terça-feira, agosto 23, 2005

Razões Amoroso-Gastronómicas

gastronomicoamorosas
Acho que tenho razão naquilo que vou dizer: as relações crescem e complexificam-se com a variação gastronómica e social.
Quando estamos com um grupo de amigos e conhecemos uma pessoa que é amiga de amigo, que tem uma conversa engraçada, culta, com sentido de humor, que fazer para privar com ela?! Convida-se para um café!
Podemos até nem tomar café mas convidamos sempre para um café. O povo português é muito adepto das relações sociais acompanhadas com café. Fecham-se negócios, marcam-se blind date’s, encontros de amigos, e o começo dos engates.
Quem é que nunca sentiu as cotoveladas e olhares cúmplices dos amigos quando se diz “Vou tomar café com fulana”?
Ir tomar café com alguém do sexo oposto implica que a relação está a evoluir. Um café a dois permite aquelas conversas de reconhecimento, é uma prospecção de terreno. Fala-se de tudo e mais alguma coisa, tiram-se nabos da púcara, provoca-se, enfim é o aperitivo óptimo. Aprofunda-se o conhecimento e recolhem-se pistas para o passo que se vai dar a seguir.
Tomar café não demora o tempo de engolir a pequena quantidade de líquido que repousa no fundo da chávena, é bem mais que isso. Pode ser doce ou amargo, escuro e forte ou macio e descafeínado, mas é sempre uma boa opção. Se estiver a correr bem pede-se outra coisa e marca-se outro. A correr mal desmarca-se e parte-se para outra coisa com a desculpa:
-Tenho mesmo que ir embora, tenho o meu voluntariado nos Anjos da Noite, depois eu ligo-te.
- Mas são três da tarde!
- É que… sabes lá começámos cedo, até nos chamam os Anjos do Dia.
Devaneios à parte, quando corre bem, corre mesmo bem.
Alguns cafés depois, estamos prontos para o passo seguinte, o jantar. Convida-se a pessoa quando já recolhemos informações suficientes para saber que o jantar não vai ser embaraçoso. É necessário um grau de intimidade grande para avançar para este nível.
Dentro ou fora de casa, com mais ou menos elaboração, um jantar implica uma série de condicionantes. Um homem deve saber que vinho escolher, é uma das regras universais do engate e acreditem que as mulheres incham de orgulho por saber que o homem que as acompanha sabe do que fala. Uma mulher deve ser delicada e saber ser servida, faz parte das convenções sociais, mas é giro.
Ver o companheiro a pegar nos talheres e nos copos certos é bom mas se falhar não é grave. Grave é ver o nosso interlocutor a meter a cabeça quase dentro do prato ou a sorver sopa ruidosamente. Isto é capaz de destruir o trabalho que tivemos com uma série de cafés de reconhecimento.
Como defende um amigo “Nós somos aquilo que comemos”, por isso há que ter cuidado ao escolher a comida. E se queremos causar boa impressão não devemos pedir coisas que sejam difíceis de comer, como marisco que tenha que ser partido, geralmente dá mau resultado.
- Ooops, lá vai mais uma perna de santola.
Pede aperitivo, digestivo, fuma, quanto fuma, como fuma... qual a relação que mantêm com o empregado, enfim uma série de coisas que influenciam o estudo da pessoa que está à nossa frente e nos permite traçar um retrato robot psicológico que vai influenciar a nossa escolha.
Não consigo, nem devo, explicar como se chega à refeição mais importante do dia, mas posso adiantar-vos que é o topo da relação amoroso/gastronómica.
Só se toma o pequeno-almoço com uma pessoa por quem nos sentimos atraídos, na manhã seguinte à subida de todos os outros degraus.
É claro que se pode inverter a pirâmide – na maior parte das vezes é assim que evolui.
- Este pequeno-almoço estava óptimo, jantamos logo à noite?!

