terça-feira, abril 26, 2005

A Razão do Caso

caso

Há palavras lixadas no vocabulário nacional. Daquelas que têm tantos sentidos que deixam um estrangeiro esquizofrénico e só são entendidas em contexto pelos nacionais porque na realidade a esquizofrenia faz parte da nossa portugalidade. "Caso" é uma dessas palavras. A aplicação desta palavra em contextos diversos assume significados múltiplos que só os portugueses conseguem descodificar.
“Ter um caso”, por exemplo, implica necessariamente a presença de alguém que partilha esse caso connosco. Para se ter um caso, tem que se ter um caso com alguém. Nunca se pode ter um caso sózinho, ou na pior das hipóteses pode-se, mas teremos simultaneamente de “ser um caso clínico”.
Quando dizemos “um caso sério” já não estamos a falar de relações fortuitas entre pessoas, porque “ter um caso” é algo que, supostamente, não é sério. Se fosse sério não seria um caso. Seria uma relação. Isto significará portanto que qualquer relação é “um caso sério”.
“Não fazer caso” é algo que fazemos sózinhos sem que nos acusem de padecer de qualquer desarranjo mental desviante. Mas é algo que não podemos fazer numa relação sob pena de nos acusarem de falta de atenção. Se tiverem uma relação, sigam este conselho: façam muito caso, mas daquele sério ok? Porque se fôr do outro não terão essa relação por muito tempo. Adiante…
“Estar a trabalhar num caso” não significa estar a arrastar a asa a alguém. Implica desenvolver um profissão normalmente ligada à área jurídica, ou de investigação policial. Se ter um caso é algo que se desenvolve como exercício de lazer, trabalhar num caso implica uma especialização profissional.
O caso também pode ser entendido como causa para um determinado efeito. E aí chama-se “caso para isso”. Por exemplo, um homem descobre que a sua mulher teve “um caso” com o padeiro, fica muito enervado, acha que aquilo é um “caso sério” e fica prontinho para arrear um camaçal de porrada naquele cabrão enfarinhado. É nessa altura que um amigo lhe diz “Oh pá, não é caso para para estares tão enervado, deixa lá as coisas connosco que a gente esta noite rebenta-lhe com a padaria toda”. Se o cornudo “não fizer caso”, alguém no dia seguinte vai “trabalhar no caso” da padaria que implodiu no centro da cidade. E explicar isto tudo a um estrangeiro?

segunda-feira, abril 25, 2005

A Razão da Moda

moda
Não existem razões funcionais para que um automóvel mude de forma constantemente. Obedecendo ao princípio de que a forma está subjugada à função, cada Chrysler era fabricado com um tecto alto, de modo a que se pudesse usar chapéu enquanto se conduzia. Naquele tempo as pessoas finas usavam chapéu. Resistindo à tendência de comercializar automóveis mais rasteirinhos e esguios, o patrão da Chrysler chegou a afirmar que "fabricava carros para as pessoas se sentarem neles, e não para mijarem em cima deles" (sic). A Chrysler quase faliu por ter ficado fora de moda.
A moda, como sabem, é algo que rapidamente fica fora de moda. É uma atracção efémera por um estilo particular, numa altura específica, por um determinado número de pessoas. É uma atracção deliberadamente criada com intuitos comerciais por seres inexplicavelmente perversos, à semelhança daqueles milhares de chineses que decidiram usar aquelas batas Mao Tse Tung do avesso.
Os autores de Recueil de Décorations Intérieures, uma obra escrita durante a Revolução Industrial, queixavam-se que a moda era ditada pela produção em massa agravada por uma obsolescência compulsiva - um efeito atribuído à comercialização selvática a que já nos habituamos. Mais recentemente, numa feira de mobiliário em Milão, um dos participantes anunciou pomposamente o lançamento de um novo modelo de cadeira: "uma cadeira onde nos podemos sentar!" E depois desatou a elaborar "... alusiva de uma forma tipologicamente tradicional, esta cadeira é um objecto hermeticamente concebido como um símbolo profundamente enraízado no nosso passado".
Esta malta droga-se... Mas inequivocamente a moda torna-nos prisioneiros de um estilo e de uma época, numa espécie de vida suspensa tranquilizadora, e sem os sobressaltos de termos que penosamente decidir o que vamos vestir amanhã.

sexta-feira, abril 22, 2005

A Razão do Conclave

conclave
Esta razão vem um bocadinho fora de prazo, mas ainda assim não deixa de ser uma boa razão. Passei a última semana a ouvir falar do conclave dos cardeais do Vaticano sem saber exactamente o que o termo significava. Isto até um amigo italiano me ter explicado a razão do conclave, que vou generosamente, à boa maneira cristã, partilhar convosco.
Há alguns séculos atrás a sucessão do Papa não resultava de um comité de cardeais esclerosados a resvalar para um caixão. Não... o Papa era designado pela nobreza. Os nobres é que decidiam quem ia passear no papamóvel. Como a corrupção era mais que muita, e os reis eram obrigados a pagar uma pipa de massa ao seu candidato (um bocadinho à semelhança do financiamento das campanhas eleitorais hoje em dia), a nobreza decidiu que já não estava para dar de mamar a meninos e decretou que o próximo Papa seria designado pelos seus pares. Os cardeais teriam que chegar a acordo e eleger um deles para gerir os destinos de todas as alminhas perdidas deste mundo. E assim foi: os cardeais deliberaram, deliberaram, deliberaram... e os meses foram passando. Seis meses depois ainda estavam os gajos a deliberar. A nobreza, que já estava farta da inépcia natural da Igreja em tomar decisões por conta própria, decidiu então acelerar o processo. Para fazer com que os cardeais tomassem uma decisão rápida fechou-os
à chave na Capela Sistina e deixou-os por lá a pão e vinho até que tomassem a sua decisão. Milagre dos milagres, quiçá iluminados pela Divina Providência, os cardeais conseguiram, em 48 horas, chegar à conclusão de quem seria o próximo Papa. Estava criado o conclave.

Segundo o Bufas, eu fui enganado pelo italiano, e isto é tudo uma grandessissima e vergonhosa mentira.

quinta-feira, abril 21, 2005

Razão Perspectivada

perspectivada

Embora vejamos o sol nascer a Este e pôr-se a Oeste, sabemos hoje que são os anjos que laboriosamente fazem a terra rodar à volta do sol. Há muito tempo atrás toda a gente achava que era o sol que rodava em torno da Terra. Pessoalmente acho razoável ter-se acreditado que assim o era, uma vez que acordávamos todos os dias com o sol a nascer a Este e, enquanto íamos vivendo as nossas vidinhas, ele passava por cima das nossas cabeças para desaparecer a Oeste.
Enquanto algumas ilusões parecem reais, outras são sentidas como sendo mais reais.
A Terra roda sobre si própria todas as 24 horas à velocidade de 1.000 milhas por hora. E orbita em torno do sol à velocidade de 66.000 milhas por hora. Se juntarem as velocidades de rotação e translacção terão viajado 550 milhas desde que começaram a ler este post. Ou, pondo as coisas em perspectiva, vocês neste momento estão a viajar no espaço à velocidade de 18,5 milhas por segundo: mais rápidos que uma bala. Um bom dia para vocês.

Buckminster Fuller

quarta-feira, abril 20, 2005

A Razão Papável

papavel

Vi há uns dias na SIC os resultados de uma sondagem onde perguntavam aos telespectadores portugueses que nacionalidade é que estes achavam que o novo Papa devia ter. Surpresa das surpresas, a nacionalidade portuguesa foi a escolha de 82% dos telespectadores. Para uma sondagem imbecil temos aqui um resultado idiota. Porque raio existem 18% de inquiridos que não querem um Papa luso? Será porque desconfiam tanto do poder de gestão dos conterrâneos que nem para gerir as alminhas dão uma abébia a um tuga?
Seja como fôr acho que os portugueses são recorrentemente chamados a pronunciar-se sobre tudo e mais alguma coisa. E o pior de tudo é que se pronunciam mesmo, sem pudores, sobre os assuntos mais estúpidos: deverá o primeiro-ministro morar em S.Bento ou continuar a viver na sua casa? Deverá o presidente ingerir na governação do país a seu bel prazer e fazer jogadas políticas manhosas? Deverá o Mourinho vir treinar a selecção portuguesa antes ou depois do desaire do próximo Mundial? Deverá haver um próximo Mundial?
Por mais inconsequente que seja a sondagem, lá estão os portugueses a votar como se não houvesse amanhã, completa e boçalmentemente alheios à quantidade de dinheiro que gastam nos sms de resposta, e cientes que, qualquer que seja a conclusão da sondagem, a sua opinião não servirá para coisa nenhuma.
O que é estranho é não ver este empenho opinativo em situações em que a sua opinião pode mudar o curso das coisas: vejam-se as eleições legislativas e a quantidade de gente que se abstem de ir às urnas, vejam-se as eleições autárquicas com uma abstenção superior às anteriores, e mais grave, vejam-se os referendos nacionais e a fraca participação que estes têm. Na realidade os portugueses não querem sentir-se responsáveis. Votar em sondagens bacocas é porreiro porque dali não há-de vir mal nenhum ao mundo. Votar em coisas que podem mudar o estado das coisas é que não pode ser! Livra! Imaginem que a coisa dá certo? Os portugueses vão queixar-se de quê?

