sexta-feira, agosto 12, 2005

A Razão Provinciana

Os portugueses são provincianos. É um dado adquirido, e não há nada a fazer senão aceitá-lo com a frontalidade conformista que também nos caracteriza.
Quando aceitamos ser os porteiros de uma cimeira que não nos diz respeito, colocando em risco os cidadãos do país, só para nos pôrmos em bicos dos pés estamos a ser provincianos. Quando atribuímos a Ordem da Liberdade aos U2 somos provincianos. Quando acreditamos que um tipo de 80 anos tem uma visão de futuro para o país, somos provincianos. Quando queremos mostrar aos espanhóis que somos bons vizinhos e magnânima e caninamente deixamos que nos levem a água, somos provincianos.
E depois somos provincianos em pequena escala. E é sobre essa pequena escala de provincianismo que me apetece falar. Sobre o provincianismo dos blogs nacionais – como vêem a escala não é pequena, é micro-escala.
Para observar o provincianismo blogueiro não é preciso ir muito longe. Basta fazer uma visitinha ao Murcon. Tenho imenso respeito pelo Júlio Machado Vaz, embora ao fim destes anos todos já ache o homem minimal repetitivo nas suas intervenções televisivas. Ora se na televisão já é vira-o-disco-e-toca-o-mesmo, e o orgasmo para cá e a estimulação vaginal para lá, mantendo uma pose intelectual que dá um ar sério a todo o discurso (e que o deve divertir à brava), quando chegamos ao Murcon, não há estimulação clitoriana que desperte o mínimo interesse pela coisa. Mas aí entra o provincianismo nacional e, como o JMV é, supostamente, uma celebridade intelectual, os labregos acham-se tocados pelo divino e babam-se copiosamente na perspectiva que os seus comentários (onde se nota um esforço genuíno para parecerem profundos, densos, e inteligentes) sejam lidos por aquela divindade das ondas hertzianas. Estou a imaginar o orgulho com que dizem aos filhos e à mulher: «hoje troquei umas opiniões com o Júlio Machado Vaz!».
E o Júlio, vaidoso ao ponto de colocar a sua carinha laroca no cabeçalho do blog, diverte-se com aquilo tudo, excitando aqui e ali a forte audiência feminina com pequenas provocações. «E um leve odor a auto-complacência macha...:). Ou não? Que dizem as meninas?», pergunta ele. E elas gemem enquanto digitam, com tremuras e sem sucesso, uma resposta remotamente inteligente.
Olhem para a vossa lista de links, e se por acaso virem lá o Murcon, cumpram o desígnio nacional. Sejamos provincianos, caragu!

quinta-feira, agosto 11, 2005

A Razão do Trolha

trolha
Li numa revista de moda que os metrossexuais, esses abichanados que gostam de se besuntar com cremes adelgaçantes, fazer massagens de lama e depilações, e que passam a vida no ginásio a desenvolver músculos à vez, estão fora de moda. Os seus sucessores são os retrossexuais (não confundir com rectossexuais, que também há muitos, mas que ainda não estão na moda). O retrossexual é a antítese do metrossexual: são feios, gordos, boçais e de barriga sobredesenvolvida, onde desembocam tufos de pêlos que brotam abnegdamente do peito. Têm uma aversão animalesca a qualquer perfume que não seja o de aguardente traçada com cerveja, recusam o banho que lhes retira a patine equina, e são adeptos do look gorduroso obtido através do método escarreta-mão-cabelo – uma técnica que é sua inconfundível imagem de marca.
Afinal nada está perdido para Portugal, o país europeu com maior índice de retrossexuais (conhecidos por cá como trolhas). O trolha volta a estar na moda, bem como o seu modus operandi. O Quinto Império volta a ser uma realidade: os trolhas que nos tempos áureos da nação, desbravaram e fundaram territórios à conta da sua força bruta e boçalidade, que muitas vezes se confundiam com coragem, têm mais uma oportunidade de levar o país ao seu grande desígnio nacional (seja lá ele qual fôr).
Adeus Beckham! Viva Jorge Costa!

