Por razões históricas, a palavra portughese tem um significado muito particular em Itália. Portughese é o termo que os italianos usam para designar os borlistas. A nossa fama precede-nos além fronteiras, e houve pelo menos um povo que, no passado, nos topou. Os italianos têm razão, somos o país da borla. Somos uns borlistas inveterados desde o início da nação. Como não podia deixar de ser, o primeiro borlista nacional foi o nosso fundador Afonso Henriques que ficou com o país à borla, nunca pagando a bula ao Papa, e determinando todo um espírito nacional, vigente até aos dias de hoje.
O português tem dificuldade em pagar seja o que fôr, não porque está endividado até às orelhas (que por si só seria uma boa razão para não pagar seja o que fôr) mas porque pagar não faz parte do feitio nacional. Para um tuga, pagar é um acto obsceno. Tudo o que é à borla, mesmo que o preço seja uma coisinha insignificante e acessível, tem sucesso garantido nesta nossa novela mexicana. Depois de ter sido cliente do Ikea de Madrid durante alguns anos, lembro-me de ter visitado o Ikea tuga na sua primeira semana de existência e de ter visto em acção o “síndrome dos portughese”: os lápis que o Ikea põe gratuitamente à disposição dos clientes para tomarem nota, medirem espaços, etc. estavam esgotados. Sempre que os empregados os repunham, hordas desenfreadas de tugas borlistas atiravam-se a eles às mãos cheias – se é à borla é para levar tudo o que houver!!
As manifestações deste síndrome repetem-se: veja-se por exemplo a quantidade de blogs per capita que existem neste país – teriam um blog se tivessem de pagar por ele? Eu não. Até acho que me deviam pagar para isto. Veja-se o sucesso dos recém-surgidos jornais diários à borla. Veja-se o caso das propinas do ensino universitário. Veja-se a polémica das scuts. A malta quer usufruir mas não quer pagar.
Eu acho bem que ninguém pague nada. Aliás acho mesmo que devíamos deixar de usar o Euro ou outro qualquer tipo de moeda, regressando àquele tempo em que a aquisição de um bem era feita através da troca por outro bem. Talvez assim fossemos obrigados a produzir alguma coisa para podermos adquirir outra.
terça-feira, junho 14, 2005
A Razão da Borla
sexta-feira, junho 10, 2005
Razões Freudianas
Cada indivíduo tem entre 20.000 e 40.000 pensamentos por dia (embora ainda esteja sujeito a prova se os membros do Governo, bem como os deputados da Assembleia da República, conseguem atingir uma centena diária). Dizem esses iluminados, os psicólogos, que 1/3 do dia pensamos em sexo, ou seja, na melhor das hipóteses pensamos em sexo 13.333 vezes por dia, 555 vezes por hora, 9 vezes por minuto, 1 vez em cada 6 segundos. Como é que ainda arranjamos espaço para pensar noutras coisas? Deixem lá de pensar nisso e reflictam comigo. Ignorem esses pequenos flashes de 6 em 6 segundos ok? Façam um esforço.
quinta-feira, junho 09, 2005
As Razões da Aliança
O George Lucas lançou recentemente o último episódio da 2ªtrilogia da série de três trilogias que tinha inicialmente pensado, mas que decidiu a meio caminho transformar em apenas duas por falta de verba e pachorra. Confuso han?
Falo obviamente do Star Wars. Eu sou um fã da primeira trilogia e acho que a paneleirice dos efeitos especiais de última geração que tomaram conta da segunda trilogia, tornaram o produto final mais pobre. Ainda assim divirto-me com os seis episódios. Não haja dúvida que aquilo é mesmo ficção ciêntífica, mas não pelo facto de retratar o futuro e envolver naves espaciais, galáxias distantes, e seres esquisitos à porrada com andróides. Aquilo é ficção porque supostamente retrata uma aliança humana que, sabemos hoje, seria impossível de obter.
Imaginem que o exército revoltoso da Aliança era formado pelos 25 países da união europeia, e conseguem ter uma perspectiva daquilo que provavelmente aconteceria.
Os franceses recusar-se-iam a combater pela Aliança até que esta adoptasse o francês como língua oficial. Os ingleses formariam um grupinho à parte e nunca se perceberia se faziam parte da Aliança ou não. Os alemães fariam campos de extermínio de droids e siths e ficariam assim entretidos. Os holandeses evitariam andar à porrada e praticariam uma política de tolerância com as forças Imperiais, procurando retirar dividendos daquilo a que chamariam uma “parceria comercial sem fins políticos”. Os espanhóis atiravam-se de peito feito a todas as naves imperiais e extinguir-se-iam logo de seguida. Os italianos criariam uma unidade especial de combate (os carabinieri rabetini) especializada em atacar o Império pela rectaguarda, mas só depois de terem recebido as "luvas" de combate. Os dinamarqueses andariam felizes como a merda a conduzir as suas naves todos nús, promovendo alegres orgias inter-estelares. Os gregos criariam a «Ala dos Namorados», uma força gay de intervenção, distinguindo-se por usar sabres de queijo feta com uma mestria capaz de engordurar qualquer soldado do Império. Os belgas especializar-se-iam em desbastar as crianças Sith. Os polacos, lituanos, checos e todas as nações do leste europeu, combateriam valentemente a qualquer preço, desde que não os mandassem embora da Aliança. Os portugueses, esses rapazes do Quinto Império, nunca teriam qualquer intervenção no conflito. A bordo da sua única nave, um chaço comprado a prestações e em segunda mão pelo ministério da defesa, chegariam sempre tarde a qualquer batalha interestelar, conquistando a alcunha de “o cú da Aliança”. Pequeninos e ruidosos, sempre em autocomiseração, percorreriam galáxias em direcção a lado nenhum. O costume…
May the force be with you.
quarta-feira, junho 08, 2005
A Razão do Estudante
Ser estudante em Portugal não é uma tarefa fácil. Os professores são aquilo que se conhece e que já tive oportunidade de referir numa Razão anterior. Mas como se não bastasse isso, há tudo o resto:
terça-feira, junho 07, 2005
A Razão Expectante
A todo o momento espero ouvir uma voz metálica a surgir de um megafone colocado algures num sítio alto que me diz: «bem vindo ao nosso parque temático, esperamos que se esteja a divertir tanto como nós!»
Aí tudo faria sentido: o Gonçalvismo, o Soarismo, o Cavaquismo, o Guterrismo, o Chernismo, os Santanetes e os Socráticos. Faria aquele olhar estupefacto das vítimas dos apanhados e diria certamente: «Eh pá, que vocês foram mesmo convincentes nesta parvoeira absoluta».
E a voz megafónica continuaria: «durante a tarde poderá divertir-se e assistir em directo ao discurso de restrição do nosso andróide que simula um primeiro ministro; ao longo da tarde assistirá a um compacto que mostrará todas as equipas nacionais a perder sucessivas finais de futebol; se mudar para o 2ºcanal poderá ver o que não deve ser um desempenho olímpico; ao início da noite terá o escândalo do dia- “Árbitros de Futebol Pederastas na Casa Pia”- aquele que é conhecido pelo escândalo do Apito Cagado. À noite não pode perder um selvático programa de humor onde o ministro das finanças exige contenção a toda a gente à excepção dele próprio. Se não tem nada programado para os próximos 5 minutos dirija-se à auto-estrada mais próxima e assista a um espectáculo único de mortandade ao volante por negligência boçal (...)»
Há uns anitos que espero que a voz apareça, mas nada. Os gajos estão determinados a fazer com que eu acredite que tudo isto é verdade. Estão a fazer um bom trabalho. Profissional até.
segunda-feira, junho 06, 2005
A Razão Pombalina
Depois do terramoto e do tsunami que mataram 30.000 pessoas e destruíram 17.000 dos 20.000 edifícios de Lisboa no ano de 1755, surgiu um indivíduo que aproveitou o caos instalado para alterar profundamente o estado da nação.
Chamava-se Sebastião José de Carvalho e Melo, mas ficaria a ser conhecido para a posteridade como «Marquês de Pombal». Responsável pela reconstrução de Lisboa, ele escreveu um manifesto intitulado «As Vantagens que o Rei de Portugal Pode Retirar do Terramoto de 1755». Neste manifesto afirmava que «existem ocasiões em que um rio só estabelece o seu curso natural através de uma situação de cheia. Do mesmo modo existem alturas em que para estabelecer um Estado Ideal, é necessário que parte do Estado seja eliminada. Depois deste fenómeno, uma nova luz emergirá.»