terça-feira, abril 19, 2005

Razão Equivocada

equivocada

Um homem morre e acorda num mundo estranhamente etéreo. Ao passear por ali descobre um velho com uma boazuda curvilínea sentada no seu colo. Lindissima.
"Isto é o paraíso" exclama o homem.
"Não" responde o velho "Isto é o inferno, e eu sou o castigo dela".

segunda-feira, abril 18, 2005

Razão Metafísica

metafisica

Barrem com manteiga uma fatia de pão. Atem a fatia de pão no lombo de um gato, deixando para cima o lado com manteiga. Atirem o gato pela janela. Cairá o gato de pé? Ou cumprir-se-à a Lei de Murphy?

sexta-feira, abril 15, 2005

A Razão da Correspondência em Cadeia

70000461

Há muitos muitos anos atrás, ainda o marketing era um conceito esquisito destinado a dar emprego a uma chusma de inúteis (interessante ver como ainda hoje este conceito não mudou) um empregado dos correios, ao ver que o número de correspondência diminuia a olhos vistos por causa da maior popularidade do telefone, teve uma ideia perversa: escreveu uma cartinha que viria a tornar-se um fenómeno de sucesso, assegurando o emprego de muito carteiro por esse mundo fora. A cartinha dizia, grosso modo, que era portadora de sorte a quem a lia e a enviava para 10 pessoas (incluíndo uma moeda de centavos, para dar um ar credível à coisa). Dizia também que quem não a enviasse iria ter uma incalculável maré de azar. Quem terminasse a cadeia de correspondência estava, em suma, condenado a ser um verme desgraçado para o resto dos seus dias, havendo dúvidas que pudesse, a partir daí, fazer uma vida normal sem utilizar roupa interior . O empregado dos correios foi promovido e altamente recompensado depois de, passados poucos dias do envio da cartinha, se começar a reparar no impacto que esta teve no aumento de correspondência. Ninguém queria cair em desgraça e toda a gente desatou a enviar cartas com moedas de centavos lá dentro.
O e.mail veio acabar com o império da cartinha maravilha. Temporariamente. Não tardou em que aparecessem novas variantes de “e.mails da sorte” que tramavam para o resto da vida quem se atrevesse a romper a cadeia. Ora a cartinha eu ainda percebo a razão da sua existência: os correios precisavam de facturar. O e.mail em cadeia não tem razão de existir, senão a de provar que ainda há papalvos que acreditam em tudo o que lêem. Se alguém tem dúvidas que não vai ser atropelado por um camião de oito rodados, nem que será incapaz de manter uma erecção por mais de 30 segundos, ou que toda a sua família será dizimada por um grupo dissidente de guerrilheiros xiitas, só porque interrompeu uma corrente de e.mails bacocos, fixem uma coisa: não é verdade, não vai acontecer, ok? Acreditem em mim. Relaxem.

quinta-feira, abril 14, 2005

Razões Provincianas

restricao

O Estado legisla contra o tabaco, primeiro colocando umas mensagens intrusivas nos maços de tabaco e em breve proibindo o consumo de tabaco no local de trabalho.
Isto é uma grandessíssima bandalheira, meus senhores! A questão dos avisos nos maços de tabaco é, no mínimo, tendenciosa e ridícula. Se querem alertar o consumidor para os malefícios do tabaco, porquê parar por aí? Até parece que o tabaco é o único bem de consumo que mata. Seguindo este raciocínio didáctico do Estado eu acharia bem que os produtos ostentassem avisos semelhantes aos do tabaco, ocupando cerca de 40% das embalagens. Os automóveis, por exemplo, saíriam de fábrica com avisos em todas as portas: “Conduzir Mata!”, “Se estiver grávida não acelere muito”, “Os transportes públicos podem ajudá-lo a deixar de conduzir”; as garrafas de água, que também podem ser um bem de consumo perigoso, ostentariam enormes avisos de saúde no rótulo: “Beber água em excesso afoga!”; os aviões: “Voar pode Matar”; “A probabilidade de você sobreviver à queda é minúscula”; “Se o Estado quisesse que você voasse tinha-lhe dado asas”; os lápis: "Espetar isto num olho pode causar cegueira e morte dolorosa (por esta ordem)". E assim por diante.
Não fumar no local de trabalho também é uma medida de suprema inteligência. Como tudo pode ser considerado o local de trabalho de alguém, vai chegar a um ponto em que só poderemos fumar em casa. Fumar nas ruas vai deixar de ser possível, uma vez que as ruas são o local de trabalho das prostitutas e dos chuis da ronda. O mais provável, se acendermos um cigarro numa esquina, será levarmos com um polícia a dizer-nos que não podemos fumar num local de ataque.
O Estado português é do mais provinciano que existe no que toca a adoptar medidas europeias. É leonino. Implacável. Eficiente. Pena que não seja implacável e eficiente a implementar medidas que tornem os portugueses mais parecidos aos europeus no que respeita a poder de compra, educação, e segurança social. Onde realmente interessa, o Estado português é perfeitamente incompetente.

quarta-feira, abril 13, 2005

A Razão da Reunião

reunião

Em Portugal, a forma mais prática de não se tomar qualquer decisão é promover uma reunião. Por isso é que o país se arrasta penosamente de crise em crise, afogado em reuniões que justificam o salário de quem as faz, mas que não resolvem absolutamente nada.
Portugal sofre de reunite, um mal que dita que não há urgência que não possa esperar 15 dias, ao ponto de deixar de ser urgência porque se acabou por resolver por si. A razão da reunião é muito simples: é empatar o processo de tomada de decisão a um ponto de já não fazer sentido tomá-la. Na génese do processo está a incapacidade, e a falta de vontade de se tomar a decisão, porque ao fazê-lo poderemos estar a comprometer qualquer coisa no nosso futuro. Assim não corremos o risco de sermos acusados de tomarmos uma má decisão.
E depois a reunião dá uma ideia ilusória de que estamos a trabalhar: fechados numa sala de reuniões a discutir o sexo dos anjos, e a justificar um salário, os portugueses sentem-se úteis, independentemente se no final do dia se chegou a alguma conclusão. Aliás, a conclusão mais obtida em Portugal é que se tem de fazer outra reunião para esclarecer o que ficou por concluir, e assim até ao infinito. Por isso, quando ouço o Sócrates dizer que a primeira medida que tomou quanto à posse ilegal de armas de fogo é fazer uma reunião, fico descansado: vou poder continuar a manter a minha bazuca sem que ninguém me chateie.