quarta-feira, agosto 10, 2005

A Razão dos Amigos

amigos

Amigos. Não conheço a origem etimológica desta palavra, mas sempre que olho para ela sugere-me a junção de duas coisas: «amor» e «migas» - amor aos pedaços. Curiosamente a amizade é mesmo isso, uma forma de amor aos bocados. As amizades não requerem uma manutenção tão continuada como o «amor sem ser aos pedaços». Podemos não ver um amigo durante meses, ou mesmo anos, e magicamente voltar a pegar nas coisas como se o tivéssemos visto no dia anterior. Só as verdadeiras amizades funcionam assim – nada se exige, e tudo se dá, sem qualquer interesse, resistindo furiosamente à passagem do tempo. Façamos a mesma coisa com aquilo que designamos por «amor verdadeiro» (como se por acaso pudesse existir «amor falso») e veremos que ele não resiste com a mesma facilidade.

Falando seriamente, podemos identificar vários tipos de amigos:

Amigos de Infância – não há nada como os primeiros, há quem diga. Mas aquilo que nos une aos 5 anos não é necessário que nos una aos 30. A não ser que continuemos com uma obsessão estranha por legos, ou comboizinhos eléctricos.

Amigos de Escola – faz-me impressão aquela malta cujos únicos amigos são os de escola, aqueles grupinhos ruidosos de malta que se encontra invariavelmente aos fins de semana e em férias com os velhos colegas de curso e continuam a cantar Éférreás aos 40 anos. Será que para estes mamíferos existiu vida para além da escola? Duvido.

Amigos da Onça – malta que teríamos imenso prazer de colocar numa jaula com uma onça esfomeada e com cio. Também são conhecidos por amigos de Peniche. Estes são fáceis de identificar: basta perguntar distraidamente se gostam de Peniche e eles descaem-se.

Amigos de Ocasião – a ocasião faz o ladrão, sabem como é…

Amigos de Copos – enquanto a cirrose não chega até são divertidos de aturar, principalmente quando tentam falar naquelas alturas em que a sua língua parece ganhar vida própria.

Amigos do Peito – malta com muito bom gosto, que nutre uma especial afeição por glândulas mamárias generosamente desenvolvidas. Eu, por exemplo, sou amigo do peito da Pamela Anderson.

Amigos da Treta – não confundir com amigos da teta (uma derivação de amigos do peito). Estes mamíferos só são amigos deles próprios, e às vezes nem isso…

Amigos do Alheio – malta de expedientes duvidosos com fins lucrativos imediatos. Qualquer semelhança entre estes e os amigos da alheira é mera coincidência.

Amigos Coloridos – há-os de todas as cores. Gosto particularmente dos fucsia. Mas admito que existam outras cores igualmente interessantes.

Amigos dos Amigos – se alguém porventura pensar que um amigo de um seu amigo seu amigo é, ou é estúpido ou está a precisar de conhecer uma tribo de amigos somalis.

Caso tenha um amigo que cumpra pelo menos 3 destas tipologias, aceite um conselho: compre um cão (daqueles mauzinhos).

