quarta-feira, agosto 31, 2005

A Razão da Aparência

Afinal de contas, o «homem do piano» era falso. Uma fraude. Um vergonhoso embuste.
O rapaz confessou ser alemão (e não checo, como se pensava), não saber tocar piano (embora os médicos que o assistiram digam que faz lembrar a Maria João Pires), não está amnésico (serviu-se da sua experiência com doentes mentais para fazer a sua figura de urso) e não caiu acidentalmente ao mar (atirou-se a ele conscientemente porque estava deprimido com a vida homossexual que levava).
Neste momento o jovem está a caminho da sua terra natal na antiga Alemanha Oriental à espera que haja lá alguém para orientá-lo.
Num lampejo raro de solidariedade e ajuda humanitária, a Razão fez hoje deslocar para lá uma tribo de somalis que irá dar ao confuso rapazinho um novo sentido para a sua vida. E um novo sentar também, porque este só irá poder sentar-se de novo a um piano com a ajuda de uma câmara de ar meio cheia.
Esta história, e o aproveitamento que os media fizeram dela, fizeram-me pensar em quantos «homens do piano» não andarão por aí, por esse Portugal fora, alimentados pela javardice bacoca dos jornalistas.
Em Portugal o que não falta são «homens instrumento». Não se limitam apenas ao piano – temos «homens viola» como o Carlos Cruz, «homens violoncelo» como o Bibi, «homens baixo» como o Marques Mendes, «homens contrabaixo» como o Santana, «homens violino» com o Carrilho, «homens sem tuba» como o Sócrates, «homens trombone de varas» como o Soares…
Este país é uma verdadeira orquestra! Sem maestro nem partitura…

terça-feira, agosto 30, 2005

A Razão do Compromisso

compromisso
Não é fácil compreender os termos comprometido, descomprometido ou mesmo compromisso, mas o mais difícil ainda é aceitar.
A sociedade actual presta-se a relacionamentos onde por vezes espreita esse vocábulo que é capaz de provocar estragos numa coisa que pode, potencialmente, transformar-se em algo bom.
Quando a palavra compromisso bate ao de leve à porta da nossa realidade, um arrepio de pânico invade o corpo dos mais racionalistas e acaricia os mais emotivos.
Não há grande margem para dúvidas que as mulheres lhe são mais afectas, enquanto os homens, só quando encostados à parede assumem a relação. O esmagamento é a melhor forma de conseguir que o macho engula este sapo. Não é novidade para ninguém - e se for, o que raio é que andaram a fazer nos últimos tempos, são cegos ou quê – que uma relação começa com duas pessoas que gostam de conversar, sair juntas para tomar uns
cafés ou jantar e quando chega a parte do pequeno almoço, cai a sombra do fantasma do compromisso.
Começam as perguntas manhosas que na maior parte das vezes levam à pergunta fatal:
- Afinal o que é que nós temos?
Alerta vermelho, liguem já para a Protecção Civil, catástrofe à vista, ela fez a pergunta!
- Bem… gosto de estar contigo, sinto-me bem quando estou ao teu lado e acho que nos damos bem em todos os aspectos. Devíamos continuar assim.
Assim, sem magoar ninguém, manda-se a bola para canto e ninguém se chateia. Tomara que as coisas fossem assim tão simples.
É claro que as mulheres não desistem facilmente, e com requintes dignos de Maquiavel, voltam à carga, agora com o 7º de Cavalaria a ajudar, quando as coisas já parecem esquecidas.
Conversação pós-coito, na altura em que o homem, satisfeito, só pensa em descansar e diz sim a quase tudo:
- Sabes, tenho medo de te estar a magoar…
- Magoar?!
- Sim, magoar! Não sei o que queres desta relação e temo que te esteja a usar. Se calhar estás à espera de uma relação mais séria mas eu não me sinto preparada para assumir seja o que for.
- Não te preocupes, já te disse (e aqui o “já te disse” é muito importante) que temos uma espécie de empatia químico/intelectual e não me magoas, a não ser quando me arranhas as costas. Gosto de estar contigo, ponto final.
O racionalismo masculino é poderoso mas há formas de dar a volta à situação. Nenhuma mulher, com as hormonas no devido lugar, deixa passar isto em branco. Tanto bate na mesma tecla que o homem se vê obrigado pela consciência pesada a tomar uma decisão.
Conversação pré-coito em que as mulheres estão mais racionais e menos sensíveis:
- Olha, acho que devíamos reflectir um pouco naquilo que aqui temos.
- Queres acabar, é isso?!
- Não é isso que eu estou a dizer, não quero é que penses que só estou contigo pelo sexo fantástico. Não me tomes por aqueles tipos que só pensam com o apêndice!
- Mas eu não penso assim. Só acho que te posso magoar, afinal eu não sou assim. Não estou habituada a estas coisas, e como tal podes pensar que te estou a usar.
Neste momento ele pensa “mas eu gosto de ser usado!” mas não o diz, uma piada nesta altura podia estragar tudo.
- Tu não me usas, o máximo que pode acontecer é que nos estejamos a usar mutuamente.
Ao olhar para a cara dela, dá-lhe a fraqueza e, com a sensação de estar a dar um tiro no pé, diz:
- Acho que devíamos assumir qualquer coisa…