terça-feira, abril 12, 2005

A Razão da Tourada

tourada

Quando analisada e descrita sob uma perspectiva turística, a tourada é considerada uma afirmação de virilidade e supremacia física do homem face à besta. Para mim a tourada é a prova cabal que a estupidez e a bestialidade humanas não só não têm limites, como gostam vaidosamente de exibir essa evidência.
Não sou nenhum fundamentalista dos direitos dos animais: gosto do belo bife e da suculenta bifana, e não entro em depressão quando mando abaixo um fondue de carne, mas decididamente não gosto de tourada.
Somos muito lestos a julgar a crueldade humana quando ela é exercida sobre humanos. Montamos verdadeiros espectáculos mediáticos para difundir a sua punição exemplar: aquele que normalmente me vem à cabeça é o julgamento dos nazis em Nüremberg, mas há muitos outros “nürembergers” por aí. No entanto desculpabilizamo-nos à brava quando a nossa crueldade é glorificada, espectacularizada, e aplicada nos animais. Até parece que o facto de termos um cérebro mais desenvolvido nos dá o direito de acharmos que tudo isto nos pertence. A tourada é só um exemplo deste abuso de inquilino. Um exemplo circunscrito a Portugal e Espanha e a mais umas quantas novelas sul-americanas (estou a excluir a tourada com velcro no Norte da Califórnia, porque isso já nem se pode considerar tourada).
Sinto uma compulsão irreprimível de pontapear repetidamente as gengivas de quem me diz que a tourada portuguesa é mais “humana” que a espanhola porque (alegadamente) não matamos o touro. E quando surge a recorrente polémica bacoca dos touros de morte em Barrancos, só me apetece tornar S. Bento numa Pamplona, e fazer uma largada de touros no parlamento. Mais “humana”?? A tourada portuguesa é uma tourada apaneleirada!
Em Espanha os cornos dos touros não são protegidos; se acertarem no toureiro perfuram-no (e muito bem!). Em Portugal os touros são “embolados”, protegem-se os cornos para não ferirem ninguém. Mas que paneleirice é esta? Então não queriam provar a virilidade?
Em Espanha matam-se os touros na arena. Em Portugal não: depois de o sangrarem cobardemente com ferros e bandarilhas, salgam-lhes as feridas (alguém já uma vez colocou sal numa ferida? Experimentem...), e abatem-nos fora dos olhares alheios. E depois vêm dizer-me que é mais “humano” e ficam todos histéricos com os touros de morte de Barrancos...
Eu acho que a manter-se a estupidez da tradição tauromáquica se devia dar uma oportunidade ao touro. Em vez de fazerem as “pegas de caras” quando o touro já perdeu as suas forças, dilacerado e sangrado por aqueles bandalhos rabetas a cavalo, devia fazer-se a “pega” logo no início do espectáculo, quando o touro está fresquinho e vivaço, e ninguém o segura. E devia “desembolar-se” o touro, para a coisa ser a sério. Desconfio que a taxa de mortalidade dos participantes seria tão alta que rapidamente de decretaria o fim da tradição.

O primeiro mamífero que eu colocaria à frente do touro seria a Fátima Lopes, essa javardolas que gosta de animais peludos à boa maneira de Hannibal Lecter. O touro iria certamente ter muito gosto em toureá-la em profundidade, qual somali desenfreado, e sem mãos – só com os chifres. OLÉ!

segunda-feira, abril 11, 2005

A Razão da Improdutividade

produtividade

De tempos a tempos Portugal aparece mencionado numa daquelas estatísticas da comunidade europeia que comparam os índices de produtividade dos Estados Membros. Inevitavelmente ocupamos um lugar cimeiro no pelotão dos mais improdutivos. O que torna os portugueses o povo mais improdutivo da Europa? Será a nossa proximidade do Norte de África? (provavelmente seríamos os mais produtivos do Norte de África!) Será por sermos arraçados de árabes? Ou apenas porque somos uns madraços incorrigíveis?
Eu tenho uma perspectiva bastante clara sobre este défice nacional de produtividade: o problema reside no empresário português, esse mamífero que consiste num enxerto de comerciante de feira com um MBA no levantamento do copo. Por mais esforçado que seja, o trabalhador português não consegue contrariar a chusma de disparates cometidos pelo empresário tuga que lhe paga (até ver) o ordenado. E o que torna o empresário português uma verdadeira pérola da gestão de mercearia? Eis algumas características fundamentais:

O empresário tuga não tem empregados, tem filhos. Os seus colaboradores são tratados como a sua prole – com berraria, chapadas, castigos, e chorudas recompensas. Exige-se portanto um respeitinho que é muito bonito, porque senão dá-se-lhes um par de galhetas e não se facilita aquele chequezinho não declarado no fim do mês.

O tuga empresário não tem objectivos estratégicos mais profundos do que um copo de tintol meio cheio. Parafraseando um empresário tuga que tive o prazer de ouvir uma vez: “a estratégia é não ter estratégia!” (deviam ver a cara de anormal que ele colocou a dizer isto, a esforçar um ar de intelijumência).

Para o tuga empresário os objectivos são metas que escarrapacham aos olhos de toda a gente o quão incompetente ele é na gestão do seu negócio. Portanto é melhor que não se fale muito nisso. Para qualquer empresário tuga o objectivo é ganhar o mais possível, pagar o menos possível, fazendo o menos aconselhável.

O empresário tuga nunca tem lucro. Tem sempre um prejuízo do caraças, nem que para isso que tenha fazer umas lavagenzitas por uns países africanos de nomes impronunciáveis. Ter lucro significa ter que dar dinheiro ao Estado, e isso é considerado contra-natura. “Prefiro cagar um pé todo até ao pescoço” é normalmente a sua postura oficial quanto a esta questão.

O escritório do empresário tuga é a mesa do restaurante por volta das 17:00h, depois dos aperitivos, do petisco, do prato principal regado com um bom tinto, do segundo prato principal acompanhado com outro tinto, do terceiro prato principal com vinho a condizer, das diferentes sobremesas, e de alguns penalties de buísque ou de vagaceira, do charuto da República Dominicana, e de sete cafés. Completamente atafulhado de comida e com uma taxa de alcoolémia que embebeda qualquer ser vivo num perímetro de duzentos metros, o tuga discute negócios nos 10 minutos que antecedem a sua saída ziguezagueante do tasco.

O tuga empresário é fisicamente diminuído: gordo que nem um porco, com a barriga a resvalar-lhe para os joelhos e a suster uma gravata que parece uma rampa de lançamento das suas aleivosias abrutalhadas. Não pratica qualquer tipo de desporto. O colesterol entope-lhe as “beias caragu”. E está permanentemente sujeito a um enfarte que faça surgir o seu sucessor natural: o seu filho retardado, ou outro javardolas aciganado e sem a mínima noção do que é um P&L.

O tuga empresário confunde política de incentivos com entradas-livre no bar de alterne mais próximo. Motivação para ele significa montar um apartamento à São, a sua secretária.

Portanto quando voltarem a ouvir falar da pouca produtividade deste país, não levem a mal os trabalhadores portugueses. Esses coitados não têm culpa dos exemplos que vêm de cima.

sexta-feira, abril 08, 2005

A Razão da Idade (2ªParte)

mao

Reparo romanticamente que cada um de nós transporta na sua mão todas as idades humanas descritas no post anterior. Olhem para os dedos da vossa mão direita (olhem para a mão esquerda se forem canhotos):
O polegar representa a Idade da Mama. É normal ver a malta agarrada a ele, a chuchar.
O indicador, o nosso dedo mais inquisitivo, representa a Idade da Avaria. É ele que escolhemos para pressionar tudo e todos que se atravessam à nossa frente, provocando avarias várias ao longo da nossa vida.
O médio representa a Idade da Hormona Desenfreada. Penso que escuso de referir qual a razão. É evidente q.b.
O anelar, o dedo do compromisso, representa a Idade da Ilusão. Todos os compromissos, como teremos um dia a oportunidade de constatar, são pura ilusão.

E finalmente o mindinho, o mais frágil dos dedos, representa a Idade do Rododendro Equivocado. Não é um dedo particularmente útil nem activo, mas faz imensa falta.

quinta-feira, abril 07, 2005

A Razão da Idade (1ªParte)

idades

Se há um termo que me deixa perplexo é a “terceira idade”. Principalmente porque nunca ouvi qualquer referência à “primeira” nem à “segunda” idades. Como é que se processa esta ordenação? Isto cheira-me a coisa de sociólogos: são muito desenvoltos na estatística mas baralham-se com qualquer número que não tenha uma percentagem.
A outra questão que me coloco é se haverá uma “quarta idade”? Ou pelo menos se haverá tempo para isso? Duvido. Ninguém tem grande pachorra depois dos 80 anos. Isto de se numerarem as idades omitindo umas, e morbidamente destacando uma delas não me parece um bom método de classificação da longevidade humana.
E depois há aquela designação que é a “Idade de Ouro”, um sinónimo da “terceira idade”. E mais uma vez não há alusões a idades anteriores à do “ouro”. Ao menos os paleontólogos foram mais explícitos quando atribuíram metais aos vários estágios da evolução humana nos seus primórdios…
Uma vez que não está encontrada nenhuma razão plausível para a “terceira idade” ou para a “idade do ouro”, sugiro que se faça uma classificação decente do fenómeno do envelhecimento humano. Assim sendo, vamos considerar a exsitência de cinco idades:

A Idade da Mama
Inicia-se no nascimento e conclui-se no momento em que deixamos de mamar e passamos a apreciar coisas sólidas e mastigáveis. Há malta que nunca abandona esta idade e vai querer mama até ao fim dos seus dias: são os mamões, esses ordinarecos chupistas.

A Idade da Avaria
É uma fase de pura descoberta onde tentamos perceber a razão das coisas. É normal que nesta fase tenhamos que substituír vários electrodomésticos lá em casa, vítimas de dissecação e estropiamento mais ou menos violento.
Há malta que nunca abandonará esta idade e continuará em plena avaria até ao fim dos seus dias. Refiro-me obviamente aos políticos e à malta que ocupa cargos públicos.