terça-feira, agosto 09, 2005

A Razão Geométrica

geometrica
O facto de nunca ter gostado muito de geometria fez com que, a dada altura, me apercebesse que ela me perseguia irritantemente por todo o lado. Por vezes até invadindo o meu discurso, entrando sem pedir licença nas minhas frases, irrompendo sem convite nos meus pensamentos.
A geometria invadiu a linguística selvaticamente e hoje em dia dou por mim a utilizar termos que sempre me enervaram.
Sempre que olho para o outro ângulo das questões; sempre que ponho as coisas em perspectiva; sempre que estabeleço paralelismos; sempre que torno a pôr as coisas nos eixos; ou que me apercebo de assimetrias; sempre que peço coordenadas, ou que levo as coisas para outro plano, que me dá um prisma diferente, um outro grau de conhecimento, ou de surpresa...
Os termos «geométricos» surgem tão espontânea e inconscientemente que muitas vezes nem damos por eles. E nalguns casos não fazem sentido nenhum: porque razão dizemos «círculo de amigos»? Existirá alguma obrigatoriedade de nos dispôrmos em círculo quando estamos com amigos? Não podemos assumir outras formas de estar? Para quebrar a monotonia podíamos inventar formas diferentes – um polígono de amigos hoje, um equilátero de amigas amanhã. Agora ser sempre um círculo é algo monótono não?
E o que dizer dos triângulos amorosos? Não podem ser rectângulos amorosos? Ou mesmo losangos amorosos? É claro que a cama teria de ser maior, mas e daí?
Até a blogosfera é um termo estranho, com laivos de geometria. Blogosfera sugere alguma coisa esférica, redondinha, galileiliana... qualquer dia ainda me aparece aí um maluco qualquer a dizer que a blogosfera é redonda. Porque não chamá-la de blogocúbica? Até é capaz de ser mais giro se fôr blogocúbica: tem mais ângulos, tudo faz mais ricochete.
Seja como fôr, sempre que penso em geometria fico com a desagradável sensação de estar a ter um discurso quadrado. Tudo isto num plano retórico, claro; numa perspectiva meramente individual, naturalmente.
Bolas....

segunda-feira, agosto 08, 2005

A Razão Disléxica

dislexica
Madur a loczalaição das lteras denrto de cdaa pralava não lhe rteira o seu siginafcdio. O nssoo crbéero tem a cuorisa cadpiacade de voatlr a reruaarmr a plvraaa da maeirna qeu inicaenitmlce anpreedu, de mdoo a obetr o seu sigicdafino. A descorebta, fio fetia plea Uinsvesriadde de Cmabgirde, e levotna ourto tpio de qstueões sbroe o siginafcdio das cosias qeu exprssemaos em froma de prvaalas. A obçrevasão fisofilóca que me orroce é qeu cdaa pralava céntom em si o sue sniaidcfigo inedneemnentdepte da frmoa cmoo amorramus as lerats qeu cõpmeom asse prlaava: um labgreo sreá smrepe um labgreo, por mias dsifraaçdo qeu eestja… asse é que asse.

domingo, agosto 07, 2005

A Razão do Capital Humano

capitalhumano
Um recente estudo do Deutsche Bank afirma que, durante os próximos 15 anos, Portugal terá o capital humano mais baixo da Comunidade Europeia.
Pessoalmente, acho que não havia necessidade de enxovalharem o Dr. Marques Mendes desta maneira.
Foto daqui.