Um post de Miguel de Terceleiros em exclusivo para a Razão.

segunda-feira, agosto 29, 2005

A Razão da Selecção Natural

seleccaonatural
Um dos (muitos) fenómenos de Verão que me confunde, para além dos turistas que nos invadem, dos emigrantes que regressam, do despertar da música popular portuguesa – vulgo música pimba – e dos preços que sobem, são os homens de camisa aberta e de peito ao léu. Não basta que o Quim Barreiros lance um DVD e que tenha posters espalhados nas paredes de Lisboa?
O que será que passa com essas pessoas que assim que chega o verão, abrem a camisa e andam de peito ao léu? Se a imagem de Portugal (muitas vezes) não abona a nosso favor, com os homens que exportamos nas variadas frentes (política, alvernarias, hotelaria), com estes senhores a andarem na rua a exibirem orgulhosamente a barriga proeminente, as coisas só podem piorar. Não seria tão desesperante se os ditos senhores não fossem todos exemplos daquilo que eles imaginam ser a virilidade do verdadeiro macho latino.
Com a unhaca amarelinha, barriguita disforme, pelos de peito desgovernados enfeitados com o crucifixo (isto sem falar dos outros pelos que saem dos outros orifícios frontais). Mas o desesperante mesmo é vê-los a circular em todo o lado como machos dominantes em busca de presa. Acredito que tivessem melhor sorte se fossem jovens garbosos, de pelagem luzidia e boa dentição.
Caros senhores, as leis da natureza são básicas, ganha sempre o melhor exemplar.

Um post da Ana do 2º Esquerdo em exclusivo para a Razão.

domingo, agosto 28, 2005

A Razão Duvidosa

silenciosa
Se alvejarmos um mimo, deveremos usar silenciador?

sábado, agosto 27, 2005

A Razão Cocainómona

cocaina
A cocaína é a maneira que Deus tem de te dizer que andas a ganhar muito dinheiro.

sexta-feira, agosto 26, 2005

A Razão do Grau

grau
A recém eleita Miss Playboy Portugal foi entrevistada para a televisão (que emoção!) no fim de semana passado e quando lhe perguntaram o que tinha mudado na sua vida desde que foi eleita, a sua inteligente resposta foi: «A minha vida deu uma volta de 350 graus!»
Ok...


Temos uma tendência curiosa de atribuir graus às coisas, mesmo que não o façamos conscientemente. O grau mede a intensidade com que percepcionamos o mundo à nossa volta, fazendo parte de uma escala abstracta que usamos (não sei como, dada a nossa lusitana incapacidade genética para pensar no abstracto) para tomar todas as nossas decisões, desde as mais corriqueiras até às mais intrincadas.
Quando olhamos para os mamíferos que circulam à nossa volta sacamos da escala e atribuímo-lhes graus: gostamos muito de beltrano, gostamos assim assim de fulano, e não gostamos nada de sicrano.
A nossa paciência funciona em graus, e quando as coisas atingem um grau que consideramos inaceitável, salta-nos a tampa, às vezes a um grau violento. Outras vezes servimo-nos dos graus para mudarmos as nossas vidas – os mais radicais dão uma volta de 180 graus e mudam completamente de vida; outros, menos propensos a grandes rupturas fazem mudanças mais graduais, outros ainda fazem mudanças de 360 graus nas suas vidas e depois queixam-se que as coisas estão exactamente na mesma. Pudera... voltaram ao ponto de partida. Nisto de mudar de vida, pelo que me é dado observar, qualquer mudança inferior a 20 ou superior a 340 graus é de evitar: acabamos por ficar a enfrentar a mesma situação, mas ligeiramente virados para o lado, o que se torna ridículo. A não ser que estejam a pensar candidatar-se a Miss Playboy Portugal...