Um post de Miguel de Terceleiros em exclusivo para a Razão.

segunda-feira, agosto 22, 2005

A Razão do Ponto G

gpoint
A obsessão em descobrir o Ponto G é recorrente, e normalmente espicaçada pelas revistas femininas.
Diz quem o inventou, que o Ponto G é um centro de prazer só existente nas mulheres e que, quando devidamente estimulado, é responsável pelos mais intensos, ruidosos e glorificantes orgasmos.
A história é tão bem contada que homens e mulheres o procuram freneticamente, mais parecendo cavaleiros da Távola Redonda na demanda do Santo Graal: elas procuram-no pelas razões óbvias; eles procuram-no como último recurso para aumentar a sua depauperada auto-estima.
Tudo isto é um grande equívoco. Podem parar de procurar.
Se querem mesmo descobrir o Ponto G, entrem ao sábado à noite no Bairro Alto, preferencialmente depois da meia-noite, e dirijam-se ao «Frágil». Aí encontrarão um Ponto G! Se não ficarem satisfeitos esperem mais duas horas e desloquem-se ao «Lux»: outro Ponto G.
Não hão-de faltar G's nestes locais à procura de estimulação. Divirtam-se.

domingo, agosto 21, 2005

Razões Divinas

divinas
Se Deus quisesse que nós voássemos tinha-nos dado bilhetes.

Mel Brooks

sábado, agosto 20, 2005

A Razão do Livre Arbítrio

livre arbítrio
Não acredito no livre arbítrio. Alguém está a escrever a história toda. E eu morro no final.

A Razão Genética

genetica
Se os teus pais não tiveram filhos, as hipóteses de tu não os vires a ter são muito elevadas.

sexta-feira, agosto 19, 2005

A Razão do Croissant

croissant
A razão do insucesso de qualquer negócio em Portugal está relacionado com aquilo que costumo designar pelo «síndrome do croissant», uma derivada da famosa expressão «onde mija um português, mijam logo dois ou três».
O «síndrome do croissant» tem o seu início e o seu fim em meados dos anos 80, no século passado, altura em que muitos dos leitores deste blog se preparavam diligentemente para nascer.
Antes dos anos 80 não existiam croissants, imaginem vocês. As pastelarias exibiam orgulhosas duchéses, coriáceas bolas de berlim, empertigados ecláires, esbeltos pastéis de nata, abnegados jesuítas, e muitos outros docinhos que apaziguavam a gulodice bovina de muita gente. A palavra snack ainda não fazia parte da vida dos mamíferos daquele tempo.
Então, surgido do nada, ou provavelmente surgido do empreendorismo de um emigrante da bidon ville (que é praticamente a mesma coisa que nada) surge a primeira croissanterie - assim mesmo, em estrangeiro para parecer mais fino. Ávidos por tudo aquilo que vinha do estrangeiro, na boa tradição do provincianismo nacional, os portugueses acorreram em massa. E o sucesso da primeira croissanteria foi tão grande que, num curto espaço de tempo, o país se transformou numa imensa croissanterie. Era impossível descobrir uma pastelaria. Porta sim porta sim, as croissanterias espalharam-se como um ébola desvairado, por todo o país, ameaçando a sobrevivência do queque e do mil folhas. Cidades houve em que surgiu a «rua das croissanterias». Os portugueses atafulhavam-se de croissants como se não houvesse amanhã.
E de repente, cerca de 5 anos depois da croissanteria original, acabaram tão rapidamente como tinham começado. Tipo dinossauros. A razão: não havia mercado para tanta oferta - estava descoberto o «síndrome do croissant».
Curiosamente, os pequenos empresários portugueses não aprenderam nada e, hoje em dia, o país apresenta um número absurdo de falências que está directamente relacionado com este fenómeno.
Em Portugal, a maneira mais rápida de atingir a falência é ter uma boa ideia lucrativa, que só vai ser lucrativa nos primeiros meses porque será selvaticamente copiada até à exaustão: videoclubes; lojas de posters; ginásios; casas de frangos; lojas de artesanato; restaurantes; cibercafés; etc.
Conclusão: tudo tem de dar lucro no muito curto prazo, um princípio que não é nada saudável para o futuro económico, quer do negócio, quer do país.