sábado, agosto 06, 2005

A Razão Sadomasoquista

sadomasoquista
A palavra «Seguros» está para medo, como as palavras «Finanças» e «Segurança Social» estão para terror. Quando falamos em seguradora, por mais incrível que pareça, não nos sentimos seguros, muito pelo contrário: assumimos um ar desconfiado e inseguro, porque sabemos que estamos a ser assaltados, abrimos a carteira e, com um peso na alma, desembolsamos.
A relação que temos com estas instituíções comparo-as com algum tipo de relação sadomasoquista, iniciada de forma a tentar alegrar a coisas, mas sem grande sucesso.
Deixemos de lado termos, palavras, e passemos à acção: o sadomasoquismo é uma prática sexual, em que o prazer é obtido através do acto de infligir e sofrer dôr. A relação com as «Finanças» e «Segurança Social» são puros exercícios de sadismo. No dicionário, sadismo vem definido como «(...) instinto sexual em que a satisfação (...) só pode alcançar-se (...) com a perversão que consiste em tirar prazer do sofrimento alheio». E não é exactamente isto que o Estado faz?
Com os seguros a coisa é diferente. É uma relação de puro sado-masoquismo.
Os adeptos desta prática sexual dividem-se em dois grupos, nomeadamente os dominadores ou mestres e os escravos ou submissos. Estes últimos, tal como o nome indica, são os que sofrem, que são maltratados física e psicologicamente. Já os dominadores são os que fazem sofrer, têm um papel activo na relação e só atingem o orgasmo inflingindo a dor no outro.
Eles dizem «paga» ...Não é obrigatório, mas pagamos.
E nós pagamos uma apólice que nos garante que se formos raptados por extraterrestres num dia par de um ano bissexto, ser-nos-à pago 3 anos depois o valor definido, sem antes termos gasto 4x mais por protestarmos aquilo que temos a receber. É masoquismo sim, porque sabemos que a probabilidade de acontecer é mínima. É sadismo sim, porque as seguradoras sabem que a probabilidade de acontecer é mínima.
O que mais me intriga nas seguradoras, são os nomes de algumas delas. Ora vejamos:
Tranquilidade; Bonança; Fidelidade; Liberty.
São tudo nomes de coisas boas, com as quais no sentimos protegidos...até ver, claro. Outra coisa que me intriga nos seguros é o termo «prémio».
E como definição de prémio temos:
«do Lat. praemius. m., recompensa; galardão; remuneração; distinção conferida a quem se torna notado por trabalhos ou méritos; ágio; juro»;
até aqui tudo bem, mas depois, na salvaguarda, também diz: «prestação que o segurado efectua em favor da companhia seguradora como contrapartida do direito de indemnização».
E como prémio de não termos sido raptados, de não termos espatifado o carro, não ter pegado fogo à casa, de não termos sido assaltados, o prémio aumenta e nós pagamos mais. Juro que não entendo. É a mesma coisa que irmos para a cama com uma pessoa e descobrir, tarde demais, que ela é sádica...

Um post de Ana de Neon em exclusivo para a Razão

sexta-feira, agosto 05, 2005

A Razão da Obra Pública

obrapublica
A OTA e o TGV não são aquilo que parecem. Se alguém achar que o Governo está a ser inconsequente nestes dois projectos está enganado. Tudo isto faz parte de um grande desígnio nacional que os cavaleiros da távola redonda (esse grupinho naife de 13 economistas de todos os quadrantes políticos), falharam redondamente em identificar. Analisando as características de ambos os projectos vemos que o ambos têm em comum é o facto de contribuírem para transportar, de um modo bastante rápido, muita gente para fora do país. É claro que o Governo mascara a situação dizendo que a óptica é puramente turística, mas o que se está aqui a passar é o Muro de Berlim, só que ao contrário. Os gajos querem é que a malta se vá embora daqui. E rapidamente!

quinta-feira, agosto 04, 2005

A Razão do Autarca

autarca
Esta polémica toda sobre a OTA e o TGV deixa revelar que o governo é gerido por gajos com mentalidade de autarcas. Dentro de cada ministro há um autarca a querer saír e a fazer a merda do costume.
Sobre a OTA e o TGV falarei com mais detalhe amanhã. É uma conspiração tenebrosa que merece ser revelada com alguma solenidade.
Hoje vou dedicar-me aos autarcas e às suas razões. O político de autarquia está para o político nacional como a fisga está para a catapulta: ambos arremessam projécteis, mas uns fazem mais merda que outros. É tudo uma questão de dimensão.
Fazer merda em grande escala é uma característica de perfil que auspicia um futuro glorioso na liderança dos destinos da nação – um autarca típico não tem a capacidade intelectual nem financeira para dar cabo da economia do país com uma OTA ou com um TGV. O autarca local é, como a própria designação implica, um gajo que faz merda a um nível muito restrito. Tanto autarcas como políticos gastam o dinheiro dos contribuíntes em aleivosias disparatadas. Mas no caso dos autarcas são aleivosiazinhas, disparatezinhos, pequenos insuflares de egozinhos. É o Portugal dos Pequeninos da política. É a cabotinice provinciana que, quando atinge limites para além do normal, culmina na fuga para o Posto 6 de Copacabana, ou na participação em reality shows de qualidade sempre duvidosa. Mas na maior parte dos casos os autarcas ficam-se pelas rotundas e pelos semáforos. Autarca que não tenha construído umas belas rotundas e plantado uns belos semáforos não pode ser digno dessa função. É uma espécie de mijinha do cão para a posteridade, para um dia puderem dizer aos netos: «Estás a ver ali aquele semáforo? Foi o avô que o pôs lá!» E a criancinha olha esgazeada para o semáforo a tentar imaginar como é que aquela fraca figura teve força de levar aquilo em ombros para ali.
Um post dedicado aos semáforos da cidade algarvia de Lagos.