A Idade da Hormona Desenfreada
Nesta fase descobrimos a nossa sexualidade e a de mais umas boas dezenas de pesssoas. Os casos mais extremos até descobrem a sexualidade de alguns animais. Uma verdadeira porcaria. Também aqui há uns quantos que nunca vão abandonar esta idade. O espécime mais paradigmático desta idade é o Zézé Camarinha.

A Idade da Ilusão
Esta é a idade mais longa. Aqui vamos querer provar a nós próprios e aos outros que temos uma qualquer habilidade: social, pessoal ou profissional. Alguns conseguem-no provar na sua totalidade. Outros não. Nesta idade a ideia de felicidade começa a tornar-se obsessiva, ao ponto de se esgotarem todos os cartuchos a tentar atingi-la. Eventualmente alguns irão entender que felicidade é um estado transitório que não augura nada de bom. Mas a maioria ficará na santa e salutar ignorância, a caminhar para um horizonte que se afasta à medida que nos vamos aproximando. A busca por esta linha do horizonte vai fazer com que uma grande maioria de nós passe por esta idade sem tirar verdadeiro partido dela. Azarito.

A Idade do Rododendro Equivocado
Chegamos então à idade mais lixada, por ser a última. Depois dela deixamos de ser convidados para a maioria das festas de aniversário. Os nossos interesses simplificam-se substancialmente nesta idade. Já ficamos satisfeitos se os nossos intestinos funcionarem uma vez por semana, e se a escoliose nos permitir tratar do rododendro (se bem que nos esqueçamos frequentemente do nome do raio da planta que diária e religiosamente regamos para matar o tempo antes que ele nos mate a nós).

quarta-feira, abril 06, 2005

A Razão dos Farmacêuticos

farmaceuticos
Os italianos têm a Camorra; os japoneses têm a Yakuza; os russos tem as suas Máfias; os chineses, as suas Tríades; os espanhóis, a Opus Dei; e os portugueses têm os farmacêuticos, esses balconistas que lidam com drogas e que controlam a saúde em Portugal. Qualquer negócio que consista na venda de drogas e consiga parecer legítima só pode ser gerida por seres perversamente inteligentes. Os farmacêuticos nacionais decidem quem pode entrar no negócio, quem pode expandir o negócio, quais os laboratórios que terão um bom ano de negócios, que médicos farão uma viagem de “trabalho” ao próximo paraíso tropical, e que saúde terão os portugueses este ano, com ou sem genéricos. Tudo isto sem um resquício de concorrência, e com o aval do Estado. Perto deles a Opus Dei é uma brincadeira de meninos endinheirados com uma estranha fixação em peúgas roxas.
Quantos escândalos envolvendo médicos são conhecidos? Alguns, porque a Ordem é forte. Quantos escândalos se conhecem envolvendo laboratórios? Muitos, mas mesmo muitos, porque a desordem é grande. E quantos escândalos se conhecem envolvendo farmacêuticos? Nenhum. Não é estranho?
Eu tenho uma teoria quanto a esta coisa dos escândalos: quando há dinheiro para todos é altamente improvável que surjam escândalos. Há uns tempos escrevi que a profissão com mais futuro em Portugal era a Agricultura, pois bem, a profissão com mais presente é a farmacêutica. Literalmente.

terça-feira, abril 05, 2005

A Razão da Tentativa e Erro

tenta&erra
Alentejo. Ano de 1728. Não consigo precisar com exactidão a localidade. O homem tinha à sua frente uma selha de febras de porco e dois valentes pães caseiros que tivera o cuidado prévio de fatiar. Olhava concentrado as febras e o pão há já algum tempo. Pegou em duas febras e colocou-as em cima da mesa, à sua frente. De seguida alcançou três fatias de pão que dispôs cuidadosamente em cima das febras, alinhando uma fatia a seguir à outra. Pensou num nome para aquilo. Arrifana pareceu-lhe bem. Com um ar satisfeito agarrou na arrifana e abocanhou-a generosamente. As febras sujaram-lhe os polegares e encheram-lhe o colo de gordura. Aquilo não podia ser.
Voltou a olhar, concentrado, e recomeçou. Desta vez colocou em cima da mesa uma febra, por cima desta acrescentou uma fatia de pão, e rematou com outra febra, cirurgicamente colocada por cima do pão. A coisa parecia que ia funcionar. Decidiu chamar aquilo de trifana. Bonito nome, pensou. Pegou na trifana e levou-a à boca, mastigando-a entusiasticamente. As duas febras que entalavam a fatia de pão deixaram-lhe as mãos completamente cobertas de gordura. Decididamente também não era aquilo.
Voltou ao início: pegou numa fatia de pão e colocou-a em cima da mesa, depois pegou numa febra e colocou-a rapidamente em cima do pão, cobrindo-a de seguida com uma segunda fatia de pão. Pegou naquilo e voltou a comer. Desta vez nem um pingo de gordura nas suas mãos. Era mesmo aquilo: tinha inventado a roulotte!!

segunda-feira, abril 04, 2005

A Razão do Destino

destino
A todos os que não consegui enganar, resta-me elogiar-vos a sagacidade e agradecer-vos a persistência. A Razão continua, é o seu destino.

O destino costuma estar ao virar da esquina. Como se fosse um gatuno, uma prostituta, ou um vendedor de lotaria: as suas três encarnações mais batidas. Mas o que o destino não faz é visitas ao domicílio. É preciso ir atrás dele.

Carlos Ruiz Záfon

sexta-feira, abril 01, 2005

Razão Final

The End
Há uns tempos li não sei onde que a duração média de vida de um blog é de quatro meses. Na altura tinha acabado de criar a Razão e achei que ia postar até ao infinito. Não ia ser apanhado por uma estatística, de certezinha absoluta! E então a coisa começou a acontecer: comecei a sentir uma compulsão danada por “postar”, apetecia-me postar em todo o lado e ficava furioso quando não o conseguia fazer. Violento até. Quando não conseguia postar ia para as ruelas da Cova da Moura para andar à porrada. Era a única coisa que me aliviava a tensão de não poder postar quando me apetecia. Ainda fui parar à choldra umas boas vezes, e acabei por levar com tubos na cabeça, mas era algo que eu estava disposto a aguentar. Depois a malta começou a sair lá de casa. Primeiro a empregada, que se despediu alegando que eu passava o dia a gritar com o computador. Depois a minha irmã, que arranjou a desculpa que se ia casar e bazou, não sem antes me ter dito que só casava mais cedo para sair dali rapidamente porque já não tinha pachorra para me aturar. No mês passado foram os meus pais, depois de eu ter enfiado a cabeça do meu pai na pia mais próxima durante uma discussão sobre a Razão da Mediocridade. Decidiram ir viver para Espanha, os javardolas, como se alguém pudesse ir viver para aquele país de lolitas e cornudos! Finalmente a minha namorada, a semana passada, decidiu que eu me estava a tornar maníaco-depressivo, e que para isso já lhe bastavam os seus pacientes do estágio no Júlio de Matos. Bazou (com a minha colecção de CD’s). A coisa começou mesmo a raiar o absurdo quando os meus amigos deixaram de aparecer, de telefonar, ou de me convidar para sair. Olhei para o calendário e percebi tudo. Estava a atingir os 4 meses de blog, numa casa vazia, decorada de roupa pendurada por todo o lado, caixas com pizzas que já tinham vida própria, e latas de cervejas vazias. Compreendi então a razão daquela estatística estúpida: o blog é um tirano que toma conta da nossa vida ao ponto de já não termos vida, ou pelo menos de nos assemelharmos a amibas despreocupadas com o ecossistema. Por isso mesmo escrevo hoje, 4 meses e 2 dias depois de ter postado pela primeira vez, a minha última Razão. Já contrariei a estatística por 48 horas e agora vou arranjar uma vida. Bem hajam!

quinta-feira, março 31, 2005

Razões Hortículas

horticulas
Estou um bocadinho farto de ouvir tratar a nossa novela mexicana por “jardim à beira-mar plantado”. Na verdade isto não é mais do que uma horta mal cultivada, situada no esfíncter da Europa. Como qualquer horta está povoada por uma variedade considerável de vegetais. O que não faltam por aí são vegetais. Comecemos pelo Chefe de Estado, um tipo ardiloso com uma cabeça em formato de nabo do Entroncamento. Passemos de seguida ao recém eleito governo, que consiste numa arroba de bróculos chefiados por uma banana, que tem como oposição um alqueire de laranjas bolorentas, dióspiros espapaçados e lentilhas ressequidas. O povo, essa amálgama de cabeças de alho chocho, sempre à espera de melhores dias, queixando-se do que tem e do que não tem, esperando que por obra e graça do Espírito Santo tudo resulte numa imensa e produtiva colheita que transforme a horta numa bela plantação.
Na horta impera o conformismo digno das sementeiras que nunca dão fruto, a imaginação do tamanho de uma ervilha, e a vitalidade de uma azeitona deixada a marinar em vinagrete. A horta já há muito que deixou de ser adubada, o que per si não constitui um problema dado que os vegetais residentes já fazem merda suficiente. As ervas daninhas proliferam viçosas, chamando um figo a cada parcela de terra que vão paulatinamente ocupando. Apenas um tipo de vegetais insiste em não singrar nesta horta, e toda a gente é peremptória em afirmar que é graças à sua ausência que as coisas chegaram onde chegaram. Falo-vos obviamente dos tomates. Já os houve, há muito tempo, mas isso foi chão que já deu uvas.