quinta-feira, agosto 18, 2005

A Razão do Turismo Sexual

200204602-001
R. é dono de uma empresa com representações no Brasil. É casado e tem três filhos, o último com dois anos de idade. É um extremoso marido e pai de família. Numa das suas idas ao Brasil ficou embeiçado por uma «garota de programa» e acabou por lhe oferecer um apartamento, onde costuma ficar nas suas viagens de negócio. Ultimamente inventa motivos só para poder ir ao Brasil exercitar os seus abdominais com a «garota de programa».
I. e S. são duas amigas que rondam os 40 anos. Ambas divorciadas e sem filhos. Gostam de fazer férias juntas em resorts caribenhos. Costumam lá ir duas vezes por ano com o único objectivo de mandarem umas quecas mágicas com quem estiver disposto a isso na altura. E depois desaparecem. Raramente encontram os mesmos homens, e até agradecem.
P. é director comercial de uma empresa nos arredores de Lisboa. É casado e tem um filho. Ele e os seus velhos amigos de faculdade juntam-se todos os anos, sem as mulheres, e passam uma semana no Nordeste brasileiro. Lá alugam umas limusines com condutores particulares, alugam um «sítio» a alguns quilómetros da cidade, e alugam ainda umas «garotas de programa». Durante uma semana entregam-se, desvairados, a uma vida de deboche e caipirinhas. Depois colocam na net as fotografias das suas proezas sexuais, onde têm o cuidado de fazer um «blur» nas suas caras.
Em Portugal, as mulheres fingem não perceber.
M. gosta de viajar sózinha para sítios inóspitos. Embora viaje sózinha, raramente não tem companhia ao fim do segundo dia.
«Conhecemos mais coisas se estivermos com alguém que viva lá» diz ela. Entretanto vai-lhes pagando as despesas e dormindo com eles. Uma vez entusiasmou-se e chegou a trazer um com ela. A coisa não durou muito tempo: ele conheceu outra por cá e saíu de casa. Desde essa altura M. deixa-os lá ficar.

Conheço esta malta toda, e por vezes pergunto-me como é que a «ida às putas» se sofisticou tanto...

quarta-feira, agosto 17, 2005

A Razão do Borda D'Água

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A sociedade de consumo tem destas coisas, habitua-nos a uma sucessão de marcas e produtos que nos entram diariamente pelos olhos adentro e que desaparecem ao fim de alguns tempos, ao ponto de não nos lembrarmos de que alguma vez existiram.
Felizmente há umas quantas que se mantêm, firmes e hirtas, a resistir à passagem do tempo e à euforia (cada vez mais depressiva) do consumo. E uma delas é o Almanaque Borda D’Água.
Este «reportório útil para toda a gente», como vem descrito na capa, parece ter nascido no tempo de Viriato (quando este andava a atirar calhaus nos Montes Hermínios) e mantém-se orgulhosamente idêntico ao seu primeiro número, publicado há 77 anos atrás, alheio às modernices do papel moderno e da encadernação deluxe, obrigando-nos ao ritual de rasgar as suas páginas para podermos chegar ao conteúdo.
O «Verdadeiro Almanaque Borda D’Água» é uma lição para todas essas marcas multinacionais que por aí aparecem, com investimentos que fariam corar um ministro das finanças. É a lição da persistência teimosa, e do amor desinteressado por aquilo que se faz com gosto. O swoosh da Nike (nome dado pelos especialistas ao vêzinho do logotipo) é uma paneleirice moderna comparada com o Velho da Cartola – o muy digno, e sempre na moda, logotipo do Borda D’Água.
Desfolhar um Borda D’Água é fazer uma viagem no tempo, regressando aos tempos em que os dias demoravam a passar, em que a EDP se via à brocha para fazer dinheiro, em que o IVA era uma realidade tão distante como um episódio do «Star Wars», e em que os dias se contavam, sol a sol, pelas luas.
Havia malta que contava os dias até ao próximo Almanaque Borda D’Água, essa verdadeira enciclopédia de conhecimento que parecia conter tudo o que interessava em meia dúzia de páginas: as previsões do tempo para o ano inteiro, quando preparar a terra para o milho e para a batata de regadio, quando semear amores-perfeitos, a que horas nascia e se punha o sol; ali se aprendia que o dia 17 de Novembro era o dia da Sta. Isabel da Hungria, e que nos primeiros sábados do mês havia feira em Sta. Bárbara de Nexe.
Muito antes dos vendedores ambulantes do Planeta Agostini, já o Borda D’Água andava por aí a ensinar a malta que o signo de Gêmeos transmutava a sensibilidade lunar e que o signo de Virgem tinha como flôr preferencial a camélia (talvez seja daqui que tenha surgido a expressão «para ser virgem é preciso ser camela», tendo-se perdido o «i» algures na imensidão dos tempos).
Sempre que olho para o Borda D’Água vejo um grupo de velhotes a escreverem que nem uns desalmados, já meio taralhocos, a embirrarem uns com os outros, mas a divertirem-se que nem uns perdidos ano após ano. Um blog à moda antiga, este Borda D’Água.