quinta-feira, agosto 25, 2005

A Razão Abstracta

abstracta
Os portugueses são um povo com uma elevada taxa de iliteracia numérica, segundo consta em relatórios da Comunidade Europeia. Não somos grande coisa a fazer contas, o que aliás não é novidade nenhuma: basta olhar para o estado do déficit e do Orçamento Geral do Estado, ano após ano. Mas um recente estudo publicado por um «Instituto da Inteligência» vem retirar toda e qualquer esperança que esta situação venha a mudar nas próximas gerações. Diz este reputado instituto que a habilidade para a Matemática explica-se por estruturas cerebrais e mentais, determinadas por factores genéticos e hereditários. Em suma, não estamos geneticamente preparados para fazer grandes esforços mentais, nem para pensar no abstracto. Talvez o melhor seja encomendar o próximo estudo ao «Instituto da Estupidez».
Não sendo um povo vocacionado para o pensamento abstracto, resta aos portugueses o pensamento concreto. Seremos então geneticamente vocacionados para aquilo que é concreto? Pela lógica, se não somos uma coisa deveríamos ser outra, mas a lógica é algo que pertence ao domínio da matemática que, como vimos, não é o nosso campeonato.
Estava a pensar nisto em abstracto quando comecei a procurar exemplos concretos que pudessem demonstrar que compensamos a nossa falta de abstracção com coisas muitos concretas. E muito concretamente o que achei não foi nada animador.
Acho que mais vale abstraír-me destas questões concretas...

quarta-feira, agosto 24, 2005

A Razão do Silicone

silicone
Não é fácil enfrentar os cânones e desafiar as tendências estéticas do séc.XXI. Vende-se uma imagem estereotipada de beleza que integra saúde e juventude - não exactamente por esta ordem - e é inevitável resistir-se ao apelo.
Não será extraordinário, assim, que até os jovens sucumbam ao efeito "reciclagem" e se descartem do que a natureza lhes deu em prol de um reconhecimento social que lhes permita passear-se pelas praias e discotecas, assemelhando-se a modelos "seven days a week". A ideia não é conviver, mas apenas ver e ser visto; uma espécie de andróides animados, extremamente apelativos, que despertam desejo e imitam a perfeição.
Contudo, esta é uma tarefa que imprime esforço, qual gueixa de pés gazeados no culto dos seus joanetes bonsai. Contrastando com a pequenez dos ditos pés de gueixa, os ocidentais, pelo contrário, sobrevalorizam a volumetria. Talvez devido à miopia que as grandes urbes provocam, os olhos tendem a não conseguir enxergar as coisas pequenas...
A grande oportunidade de transformar esteticistas e cirurgiões plásticos em emissários da criação foi - Hélas! - o silicone!
Pode ser usado nas mais bizarras aplicações: seios, glúteos, lábios, maçãs do rosto, ou mesmo nas anatomias não imediatamente visíveis.
Mas o que é ainda mais extraordinário é podermos encontrá-lo nas grelhas metálicas de correcção odontológica, em pensos calo-amortecedores, micro palmilhas para sapatos de salto agulha, ou ainda nos tão milagrosos soutiens com bolsinhas do dito, ao que as menos abastadas de recursos anatómicos e/ou financeiros apelidam de "mamas de sair".
Divertido é desafiar os crédulos e incautos babadores compulsivos a testar a genuinidade das formas que pululam nos seus curtos horizontes, não pelo mero teste do toca-e-foge, mas quando, no lusco-fusco da privacidade da alcova, esmorecem mirando as próteses que lentamente se vão amontoando sobre a mesa de cabeceira...
« - Querida, não te importas de voltar a vestir o soutien? É que, assim despida, quase não te reconhecia...
- Querido, tira as lentes de contacto! Que pensas que fiz para conseguir olhar para ti? »
Silly, isn't it?
Um post de MJM em exclusivo para a Razão.

