas de stress. É certo que se enervava de vez em quando, mas nada que uns murros no tampo da mesa não resolvessem.
Afonso Henriques, conhecido por arrear na mãe à grande e à francesa (na bela tradição borgonhesa herdada de seu pai) também não tinha stress. Ao mínimo sintoma de ansiedade montava no seu cavalo e ia fundar. Fundar, naquele tempo, era sinónimo de andar à porrada com os mouros.
O stress é um sintoma que parece ausente da nossa história. Inexplicavelmente. Seria de supôr que embarcar numa casquinha de noz em direcção ao nada durante meses criasse stress; ou defender um império numa altura em que o total da população não excedia o milhão e meio de pessoas: os poucos gajos que ficavam a defender os postos avançados em África, na Índia ou no Brasil contra os ataques dos holandeses, dos espanhóis ou dos corsários ingleses, deveriam ter um bocadinho de stress. Mas não. Stress foi coisa de que nunca se ouviu falar. Por tudo isto é que fico surpreendido que hoje em dia se fique com stress à mínima contrariedade: perdi o autocarro – stress; não consegui apresentar o trabalho a horas – stress; tenho o telefone a tocar de minuto a minuto – stress; tenho uma turma de meninos irrequietos – stress; apetece-me fumar um cigarro no avião – stress; mas que paneleirice é esta? Está tudo com falta de problemas? Querem lá ver que tenho que me stressar?

segunda-feira, maio 02, 2005

A Razão do Efeito Pigmaleão

Labirinto

Há uns anos atrás, numa universidade dos Estados Unidos, testou-se a influência do Efeito Pigmaleão no desenvolvimento dos indivíduos. A cada um dos estudantes que participou no estudo foi dado um rato de laboratório e um labirinto. A ideia era fazer com que os ratos aprendessem a sair do labirinto.
A metade dos estudantes foi dito que o seu rato era estúpido e que teriam que ter paciência, porque provavelmente este iria levar algum tempo até aprender onde é que era a saída. A outra metade dos estudantes foi dito o contrário: estavam na posse de ratos extremamente inteligentes que muito provavelmente iriam achar num ápice a saída do labirinto. Na realidade não havia diferenças entre os ratos, eram todos estúpidos como só um rato pode ser. Mas os estudantes não o sabiam.
Curiosamente os ratos “inteligentes” descobriram rapidamente a saída e aprenderam facilmente o caminho a tomar dentro do labirinto. Os ratos “estúpidos” levaram muito mais tempo quer a descobrir, quer a aprender o caminho. A experiência foi um sucesso, estava provado o Efeito Pigmaleão.
Ora se não existiam diferenças entre os ratos porque é que os supostamente inteligentes foram de facto os mais inteligentes? Porque, segundo diz a teoria, as expectativas e a percepção que temos relativamente a determinadas coisas ou indivíduos, mudam a nossa maneira de nos relacionarmos no sentido de alinharmos a realidade com o modo como a vemos. O que aconteceu foi que os estudantes que tinham os ratos “inteligentes” falavam com eles, estimulavam-nos mais, recompensavam-no com mais frequência, e tinham muito mais paciência para os ensinar que os estudantes que ficaram com os ratos “estúpidos”: já estavam à espera que o rato fosse uma besta e portanto nem os tratavam bem, nem se esforçavam minimamente para lhes ensinar a saída.
Lembrei-me do Efeito Pigmaleão ao ler hoje uma notícia no jornal onde perguntavam aos portugueses quais as suas expectativas para os próximos 12 meses. Para além
daquelas bestas que não sabem e não respondem (9%), só 27% é que acreditam que a sua situação económica vai melhorar. A crise continua. E depois queixem-se…