terça-feira, agosto 16, 2005

A Razão de Agosto

Agosto, provavelmente o melhor mês do ano. Gosto de Agosto por mil e uma razões! Começa logo com aquela música fantástica que resume tudo:
"Qual é o melhor dia para casar
Sem sofrer nenhum desgosto
É o 31 de Julho
Porque a seguir entra Agosto (a gosto)."
É o mês dos casamentos e eu adoro casamentos. Ouvir falar francês em todo o lado e ter a pequena sensação que estou na Cote d'Azur dos burgessos. Não tenho nada contra os emigrantes, só gostava é que fossem todos amordaçados e andassem a pé!
As matrículas amarelas vêm dar um novo colorido ao cinzentismo das estradas portuguesas e mais emoção também! Não me lembro como se conduz em França mas deve ser uma rebaldaria de todo o tamanho, a julgar pela imagem que nos é transmitida durante este mês.
Gosto quando os preços de tudo, mas tudo mesmo, sobem, para explorar o capital estrangeiro, que é nosso também, afinal não adianta falar português, somos assaltados na mesma.
Adoro a forma como os emigrantes manipulam o sistema. Os bares passam a ter uma longa festa de recepção ao emigrante, começa no dia 1 de Agosto e acaba no 31, com aquele som que perturba os clientes habituais, mas fideliza os nossos esforçados compatriotas que vem cá, humildemente gastar os cêntimos em shot's e cocktail's ao som de R'n'B (Ridículo e Burgesso) e acabam a vomitar as tripas em qualquer canto e esquina.
É sempre bom ver as correntes de ouro por fora da camisola ou da camisa, os cachuchos gigantes masculinos de permeio com as roupas coloridas e os sapatólios de dois andares das meninas. Admiro-me é como se consegue engatar uma rapariga deste calibre. Quem terá razão, o álcool?!
As filas para comprar uma simples cabeça de alho graças à afluência repentina de público de férias, que bom que é.
Ir a casa dos pais na terra para um merecido fim de semana de descanso e ter a alegria de comer apertado e massacrado pelos berros das crianças agrilhoadas à mesa "Voule pas manger". Estar a tomar banho e uma dessas deliciosas criaturas apagar a luz e não poder dizer carinhosamente "Acende a luz c@r@lh0!"
Encontrar um restaurante aberto, daqueles que somos habitués, onde somos tratados com carinho, que substituem a comida da casa materna, que à terça-feira serve arroz de feijão com pataniscas de bacalhau, é mentira. Cobardemente abandonam o barco como ratos e vão gozar as férias para outro sítio qualquer que não o nosso poliglota e cromaticamente animado Portugal de Agosto.
Só detesto uma coisa, a diminuição brutal do trânsito no centro das cidades, gosto é de confusão!
Um post de Miguel de Terceleiros em exclusivo para a Razão.