terça-feira, agosto 23, 2005

Razões Amoroso-Gastronómicas

gastronomicoamorosas
Acho que tenho razão naquilo que vou dizer: as relações crescem e complexificam-se com a variação gastronómica e social.
Quando estamos com um grupo de amigos e conhecemos uma pessoa que é amiga de amigo, que tem uma conversa engraçada, culta, com sentido de humor, que fazer para privar com ela?! Convida-se para um café!
Podemos até nem tomar café mas convidamos sempre para um café. O povo português é muito adepto das relações sociais acompanhadas com café. Fecham-se negócios, marcam-se blind date’s, encontros de amigos, e o começo dos engates.
Quem é que nunca sentiu as cotoveladas e olhares cúmplices dos amigos quando se diz “Vou tomar café com fulana”?
Ir tomar café com alguém do sexo oposto implica que a relação está a evoluir. Um café a dois permite aquelas conversas de reconhecimento, é uma prospecção de terreno. Fala-se de tudo e mais alguma coisa, tiram-se nabos da púcara, provoca-se, enfim é o aperitivo óptimo. Aprofunda-se o conhecimento e recolhem-se pistas para o passo que se vai dar a seguir.
Tomar café não demora o tempo de engolir a pequena quantidade de líquido que repousa no fundo da chávena, é bem mais que isso. Pode ser doce ou amargo, escuro e forte ou macio e descafeínado, mas é sempre uma boa opção. Se estiver a correr bem pede-se outra coisa e marca-se outro. A correr mal desmarca-se e parte-se para outra coisa com a desculpa:
-Tenho mesmo que ir embora, tenho o meu voluntariado nos Anjos da Noite, depois eu ligo-te.
- Mas são três da tarde!
- É que… sabes lá começámos cedo, até nos chamam os Anjos do Dia.
Devaneios à parte, quando corre bem, corre mesmo bem.
Alguns cafés depois, estamos prontos para o passo seguinte, o jantar. Convida-se a pessoa quando já recolhemos informações suficientes para saber que o jantar não vai ser embaraçoso. É necessário um grau de intimidade grande para avançar para este nível.
Dentro ou fora de casa, com mais ou menos elaboração, um jantar implica uma série de condicionantes. Um homem deve saber que vinho escolher, é uma das regras universais do engate e acreditem que as mulheres incham de orgulho por saber que o homem que as acompanha sabe do que fala. Uma mulher deve ser delicada e saber ser servida, faz parte das convenções sociais, mas é giro.
Ver o companheiro a pegar nos talheres e nos copos certos é bom mas se falhar não é grave. Grave é ver o nosso interlocutor a meter a cabeça quase dentro do prato ou a sorver sopa ruidosamente. Isto é capaz de destruir o trabalho que tivemos com uma série de cafés de reconhecimento.
Como defende um amigo “Nós somos aquilo que comemos”, por isso há que ter cuidado ao escolher a comida. E se queremos causar boa impressão não devemos pedir coisas que sejam difíceis de comer, como marisco que tenha que ser partido, geralmente dá mau resultado.
- Ooops, lá vai mais uma perna de santola.
Pede aperitivo, digestivo, fuma, quanto fuma, como fuma... qual a relação que mantêm com o empregado, enfim uma série de coisas que influenciam o estudo da pessoa que está à nossa frente e nos permite traçar um retrato robot psicológico que vai influenciar a nossa escolha.
Não consigo, nem devo, explicar como se chega à refeição mais importante do dia, mas posso adiantar-vos que é o topo da relação amoroso/gastronómica.
Só se toma o pequeno-almoço com uma pessoa por quem nos sentimos atraídos, na manhã seguinte à subida de todos os outros degraus.
É claro que se pode inverter a pirâmide – na maior parte das vezes é assim que evolui.
- Este pequeno-almoço estava óptimo, jantamos logo à noite?!