Uma afirmação um tanto radical mas que cada vez faz mais sentido. Quer parecer-me que são cada vez mais relevantes algumas medidas pombalinas. Gosto particularmente da «solução jesuíta» aplicada a toda a classe política nacional: todos enfiados num barquinho em direcção ao Atlântico, para de seguida ser afundado ao largo. Era remédio santo. E talvez ficássemos mais próximos do Estado Ideal.
sexta-feira, junho 03, 2005
A Razão dos Índices de Leitura
Até ter este blog acreditei piamente que os portugueses liam pouco. Na realidade nunca questionei os relatórios existentes sobre os índices de leitura nacionais. Estes estudos estão, obviamente, enviezados.
Isso dos portugueses serem os europeus que menos livros e jornais lêem é uma verdadeira intrujice. Os portugueses são os que menos compram livros e jornais, é um facto (e pelo andar da telenovela cada vez têm menos dinheiro para o fazer), mas isso não significa que não os leiam.
A bela da verdade é que os portugueses têm um dos maiores índices de leitura do mundo. Damos um baile assombroso a todos os povos alfabetizados no que toca a ler, e para mal da nossa reputação de povo iliterado e embrutecido, não temos estudos decentes que provem o contrário. A culpa não é nossa, mas das empresas de research que pululam alegremente neste país: esses incompetentes anestesiados por uma miopia que os impede de olhar para além dos números, e que acabam erradamente por cruzar índices de leitura com frequência de compra de publicações.
A verdade, meus amigos, descobri-a eu ao observar os indíces e tempos de leitura deste modesto blog. Na realidade os portugueses têm uma capacidade sobre-humana para a leitura: lêem tão rápido que enganam todas as estatísticas. O homem que vocês vêem na banca de jornais a pegar num jornal e a desfolhá-lo rapidamente para logo de seguida o voltar a arrumar no molho de jornais NÂO ESTÁ A LER AS GORDAS – está a ler todo o jornal a uma velocidade tal, que não é visível a olho nú. Naturalmente que não o vai comprar depois de o ler, e volta a arrumá-lo. Aqueles bandos de indivíduos que povoam qualquer loja FNAC deste país, sem fazer uma única compra, estão na realidade a ler inúmeras prateleiras de livros, em tempo absolutamente impensável. Façam o teste: peguem numa camera de filmar e apontem para um destes mamíferos aparentemente a ler desinteressadamente uma página do livro que é destaque do dia. Depois visionem a filmagem reduzindo substancialmente o número de imagens por segundo. Verão que esse indivíduo está ali na realidade a ler livros inteiros a uma velocidade alucinante .
Como é que foi que eu descobri isto? perguntarão vocês. Olhando para o vosso perfil de leitura neste blog! responderei eu. Graças a vocês foi esclarecida toda esta questão, pelo que só me resta agradecer-vos.
Reparem no seguinte: os meus posts contêm em média 330 carateres; segundo o sitemeter o tempo de leitura de cada post neste blog é de 120 segundos; isto significa que vocês lêem a uma velocidade de 3 caracteres por segundo (seus grandes alucinados!). Não admira que não sejam detectados nas sondagens...
quinta-feira, junho 02, 2005
A Razão da Compensação
O efeito borboleta é uma teoria romântica mas interessante. Afirma que o bater de asas de uma borboleta num ponto do planeta causa um tsunami no outro lado do planeta. Causa e consequência.
As religiões ocidentais também abordam esta questão com frequência, postulando que toda a acção tem uma consequência, benéfica ou não, dependendo da natureza ética dessa acção. Isto significa que se fôrmos mauzinhos em determinada circunstância, acabamos por receber de volta a paga da nossa maldade. Os anglo-saxónicos expressam isto de uma forma muito simples, na frase “what goes around comes around” – uma espécie de boomerang ético, passível de nos acertar em cheio na tromba quando nos portamos bem, ou quando nos portamos mal. A sabedoria popular também contém uma expressão que se aplica: “cá se fazem cá se pagam” (uma derivada simplista da visão cristã do sistema de admissão das alminhas no céu ou no inferno).
Eu não gosto da designação “efeito borboleta”: remete-me sempre para um universo de paneleiragem inconsequente, fruto de estados de alcoolémia em bares de reputação totalmente duvidosa. Prefiro chamá-la de Lei da Compensação.
Portugal é terreno fértil para a Lei da Compensação. Senão vejamos:
- O Governo é incompetente e mentiroso e em compensação nós pagamos mais impostos.
- Os funcionários públicos são umas aventesmas catatónicas e em compensação os privados têm que trabalhar a dobrar.
- Os portugueses têm o défice mais alto da Europa mas em compensação ninguém tem umas praias melhores que as nossas.
- A produtividade das empresas portuguesas é algo que inspirava um episódio da twilight zone mas em compensação os empresários portugueses gostam de bujardar formas de aumentar a produtividade do país.
- O desemprego vai continuar a aumentar nos próximos dois anos mas em compensação mais gente terá tempo livre para usufruir do tempo solarengo que nos caracteriza.
Perante tanta compensação é de estranhar que sejamos um dos povos mais descompensados do mundo, a julgar pela quantidade de anti-depressivos que mandamos para o bucho diariamente.
quarta-feira, junho 01, 2005
A Razão Fronteiriça
Em Paris e nos seus arredores vivem 15 milhões de pessoas: um Portugal e meio numa única cidade. Somos pequeninos, é um facto (embora ocupemos muito espaço) No entanto, embora pequenos, a frase «small is beautifull» não se aplica à nossa realidade. Na verdade, quando aplicada a nós, poderíamos dizer que «small is painfull». Esta moínha constante de ser português começa a enervar-me de sobremaneira. Daí que me tenha lembrado de uma solução rápida para solucionar a crise e o déficit.
Uma vez que o Estado quer que sejam os cidadãos portugueses a pagar pela sua incompetência e ineficiência, sugiro que uma destas noites, quem não trabalhe para o Estado, faça as suas malinhas e atravesse a fronteira. Ficariam aqui os governantes e os funcionários públicos. Os restantes 8 milhões de portugueses iriam viver para outro país da Europa. Como existem 22 países da CE em melhor situação que nós, a dificuldade seria escolher.
A partir dessa noite Portugal assumiria aquilo que na realidade é: um país de disfunção pública.
Quem alinhar ponha a mão no ar.
terça-feira, maio 31, 2005
A Razão Presidencial
Defendo firmemente que o Presidente da República deve ter uma função reguladora sobre a acção do Governo, para evitar excessos e absurdos políticos. Por isso não me chateei por aí além com o facto deste ter despedido o desgoverno dos santanetes. Achei prepotente e tendencioso, mas os gajos andavam a pedi-las. A coisa era um verdadeiro desastre.
Pelas mesmas razões acho que o Presidente deveria neste momento voltar a intervir, despedindo os socráticos. Se um tipo ganha as eleições porque no seu programa de governo estão descritos alguns pressupostos, e ao fim de dois meses decide fazer exactamente o contrário do que prometeu, é porque é um javardolas mentiroso, e merece ir de charola rapidamente. E onde está agora o Presidente? Não devia ele agir em defesa do seu povo? Ou vai continuar tendencioso, embora pouco prepotente neste caso? Esta pergunta é mera retórica. Eu conheço a bem resposta. Por isso mesmo é que defendo firmemente que o Presidente, para além de ter uma acção reguladora, deveria ser visitado vitaliciamente por uma tribo de somalis. Devidamente untadinhos, pois claro.
segunda-feira, maio 30, 2005
A Razão do Divórcio
sexta-feira, maio 27, 2005
Razões Lusas
O puto era maluco e tinha a mania das grandezas. A culpa não era dele: deram-lhe um reino para brincar aos 3 anos e meio, estavam mesmo a pedir o que viria a acontecer. Não é que eu duvide que um tipo com 3 anos e meio tenha capacidade para liderar um país – o Sócrates tem a idade mental de dois anos e está à frente do Governo (a culpa não é dele, ninguém tem culpa de ser eleito por um bando de papalvos). Mas estou a desviar-me do que interessa:
O puto era maluco e tinha a mania das grandezas. Mandava na telenovela mexicana desde tenra idade e nutria uma obsessão invulgar pelo Norte de África (tinha sido por ali que em tempos idos tinham chegado os somalis que o sodomizaram repetidamente aquando do seu 13º aniversário). Nunca se percebeu se o gajo tinha gostado ou não. Aquela obsessão não deixava transparecer se era um desejo de vingança, se era saudade daqueles efebos viris. Mas também nunca ninguém perdeu muito tempo a pensar nisso.