segunda-feira, agosto 15, 2005

A Razão Sebastianista

«O sebastianismo, ambição ou cobiça eterna do que se perdeu e não voltará mais, foi um traço fundamental da nossa raça e ainda hoje se manifesta em muitos portugueses.
Na nostalgia das glórias passadas ou das simples benesses passadas, mascarando a sua indolência, e a sua inacção, ou até os seus ideais, sinceros mas fora de moda, com erradas atitudes de aprumo e dignidade, esses portugueses teimosos, contemplativos, vão perdendo, ano a ano, dia a dia, hora a hora, o sentido das realidades, das oportunidades, até se queimarem no próprio isolamento, até se sentirem estranhos dentro da sua Pátria, até ao suicídio!...
Sebastianismo inofensivo, digno, decorativo, se não saísse por vezes dessa contemplação para se transformar, subitamente, num quixotismo histérico, alucinado, causador de graves perturbações na vida nacional.»

Escrito por António Ferro no Diário de Notícias de 12 de Abril de 1933

Se Darwin tivesse nascido português, a Teoria da Evolução das Espécies nunca teria conhecido a luz do dia.

domingo, agosto 14, 2005

A Razão da Escrita

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Só escrevo porque tenho receio de dizer algumas coisas em voz alta.

sábado, agosto 13, 2005

A Razão Oscilante

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Há dias em que me sinto um insecto, e outros em que me sinto um párabrisas.
Price Cobb

sexta-feira, agosto 12, 2005

A Razão Provinciana

Os portugueses são provincianos. É um dado adquirido, e não há nada a fazer senão aceitá-lo com a frontalidade conformista que também nos caracteriza.
Quando aceitamos ser os porteiros de uma cimeira que não nos diz respeito, colocando em risco os cidadãos do país, só para nos pôrmos em bicos dos pés estamos a ser provincianos. Quando atribuímos a Ordem da Liberdade aos U2 somos provincianos. Quando acreditamos que um tipo de 80 anos tem uma visão de futuro para o país, somos provincianos. Quando queremos mostrar aos espanhóis que somos bons vizinhos e magnânima e caninamente deixamos que nos levem a água, somos provincianos.
E depois somos provincianos em pequena escala. E é sobre essa pequena escala de provincianismo que me apetece falar. Sobre o provincianismo dos blogs nacionais – como vêem a escala não é pequena, é micro-escala.
Para observar o provincianismo blogueiro não é preciso ir muito longe. Basta fazer uma visitinha ao Murcon. Tenho imenso respeito pelo Júlio Machado Vaz, embora ao fim destes anos todos já ache o homem minimal repetitivo nas suas intervenções televisivas. Ora se na televisão já é vira-o-disco-e-toca-o-mesmo, e o orgasmo para cá e a estimulação vaginal para lá, mantendo uma pose intelectual que dá um ar sério a todo o discurso (e que o deve divertir à brava), quando chegamos ao Murcon, não há estimulação clitoriana que desperte o mínimo interesse pela coisa. Mas aí entra o provincianismo nacional e, como o JMV é, supostamente, uma celebridade intelectual, os labregos acham-se tocados pelo divino e babam-se copiosamente na perspectiva que os seus comentários (onde se nota um esforço genuíno para parecerem profundos, densos, e inteligentes) sejam lidos por aquela divindade das ondas hertzianas. Estou a imaginar o orgulho com que dizem aos filhos e à mulher: «hoje troquei umas opiniões com o Júlio Machado Vaz!».
E o Júlio, vaidoso ao ponto de colocar a sua carinha laroca no cabeçalho do blog, diverte-se com aquilo tudo, excitando aqui e ali a forte audiência feminina com pequenas provocações. «E um leve odor a auto-complacência macha...:). Ou não? Que dizem as meninas?», pergunta ele. E elas gemem enquanto digitam, com tremuras e sem sucesso, uma resposta remotamente inteligente.
Olhem para a vossa lista de links, e se por acaso virem lá o Murcon, cumpram o desígnio nacional. Sejamos provincianos, caragu!