Um post de Miguel de Terceleiros em exclusivo para a Razão.

segunda-feira, agosto 22, 2005

A Razão do Ponto G

gpoint
A obsessão em descobrir o Ponto G é recorrente, e normalmente espicaçada pelas revistas femininas.
Diz quem o inventou, que o Ponto G é um centro de prazer só existente nas mulheres e que, quando devidamente estimulado, é responsável pelos mais intensos, ruidosos e glorificantes orgasmos.
A história é tão bem contada que homens e mulheres o procuram freneticamente, mais parecendo cavaleiros da Távola Redonda na demanda do Santo Graal: elas procuram-no pelas razões óbvias; eles procuram-no como último recurso para aumentar a sua depauperada auto-estima.
Tudo isto é um grande equívoco. Podem parar de procurar.
Se querem mesmo descobrir o Ponto G, entrem ao sábado à noite no Bairro Alto, preferencialmente depois da meia-noite, e dirijam-se ao «Frágil». Aí encontrarão um Ponto G! Se não ficarem satisfeitos esperem mais duas horas e desloquem-se ao «Lux»: outro Ponto G.
Não hão-de faltar G's nestes locais à procura de estimulação. Divirtam-se.

domingo, agosto 21, 2005

Razões Divinas

divinas
Se Deus quisesse que nós voássemos tinha-nos dado bilhetes.

Mel Brooks

sábado, agosto 20, 2005

A Razão do Livre Arbítrio

livre arbítrio
Não acredito no livre arbítrio. Alguém está a escrever a história toda. E eu morro no final.

A Razão Genética

genetica
Se os teus pais não tiveram filhos, as hipóteses de tu não os vires a ter são muito elevadas.

sexta-feira, agosto 19, 2005

A Razão do Croissant

croissant
A razão do insucesso de qualquer negócio em Portugal está relacionado com aquilo que costumo designar pelo «síndrome do croissant», uma derivada da famosa expressão «onde mija um português, mijam logo dois ou três».
O «síndrome do croissant» tem o seu início e o seu fim em meados dos anos 80, no século passado, altura em que muitos dos leitores deste blog se preparavam diligentemente para nascer.
Antes dos anos 80 não existiam croissants, imaginem vocês. As pastelarias exibiam orgulhosas duchéses, coriáceas bolas de berlim, empertigados ecláires, esbeltos pastéis de nata, abnegados jesuítas, e muitos outros docinhos que apaziguavam a gulodice bovina de muita gente. A palavra snack ainda não fazia parte da vida dos mamíferos daquele tempo.
Então, surgido do nada, ou provavelmente surgido do empreendorismo de um emigrante da bidon ville (que é praticamente a mesma coisa que nada) surge a primeira croissanterie - assim mesmo, em estrangeiro para parecer mais fino. Ávidos por tudo aquilo que vinha do estrangeiro, na boa tradição do provincianismo nacional, os portugueses acorreram em massa. E o sucesso da primeira croissanteria foi tão grande que, num curto espaço de tempo, o país se transformou numa imensa croissanterie. Era impossível descobrir uma pastelaria. Porta sim porta sim, as croissanterias espalharam-se como um ébola desvairado, por todo o país, ameaçando a sobrevivência do queque e do mil folhas. Cidades houve em que surgiu a «rua das croissanterias». Os portugueses atafulhavam-se de croissants como se não houvesse amanhã.
E de repente, cerca de 5 anos depois da croissanteria original, acabaram tão rapidamente como tinham começado. Tipo dinossauros. A razão: não havia mercado para tanta oferta - estava descoberto o «síndrome do croissant».
Curiosamente, os pequenos empresários portugueses não aprenderam nada e, hoje em dia, o país apresenta um número absurdo de falências que está directamente relacionado com este fenómeno.
Em Portugal, a maneira mais rápida de atingir a falência é ter uma boa ideia lucrativa, que só vai ser lucrativa nos primeiros meses porque será selvaticamente copiada até à exaustão: videoclubes; lojas de posters; ginásios; casas de frangos; lojas de artesanato; restaurantes; cibercafés; etc.
Conclusão: tudo tem de dar lucro no muito curto prazo, um princípio que não é nada saudável para o futuro económico, quer do negócio, quer do país.