quarta-feira, março 30, 2005

Razão Escondida

escondida
Faz as contas comigo. Se aos teus pais não lhes tivesse dado para a brincadeira naquela noite tu não estarias neste momento a ler este texto. E se os pais deles não se tivessem enrolado naquelas precisas noites, também aqui não estarias. Aliás, se os avós e os bisavós, e todos os outros antes, não o tivessem feito, era pouco provável que estivesses a tentar seguir o meu raciocínio.
Para tu estares aqui a ler o post houve muita gente envolvida. Recua por exemplo 8 gerações e já tens 250 pessoas a enrolar-se para aqui chegares. Se continuares a regredir até ao tempo de Shakespeare vai ter 16.384 antepassados a trocar fluídos em teu favor. Há 20 gerações, o número de pessoas que procriaram em teu proveito ascende a 1.048.576. Cinco gerações antes disso houve pelo menos 33.554.432 homens e mulheres de cujas inspiradas uniões a tua existência depende.
Se recuarmos ao tempo dos lusitanos de Viriato, há 64 gerações, este número de cúmplices aumenta para um milhão de trilião. Aqui é que está o busilis da coisa. Um milhão de trilião é um número mil vezes superior ao número de todas as pessoas que alguma vez habitaram este pequeno planeta.
Significa isto que eu fiz mal as contas? Não. As contas estão feitas para linhagens puras, ou seja, considerando trocas bem sucedidas de fluídos de pessoas de familias diferentes. Assim sendo sabes o que tudo isto significa?
Que para tu hoje chegares aqui houve incestos para caraças!!

Inspirado pela “Breve História de Quase Tudo” de Bill Bryson.
Foto de Walmir Piva

terça-feira, março 29, 2005

A Razão do Achamento

achamento
Os portugueses gostam de se ver como o povo dos descobrimentos. Sempre que se tenta arranjar um símbolo ou um ícone para a nossa nacionalidade, vamos inevitavelmente parar aos descobrimentos, às caravelas, às rosas do mar, ou às cruzes de Cristo. Acho mesmo que o país sonha com um período expansionista que nunca mais conheceu desde a intitulada “Época dos Descobrimentos” onde, como diz o poeta, “demos novos mundos ao mundo”.
Ora isto tem sido o grande equívoco nacional desde há mais de 500 anos. A realidade é que os portugueses descobriram pouquíssima coisa, e acharam quase tudo o que pensaram ter descoberto. Senão vejamos: descobrir é um acto que denota uma intenção de encontrar qualquer coisa com o objectivo de aumentar o conhecimento, seja numa perspectiva individual, seja numa perspectiva mais global, de um povo ou do mundo inteiro. Achar contém a arbitrariedade do acaso. Não há uma predisposição inicial para se achar uma coisa. Acha-se e pronto.
Assim sendo, os portugueses descobriram o caminho marítimo para a Índia, e acharam tudo o resto como consequência desse caminho. Então o Brasil? perguntarão vocês. A realidade é que o Brasil foi achado muito antes daquela que se convencionou ser a data da sua “descoberta”. A malta achava que se saísse a direito de Portugal, como a Terra era redonda, ia ter direitinha à Índia. O raciocínio não estaria errado se não existisse o continente sul americano ali no meio. E assim, sem querer, achámos o Brasil, que mantivemos em segredo até à assinatura do Tratado de Tordesilhas para o podermos reclamar mais tarde.
Descobrindo o caminho marítimo para a Índia, fomos achando tudo aquilo que estava ali no meio. Somos então um povo de valentes achadores durante um período considerável da história humana, período esse que deveríamos doravante designar por “Época do Achamento”.
Os verdadeiros descobridores foram os espanhóis. Esses sim. Esses contribuíram de facto para que o mundo descobrisse as verdadeiras bestas sabujas e sanguinárias que eles são, ao acharem e massacrarem inteiras civilizações para alargar um império de pacotilha, por causa de um metalzinho dourado, e em nome de uma religião que já naquela altura estava obsoleta.

Foto de Webclub

segunda-feira, março 28, 2005

Razões Evidentes

steviewonder

Um conhecido antropólogo apareceu recentemente com uma teoria que o homem e os pássaros partilharam em tempos a mesma origem genética. Para mim isto nunca foi novidade. Bastava olhar para o Stevie Wonder a cantar...

sábado, março 26, 2005

A Razão do Coelhinho da Páscoa

pascoa
Sempre que chega o Domingo de Páscoa lembro-me daquela história mal contada do coelhinho de Páscoa e da sua estranha ligação aos ovos de Páscoa. O que leva um coelho a distribuir ovos pintados? E onde é que o coelho arranja os ovos? E quem os pinta? Tudo mistérios insondáveis…
A história deste roedor está cheia de lacunas por preencher, o que sugere que deverá haver alguma javardice oculta nisto tudo. Na realidade o coelho é um libertino doidivanas, com um seríssimo desvio sexual, que mantém uma relação poligâmica e contranatura com algumas aves. As coelhas não lhe despertam qualquer sentimento libidinoso, e muito menos monogâmico. O coelho enveredou por esta vida porca sem medir as consequências, e quando percebeu que pela lei da natureza nenhum animal estava autorizado a procriar fora da sua espécie, arranjou um esquema que desviasse as atenções alheias da sua vida de alegre e frenético concubinato.
Decidiu assim distribuir gratuitamente as provas da sua virilidade, não sem antes lhes dar um aspecto decorativo e insuspeito. No início começou a distribuir os ovos na época de carnaval, mas não aguentando ver a sua prole esborrachada nas paredes durante as batalhas de foliões, decidiu avançar para a época festiva seguinte, tendo vir parar à Páscoa. Há vidas muito tristes.

sexta-feira, março 25, 2005

A Razão da Criação

deus

Existem por aí uns teólogos equivocados quanto à Criação do Mundo. Dizem eles que Deus criou o mundo em 6 dias:

No primeiro dia atestou a coisa de água e criou o céu. Durante a tarde criou o interruptor e ligou a luz. Depois ficou extasiado a olhar para aquilo: um imenso oceano único e um sol do caraças, e um bronze de fazer inveja à Cinha Jardim.

No segundo dia, depois de uma directa, lembrou-se de criar a noite e substituiu o interruptor por um reóstato, criando um lusco-fusco entre o dia e a noite a que chamou de madrugada e entardecer, respectivamente. Faltava criar a vida nocturna, mas ele deixou isso para mais tarde.

No terceiro dia isto continuava tudo um bocado alagado e então lembrou-se de criar uns espacinhos secos. Surgiram as praias, o campo e as montanhas. Pensou em criar os bares de praia, mas não anotou a tempo no caderninho e acabou por se esquecer.

No quarto dia desatou a vegetar a terra. Foi um vê se te avias de plantas coníferas e outros vegetais. Quando chegou ao nabo a sua imaginação já não estava na sua melhor forma: aquilo já não sabia a nada. E então decidiu acabar o dia por ali.

No quinto dia dedicou-se a salpicar o ceú nocturno de estrelas e constelações. Depois de ter mandado uma topada num lancil e rebentado com uma unha do pé, criou a Lua para iluminar a noite e perceber onde é que punha os pés. Desde esse dia ficou um bocado aluado.

No sexto dia decidiu povoar a terra e os mares com animais. Foi um dia complicado este, que culminou com a cereja no topo do bolo: Adão e Eva, esta última criada à sua imagem.

No sétimo dia os teólogos dizem que Deus não inventou nada e parou por ali. Imenso equívoco. Na realidade foi no sétimo dia que Deus teve a sua criação mais genial. E dedicou todo este dia apenas a uma única criação. A mais difícil, mas a mais inspirada de todas: o Descanso!