quinta-feira, agosto 11, 2005

A Razão do Trolha

trolha
Li numa revista de moda que os metrossexuais, esses abichanados que gostam de se besuntar com cremes adelgaçantes, fazer massagens de lama e depilações, e que passam a vida no ginásio a desenvolver músculos à vez, estão fora de moda. Os seus sucessores são os retrossexuais (não confundir com rectossexuais, que também há muitos, mas que ainda não estão na moda). O retrossexual é a antítese do metrossexual: são feios, gordos, boçais e de barriga sobredesenvolvida, onde desembocam tufos de pêlos que brotam abnegdamente do peito. Têm uma aversão animalesca a qualquer perfume que não seja o de aguardente traçada com cerveja, recusam o banho que lhes retira a patine equina, e são adeptos do look gorduroso obtido através do método escarreta-mão-cabelo – uma técnica que é sua inconfundível imagem de marca.
Afinal nada está perdido para Portugal, o país europeu com maior índice de retrossexuais (conhecidos por cá como trolhas). O trolha volta a estar na moda, bem como o seu modus operandi. O Quinto Império volta a ser uma realidade: os trolhas que nos tempos áureos da nação, desbravaram e fundaram territórios à conta da sua força bruta e boçalidade, que muitas vezes se confundiam com coragem, têm mais uma oportunidade de levar o país ao seu grande desígnio nacional (seja lá ele qual fôr).
Adeus Beckham! Viva Jorge Costa!

quarta-feira, agosto 10, 2005

A Razão dos Amigos

amigos

Amigos. Não conheço a origem etimológica desta palavra, mas sempre que olho para ela sugere-me a junção de duas coisas: «amor» e «migas» - amor aos pedaços. Curiosamente a amizade é mesmo isso, uma forma de amor aos bocados. As amizades não requerem uma manutenção tão continuada como o «amor sem ser aos pedaços». Podemos não ver um amigo durante meses, ou mesmo anos, e magicamente voltar a pegar nas coisas como se o tivéssemos visto no dia anterior. Só as verdadeiras amizades funcionam assim – nada se exige, e tudo se dá, sem qualquer interesse, resistindo furiosamente à passagem do tempo. Façamos a mesma coisa com aquilo que designamos por «amor verdadeiro» (como se por acaso pudesse existir «amor falso») e veremos que ele não resiste com a mesma facilidade.

Falando seriamente, podemos identificar vários tipos de amigos:

Amigos de Infância – não há nada como os primeiros, há quem diga. Mas aquilo que nos une aos 5 anos não é necessário que nos una aos 30. A não ser que continuemos com uma obsessão estranha por legos, ou comboizinhos eléctricos.

Amigos de Escola – faz-me impressão aquela malta cujos únicos amigos são os de escola, aqueles grupinhos ruidosos de malta que se encontra invariavelmente aos fins de semana e em férias com os velhos colegas de curso e continuam a cantar Éférreás aos 40 anos. Será que para estes mamíferos existiu vida para além da escola? Duvido.

Amigos da Onça – malta que teríamos imenso prazer de colocar numa jaula com uma onça esfomeada e com cio. Também são conhecidos por amigos de Peniche. Estes são fáceis de identificar: basta perguntar distraidamente se gostam de Peniche e eles descaem-se.

Amigos de Ocasião – a ocasião faz o ladrão, sabem como é…

Amigos de Copos – enquanto a cirrose não chega até são divertidos de aturar, principalmente quando tentam falar naquelas alturas em que a sua língua parece ganhar vida própria.

Amigos do Peito – malta com muito bom gosto, que nutre uma especial afeição por glândulas mamárias generosamente desenvolvidas. Eu, por exemplo, sou amigo do peito da Pamela Anderson.