quarta-feira, agosto 03, 2005

A Razão da Lobotomia

lobotomia
Christine Johnson, uma bibliotecária de Nova Iorque, quer que a academia sueca retire o Nobel da Medicina atribuído a Egas Moniz em 1949. A questão foi despoletada com a publicação de um estudo que demonstrava que a técnica da lobotomia, desenvolvida por Egas Moniz em 1936, apenas ajudou 10% dos 50.000 norte-americanos que foram lobotomizados entre os anos 30 e 70. A avó de Christine Johnson faz parte do grupo de 90% que passou a babar-se descontroladamente e a gritar «Ninguém é de ninguém!» em cada 15 minutos.
Esta exigência de Christine Johnson leva-me a perguntar porque é que não lobotomizaram também os seus pais? Ter-nos-ia poupado a mais uma demonstração de estupidez e ignorância só dignas de um orgulhoso exemplar do povo americano.
Tentei explicar a Christine Johnson no seu blog, que Egas Moniz não ganhou o Nobel pela descoberta da lobotomia, mas sim pelo desenvolvimento da Angiografia Cerebral, coisa que se demonstrou irrelevante porque no
blog desta red blooded american girl não são permitidos comentários de estranhos: típico dos burgessos norte-americanos, centrados na sua própria ignorância.
Se não fosse tão tacanha, a menina teria aprendido que antes de Egas Moniz ter inventado a angiografia não era possível detectar disfunções no cérebro (os Tacs surgiram muito mais tarde), e qualquer raio x que se fizesse ao cérebro mostrava apenas uma massa indistinta. Graças à angiografia (que consiste em introduzir, através da carótida, um líquido luminoso que acaba por «iluminar» o cérebro permitindo detectar as suas texturas) foi possível encetar uma série de tratamentos, entre eles a lobotomia.
Mas já que a bibliotecária Christine Johnson está tão interessada em honrar a memória da babosa da sua avó, retirando o Nobel a Egas Moniz, talvez seja melhor passear pela secção de história contemporânea da sua biblioteca, e ler o que os seus compatriotas do Manhattan Project fizeram em Hiroshima e Nagasaki em Agosto de 1945. Talvez Christine Johnson se lembre também de honrar as memórias dos mais de 200.000 homens, mulheres e crianças mortas nos dois ataques nucleares, e exija que se retire o Nobel a Albert Einstein.

terça-feira, agosto 02, 2005

A Razão de ter Ar

ar
Ter ar é uma condição determinante para existirmos, quer numa perspectiva biológica, quer numa perspectiva social. Vou debruçar-me aqui apenas sobre o lado social do ar, e deixar o ar biológico para os entendidos (nunca liguei nenhuma a biologia e não é agora que lhe vou dar importância).
Tal como um balão de feira, o indivíduo que preza viver em sociedade rodeado de outros indivíduos precisa de ter ar. O ar dita a imagem que esse indivíduo projecta, consciente ou inconscientemente, nos outros.
Há especialistas em desenvolver ar, e há outros que são estão nas tintas para o ar – seja para o seu ar, seja para o ar dos outros. Ter ar é um processo evolutivo: começa normalmente na adolescência, onde o indivíduo se encontra normalmente bastante confuso sobre que ar deve ter, e acompanha-o de uma forma bem mais definida na vida adulta, até chegar à terceira idade, onde há coisas mais prementes para pensar do que no ar.
Ter ar é um manifesto da individualidade. O nosso ar determina a maneira como os outros olham para nós. A quantidade de ares é quase proporcional à quantidade de indivíduos. Temos os indivíduos com ar sério, os que têm um ar divertido, os que têm um ar de estúpidos, aqueles que têm ar que não estão a pescar nada, os que gostariam de ter um ar de importante, os que irritam com o seu ar autoritário, os que despertam sentimentos protectores com o seu ar perdido, os que têm um ar convencido, os que têm um ar sedutor. Olhem à vossa volta, e encontram ares de todas as formas e feitios – todos eles têm uma função elementar: dar-nos uma existência social.
O ar desenrasca-nos em muitas situações ao longo da vida: há alturas em que fazemos um ar entendido, embora não estejamos a perceber patavina; ou outras em que fazemos um ar interessado, muito embora o interesse seja nulo; ou quando fazemos um ar desentendido, quando não queremos ir por ali. O ar lá nos vai safando... e o truque é nunca termos faltas de ar. Cuidado asmáticos!