A obsessão foi crescendo com a idade e, aos 20 anos decide fazer a sua primeira expedição ao Norte de África tendo desembarcado, com meia dúzia de combatentes em Ceuta encarando a invasão numa perspectiva de desporto radical. Os árabes retiraram-se rapidamente pensando que aquele meia dúzia de malucos não se aventurariam assim, se não tivessem as costas quentes. Sem ninguém para andar à porrada o puto maluco dirigiu-se para Tânger, onde também ali os árabes pensaram que se tratava de um primeiro grupo de um extenso exército invasor, bazando de seguida.
O puto maluco chateou-se com aquilo tudo, queria andar à porrada e não havia ninguém em quem bater. Então decidiu voltar à telenovela mexicana, e recrutar um exército maior para andar à porrada em Alcácer Quibir.
4 anos e 18.000 homens depois ali estava ele, novamente em Tânger, de peito feito para dar cabo daquela merda toda. A 4 de Agosto, em Alcácer Quibir, o puto maluco e o grupo de 18.000 babacas que o seguia foi exemplarmente dizimado em apenas um dia, inspirando dois mitos nacionais: o «Sebastianismo», que consiste em não fazer absolutamente nada e esperar que as coisas se resolvam per si, surgidas no meio do nevoeiro; e a «Morte na Praia» cujos exemplos mais recentes podemos encontrar nas finais do Euro 2004 e na Taça Uefa 2005.
quinta-feira, maio 26, 2005
A Razão dos Treinadores de Bancada
Em Portugal há uma mania de mandar uns bitates inconsequentes sobre tudo e mais alguma, mesmo que não se perceba um chavelho do que se está a dizer. É o chamado Treino de Bancada.
Os treinadores de bancada estão normalmente associados ao fenómeno futebolístico, mas esse é o seu nível mais básico. Encontramos treinadores de bancada em todas as áreas: no desporto, nos negócios, nas nossas vidas pessoais, e ultimamente até no Governo eles aparecem a dar os seus bitates de especialistas em inconsequência javarda.
O que me está a deixar preocupado é que, depois do meu post de ontem, comecei a ver os empresários portugueses armados em treinadores de bancada da actuação do Governo quanto a esta questão do défice. Todos acham que, por serem empresários, têm competência para mandar os bitates que lhes apetecer para ensinarem aos rapazes do Executivo (nome enganoso que sugere algum tipo de acção, que nunca chega a acontecer) como se gere o país. Mas mais grave que isso é que estas alimárias gestoras andam a dizer que o melhor mesmo é aumentar os impostos. Querem lá ver que os nabos são mais do que eu pensava? Eu se fosse ao governo fazia uma inspecção económica às empresas desses treinadores de bancada – vai-se a ver e têm défices muito maiores que o do Estado. A julgar pela qualidade dos bitates estamos totalmente entregues à bicharada. Emigrar, meus amigos, é sempre uma opção.
quarta-feira, maio 25, 2005
A Razão do Défice
Aí está ele outra vez como assunto do dia. Tão recorrente que já chateia. Sabemos que o período de graça de um governo em Portugal termina quando se puxa o assunto do défice.
O défice só é um assunto recorrente desta telenovela mexicana porque o Estado, essa abstracção incómoda, não tem a mínima ideia do que é gerir, nem sequer uma casa de meninas.
A resposta automática de qualquer energúmeno governamental, independentemente da sua côr política, para a solução do défice é invariavelmente a mesma: aumente-se os impostos! Esta postura só demonstra o nível intelectual e a preparação técnica das alimárias que insistimos em colocar no poder.
Imaginem que aqueles rapazes que agora se dizem Governo eram a equipa de gestão de uma empresa chamada Portugal. Imaginem que essa empresa apresentava um prejuízo de 7% no final do ano. Para que o boneco seja mais fácil de entender imaginem que essa empresa chamada Portugal produzia um único bem: nabos. O negócio dos nabos não ia nada bem e o prejuízo era certinho se não se fizesse nada. Qual era a solução para acabar com o prejuízo? Segundo a equipa de gestão o problema resolvia-se aumentando o preço dos nabos. Inteligente não? Fazer os consumidores pagarem pela ineficiência daquela empresa de nabos.
Não era mais lógico olharem para dentro da empresa e cortarem custos fixos? Seria o que qualquer gestor mediano faria. Reduzia pessoal, optimizava o processo de produção eliminando desperdícios. Ou seja, arrumava a sua própria casa e não ia tentar sacar o que pudesse ao consumidor só para tapar um buraco, fruto da sua incapacidade de gestão.
Enquanto não tivermos uns nabos capazes, vamos continuar a ouvir falar deste défice, e mais: vamos pagar para que um conjunto de babacas continue a enterrar o país. Assim a modos que impunemente. Voltei a ter assunto.
segunda-feira, maio 23, 2005
A Razão da Falta de Assunto
Tenho pouco jeito para a chamada conversa mole, e uma verdadeira admiração por aquelas pessoas que conseguem manter uma conversa sem dizer absolutamente nada de relevante ou de interessante. Só para encher chouriços. Isto lembra-me que costumo ser bastante telegráfico ao telefone, digo o essencial, não por estar preocupado com o tarifário (se bem que há por aí cada tarifário…) mas porque não considero o telefone um instrumento social. O telefone é algo que uso com uma perspectiva perfeitamente funcional com o objectivo de dizer algo de muito concreto, e rapidamente. A conversa, essa é para se ter olhos nos olhos. Não consigo conversar decentemente com alguém que não consigo olhar direitinho nos olhos. O que me leva aquela malta que tem imensa dificuldade em fitar os olhos do seu interlocutor: pode ser uma manifestação de timidez, mas não deixa de enervar ver aqueles olhos a passear por todo o lado só para evitarem os meus. E os que falam sem olhar nos olhos e a rabiscar uma folha de papel parecendo que o raciocínio se desenvolve à proporção da quantidade de tinta que vai jorrando para o papel. Esses ainda me chateiam mais, porque me distraem, porque mesmo não querendo a minha atenção se vai centrando nos rabiscos que eles vão fazendo e o seu discurso começa a desaparecer em fade out na minha cabeça, ao ponto de ficar tudo em silêncio, só com o ruído do rabisco.
Tudo isto para dizer que ando com falta de assunto, e que este post já está atestadinho de conversa mole.
quinta-feira, maio 19, 2005
As Razões da Depressão Nacional
Somos o país que mais anti-depressivos consome per capita. Temos um dos piores índices de analfabetismo da Europa. Temos um dos índices de produtividade mais baixo da Europa. Temos um dos índices mais altos de corrupção do Mundo. Tivemos 3 governos diferentes em dois anos. Temos um défice estupidamente alto. Temos uma taxa rídicula de crescimento económico. A nossa taxa de desemprego continua a aumentar de mês para mês. Temos uma das taxas mais baixas da Europa na frequência e conclusão de cursos universitários. Temos os gestores mais improdutivos da Europa. Temos o escândalo da Casa Pia. Temos o escândalo do Apito Dourado. Temos o escândalo de Felgueiras. Temos o escândalo do Nobre Guedes. Temos um número assustador de falências empresariais. Somos o 23º país dos 25 da União Europeia. Temos o índice de obesidade infantil mais alto da Europa. Perdemos em casa a final do Europeu de Futebol para os gregos. Perdemos a final do Mundial de Futebol de Praia no Brasil para os franceses. Perdemos em casa a final da UEFA para os russos. O nosso sector primário é inexistente. O nosso sector secundário é pouco concorrencial. O nosso sector terciário é ineficiente. A nossa média de salários está muito abaixo da média europeia. Os nossos impostos estão muito acima da média europeia.
Até uma lontra ficaria deprimida com isto.
quarta-feira, maio 18, 2005
A Razão da Vaidade
terça-feira, maio 17, 2005
A Razão do Trabalho Menor
Há uns tempos tive um colega moçambicano a estagiar durante algumas semanas comigo. Era um tipo novo, e era a primeira vez que tinha viajado para fora de Moçambique. No seu último dia de estágio confessou-me uma coisa deliciosa: a coisa que o impressionou mais em Portugal, logo à chegada, foi ver brancos a fazer “trabalhos menores”, como descarregar o lixo, varrer as ruas,, ou simplesmente servir à mesa. No seu país estes são trabalhos em que os brancos não tocam, é impensável ver um branco servir à mesa num restaurante de Maputo. Existem certos trabalhos que só servem para a comunidade negra. Mais tarde tive a oportunidade de constatar isto em Maputo e de me lembrar que, em Portugal, um dos países mais pobres da Europa, gostamos de nos armar ao fino e de preferir engrossar a lista de desempregados a fazer trabalhos considerados, vá-se lá saber porquê, menores.