Amigos da Treta – não confundir com amigos da teta (uma derivação de amigos do peito). Estes mamíferos só são amigos deles próprios, e às vezes nem isso…

Amigos do Alheio – malta de expedientes duvidosos com fins lucrativos imediatos. Qualquer semelhança entre estes e os amigos da alheira é mera coincidência.

Amigos Coloridos – há-os de todas as cores. Gosto particularmente dos fucsia. Mas admito que existam outras cores igualmente interessantes.

Amigos dos Amigos – se alguém porventura pensar que um amigo de um seu amigo seu amigo é, ou é estúpido ou está a precisar de conhecer uma tribo de amigos somalis.

Caso tenha um amigo que cumpra pelo menos 3 destas tipologias, aceite um conselho: compre um cão (daqueles mauzinhos).

terça-feira, agosto 09, 2005

A Razão Geométrica

geometrica
O facto de nunca ter gostado muito de geometria fez com que, a dada altura, me apercebesse que ela me perseguia irritantemente por todo o lado. Por vezes até invadindo o meu discurso, entrando sem pedir licença nas minhas frases, irrompendo sem convite nos meus pensamentos.
A geometria invadiu a linguística selvaticamente e hoje em dia dou por mim a utilizar termos que sempre me enervaram.
Sempre que olho para o outro ângulo das questões; sempre que ponho as coisas em perspectiva; sempre que estabeleço paralelismos; sempre que torno a pôr as coisas nos eixos; ou que me apercebo de assimetrias; sempre que peço coordenadas, ou que levo as coisas para outro plano, que me dá um prisma diferente, um outro grau de conhecimento, ou de surpresa...
Os termos «geométricos» surgem tão espontânea e inconscientemente que muitas vezes nem damos por eles. E nalguns casos não fazem sentido nenhum: porque razão dizemos «círculo de amigos»? Existirá alguma obrigatoriedade de nos dispôrmos em círculo quando estamos com amigos? Não podemos assumir outras formas de estar? Para quebrar a monotonia podíamos inventar formas diferentes – um polígono de amigos hoje, um equilátero de amigas amanhã. Agora ser sempre um círculo é algo monótono não?
E o que dizer dos triângulos amorosos? Não podem ser rectângulos amorosos? Ou mesmo losangos amorosos? É claro que a cama teria de ser maior, mas e daí?
Até a blogosfera é um termo estranho, com laivos de geometria. Blogosfera sugere alguma coisa esférica, redondinha, galileiliana... qualquer dia ainda me aparece aí um maluco qualquer a dizer que a blogosfera é redonda. Porque não chamá-la de blogocúbica? Até é capaz de ser mais giro se fôr blogocúbica: tem mais ângulos, tudo faz mais ricochete.
Seja como fôr, sempre que penso em geometria fico com a desagradável sensação de estar a ter um discurso quadrado. Tudo isto num plano retórico, claro; numa perspectiva meramente individual, naturalmente.
Bolas....

segunda-feira, agosto 08, 2005

A Razão Disléxica

dislexica
Madur a loczalaição das lteras denrto de cdaa pralava não lhe rteira o seu siginafcdio. O nssoo crbéero tem a cuorisa cadpiacade de voatlr a reruaarmr a plvraaa da maeirna qeu inicaenitmlce anpreedu, de mdoo a obetr o seu sigicdafino. A descorebta, fio fetia plea Uinsvesriadde de Cmabgirde, e levotna ourto tpio de qstueões sbroe o siginafcdio das cosias qeu exprssemaos em froma de prvaalas. A obçrevasão fisofilóca que me orroce é qeu cdaa pralava céntom em si o sue sniaidcfigo inedneemnentdepte da frmoa cmoo amorramus as lerats qeu cõpmeom asse prlaava: um labgreo sreá smrepe um labgreo, por mias dsifraaçdo qeu eestja… asse é que asse.

domingo, agosto 07, 2005

A Razão do Capital Humano

capitalhumano
Um recente estudo do Deutsche Bank afirma que, durante os próximos 15 anos, Portugal terá o capital humano mais baixo da Comunidade Europeia.
Pessoalmente, acho que não havia necessidade de enxovalharem o Dr. Marques Mendes desta maneira.
Foto daqui.