segunda-feira, agosto 01, 2005

A Razão do Perfume

perfume
Falar de perfume é um inebriante e estimulante exercício evocativo de sensações entrelaçadas de almíscar e alfazema, trespassadas por bergamota, com pequenos apontamentos de zimbro e cravo de Madagascar; é um imaginário salpicado de lavanda, polvilhado de canela do oriente, e avivado por patchouli com ligeiras notas de cedro.
Falar de perfume é, em suma, falar de merda, e de como disfarçar o seu cheiro. Foi essa a motivação daquele povinho ridículo que fala com a boquinha em «U», quando um dia percebeu que podia disfarçar o cheiro a mijum e a sebo que adquiriam por não gostarem de se lavar.
É claro que o conceito de perfume evoluíu muito desde a sua criação, o mesmo não se pode dizer dos franceses, que continuam com uma aversão animalesca à água e às suas propriedades higiénicas. Mas não percamos muito tempo com eles, para que a conversa não comece a cheirar mal.
Detenhamo-nos um pouco sobre as propriedades afrodisíacas do perfume. Um perfeito mito. Dizem que determinados perfumes estimulam o apetite sexual e tornam irresistível o seu utilizador. Convém no entanto realçar que isto só se verifica quando o utilizador apresenta uma fisionomia de características generosas, ombreando com qualquer Naomi Campbell, Heidi Klum, ou Jessica Alba. Vaporize-se com DKNY uma rapariga de 150kg e nem por isso ela terá uma noite mais preenchida.
Analisemos a função do perfume com mais detalhe: a sua utilização serve para realçar aspectos de personalidade, enriquecendo-a e tornando-a mais apetecível aos olhos (ou narizes) dos outros? Ou é simplesmente uma roupagem virtual destinada a cobrir cheiros de origem animal que tornariam qualquer engate de sábado à noite num suplício digno de uma prisão turca? Pessoalmente inclino-me mais para a segunda hipótese, embora conheça gente que só tem personalidade entre as 8 e as 9h da manhã, altura em que o perfume ainda faz efeito.
E o que dizer sobre a origem vegetal de todos os perfumes? Porque diabo não há perfumes de origem animal? Qual é o problema de cheirar a cavalo lusitano entrecortado com sândalo? Ou de cheirar a antílope em pleno época de cio com pequenos apontamentos de cidreira? Será por puro preconceito que alguém evita usar um perfume de boga do Guadiana? Ou mesmo de caboz de água doce?
Uma coisa é certa, os franciús têm uma fixação esquisita com vegetais. Resta saber se lhes tiram as cadeiras de rodas antes de os transformarem em essências aromáticas.

sexta-feira, julho 29, 2005

A Razão Oculta

oculta
Sempre me interessou o oculto.
Por isso não percebo o fascínio pelas praias de nudismo.