Gostaria que alguém me explicasse porque raio é que um tipo que retira o lixo diariamente do nosso caixote de lixo, ou seja, um tipo que limpa a nossa merda, é um “trabalhador menor”? – conheço muitos administradores de empresas que não só não limpam merda nenhuma, como ainda fazem mais merda, e são considerados quadros superiores (?). Tão finos que nós somos…
Nota: Ainda no que respeita aos técnicos de recolha de lixo, já repararam que estes agora são todos loiros, de olho azul, e licenciados em “trabalhos maiores”?
segunda-feira, maio 16, 2005
A Razão da Eurovisão
O Festival da Eurovisão é prova cabal que Portugal é um país de masoquistas persistentes a raiar a estupidez. Não há história neste Festival de um país que tenha sido tão mal pontuado em tantas edições e que ainda assim insista em aparecer. Os organizadores do Festival da Eurovisão estão desesperados: já tentaram tudo para desmotivar a participação portuguesa e a malta continua a aparecer – tipo aqueles convidados que tornam qualquer festa numa verdadeira chatice, mas que já aparecem há tanto tempo que ninguém tem coragem de lhes fechar a porta na cara. Ao longo dos anos Portugal tem vindo, com poucas excepções, a ser ostensivamente relegado para os últimos lugares – qualquer país teria percebido que aquilo devia querer dizer alguma coisa, que não valia a pena insistir, que os senhores não nos queriam lá. Mas não. Os portugueses ainda não perceberam e, ao fim de mais de 40 anos de participações falhadas e constrangedoras, teimam a aparecer com as suas roupinhas atestadas de lantejoulas, a quererem parecer muito moderninhos.
Se considerarmos o Festival da Eurovisão como um veículo difusor da imagem de Portugal na Europa, então está explicado porque é que o número de turistas tem baixado assustadoramente de ano para ano.
sexta-feira, maio 13, 2005
A Razão da Instalação
Este início de um novo milénio está a ser marcado por uma verdadeira crise de criatividade e imaginação. O resultado está à vista: a televisão torna-se um periscópio para a vida privada de uma série de gente; a publicidade anda pelas ruas da amargura, tão morninha e sem sal; o marketing das empresas deixou de ter qualquer estratégia que não seja a de dar descontos a torto e a direito; o mercado empresarial não arranja soluções para ganhar competitividade; as quarentonas encalhadas desataram a escrever livros sobre a vida sentimental das trintonas em vias de encalhanço (que vendem que nem paposecos); mas onde a coisa me enerva de sobremaneira é no domínio da arte.
A arte, que vive dessa capacidade humana de se autorecriar e autodesafiar, está uma verdadeira bosta intercontinental. Isto porque toda a gente acha que é capaz de produzir arte: um bocadinho à semelhança das quarentonas encalhadas que acham que sabem escrever livros só porque há milhares de atrasados mentais que são capazes de ler tudo o que se lhes põe à frente.
É neste contexto que surge um fenomenozinho de moda, chamado “a instalação”. A instalação artística está para a exposição de arte, como a bifana atascada em óleo está para os lombinhos de foie gras regados com Porto. Para fazer uma instalação é necessária uma sala mais ou menos ampla, de preferência num sítio de reputação cultural irreprimível, e um monte de tralha que é atirada ao acaso para o espaço que existe disponível: atire-se, por exemplo, um monte de bambus para um canto da sala, polvilhe-se com açucar mascavado e dê-se o título abstracto de “a infringibilidade secular” e pronto: tem-se uma instalação. Faça-se o mesmo com o resto de feijoada que ficou no fundo da panela de pressão da avó, chama-se de “gerontes esquecidos” et voilá, outra instalação. E depois é ver o artista (eu chamo-os de instaladores) de peito feito e a achar que aquela merda vale grande coisa; é ver a malta a pagar para ver aqueles estreptococos sublimados e a achar que foi enganada à grande e à francesa, mas a disfarçar para não parecer que não têm estatura cultural para entender uma coisa daquelas.
Uma vez que a instalação está ao alcance de todos, numa espécie de javardoso “do it yourself” artístico-bacoco, lembrei-me de fazer uma instalação diferente. Uma instalação viva, onde em vez de objectos e pedaços de porcaria, usaria pessoas à séria. Pensei em chamá-la de “Somalia Retumbante”: consistiria num grupo alargado desses instaladores clarividentes, nus e dispostos ao longo de uma sala, debruçados sobre vários tipos de mesas (para dar uma certa diversificação à coisa). Cada um dos instaladores seria paulatinamente sodomizado por uma tribo que efebos somalis devidamente untadinhos, que se revezariam obedientemente de hora a hora. A instalação concluiria todos os dias com os instaladores a serem transportados de cadeira de rodas para fora do recinto, agarrados a uma algália. Começo a achar que tenho jeito para isto…é preocupante...
quinta-feira, maio 12, 2005
Razões Bonificadas
Uma vez que gostamos de importar “boas práticas” do estrangeiro porque parecem sempre ser mais finas, só espero que ninguém no Ministério de Educação se lembre de aplicar isto:
No Reino Unido decidiram criar regras de compensação para os exames de acesso à Universidade, no sentido de favorecer os alunos que tenham sofrido alguma experiência traumática no dia do exame. Se um familiar do aluno tiver falecido no dia do exame, este terá uma bonificação até 5% na nota final (varia de acordo com o grau de proximidade familiar – um pai vale definitivamente mais que um tio, por exemplo). Se morrer a mascote (um hamster, por exemplo) tem 2% de bonificação. Se o aluno assistir a evento traumático tem 3% de bonificação. Se o aluno partir uma perna ou sofrer um ataque de asma tem 3% de bonificação. Uma alergia ao polén vale 2% de bonificação, e uma vulgar dôr de cabeça vale 1%.
Estou a imaginar o que a criatividade de um aluno tuga faria com este tipo de regras: Joãozinho começava a manhã antes do exame a dizimar toda a sua família (5% para o pai, 5% para a mãe, 5% para o irmão e 3% para a avózinha), estrangulava energicamente o caniche lá de casa (mais 2%). Implodia o seu prédio e assistia aquilo tudo a desmoronar-se com 20 famílias lá dentro (mais 3%). Rachava a cabeça com um tijolo (mais 3%), ficava com uma imensa enxaqueca à conta disso (mais 1%).
Depois ia fazer o exame com uma bonificação de 27% garantindo assim sua entrada na universidade. Em famílias numerosas a taxa de admissão na universidade tenderia a ser maior…
quarta-feira, maio 11, 2005
Razões Cabotinas
O Estado português (essa abstracção incómoda) tem o triste hábito de implementar as medidas europeias primeiro que toda a gente, num provinciano exercício de mostrar que é tão ou mais europeu que os outros. Até parece que se formos os primeiros a implementar as coisas de uma forma leonina acabamos por ser considerados um país desenvolvido, por osmose. Na boa tradição de cabotinismo, nem perdemos um minuto a pensar se a aplicação das medidas europeias é válida no nosso contexto ou não. E como não pensamos nisso, nem sequer nos passa pela cabeça constestá-las em sede própria, na altura e no local onde estas são decididas. A atitude parece ser “os senhores lá na Europa é que sabem, e se eles decidiram assim é porque é para fazer assim”.
Depois admiram-se que a imagem dos portugueses teime em associar-se à da mulher a dias ou da porteira… “Ò dona Maria, hoje vá dar uma limpeza em profundidade nos tapetes da sala – xim xenhor!”
terça-feira, maio 10, 2005
A Razão das Obras
O construtor civil e toda a turba que o precede (pedreiros, pintores, canalizadores e electricistas) são o paradigma da nossa nacionalidade. Não há classe de gente que represente tão bem os portugueses como esta turminha bacoca. Ouvi de um belga uma vez que “só se percebe a essência do povo português depois de se ler Eça e de se fazer obras em casa”. Só lhe posso dar razão, apesar de os belgas também não serem flores que se cheirem...
Uma obra em Portugal é sempre a mesma coisa: é obra. No início é só facilidades e orçamentos baratos, no meio é só facilidades e orçamentos acrescidos, e no fim (se é que podemos usar esta palavra) é sempre um “do mal o menos” e um custo proibitivo.
O que determina o final de uma obra em Portugal não é, curiosamente, a conclusão do último acabamento. Não. Normalmente uma obra é dada como acabada quando se acaba o dinheiro ou a paciência de quem a paga. E portanto, tal como o próprio país, tudo fica inacabado e atabalhoadamente concluído. Uma espécie de Santana Lopismo vigente que contamina todo este sector.