sábado, agosto 06, 2005

A Razão Sadomasoquista

sadomasoquista
A palavra «Seguros» está para medo, como as palavras «Finanças» e «Segurança Social» estão para terror. Quando falamos em seguradora, por mais incrível que pareça, não nos sentimos seguros, muito pelo contrário: assumimos um ar desconfiado e inseguro, porque sabemos que estamos a ser assaltados, abrimos a carteira e, com um peso na alma, desembolsamos.
A relação que temos com estas instituíções comparo-as com algum tipo de relação sadomasoquista, iniciada de forma a tentar alegrar a coisas, mas sem grande sucesso.
Deixemos de lado termos, palavras, e passemos à acção: o sadomasoquismo é uma prática sexual, em que o prazer é obtido através do acto de infligir e sofrer dôr. A relação com as «Finanças» e «Segurança Social» são puros exercícios de sadismo. No dicionário, sadismo vem definido como «(...) instinto sexual em que a satisfação (...) só pode alcançar-se (...) com a perversão que consiste em tirar prazer do sofrimento alheio». E não é exactamente isto que o Estado faz?
Com os seguros a coisa é diferente. É uma relação de puro sado-masoquismo.
Os adeptos desta prática sexual dividem-se em dois grupos, nomeadamente os dominadores ou mestres e os escravos ou submissos. Estes últimos, tal como o nome indica, são os que sofrem, que são maltratados física e psicologicamente. Já os dominadores são os que fazem sofrer, têm um papel activo na relação e só atingem o orgasmo inflingindo a dor no outro.
Eles dizem «paga» ...Não é obrigatório, mas pagamos.
E nós pagamos uma apólice que nos garante que se formos raptados por extraterrestres num dia par de um ano bissexto, ser-nos-à pago 3 anos depois o valor definido, sem antes termos gasto 4x mais por protestarmos aquilo que temos a receber. É masoquismo sim, porque sabemos que a probabilidade de acontecer é mínima. É sadismo sim, porque as seguradoras sabem que a probabilidade de acontecer é mínima.
O que mais me intriga nas seguradoras, são os nomes de algumas delas. Ora vejamos:
Tranquilidade; Bonança; Fidelidade; Liberty.
São tudo nomes de coisas boas, com as quais no sentimos protegidos...até ver, claro. Outra coisa que me intriga nos seguros é o termo «prémio».
E como definição de prémio temos:
«do Lat. praemius. m., recompensa; galardão; remuneração; distinção conferida a quem se torna notado por trabalhos ou méritos; ágio; juro»;
até aqui tudo bem, mas depois, na salvaguarda, também diz: «prestação que o segurado efectua em favor da companhia seguradora como contrapartida do direito de indemnização».
E como prémio de não termos sido raptados, de não termos espatifado o carro, não ter pegado fogo à casa, de não termos sido assaltados, o prémio aumenta e nós pagamos mais. Juro que não entendo. É a mesma coisa que irmos para a cama com uma pessoa e descobrir, tarde demais, que ela é sádica...

Um post de Ana de Neon em exclusivo para a Razão

sexta-feira, agosto 05, 2005

A Razão da Obra Pública

obrapublica
A OTA e o TGV não são aquilo que parecem. Se alguém achar que o Governo está a ser inconsequente nestes dois projectos está enganado. Tudo isto faz parte de um grande desígnio nacional que os cavaleiros da távola redonda (esse grupinho naife de 13 economistas de todos os quadrantes políticos), falharam redondamente em identificar. Analisando as características de ambos os projectos vemos que o ambos têm em comum é o facto de contribuírem para transportar, de um modo bastante rápido, muita gente para fora do país. É claro que o Governo mascara a situação dizendo que a óptica é puramente turística, mas o que se está aqui a passar é o Muro de Berlim, só que ao contrário. Os gajos querem é que a malta se vá embora daqui. E rapidamente!