quinta-feira, agosto 18, 2005

A Razão do Turismo Sexual

200204602-001
R. é dono de uma empresa com representações no Brasil. É casado e tem três filhos, o último com dois anos de idade. É um extremoso marido e pai de família. Numa das suas idas ao Brasil ficou embeiçado por uma «garota de programa» e acabou por lhe oferecer um apartamento, onde costuma ficar nas suas viagens de negócio. Ultimamente inventa motivos só para poder ir ao Brasil exercitar os seus abdominais com a «garota de programa».
I. e S. são duas amigas que rondam os 40 anos. Ambas divorciadas e sem filhos. Gostam de fazer férias juntas em resorts caribenhos. Costumam lá ir duas vezes por ano com o único objectivo de mandarem umas quecas mágicas com quem estiver disposto a isso na altura. E depois desaparecem. Raramente encontram os mesmos homens, e até agradecem.
P. é director comercial de uma empresa nos arredores de Lisboa. É casado e tem um filho. Ele e os seus velhos amigos de faculdade juntam-se todos os anos, sem as mulheres, e passam uma semana no Nordeste brasileiro. Lá alugam umas limusines com condutores particulares, alugam um «sítio» a alguns quilómetros da cidade, e alugam ainda umas «garotas de programa». Durante uma semana entregam-se, desvairados, a uma vida de deboche e caipirinhas. Depois colocam na net as fotografias das suas proezas sexuais, onde têm o cuidado de fazer um «blur» nas suas caras.
Em Portugal, as mulheres fingem não perceber.
M. gosta de viajar sózinha para sítios inóspitos. Embora viaje sózinha, raramente não tem companhia ao fim do segundo dia.
«Conhecemos mais coisas se estivermos com alguém que viva lá» diz ela. Entretanto vai-lhes pagando as despesas e dormindo com eles. Uma vez entusiasmou-se e chegou a trazer um com ela. A coisa não durou muito tempo: ele conheceu outra por cá e saíu de casa. Desde essa altura M. deixa-os lá ficar.

Conheço esta malta toda, e por vezes pergunto-me como é que a «ida às putas» se sofisticou tanto...

quarta-feira, agosto 17, 2005

A Razão do Borda D'Água

Image hosted by Photobucket.com
A sociedade de consumo tem destas coisas, habitua-nos a uma sucessão de marcas e produtos que nos entram diariamente pelos olhos adentro e que desaparecem ao fim de alguns tempos, ao ponto de não nos lembrarmos de que alguma vez existiram.
Felizmente há umas quantas que se mantêm, firmes e hirtas, a resistir à passagem do tempo e à euforia (cada vez mais depressiva) do consumo. E uma delas é o Almanaque Borda D’Água.
Este «reportório útil para toda a gente», como vem descrito na capa, parece ter nascido no tempo de Viriato (quando este andava a atirar calhaus nos Montes Hermínios) e mantém-se orgulhosamente idêntico ao seu primeiro número, publicado há 77 anos atrás, alheio às modernices do papel moderno e da encadernação deluxe, obrigando-nos ao ritual de rasgar as suas páginas para podermos chegar ao conteúdo.
O «Verdadeiro Almanaque Borda D’Água» é uma lição para todas essas marcas multinacionais que por aí aparecem, com investimentos que fariam corar um ministro das finanças. É a lição da persistência teimosa, e do amor desinteressado por aquilo que se faz com gosto. O swoosh da Nike (nome dado pelos especialistas ao vêzinho do logotipo) é uma paneleirice moderna comparada com o Velho da Cartola – o muy digno, e sempre na moda, logotipo do Borda D’Água.
Desfolhar um Borda D’Água é fazer uma viagem no tempo, regressando aos tempos em que os dias demoravam a passar, em que a EDP se via à brocha para fazer dinheiro, em que o IVA era uma realidade tão distante como um episódio do «Star Wars», e em que os dias se contavam, sol a sol, pelas luas.
Havia malta que contava os dias até ao próximo Almanaque Borda D’Água, essa verdadeira enciclopédia de conhecimento que parecia conter tudo o que interessava em meia dúzia de páginas: as previsões do tempo para o ano inteiro, quando preparar a terra para o milho e para a batata de regadio, quando semear amores-perfeitos, a que horas nascia e se punha o sol; ali se aprendia que o dia 17 de Novembro era o dia da Sta. Isabel da Hungria, e que nos primeiros sábados do mês havia feira em Sta. Bárbara de Nexe.
Muito antes dos vendedores ambulantes do Planeta Agostini, já o Borda D’Água andava por aí a ensinar a malta que o signo de Gêmeos transmutava a sensibilidade lunar e que o signo de Virgem tinha como flôr preferencial a camélia (talvez seja daqui que tenha surgido a expressão «para ser virgem é preciso ser camela», tendo-se perdido o «i» algures na imensidão dos tempos).
Sempre que olho para o Borda D’Água vejo um grupo de velhotes a escreverem que nem uns desalmados, já meio taralhocos, a embirrarem uns com os outros, mas a divertirem-se que nem uns perdidos ano após ano. Um blog à moda antiga, este Borda D’Água.