O construtor civil e a sua turminha só percebem uma linguagem: desenvolveram desde cedo um sentimento masoquista que só lhes permite funcionar quando levam pontapés na boca. Tratá-los com profissionalismo é contribuir para que a obra dure 4 vezes mais tempo. Aplicando uns pontapés na boca aqui e ali a obra consegue concluir-se no dobro do tempo.
Sabendo disto, quando decidi fazer obras em casa, segui os conselhos de um amigo alemão e defini com o meu construtor civil um contrato penalizador. Ele definia um prazo para a obra e por cada dia que ele se atrasasse pagar-me-ia uma determinada quantia. Medida Santa: já vou no terceiro construtor, o dinheiro das penalizações já deu para fazer uma piscina que não estava inicialmente prevista, e pelos vistos vou passar umas férias à borla no Brasil à conta do gajo que está lá agora. Recomendo-vos. O Brasil, não as obras.
segunda-feira, maio 09, 2005
A Razão do Estado
O Estado é uma abstracção incómoda. Quando falamos dos problemas estruturais do país, e de outros, acabamos sempre por chegar à conclusão de que a culpa é do “Estado”. Mas o que é isso o Estado? Se perguntarmos a um político ele vai dizer-nos que o Estado somos todos nós. Todos nós? Mas querem tornar-me parte desse compadrio de incompetentes? Eu não sou Estado coisíssima nenhuma! E vamos lá desmistificar a coisa de uma vez por todas: se o Estado é o organismo regulador da sociedade, então não é nada mais do que o conjunto de indivíduos que compõem o Governo, e dos funcionários públicos das instituíçoes que executam aquilo que lhes mandam. Esses gajos é que são o Estado: um conjunto de gajos que tenta encher a mula em 4 anos, e uma turba de gajos cujo princípio de vida é saltar de letra em letra fazendo o menos possível no maior espaço tempo possível (nunca tiveram a sensação de que tudo se passa em câmara lenta dentro de uma repartição pública? Nunca vos apeteceu fazer fast forward? Eu já, mas receei que eles se magoassem nos cantos das secretárias).
O Estado é portanto composto por estas duas forças antagónicas: uns bandalhos que querem mamar tudo rapidamente antes que se acabe o mandato; e uns mongos com um conceito de rapidez que ombreia com a lesma, o caracol, e a tartaruga alaúde. Conclusão: andamos sempre em Estado de Sítio à conta destes javardolas.
sexta-feira, maio 06, 2005
A Razão do Jet 6
Todos os países têm o seu jet set. O jet set é uma espécie de nova nobreza. O povo gosta de os ver, gosta de saber das suas vidas pseudo-glamorosas, de saber o que vestem, onde vão, com quem vão, etc. Nessa Europa fora o jet set é entendido como criador de tendências e de modas. Em Portugal também. Com uma pequena nuance: são jet 6. Isso coloca-os em desvantagem quando comparados com os seus colegas europeus. Mas não interessa nada desde que vendam revistas e lhes paguem para andar em festas.
quinta-feira, maio 05, 2005
A Razão do Queixume
Na maior parte dos países que conheço o acto de reclamar é algo assertivo. Nesses países as pessoas reclamam e é suposto acontecer alguma coisa. Existem até gabinetes especializados na recepção e gestão das reclamações. Ali, a reclamação é entendida como a denúncia de alguma coisa que não está bem com o intuito de a corrigir. O próprio acto de fazer a reclamação tem uma designação formal, chama-se “apresentar uma queixa” ou “apresentar uma reclamação”.
Em Portugal a reclamação não existe. Os portugueses têm, no entanto, um sucedâneo pobre da reclamação, vulgarmente designado por queixume.
O queixume é uma queixa para a qual não se exige nenhuma solução. É a queixa inconsequente e sem solução à vista. E portanto o objectivo do queixume é podermo-nos queixar e reclamar conformadamente sabendo de antemão que nada irá resultar desse acto. A reclamação está para a dor de cabeça tal como o queixume está para a moínha irritante que não tem intensidade suficiente para nos levar a tomar um comprimido, mas que ainda assim nos vai chateando.
A reclamação é feita de peito cheio, voz grossa, e murro na mesa. O queixume é feito a pedir desculpa, de forma balbuciante e com pézinhos de lã.
Sempre acreditei que o desenvolvimento de um povo é largamente influenciado pela capacidade que esse povo demonstra em autocorrigir-se, e autoaperfeiçoar aspectos que considere merecedores de correcção. A reclamação tem essa virtude de mudar o status quo de um povo. O queixume não. É uma manifestação de impotência e falta de iniciativa. É o “lusitanian way of life” amplificado por duas gerações que não estavam autorizadas a abrir a boca.
quarta-feira, maio 04, 2005
A Razão dos Gambuzinos
A minha primeira caçada aos gambuzinos aconteceu pelos tempos em que eu andava ainda na escola. Convidaram-me e explicaram-me. Até me ofereceram o saco conveniente e necessário.
Excitado, preparei-me em casa. Treinei devidamente, emboscado atrás da porta, a tentar caçar experimentalmente o meu pai, que subia a escada. Pareceu-me que não gostou. Os pais, não é...?
Na noite da caçada, lá fomos. Eu entusiasmado, com a lanterna e o saco apropriado. E também a moca que estava atrás da porta, que à noite há ladrões, foi a justificação que me veio à cabeça no momento. Todos concordaram.
Mas não me venham dizer que não há gambuzinos. Apanhei três. Um deles parece-me que se chamava António André e ficou coxo. Ainda está, creio. Uma fractura excelente, mesmo pela rótula.
Tudo me leva a crer que a caça aos gambuzinos é realmente importante. Temos que apanhá-los. Temos mesmo. Seja lá como for.
terça-feira, maio 03, 2005
A Razão do Stress
Há 230.000 anos atrás habitou neste planeta uma espécie hominídea designada por neanderthal. Pelo nome poderia deduzir-se que era alemão, mas não (se bem que quando olho para os alemães me vem à cabeça o neanderthal), só se chama assim porque o primeiro fóssil deste espécime foi encontrado na região de Neanderthal, perto de Dusseldorf. Os Neanderthais tinham uma vida lixada: vestiam-se com peles de animais, viviam em condições precárias, não tinham canalização, as hipóteses de carreira eram diminutas (principalmente depois de terem chegado os Cromagnons) mas ainda assim os neanderthais não tinham stress. Não existem registos de um neanderthal stressado.
Viriato, um pastor dos Montes Hermínios, que ficou conhecido entre as legiões romanas como o Che Guevara lusitano, fez a vida negra ao Império Romano utilizando um tipo de combate que na altura se chamava “toca e foge” (hoje chama-se “guerrilha”) não se conhecendo quaisquer sintomas de stress. É certo que se enervava de vez em quando, mas nada que uns murros no tampo da mesa não resolvessem.
Afonso Henriques, conhecido por arrear na mãe à grande e à francesa (na bela tradição borgonhesa herdada de seu pai) também não tinha stress. Ao mínimo sintoma de ansiedade montava no seu cavalo e ia fundar. Fundar, naquele tempo, era sinónimo de andar à porrada com os mouros.
O stress é um sintoma que parece ausente da nossa história. Inexplicavelmente. Seria de supôr que embarcar numa casquinha de noz em direcção ao nada durante meses criasse stress; ou defender um império numa altura em que o total da população não excedia o milhão e meio de pessoas: os poucos gajos que ficavam a defender os postos avançados em África, na Índia ou no Brasil contra os ataques dos holandeses, dos espanhóis ou dos corsários ingleses, deveriam ter um bocadinho de stress. Mas não. Stress foi coisa de que nunca se ouviu falar. Por tudo isto é que fico surpreendido que hoje em dia se fique com stress à mínima contrariedade: perdi o autocarro – stress; não consegui apresentar o trabalho a horas – stress; tenho o telefone a tocar de minuto a minuto – stress; tenho uma turma de meninos irrequietos – stress; apetece-me fumar um cigarro no avião – stress; mas que paneleirice é esta? Está tudo com falta de problemas? Querem lá ver que tenho que me stressar?
segunda-feira, maio 02, 2005
A Razão do Efeito Pigmaleão
Há uns anos atrás, numa universidade dos Estados Unidos, testou-se a influência do Efeito Pigmaleão no desenvolvimento dos indivíduos. A cada um dos estudantes que participou no estudo foi dado um rato de laboratório e um labirinto. A ideia era fazer com que os ratos aprendessem a sair do labirinto.