quinta-feira, julho 28, 2005

A Razão Bipolar

bipolar
Os governos que se sucedem em catadupa, nesta novela mexicana a que simpaticamente chamamos de país, gostam de nos presentear com meias medidas para resolver o caos e a desordem económica e social, conseguidas com anos e anos de desleixo e incompetência. Um exemplo recente é o aumento do IVA: sabemos que não vai resolver coisa nenhuma porque o seu efeito mais imediato é reduzir o consumo e, consequentemente, a receita.
Estas meias medidas contrastam com a nossa mais evidente característica nacional: o povo português é bipolar. Num minuto somos os maiores do mundo, e no minuto seguinte somos umas verdadeiras merdas intergalácticas que mais valia termos servido de combustível para o big bang.
Não conhecemos meios termos. Somos uns verdadeiros interruptores, umas vezes no «on», outras vezes (a maior parte delas) no «off». A nossa auto-estima nacional assemelha-se a um electrocardiograma a captar os efeitos de um defibrilhador.
A coisa é bastante ridícula quando olhamos de fora. Recuemos um ano atrás para observar o comportamento dos portugueses face à sua selecção nacional: quando começou o Euro 2004 ninguém acreditava, nem deixava de acreditar, que Portugal fosse muito longe. Quando fizemos o jogo de abertura com os gregos e perdemos, ficámos com certeza absoluta que tínhamos uma equipa de merda. Três jogos e alguns milhares de bandeiras mais tarde já estávamos no extremo de achar que íamos ser campeões europeus. E depois perdemos outra vez com os gregos. Auto-estima rasteira de novo.
Outro exemplo: o governo de Santana fez-nos acreditar que o país estava virado do avesso, o que explicava as dores nas costas de muita gente. Quando Sócrates ganhou as eleições (e o país continuou virado do avesso) todos os problemas acabaram porque tinha chegado um novo senhor, muito competente, que ia tratar de resolver tudo. O simples facto de Sócrates ter sido eleito já foi suficiente para deixarmos de nos preocupar. E depois foi o que se viu. Auto-estima rasteira outra vez...
Esta incapacidade de atingirmos o equilíbrio faz parte da nossa nacionalidade. Se fôssemos sempre os maiores seríamos espanhóis (com toda a megalomania imbecilóide inerente); se fôssemos sempre uma merda seríamos luxemburgueses ou belgas, os povos mais cinzentos e desinteressantes da Europa (o primeiro deles está curiosamente atestado da maior comunidade emigrante portuguesa).
Feliz ou infelizmente, a bipolaridade é o que nos faz portugueses. Ninguém nos pode acusar de sermos um povinho monótono.

quarta-feira, julho 27, 2005

A Razão do Bidé

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Existem objectos no nosso quotidiano que são perfeitamente inúteis ou redundantes. Simplesmente porque estamos tão habituados a conviver com eles, não nos apercebemos da sua irrelevância (agora que penso nisto também posso dizer o mesmo de algumas pessoas, mas isso fica para outra Razão).
O bidé é um dos objectos mais estúpidos do planeta – o que não é de admirar se pensarmos que foi inventado por um dos povos mais imbecis à face da terra: os franceses.
Só um povo que não gosta de se lavar poderia ter inventado o bidé (e os perfumes, que têm uma ligação directa com a utilização do bidé – é que lavar os sovacos num bidé não dá assim muito jeito).
O que faz um bidé que não faz melhor uma banheira ou um chuveiro? Para não falar das posições ridículas que fazemos sentados num bidé...
O bidé é o corolário da cultura francesa: uns porcos arrogantes e mal cheirosos, interessados em lavar apenas as partes baixas.
Estou tentado a fazer um take over hostil ao Club Mediterranée, e a substituir todos os bidés por agulhetas de bombeiros; mas tenho medo que depois de lhes tirar a merda toda que têm em cima, não reste nada daquele povo ridículo que fala com a boquinha em «U».