terça-feira, agosto 16, 2005

A Razão de Agosto

Agosto, provavelmente o melhor mês do ano. Gosto de Agosto por mil e uma razões! Começa logo com aquela música fantástica que resume tudo:
"Qual é o melhor dia para casar
Sem sofrer nenhum desgosto
É o 31 de Julho
Porque a seguir entra Agosto (a gosto)."
É o mês dos casamentos e eu adoro casamentos. Ouvir falar francês em todo o lado e ter a pequena sensação que estou na Cote d'Azur dos burgessos. Não tenho nada contra os emigrantes, só gostava é que fossem todos amordaçados e andassem a pé!
As matrículas amarelas vêm dar um novo colorido ao cinzentismo das estradas portuguesas e mais emoção também! Não me lembro como se conduz em França mas deve ser uma rebaldaria de todo o tamanho, a julgar pela imagem que nos é transmitida durante este mês.
Gosto quando os preços de tudo, mas tudo mesmo, sobem, para explorar o capital estrangeiro, que é nosso também, afinal não adianta falar português, somos assaltados na mesma.
Adoro a forma como os emigrantes manipulam o sistema. Os bares passam a ter uma longa festa de recepção ao emigrante, começa no dia 1 de Agosto e acaba no 31, com aquele som que perturba os clientes habituais, mas fideliza os nossos esforçados compatriotas que vem cá, humildemente gastar os cêntimos em shot's e cocktail's ao som de R'n'B (Ridículo e Burgesso) e acabam a vomitar as tripas em qualquer canto e esquina.
É sempre bom ver as correntes de ouro por fora da camisola ou da camisa, os cachuchos gigantes masculinos de permeio com as roupas coloridas e os sapatólios de dois andares das meninas. Admiro-me é como se consegue engatar uma rapariga deste calibre. Quem terá razão, o álcool?!
As filas para comprar uma simples cabeça de alho graças à afluência repentina de público de férias, que bom que é.
Ir a casa dos pais na terra para um merecido fim de semana de descanso e ter a alegria de comer apertado e massacrado pelos berros das crianças agrilhoadas à mesa "Voule pas manger". Estar a tomar banho e uma dessas deliciosas criaturas apagar a luz e não poder dizer carinhosamente "Acende a luz c@r@lh0!"
Encontrar um restaurante aberto, daqueles que somos habitués, onde somos tratados com carinho, que substituem a comida da casa materna, que à terça-feira serve arroz de feijão com pataniscas de bacalhau, é mentira. Cobardemente abandonam o barco como ratos e vão gozar as férias para outro sítio qualquer que não o nosso poliglota e cromaticamente animado Portugal de Agosto.
Só detesto uma coisa, a diminuição brutal do trânsito no centro das cidades, gosto é de confusão!
Um post de Miguel de Terceleiros em exclusivo para a Razão.

segunda-feira, agosto 15, 2005

A Razão Sebastianista

«O sebastianismo, ambição ou cobiça eterna do que se perdeu e não voltará mais, foi um traço fundamental da nossa raça e ainda hoje se manifesta em muitos portugueses.
Na nostalgia das glórias passadas ou das simples benesses passadas, mascarando a sua indolência, e a sua inacção, ou até os seus ideais, sinceros mas fora de moda, com erradas atitudes de aprumo e dignidade, esses portugueses teimosos, contemplativos, vão perdendo, ano a ano, dia a dia, hora a hora, o sentido das realidades, das oportunidades, até se queimarem no próprio isolamento, até se sentirem estranhos dentro da sua Pátria, até ao suicídio!...
Sebastianismo inofensivo, digno, decorativo, se não saísse por vezes dessa contemplação para se transformar, subitamente, num quixotismo histérico, alucinado, causador de graves perturbações na vida nacional.»

Escrito por António Ferro no Diário de Notícias de 12 de Abril de 1933

Se Darwin tivesse nascido português, a Teoria da Evolução das Espécies nunca teria conhecido a luz do dia.

domingo, agosto 14, 2005

A Razão da Escrita

Image hosted by Photobucket.com
Só escrevo porque tenho receio de dizer algumas coisas em voz alta.

sábado, agosto 13, 2005

A Razão Oscilante

Image hosted by Photobucket.com
Há dias em que me sinto um insecto, e outros em que me sinto um párabrisas.
Price Cobb