A metade dos estudantes foi dito que o seu rato era estúpido e que teriam que ter paciência, porque provavelmente este iria levar algum tempo até aprender onde é que era a saída. A outra metade dos estudantes foi dito o contrário: estavam na posse de ratos extremamente inteligentes que muito provavelmente iriam achar num ápice a saída do labirinto. Na realidade não havia diferenças entre os ratos, eram todos estúpidos como só um rato pode ser. Mas os estudantes não o sabiam.
Curiosamente os ratos “inteligentes” descobriram rapidamente a saída e aprenderam facilmente o caminho a tomar dentro do labirinto. Os ratos “estúpidos” levaram muito mais tempo quer a descobrir, quer a aprender o caminho. A experiência foi um sucesso, estava provado o Efeito Pigmaleão.
Ora se não existiam diferenças entre os ratos porque é que os supostamente inteligentes foram de facto os mais inteligentes? Porque, segundo diz a teoria, as expectativas e a percepção que temos relativamente a determinadas coisas ou indivíduos, mudam a nossa maneira de nos relacionarmos no sentido de alinharmos a realidade com o modo como a vemos. O que aconteceu foi que os estudantes que tinham os ratos “inteligentes” falavam com eles, estimulavam-nos mais, recompensavam-no com mais frequência, e tinham muito mais paciência para os ensinar que os estudantes que ficaram com os ratos “estúpidos”: já estavam à espera que o rato fosse uma besta e portanto nem os tratavam bem, nem se esforçavam minimamente para lhes ensinar a saída.
Lembrei-me do Efeito Pigmaleão ao ler hoje uma notícia no jornal onde perguntavam aos portugueses quais as suas expectativas para os próximos 12 meses. Para além daquelas bestas que não sabem e não respondem (9%), só 27% é que acreditam que a sua situação económica vai melhorar. A crise continua. E depois queixem-se…
sábado, abril 30, 2005
sexta-feira, abril 29, 2005
A Razão do Blogueiro
Ontem à noite tive o prazer de ouvir uma das teorias mais originais sobre os bloggers e a blogosfera. Estava a jantar com amigos quando um deles decidiu sabiamente partilhar comigo a sua perspectiva sobre tudo isto. “A blogosfera” dizia ela “é um antro de exibicionistas e voyeurs. Basta irmos à origem do conceito de blog, onde alguém decide expôr a privacidade do seu dia a dia numa página de internet, para percebermos que cada blog é uma extensão virtual da Quinta das Celebridades.”
Enquanto ela falava o meu olhar vagueou pela garrafa de vinho. Imaginei o que aconteceria se lhe espetasse com aquilo na tromba. Imaginei os vidros a estilhaçarem-se à minha frente, em câmara lenta, enquanto ela tombava de costas, para cima da mesa ao lado, onde um casal romântico jantava à luz das velas. Desisti. O vinho era demasiado bom para ser desperdiçado daquela maneira. E ela continuava:
“O blog só é um fenómeno com cada vez mais adeptos porque a televisão despertou o interesse generalizado pelo voyeurismo idiota, de gente que não tem interesse nenhum, e que esconde atrás de um blog as suas vidas vazias e desinspiradas.”
Pensei se seria demasiado inspirado da minha parte pegar na terrina que tinham acabado de trazer para a mesa e despejá-la por cima da minha esclarecida interlocutora. Mas optei apenas por me recostar na cadeira, perguntando-lhe “Mas diz-me lá o que queres dizer com isso dos flashers e dos voyeurs?”
Ela deu um gole na taça de vinho e continuou: “Para mim escrever um diário, ou um poema, ou outra porcaria qualquer na internet é um acto exibicionista. Se não o fosse as pessoas não teriam a necessidade de mostrar aos outros. Do outro lado tens os voyeurs: tens imensos deles sempre a comentar o que está escrito, fora os que só lêem e não dizem nada…”
quinta-feira, abril 28, 2005
A Razão do Relato
O relato desportivo é daquelas coisas que me enervam de sobremaneira. Que raio de profissão é aquela, cujo desempenho consiste em explicar aos outros exactamente aquilo que eles estão a ver? Ver um relato de futebol na televisão é um suplício: se quero ouvir os sons do estádio (que até dão emoção às jogadas, tipo banda sonora dos filmes de terror), tenho inevitavelmente que levar com um ou dois mongos a explicarem-me que o jogador que tem a bola é o fulano de tal, e que a passou para o beltrano de tal, que por sua vez a rematou à baliza de cicrano de tal. Nada que eu não esteja a constatar ao mesmo tempo. E o que dizer de um relato de fórmula 1? Fulano vai à frente de beltrano, beltrano vai mudar de pneus, beltrano mudou de pneus, beltrano está a usar pneus de chuva – tudo informações inéditas que se eles não me dissessem (e se eu não estivesse a olhar para a televisão) nunca iria saber...
Algures na transição da rádio para a televisão, alguém se esqueceu que os relatadores, agora pomposamente chamados de comentadores, perderam a sua razão de ser. São redundantes. Obsoletos. Estupidificantes.
Ter um gajo a dizer-me através de um transistor o que se está a passar num jogo de futebol que eu não estou a ver é uma coisa que me faz algum sentido. O relatador radiofónico, em toda a sua histeria, faz sentido. Agora eu estar a ver um jogo na televisão e ter um gajo a explicar-me o que se está a passar é que não faz sentido nenhum. Porque raio é que existe o relatador televisivo? Será que eles duvidam que os telespectadores estejam a perceber o que se está a passar? Será que se não houvesse um relatador televisivo iríamos chegar ao fim do jogo profundamente baralhados sem saber o que tinha acontecido naqueles 90 minutos? Se o problema é dar emprego a essa gente, o melhor seria mandá-los relatar os acontecimentos da Quinta das Nulidades, naqueles momentos em que eles abocanham as partes baixas uns dos outros, no celeiro. Podia ser que dessem mais emoção ao programa. Ou não...
quarta-feira, abril 27, 2005
A Razão do Feng Shui
Depois de ter sido verdadeiramente massacrado por um amigo arquitecto, que insistiu que eu me devia imbuír do espírito de Feng Shui para criar energias positivas numa vida que não me andava a correr lá muito bem, decidi fazer algumas alterações na minha casa, seguindo rigorosamente os seus ensinamentos:
terça-feira, abril 26, 2005
A Razão do Caso
Há palavras lixadas no vocabulário nacional. Daquelas que têm tantos sentidos que deixam um estrangeiro esquizofrénico e só são entendidas em contexto pelos nacionais porque na realidade a esquizofrenia faz parte da nossa portugalidade. "Caso" é uma dessas palavras. A aplicação desta palavra em contextos diversos assume significados múltiplos que só os portugueses conseguem descodificar.
“Ter um caso”, por exemplo, implica necessariamente a presença de alguém que partilha esse caso connosco. Para se ter um caso, tem que se ter um caso com alguém. Nunca se pode ter um caso sózinho, ou na pior das hipóteses pode-se, mas teremos simultaneamente de “ser um caso clínico”.
Quando dizemos “um caso sério” já não estamos a falar de relações fortuitas entre pessoas, porque “ter um caso” é algo que, supostamente, não é sério. Se fosse sério não seria um caso. Seria uma relação. Isto significará portanto que qualquer relação é “um caso sério”.
“Não fazer caso” é algo que fazemos sózinhos sem que nos acusem de padecer de qualquer desarranjo mental desviante. Mas é algo que não podemos fazer numa relação sob pena de nos acusarem de falta de atenção. Se tiverem uma relação, sigam este conselho: façam muito caso, mas daquele sério ok? Porque se fôr do outro não terão essa relação por muito tempo. Adiante…
“Estar a trabalhar num caso” não significa estar a arrastar a asa a alguém. Implica desenvolver um profissão normalmente ligada à área jurídica, ou de investigação policial. Se ter um caso é algo que se desenvolve como exercício de lazer, trabalhar num caso implica uma especialização profissional.
O caso também pode ser entendido como causa para um determinado efeito. E aí chama-se “caso para isso”. Por exemplo, um homem descobre que a sua mulher teve “um caso” com o padeiro, fica muito enervado, acha que aquilo é um “caso sério” e fica prontinho para arrear um camaçal de porrada naquele cabrão enfarinhado. É nessa altura que um amigo lhe diz “Oh pá, não é caso para para estares tão enervado, deixa lá as coisas connosco que a gente esta noite rebenta-lhe com a padaria toda”. Se o cornudo “não fizer caso”, alguém no dia seguinte vai “trabalhar no caso” da padaria que implodiu no centro da cidade. E explicar isto tudo a um estrangeiro?
segunda-feira, abril 25, 2005
A Razão da Moda
Não existem razões funcionais para que um automóvel mude de forma constantemente. Obedecendo ao princípio de que a forma está subjugada à função, cada Chrysler era fabricado com um tecto alto, de modo a que se pudesse usar chapéu enquanto se conduzia. Naquele tempo as pessoas finas usavam chapéu. Resistindo à tendência de comercializar automóveis mais rasteirinhos e esguios, o patrão da Chrysler chegou a afirmar que "fabricava carros para as pessoas se sentarem neles, e não para mijarem em cima deles" (sic). A Chrysler quase faliu por ter ficado fora de moda.