Gentinha limitada, os teólogos...

quinta-feira, março 24, 2005

A Razão dos Consultores

consultores

A Economia tem destas coisas chamadas ciclos. Invariavelmente, de 10 em 10 anos, entramos num ciclo desfavorável e instala-se a crise: o investimento cai, os consumidores perdem poder de compra, as falências disparam, e o desemprego cresce. Pessoalmente acho que as crises económicas têm as suas virtudes, são uma espécie de purga do poder instalado, da incompetência acomodada, do laxismo, da corrupção e dos vícios instituídos. Tenho a perfeita noção que a reacção à crise fará nascer novas competências, novos sistemas, e novos vícios que um dia terão que ser erradicados com outra crise. Portanto encaremos a crise como um mal necessário.
O que eu não gosto nas crises é que estas promovem o aparecimento de uma classe de gente que não suporto: os consultores. Estes gajos estão para as crises económicas como os mosquitos estão para as águas paradas, com a desvantagem de não existir um repelente eficaz para estes animais.
Para percebermos a razão da proliferação dos consultores durante os períodos de crise é preciso sabermos como nasce e o que faz um consultor.
Na realidade um consultor é alguém que, depois de ter trabalhado uma série de anos numa determinada área de negócio, se vê no olho da rua por já não acrescentar absolutamente nada ao processo produtivo da sua empresa e, consequentemente, da sua indústria. Enfim, um javardolas incompetente que já não consegue arranjar colocação em lugar nenhum e que inevitavelmente vai ter que desenrascar dinheiro dando conselhos a alguém.
Claro que ainda há aquelas empresas de consultadoria que recruta e forma licenciados no exercício do aconselhamento feito na óptica do senior partner incompetente que um dia fundou aquela empresa, mas esses eu vou considerá-los uns equivocados, sem uma vocação definida, a cometer um erro de juventude.
O que faz então um consultor?
Um amigo meu tem um definição curiosa da actividade do consultor. Diz ele que “um consultor é um tipo que sabe de 2.253 maneira de fazer amor com uma mulher, mas ainda está à espera de conhecer a sua primeira namorada”.
Eu vejo-os mais como umas sanguessugas sem um único pensamento original que recebem avultadas somas de dinheiro para dizerem exactamente aquilo que o conselho de administração que os contrata quer ouvir. Uma espécie de “yes men” vestidos de Armani que garantem que os disparates de gestão cometidos pelas alimárias empresárias deste país têm alguma espécie de legitimidade. Um aval dado por um incompetente a outro incompetente.
Mas também o que esperar de alguém que só desempenha aquela função porque não lhe é reconhecida competência para integrar uma estrutura empresarial? O que vale é que, tal como os mosquitos desaparecem quando começam a caír as primeiras chuvas e a água podre começa a escoar, também os consultores são “escoados” quando a Economia retoma, e os negócios começam a dar dinheiro.

quarta-feira, março 23, 2005

A Razão de Saramago

saramago

No que toca ao José Saramago apresento apreensivos sintomas de bipolaridade. Confesso-o. Gosto da obra do homem, mas não suporto o homem da obra. Acho-o uma alimária arrogante e merecedora, não de uma, mas várias tribos somali que lhe dessem um andar permanentemente diferente. Um gajo que se arma ao fino e decide ir viver para Espanha porque se chateia com as liberdades do regime democrático português, não merece o tempo de antena que este país lhe dá. Compreendo perfeitamente que um gajo quando está mal o melhor que tem a fazer é mudar-se. Ora o Saramago mudou-se para Lanzarote, e fez ele muito bem (milhares de invertebrados seguiram-lhe o exemplo no Verão passado, dando origem à maior praga de gafanhotos que aquela ilha jamais conheceu). Agora o que não acho bem é que este estreptococo continue a mandar bitates sobre o país que decidiu deixar. Podia aprender umas coisitas com os invertebrados do Norte de África que se reuniram com ele em Lanzarote: que eu saiba nenhum dos milhares de gafanhotos expressou aleivosias despropositadas relativamente ao Norte de África
O Estado português tem tido uma atitude provinciana face a este esbirro nobelizado: afinal de contas é o único Nobel literário do país e convém não hostilizá-lo. Eu saberia muito bem o que fazer com ele. Negociava-se com o governo espanhol (com um tal sapateiro) a extradição do senhor para o único sítio onde este ainda faz sentido: o Museu de História Natural de Londres, onde seria etiquetado como o derradeito fóssil do comunismo primário. Ser-lhe-ia permitido continuar a escrever; afinal ainda é a única coisa que o assemelha a um ser humano.

terça-feira, março 22, 2005

Razão Absoluta

emc2

Exactamente há 100 anos atrás um jovem burocrata suíço sem habilitações universitárias que trabalhava em Berna como fiscal técnico de 3ªclasse no registo nacional de patentes publicou uma série de cinco ensaios numa revista alemã de física chamada “Annalen der Physik”. Três desses ensaios acabaram por ficar na história da física: um valeu-lhe o Prémio Nobel e explicava a natureza da luz; outro provou a existência dos átomos (coisa que não era pacífica na altura); e o terceiro ensaio mudou o mundo, pura e simplesmente.
O jovem chamava-se Albert Einstein, um alemão naturalizado suíço para escapar ao serviço militar, e o terceiro ensaio versava sobre a “electrodinâmica dos corpos em movimento”, que daria origem à teoria da relatividade, e revelava a simples e genial equação E=mc², que grosso modo nos diz que existe uma quantidade de energia contida e aprisionada em todas as coisas materiais.
Em homenagem a este rapaz, que não teve hipótese de ser objector de consciência, este blog relança em 2005 a equação de Einstein aplicada à estupidez humana, naquela que se intitula a “Teoria dos Mongos em Circulação”.
Partindo da mesma equação de Einstein (E=mc²) esta teoria demonstra que a estupidez humana é perigosamente exponencial e sem melhorias visíveis, principalmente neste pequeno país.
Entenda-se “E” como “Estupidez”, “m” como “mediocridade”, e “c²” como “cabotinice elevada à sua segunda potência”, e concluir-se-à que a crescente promoção da mediocridade praticada por cabotinos quadrados resulta num profundo estado de estupidez que nivela sempre por baixo qualquer indivíduo, actividade, profissão, investigação ou desempenho. Conclui este blog que nada disto é relativo, e que a estupidez de um povo tende a ser absoluta, como demonstrado na eleição deste mais recente desgoverno, ou nas audiências televisivas da TVI.

segunda-feira, março 21, 2005

Razão Sazonal

primavera

Eis os poléns que nos vão fazer espirrar mais que a conta, e mostrar-nos que exercício gratificante é estarmos vivos. Eis os passarinhos e as abelhinhas, os dias compridos, as florzinhas a desabrochar e os inúmeros tons de verde. Eis as chuvas de Abril, que este ano não me parece que venham a ser mil. Eis o sol mais quentinho, as roupas mais levinhas e reveladoras de um Inverno de excessos. Eis as dietas preparatórias da época balnear, os fins de tarde em tons púrpura, e os azuis brilhantes, claros, escuros, marinhos e turquesas. Eis a minha Estação preferida, a Estação onde nasci, a minha Primavera. Eis a primeira Razão primaveril.
Inspirem fundo. Não respirem. Já está.

sexta-feira, março 18, 2005

Razões Declaradas

cavalo
Casa comigo e eu nunca mais volto a olhar para outro cavalo!
Groucho Marx

quinta-feira, março 17, 2005

Razões de Gosto Pessoal

cristo
Gosto do vosso Cristo.
Não gosto dos vossos cristãos.
São tão diferentes do vosso Cristo.

quarta-feira, março 16, 2005

Razão Existencial

ausente
Não é que eu tenha medo de morrer. Só não me apetecia estar presente quando isso acontecesse.

terça-feira, março 15, 2005

A Razão Analisada

Ra
Analisar o humor é como dissecar uma rã. Interessa a muito pouca gente, e a rã morre no processo.

segunda-feira, março 14, 2005

Razões Educativas

livro
Acho a televisão muito educativa. Sempre que alguém a liga, eu vou para a sala ao lado ler um livro.

sexta-feira, março 11, 2005

Razões Narcisistas

memyself&i
Frequentemente tenho longas conversas comigo próprio, e sou tão inteligente que por vezes não entendo uma palavra do que estou a dizer.

Oscar Wilde

quinta-feira, março 10, 2005

A Razão do Investimento

bizjerk
Deve-se investir num negócio que até um idiota o possa dirigir, porque algum dia um idiota o dirigirá.

Warren Buffet

quarta-feira, março 09, 2005

A Razão do Chefe

boss
Não me vejas como teu chefe. Vê-me como um colega de trabalho que tem sempre razão.