terça-feira, julho 26, 2005

A Razão do Guinness

No último fim de semana passou por mim uma carrinha que anunciava «O Maior Gaspacho do Mundo – 4.500 litros numa só panela». O evento teve lugar em Cercal do Alentejo e visava estabelecer um recorde para o Livro de Recordes do Guinness.
É curioso ver como os recordes portugueses do Guinness estão recorrentemente ligados ao acto de comer:
- A maior feijoada do mundo
- O maior pão com chouriço do mundo
- A maior caldeirada do mundo
- O maior logotipo humano do mundo (com este comemos os espanhóis mais a sua candidatura ao Europeu de 2004).
Esta ligação dos nossos recordes a uma necessidade básica lembra-me de
Maslow e da sua Pirâmide de Necessidades Humanas. Dizia ele que o indivíduo procura preencher um conjunto de necessidades que têm uma hierarquia específica: primeiro tem de assegurar as necessidades básicas, de índole fisiológica (comer, dormir, procriar, pela ordem que estivermos mais virados na altura); asseguradas estas, passa para outro nível de necessidades que se prendem com a segurança, a pertença e a aceitação social (é nesta fase que muitos se sentem impelidos a comprar o kit de sócio do Benfica); quando este nível de necessidades está cumprido, passa ao nível seguinte, a necessidade de poder. Nesta fase o indivíduo quer mandar e ser obedecido. Surgem nesta altura os pequenos poderes, que bem conhecemos atrás de um qualquer balcão de atendimento de uma qualquer instituíção da Função Pública. Finalmente atinge-se o topo da pirâmide com a necessidade de prestígio – fase em que o indivíduo quer ser reconhecido socialmente por um qualquer feito que tenha realizado. O Zézé Camarinha é um exemplo vivo desta fase: o homem quer que lhe reconheçam a façanha de ter disseminado os seus genes pelos reinos da Dinamarca e da Coroa Britânica (daqui a duas gerações estima-se que 2 em cada 3 dinamarqueses ou britânicos descendam directa ou indirectamente de Zézé Camarinha).
Voltando ao tema dos nossos recordes do Guinness eu concluiria que Portugal ainda está no seu grau zero da hierarquia de necessidades: enquanto os americanos estabelecem recordes que contribuem para aumentar o seu prestígio, como o primeiro homem na lua, ou o prédio mais alto do mundo, os portugueses limitam-se a morfar feijoada em cima de uma ponte, ou a javardarem-se todos dentro de uma panela de gaspacho. É tudo uma questão de necessidades...

segunda-feira, julho 25, 2005

A Razão Monárquica

Duarte Pio João Miguel Gabriel Rafael de Bragança afirmou numa recente entrevista que se sente «rei dos portugueses».
Inexplicavelmente, este pateta alegre continua a ter espaço nos media para poder presentear os seus «súbditos» com aleivosias deste tipo.
Que eu me lembre, este senhor pertence à Casa de Bragança, uma família real conhecida, entre outras coisas, por ter uns cromos difíceis:
Maria a Louca, que tinha este apelido porque via e dizia coisas inenarráveis – felizmente que na altura não existiam revistas que a entrevistassem.
João, o rei que se borrou todo e abandonou o seus país na eminência da invasão napoleónica, fugindo para o Brasil com toda a corte (cerca de um milhar de maduros), replicando do lado de lá o reino de pacotilha que tinha por cá.
Pedro, filho de João, que provocou a independência do Brasil e se autoproclamou Imperador daquelas bandas. Um gajo tão limitado intelectualmente que levou ao desespero os seus súbditos tropicais, tendo sido deposto e recambiado de volta para Portugal.
Ora se os Braganças têm na sua linhagem fracos exemplos de liderança e fartos exemplos de loucura, cobardia, incompetência, e total ausência de responsabilidade, porque raio é que eu tenho de levar ciclicamente com a gonorreia mental desta real alimária? Alguém explica ao senhor as virtudes ergonómicas de uma guilhotina?

sexta-feira, julho 22, 2005

A Razão a Nú

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O humor é a razão enlouquecida.


Groucho Marx

quinta-feira, julho 21, 2005

A Razão Criteriosa

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O tipo de humor que aprecio é aquele que me faz rir durante cinco segundos e pensar durante dez minutos.
William Davis

quarta-feira, julho 20, 2005

A Razão Genial

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Toda a gente é genial pelo menos uma vez por ano. O que os distingue dos verdadeiros génios é que estes últimos têm as suas ideias brilhantes em períodos menos espaçados.
Georg C. Lichtenberg