A moda, como sabem, é algo que rapidamente fica fora de moda. É uma atracção efémera por um estilo particular, numa altura específica, por um determinado número de pessoas. É uma atracção deliberadamente criada com intuitos comerciais por seres inexplicavelmente perversos, à semelhança daqueles milhares de chineses que decidiram usar aquelas batas Mao Tse Tung do avesso.
Os autores de Recueil de Décorations Intérieures, uma obra escrita durante a Revolução Industrial, queixavam-se que a moda era ditada pela produção em massa agravada por uma obsolescência compulsiva - um efeito atribuído à comercialização selvática a que já nos habituamos. Mais recentemente, numa feira de mobiliário em Milão, um dos participantes anunciou pomposamente o lançamento de um novo modelo de cadeira: "uma cadeira onde nos podemos sentar!" E depois desatou a elaborar "... alusiva de uma forma tipologicamente tradicional, esta cadeira é um objecto hermeticamente concebido como um símbolo profundamente enraízado no nosso passado".
Esta malta droga-se... Mas inequivocamente a moda torna-nos prisioneiros de um estilo e de uma época, numa espécie de vida suspensa tranquilizadora, e sem os sobressaltos de termos que penosamente decidir o que vamos vestir amanhã.
sexta-feira, abril 22, 2005
A Razão do Conclave
Esta razão vem um bocadinho fora de prazo, mas ainda assim não deixa de ser uma boa razão. Passei a última semana a ouvir falar do conclave dos cardeais do Vaticano sem saber exactamente o que o termo significava. Isto até um amigo italiano me ter explicado a razão do conclave, que vou generosamente, à boa maneira cristã, partilhar convosco.
Há alguns séculos atrás a sucessão do Papa não resultava de um comité de cardeais esclerosados a resvalar para um caixão. Não... o Papa era designado pela nobreza. Os nobres é que decidiam quem ia passear no papamóvel. Como a corrupção era mais que muita, e os reis eram obrigados a pagar uma pipa de massa ao seu candidato (um bocadinho à semelhança do financiamento das campanhas eleitorais hoje em dia), a nobreza decidiu que já não estava para dar de mamar a meninos e decretou que o próximo Papa seria designado pelos seus pares. Os cardeais teriam que chegar a acordo e eleger um deles para gerir os destinos de todas as alminhas perdidas deste mundo. E assim foi: os cardeais deliberaram, deliberaram, deliberaram... e os meses foram passando. Seis meses depois ainda estavam os gajos a deliberar. A nobreza, que já estava farta da inépcia natural da Igreja em tomar decisões por conta própria, decidiu então acelerar o processo. Para fazer com que os cardeais tomassem uma decisão rápida fechou-os à chave na Capela Sistina e deixou-os por lá a pão e vinho até que tomassem a sua decisão. Milagre dos milagres, quiçá iluminados pela Divina Providência, os cardeais conseguiram, em 48 horas, chegar à conclusão de quem seria o próximo Papa. Estava criado o conclave.
Segundo o Bufas, eu fui enganado pelo italiano, e isto é tudo uma grandessissima e vergonhosa mentira.
quinta-feira, abril 21, 2005
Razão Perspectivada
Embora vejamos o sol nascer a Este e pôr-se a Oeste, sabemos hoje que são os anjos que laboriosamente fazem a terra rodar à volta do sol. Há muito tempo atrás toda a gente achava que era o sol que rodava em torno da Terra. Pessoalmente acho razoável ter-se acreditado que assim o era, uma vez que acordávamos todos os dias com o sol a nascer a Este e, enquanto íamos vivendo as nossas vidinhas, ele passava por cima das nossas cabeças para desaparecer a Oeste.
Enquanto algumas ilusões parecem reais, outras são sentidas como sendo mais reais.
A Terra roda sobre si própria todas as 24 horas à velocidade de 1.000 milhas por hora. E orbita em torno do sol à velocidade de 66.000 milhas por hora. Se juntarem as velocidades de rotação e translacção terão viajado 550 milhas desde que começaram a ler este post. Ou, pondo as coisas em perspectiva, vocês neste momento estão a viajar no espaço à velocidade de 18,5 milhas por segundo: mais rápidos que uma bala. Um bom dia para vocês.
Buckminster Fuller
quarta-feira, abril 20, 2005
A Razão Papável
Vi há uns dias na SIC os resultados de uma sondagem onde perguntavam aos telespectadores portugueses que nacionalidade é que estes achavam que o novo Papa devia ter. Surpresa das surpresas, a nacionalidade portuguesa foi a escolha de 82% dos telespectadores. Para uma sondagem imbecil temos aqui um resultado idiota. Porque raio existem 18% de inquiridos que não querem um Papa luso? Será porque desconfiam tanto do poder de gestão dos conterrâneos que nem para gerir as alminhas dão uma abébia a um tuga?
Seja como fôr acho que os portugueses são recorrentemente chamados a pronunciar-se sobre tudo e mais alguma coisa. E o pior de tudo é que se pronunciam mesmo, sem pudores, sobre os assuntos mais estúpidos: deverá o primeiro-ministro morar em S.Bento ou continuar a viver na sua casa? Deverá o presidente ingerir na governação do país a seu bel prazer e fazer jogadas políticas manhosas? Deverá o Mourinho vir treinar a selecção portuguesa antes ou depois do desaire do próximo Mundial? Deverá haver um próximo Mundial?
Por mais inconsequente que seja a sondagem, lá estão os portugueses a votar como se não houvesse amanhã, completa e boçalmentemente alheios à quantidade de dinheiro que gastam nos sms de resposta, e cientes que, qualquer que seja a conclusão da sondagem, a sua opinião não servirá para coisa nenhuma.
O que é estranho é não ver este empenho opinativo em situações em que a sua opinião pode mudar o curso das coisas: vejam-se as eleições legislativas e a quantidade de gente que se abstem de ir às urnas, vejam-se as eleições autárquicas com uma abstenção superior às anteriores, e mais grave, vejam-se os referendos nacionais e a fraca participação que estes têm. Na realidade os portugueses não querem sentir-se responsáveis. Votar em sondagens bacocas é porreiro porque dali não há-de vir mal nenhum ao mundo. Votar em coisas que podem mudar o estado das coisas é que não pode ser! Livra! Imaginem que a coisa dá certo? Os portugueses vão queixar-se de quê?
terça-feira, abril 19, 2005
segunda-feira, abril 18, 2005
sexta-feira, abril 15, 2005
A Razão da Correspondência em Cadeia
Há muitos muitos anos atrás, ainda o marketing era um conceito esquisito destinado a dar emprego a uma chusma de inúteis (interessante ver como ainda hoje este conceito não mudou) um empregado dos correios, ao ver que o número de correspondência diminuia a olhos vistos por causa da maior popularidade do telefone, teve uma ideia perversa: escreveu uma cartinha que viria a tornar-se um fenómeno de sucesso, assegurando o emprego de muito carteiro por esse mundo fora. A cartinha dizia, grosso modo, que era portadora de sorte a quem a lia e a enviava para 10 pessoas (incluíndo uma moeda de centavos, para dar um ar credível à coisa). Dizia também que quem não a enviasse iria ter uma incalculável maré de azar. Quem terminasse a cadeia de correspondência estava, em suma, condenado a ser um verme desgraçado para o resto dos seus dias, havendo dúvidas que pudesse, a partir daí, fazer uma vida normal sem utilizar roupa interior . O empregado dos correios foi promovido e altamente recompensado depois de, passados poucos dias do envio da cartinha, se começar a reparar no impacto que esta teve no aumento de correspondência. Ninguém queria cair em desgraça e toda a gente desatou a enviar cartas com moedas de centavos lá dentro.