Bob Thaves

terça-feira, março 08, 2005

Razões Recíprocas

gato
Os gatos olham-nos com superioridade.
Os cães olham-nos com docilidade.
Só os porcos nos olham como iguais.

Winston Churchill

segunda-feira, março 07, 2005

A Razão do Dôdô

dodo
Para salvar os bisontes, a melhor coisa que podemos fazer é comê-los. Os animais que o ser humano come não se extinguem. É por isso que temos mais galinhas do que águias neste país.

Harold Danz

sexta-feira, março 04, 2005

Razão Interrompida

interrompida
A Razão vai deixar-vos. Não no sentido estrito do termo, claro (já estava a vislumbrar aí uns sorrisos cínicos nas caras de alguns professores leitores – desenganem-se queridos). A Razão vai deixar-vos até à Primavera porque vai recarregar baterias para um país mais quente. Ouvi dizer que se metermos as pilhas ao sol elas recarregam, e portanto vou experimentar.
Prófes, Jornalistas, Funcionários Públicos, Políticos, Advogados, Publicitários, e outras alimárias quejandas: descansem também. Dou-vos 15 diazitos.
Mais tarde, a 21 de Março, regressarei com os meus somalis que nem um polén lixado para vos entrar pelas narinas adentro, causar-vos algumas comichões e provocar-vos alguns espirros. Preparem os anti-estamínicos. Vão precisar deles.
Até à Primavera irão encontrar aqui outras Razões que não as minhas. Razões alheias. Mas ainda assim Razões para vos irem entretendo.
Agora se não se importam vou ali fazer o check-in, porque já estão a chamar para o vôo da Somália. Bem hajam!

quinta-feira, março 03, 2005

Razão Balnear

bebes
Os bébés não precisam de férias, mas ainda assim vejo imensos deles quando vou à praia. Costumo ir perto deles e perguntar-lhes: "O que estás aqui a fazer pá? Tu que nunca trabalhaste um único dia na tua vida!"

quarta-feira, março 02, 2005

A Razão do Aviador

aviador
Há uns dias fui alvo de um “pequeno poder” num balcão de check-in. Uma alimária de um empregado da TAP embirrou comigo por qualquer razão (até pensei que fosse um professor no desemprego que me tinha reconhecido) e obrigou-me a esvaziar a minha mala de cabine até esta perfazer o peso regulamentar admitido pela TAP. A coisa deu direito a uma reclamação por escrito ao competente CEO brasileiro da TAP e culminou com um pedido formal de desculpa do senhor, um repreensão (dizem eles) ao empregadeco empertigado, e uma borla em classe executiva numa das minhas próximas viagens.
Toda esta maçada desnecessária fez-me lembrar que nesta nossa telenovela mexicana o conceito de serviço é uma coisa tão remota como conseguirmos tomar um duche com a Monica Belucci. Em Portugal confunde-se serviço com servilismo, e portanto quando alguém presta um serviço a outrém, deixa bem claro que está ali para nos prestar um favor, e que só o fará se não o chatearmos muito e se fôr com a nossa cara. De quando em quando aparece um, como este infeliz da TAP, que gosta de mostrar que tem um qualquer poder magicamente conferido pela farda, pela espessura do balcão, ou pela etiqueta que ostenta na lapela.
Se existe uma palavra que confere o verdadeiro sentido de serviço em Portugal é “aviar”. Aqui não se servem os clientes, aviam-se. E logo, os indivíduos que desempenham esta função são os aviadores. Encontram-se normalmente atrás de um balcão, exibem a fronha nº32 (que significa “olha-me este agora quer que eu o sirva... tá bem abelha. Eu já te avio.”), arqueiam as sobrancelhas na vã tentativa de mostrar alguma superioridade, e colocam a voz num tom grave, arrastando as palavras em sinal de aborrecimento.
Estes javardolas sem brevet infestam repartições públicas, call centers, balcões de atendimento ao público, e aviam que nem uns leões! A arte lusitana do aviador só é diária e persistentemente exercida por uma única razão: porque nós deixamos...

terça-feira, março 01, 2005

A Razão do Mal o Menos

51024818
“Do Mal o Menos” devia estar inscrito a ouro na nossa bandeira nacional (na parte verde para se ver melhor). Se há expressão que dita a mais íntima ambição do povo português desde que o Viriato andou a atirar calhaus do alto dos Montes Hermínios é a “do mal o menos”. Com um mote destes não é surpresa nenhuma que tenhamos chegado onde estamos hoje.
Esta foi a motivação de Afonso Henriques quando mandou um par de chapadas à mãe: se está ali um pedaço de terra que não interessa a ninguém, do mal o menos, afiambro-me a ele e chamo-lhe o pomposo nome de reino.
Foi o mote dos Descobrimentos (eu prefiro chamá-los Achamentos, mas deixo isso para uma Razão que há-de vir): se os espanhóis são o nosso tampão para a Europa, e qualquer tentativa de abrir caminho até aos feudos franceses está repleto de porrada com azeite quente à mistura, do mal o menos, faço-me ao mar e vou ali achar qualquer coisinha.
Foi a palavra de ordem de Dom Sebastião: já que me tenho que armar em parvo e não é politicamente correcto andar à porrada com os primos castelhanos, do mal o menos, vou aliviar a testosterona para Alcácer Quibir.
Foi o lema do gajo que se pirou para o Brasil com toda a corte quando se apercebeu que o Napoleão vinha tomar conta da loja: já que vou ter que experimentar o último modelo de guilhotina, do mal o menos, vou bronzear a minha corte para os trópicos.
Foi o mote do ditadorzinho cabotino e inteligente: já que transformei o país numa ostra ridícula e fechada ao progresso, do mal o menos, vou ali às colónias fingir que isto é uma metrópole do caraças.
É curioso como o “ do mal o menos” impeliu os gajos sempre em direcção ao mar, não é? Adiante...
Os capitães de Abril também adoptaram esta postura: já que nos pirámos dos quartéis sem autorização, e com este armamento pesado e obsoleto, do mal o menos, vamos tomar o poder porque voltar para trás é capaz de dar merda.
E assim por diante até há duas semanas atrás, quando o eleitorado teve que escolher entre o nada e o coisa nenhuma, do mal o menos, escolheu o coisa nenhuma.
Ponha-se a merda do mote na bandeira de uma vez por todas!

segunda-feira, fevereiro 28, 2005

A Razão dos Óscares

oscars

Procurando premiar os artistas que se destacaram nesta nossa telenovela mexicana chamada Portugal, eis os Óscares da Razão:

Melhor Argumentista – Jorge Sampaio
Escreveu o melhor enredo novelesco do último ano, conseguindo enganar todos sobre as suas reais intenções, até os debilóides membros do seu miserável partido.

Melhor Realizador – Durão Barroso
Realizou o melhor film noir que a direita portuguesa alguma vez conheceu desde 1974. Recém-chegado a Bruxelas, quis criar uma sequela europeia da coisa, mas foi travado a tempo pelos Estúdios da Comunidade Europeia. Ainda assim tem um papel de destaque a nível nacional.

Melhor Actor Principal – Carlos Cruz
É impressionante como conseguiu manter a pose e um discurso coerente de inocência quando já toda a gente percebeu que está a actuar (e bem!). Podes parar meu, toma lá o Óscar.

Melhor Actor Secundário – José Castel Branco
Prisioneiro da sua própria caricatura, criou um personagem tão aberrante que tornou Quinta das Nulidades um freak show ao nível dos nossos amigos americanos.

Melhor Actriz Principal – Ana Afonso
Ninguém esquecerá o papel de púdica inocente que desempenhou no mais famoso freak show nacional. Naturalmente que teve uma ajuda da equipa de produção do programa, que cortou as partes onde esta abocanhava generosamente partes íntimas de outro concorrente. Depois do programa acabar, percebeu-se o quão boa actriz (e atrás) tinha sido.

Melhor Actriz Secundária – Manuela Moura Guedes
Ganhou este galardão com a sua performance na noite eleitoral interpretando, aos pulinhos, o papel de uma galdéria excitada, com pretensões intelectuais.

Melhor Banda Sonora Original – Hino de Campanha de Santana Lopes
O menino guerreiro, coitadinho e chorão, arrasou por terra o concorrente mais directo e já premiado em Hollywood, o “Gladiador”.

Melhores Efeitos Especiais – Operação Nariz Vermelho
Estão ainda por descobrir os comediantes que colaram narizes vermelhos nos cartazes de alguns dirigentes políticos em campanha, embora tudo aponte para que tivesse sido uma tribo somalis chefiada por Jerónimo de Sousa.

Melhor Filme de Animação – O Desgoverno Constitucional de Santana Lopes
Apesar de ter sido uma curta metragem, foi uma animação do caraças! Durante 4 meses o país mais pareceu uma cambada de looney tunes desatinados e desgovernados.