O e.mail veio acabar com o império da cartinha maravilha. Temporariamente. Não tardou em que aparecessem novas variantes de “e.mails da sorte” que tramavam para o resto da vida quem se atrevesse a romper a cadeia. Ora a cartinha eu ainda percebo a razão da sua existência: os correios precisavam de facturar. O e.mail em cadeia não tem razão de existir, senão a de provar que ainda há papalvos que acreditam em tudo o que lêem. Se alguém tem dúvidas que não vai ser atropelado por um camião de oito rodados, nem que será incapaz de manter uma erecção por mais de 30 segundos, ou que toda a sua família será dizimada por um grupo dissidente de guerrilheiros xiitas, só porque interrompeu uma corrente de e.mails bacocos, fixem uma coisa: não é verdade, não vai acontecer, ok? Acreditem em mim. Relaxem.
quinta-feira, abril 14, 2005
Razões Provincianas
O Estado legisla contra o tabaco, primeiro colocando umas mensagens intrusivas nos maços de tabaco e em breve proibindo o consumo de tabaco no local de trabalho.
Isto é uma grandessíssima bandalheira, meus senhores! A questão dos avisos nos maços de tabaco é, no mínimo, tendenciosa e ridícula. Se querem alertar o consumidor para os malefícios do tabaco, porquê parar por aí? Até parece que o tabaco é o único bem de consumo que mata. Seguindo este raciocínio didáctico do Estado eu acharia bem que os produtos ostentassem avisos semelhantes aos do tabaco, ocupando cerca de 40% das embalagens. Os automóveis, por exemplo, saíriam de fábrica com avisos em todas as portas: “Conduzir Mata!”, “Se estiver grávida não acelere muito”, “Os transportes públicos podem ajudá-lo a deixar de conduzir”; as garrafas de água, que também podem ser um bem de consumo perigoso, ostentariam enormes avisos de saúde no rótulo: “Beber água em excesso afoga!”; os aviões: “Voar pode Matar”; “A probabilidade de você sobreviver à queda é minúscula”; “Se o Estado quisesse que você voasse tinha-lhe dado asas”; os lápis: "Espetar isto num olho pode causar cegueira e morte dolorosa (por esta ordem)". E assim por diante.
Não fumar no local de trabalho também é uma medida de suprema inteligência. Como tudo pode ser considerado o local de trabalho de alguém, vai chegar a um ponto em que só poderemos fumar em casa. Fumar nas ruas vai deixar de ser possível, uma vez que as ruas são o local de trabalho das prostitutas e dos chuis da ronda. O mais provável, se acendermos um cigarro numa esquina, será levarmos com um polícia a dizer-nos que não podemos fumar num local de ataque.
O Estado português é do mais provinciano que existe no que toca a adoptar medidas europeias. É leonino. Implacável. Eficiente. Pena que não seja implacável e eficiente a implementar medidas que tornem os portugueses mais parecidos aos europeus no que respeita a poder de compra, educação, e segurança social. Onde realmente interessa, o Estado português é perfeitamente incompetente.
quarta-feira, abril 13, 2005
A Razão da Reunião
Em Portugal, a forma mais prática de não se tomar qualquer decisão é promover uma reunião. Por isso é que o país se arrasta penosamente de crise em crise, afogado em reuniões que justificam o salário de quem as faz, mas que não resolvem absolutamente nada.
Portugal sofre de reunite, um mal que dita que não há urgência que não possa esperar 15 dias, ao ponto de deixar de ser urgência porque se acabou por resolver por si. A razão da reunião é muito simples: é empatar o processo de tomada de decisão a um ponto de já não fazer sentido tomá-la. Na génese do processo está a incapacidade, e a falta de vontade de se tomar a decisão, porque ao fazê-lo poderemos estar a comprometer qualquer coisa no nosso futuro. Assim não corremos o risco de sermos acusados de tomarmos uma má decisão.
E depois a reunião dá uma ideia ilusória de que estamos a trabalhar: fechados numa sala de reuniões a discutir o sexo dos anjos, e a justificar um salário, os portugueses sentem-se úteis, independentemente se no final do dia se chegou a alguma conclusão. Aliás, a conclusão mais obtida em Portugal é que se tem de fazer outra reunião para esclarecer o que ficou por concluir, e assim até ao infinito. Por isso, quando ouço o Sócrates dizer que a primeira medida que tomou quanto à posse ilegal de armas de fogo é fazer uma reunião, fico descansado: vou poder continuar a manter a minha bazuca sem que ninguém me chateie.
terça-feira, abril 12, 2005
A Razão da Tourada
Quando analisada e descrita sob uma perspectiva turística, a tourada é considerada uma afirmação de virilidade e supremacia física do homem face à besta. Para mim a tourada é a prova cabal que a estupidez e a bestialidade humanas não só não têm limites, como gostam vaidosamente de exibir essa evidência.
Não sou nenhum fundamentalista dos direitos dos animais: gosto do belo bife e da suculenta bifana, e não entro em depressão quando mando abaixo um fondue de carne, mas decididamente não gosto de tourada.
Somos muito lestos a julgar a crueldade humana quando ela é exercida sobre humanos. Montamos verdadeiros espectáculos mediáticos para difundir a sua punição exemplar: aquele que normalmente me vem à cabeça é o julgamento dos nazis em Nüremberg, mas há muitos outros “nürembergers” por aí. No entanto desculpabilizamo-nos à brava quando a nossa crueldade é glorificada, espectacularizada, e aplicada nos animais. Até parece que o facto de termos um cérebro mais desenvolvido nos dá o direito de acharmos que tudo isto nos pertence. A tourada é só um exemplo deste abuso de inquilino. Um exemplo circunscrito a Portugal e Espanha e a mais umas quantas novelas sul-americanas (estou a excluir a tourada com velcro no Norte da Califórnia, porque isso já nem se pode considerar tourada).
Sinto uma compulsão irreprimível de pontapear repetidamente as gengivas de quem me diz que a tourada portuguesa é mais “humana” que a espanhola porque (alegadamente) não matamos o touro. E quando surge a recorrente polémica bacoca dos touros de morte em Barrancos, só me apetece tornar S. Bento numa Pamplona, e fazer uma largada de touros no parlamento. Mais “humana”?? A tourada portuguesa é uma tourada apaneleirada!
Em Espanha os cornos dos touros não são protegidos; se acertarem no toureiro perfuram-no (e muito bem!). Em Portugal os touros são “embolados”, protegem-se os cornos para não ferirem ninguém. Mas que paneleirice é esta? Então não queriam provar a virilidade?
Em Espanha matam-se os touros na arena. Em Portugal não: depois de o sangrarem cobardemente com ferros e bandarilhas, salgam-lhes as feridas (alguém já uma vez colocou sal numa ferida? Experimentem...), e abatem-nos fora dos olhares alheios. E depois vêm dizer-me que é mais “humano” e ficam todos histéricos com os touros de morte de Barrancos...
Eu acho que a manter-se a estupidez da tradição tauromáquica se devia dar uma oportunidade ao touro. Em vez de fazerem as “pegas de caras” quando o touro já perdeu as suas forças, dilacerado e sangrado por aqueles bandalhos rabetas a cavalo, devia fazer-se a “pega” logo no início do espectáculo, quando o touro está fresquinho e vivaço, e ninguém o segura. E devia “desembolar-se” o touro, para a coisa ser a sério. Desconfio que a taxa de mortalidade dos participantes seria tão alta que rapidamente de decretaria o fim da tradição.
O primeiro mamífero que eu colocaria à frente do touro seria a Fátima Lopes, essa javardolas que gosta de animais peludos à boa maneira de Hannibal Lecter. O touro iria certamente ter muito gosto em toureá-la em profundidade, qual somali desenfreado, e sem mãos – só com os chifres. OLÉ!
segunda-feira, abril 11, 2005
A Razão da Improdutividade
De tempos a tempos Portugal aparece mencionado numa daquelas estatísticas da comunidade europeia que comparam os índices de produtividade dos Estados Membros. Inevitavelmente ocupamos um lugar cimeiro no pelotão dos mais improdutivos. O que torna os portugueses o povo mais improdutivo da Europa? Será a nossa proximidade do Norte de África? (provavelmente seríamos os mais produtivos do Norte de África!) Será por sermos arraçados de árabes? Ou apenas porque somos uns madraços incorrigíveis?
Eu tenho uma perspectiva bastante clara sobre este défice nacional de produtividade: o problema reside no empresário português, esse mamífero que consiste num enxerto de comerciante de feira com um MBA no levantamento do copo. Por mais esforçado que seja, o trabalhador português não consegue contrariar a chusma de disparates cometidos pelo empresário tuga que lhe paga (até ver) o ordenado. E o que torna o empresário português uma verdadeira pérola da gestão de mercearia? Eis algumas características fundamentais:
Para o tuga empresário os objectivos são metas que escarrapacham aos olhos de toda a gente o quão incompetente ele é na gestão do seu negócio. Portanto é melhor que não se fale muito nisso. Para qualquer empresário tuga o objectivo é ganhar o mais possível, pagar o menos possível, fazendo o menos aconselhável.