Prémio de Carreira – Pinto da Costa
Apesar de tudo e mais um par de botas, o homem continua lá firme e hirto que nem uma barra de ferro, sem um pinguinho de ferrugem.

A Razão congratula todos os premiados e informa todos os candidatos que para o ano há mais. Bem hajam!

domingo, fevereiro 27, 2005

Razões Injustas

metades
Metade do mundo é formada por pessoas que têm alguma coisa para dizer e não podem, e a outra metade por pessoas que não têm nada para dizer, mas podem.

Robert Frost

sábado, fevereiro 26, 2005

Razões de Fé

deus

- Que me importam a mim os vossos campos! Que me importam os vossos animais e os vossos filhos! – berrou o padre – Viveis, todos vós, uma vida material e sórdida. Ignorais o que seja o luxo!... Esse luxo, ofereço-vo-lo eu: ofereço-vos Deus... Mas Deus não gosta da chuva... Deus não gosta do sanfeno. Deus não quer saber do vosso chão, nem das vossas chãs aventuras. Deus, é uma almofada de brocado de oiro, é um diamante engastado no sol, é as sotainas de seda, é as peúgas bordadas, os colares e os anéis, o inútil, o maravilhoso, as custódias eléctricas... Não, não choverá!

- Queremos chuva – berrou o camponês, desta vez sustentado pela multidão, que desatou a trovejar como um céu tempestuoso.

- Voltem para as vossas quintas! – mugiu a múltipla voz do padre. – Voltem para as vossas quintas! Deus é a volúpia do supérfluo. E vós só pensais no necessário. Sois indivíduos perdidos, a Seus olhos.
E continuou – Não há-de chover! Deus não é um ser utilitário. Deus é um presente festivo, um dom gratuito, uma barra de platina, uma imagem artística, uma guloseima requintada. Deus está a mais. Deus não é a favor, nem contra. Deus é um extra! Deus é um luxo!

Boris Vian, in “O Arranca Corações”, 1953

sexta-feira, fevereiro 25, 2005

A Razão dos Agricultores

agricultura
Ao contrário do que se possa pensar, a profissão com mais futuro, principalmente em Portugal, é a agricultura. Num país onde a produtividade atinge valores abaixo do nível das águas, os agricultores são os detentores do maior segredo nacional: como ganhar dinheiro fazendo o menos possível, ou mesmo fazendo nenhum. E aparentemente guardam-no bem, uma vez que ninguém, além deles, parece interessado em investir na agricultura.
Que outra profissão exige subsídios do Estado seja porque chove seja porque não chove, seja porque faz frio seja porque faz calor, seja porque produziu a mais seja porque produziu a menos? Que outra profissão é subsidiada para não produzir, ou para produzir menos? Qualquer que seja a razão, quando se fala de agricultura há sempre um bom subsídio para ela.
Os agricultores nacionais são os verdadeiros estandartes do modo de vida nacional: está sempre tudo mal e em crise, nunca há dinheiro para nada, a culpa é sempre do Estado, e venha para cá o “meu” porque não me apetece trabalhar. Tudo isto embrulhado com requintadas acções de marketing onde se bloqueiam estradas, fazem manifestações, e destroem colheitas, sempre com câmaras de televisão à frente. Verdadeiros mestres do engano, e pedinchões à espera de serem desparasitados, estes agricultores tugas.

quinta-feira, fevereiro 24, 2005

A Razão da Prevenção Rodoviária

prp
Sempre que viajo até ao Algarve ou Alentejo não consigo deixar de reparar num cartaz publicitário da Prevenção Rodoviária Portuguesa, e no sentido obscuro que este encerra. Este cartaz faz parte de uma conspiração estatal para solucionar o problema da segurança social portuguesa. É certo que quem olhe distraidamente para ele verá apenas um simples cartaz, destinado a sensibilizar os automobilistas lusitanos; mas uma segunda leitura, com uma ajudinha semiótica, revela-nos algo verdadeiramente tenebroso: a conspiração do Estado.
O cartaz é muito simples numa perspectiva iconográfica: tem um fundo amarelo, e mostra um desenho a preto, de um automóvel a atropelar violentamente um peão, que é cuspido pelo ar, a rodopiar. Até aqui tudo bem, se não fosse assinado pela frase «É melhor parar por aqui»!
Quer isto dizer que qualquer um de nós pode atropelar um peão, desde de que nos fiquemos por ali. Atropelar um gajo está bem, mas o melhor é não nos excitarmos muito e atropelar mais outro, porque nesse caso já não temos o aval da PRP.
Conseguem perceber o verdadeiro alcance deste incentivo? Qual a sua ligação com as políticas de reforma do sistema de segurança social? Passo a explicar: Em Portugal circulam cerca de cinco milhões e meio de veículos motorizados. O país tem dez milhões de habitantes. A maioria dos condutores de veículos motorizados pertence à população activa. Se os condutores seguirem o conselho da PRP e atropelarem violentamente não mais do que um peão, a população nacional passará para metade num ápice. Et voilá, sistema reformado. Estes gajos do Estado são maquiavélicos à brava!

quarta-feira, fevereiro 23, 2005

Razões Genéticas

genetix
Num recente jogo de futebol num estádio português, um homem estava particularmente enervado com a arbitragem. Demonstrava o seu desagrado correndo aos berros pelo corredor da bancada abaixo, até chegar ao corrimão, largava duas ou três bujardas ao fiscal de linha, e voltava para o seu lugar. Parecia um matraquilho daqueles que andavam para cá e para lá, naqueles jogos eléctricos que não tiveram futuro nenhum contra os nossos tradicionais e manuais matraquilhos com jogadores atravessados sadicamente ao meio por uma barra de metal.
Numa destas idas e vindas o homem desequilibrou-se ao pisar no seu próprio cachecol, galgou o corrimão, e caiu da bancada abaixo morrendo de imediato. Sem saber, este homem tornou-se num sério candidato ao Darwin Award, ombreando com todas as alimárias que são responsáveis pela sua própria morte estúpida. Criados em meados dos anos 90, os Darwin Awards premeiam todos os estúpidos que contribuem para melhorar o património genético da espécie humana retirando os seus genes da cadeia de evolução, ou seja, morrendo involuntariamente pelas suas próprias mãos. Embora já tenha sido editado em livro, com algumas das melhores e hilariantes mortes por autoestupidez, o site Darwin Awards ainda é a melhor fonte para quem se quiser candidatar ou manter actualizado sobre os últimos concorrentes ao prémio. Para quem pensa que a estupidez humana é finita, recomendo uma visita a esta pérola de humor negro baseada em factos reais.

terça-feira, fevereiro 22, 2005

Razões Socráticas

bc9010-025
Os acontecimentos dos últimos dias fizeram-me perder a Razão. Não era nada que não estivesse à espera, confesso. Mas olhar para a coisa em directo fez-me levar um choque de realidade que me deixou sem vontade de escrever fosse o que fosse durante 48 horas. Uma espécie de letargia atávica só semelhante a um qualquer professor. Esta espécie de aparvalhamento docente atingiu o seu pico nas declarações de vitória do líder dos socráticos. Bem sei que homem não foi eleito por mérito próprio, bem sei que foi o demérito dos candidatos concorrentes que o levou, numa espécie de Disneylândia bacoca, à maioria absurdamente absoluta. Mas o gajo podia ao menos ter-se esforçado para disfarçar o vácuo existente entre as suas orelhas. O que ouvi foi uma série de bárbaras banalidades que o tipo levava escritas numa folha de papel (nem quero imaginar quando ele tiver que improvisar). Seria de esperar que ao menos alguém lhe escrevesse uma coisita minimamente razoável para um discurso de vitória histórica. Mas quis a história, e o parco QI do indivíduo de olhar bovino, que os 2,5 milhões e meio de desesperados votantes ouvissem um dos discursos mais pobres e vazios da história política portuguesa. “Ganhámos. Tivemos a maioria absoluta. Por isso ganhámos. Conseguimos. Mostramos ser possível. Vou governar com pessoas competentes. Não sei quem são, mas serão competentes”, e assim por diante, num chorrilho de banalidades embrutecidas, que só não são embrutecedoras porque ainda agora começou, e é como já se tivesse visto o filme todo. Um povo que elege absolutamente um manequim foleiro da Rua dos Fanqueiros merece tudo o que lhe possa vir a acontecer. Com toda a Razão!

sábado, fevereiro 19, 2005

Razões Esclarecedoras

sucking pasta
Porque toda a gente quer viver à custa do governo, o governo acaba por viver à custa de toda a gente.

Max Weber