quarta-feira, julho 09, 2008

A Razão do Material

material
Existem verdades lusas indubitáveis com as quais sempre convivemos. Uma das minhas preferidas tem a ver com o «Material» e com o facto de estar universalmente estabelecido entre nós que «O Material Tem Sempre Razão». Esta afirmação esconde uma série de implicações que estão naturalmente relacionadas com a nossa portugalidade. Só um povo como o português é que atribui capacidades lógicas de raciocínio ao «Material». Detenhamo-nos primeiro no conceito de «Material» que, para o português, tem um significado muito restrito: entende-se por «Material» todo o tipo de zingarelho (atenção às tremuras no lábio superior) mecânico ou electrónico cujo funcionamento nos escapa por completo. Sabemos para que serve o «Material» mas não fazemos a mínima ideia como ele funciona. Nem queremos saber.

Sabemos porém que o «Material» tem uma lógica de funcionamento a que chamamos de Razão. Quando tentamos pregar um parafuso numa parede em vez de o aparafusar, causando inevitáveis crateras na parede da sala; quando tentamos, com um pé de cabra, atafulhar uma perna de borrego no microondas; ou quando derretemos a broca de madeira do berbequim a tentar furar uma viga de ferro; percebemos que, no final do dia, «o material tem sempre razão».

O facto do «material ter sempre razão» é algo desculpabilizante para a nossa boçalidade. É uma maneira simpática de dizer «tu és uma besta que não percebes nada do que andas a fazer com esse zingarelho nas mãos» (ou noutro lado qualquer do corpo, dependente do zingarelho que estamos a utilizar). E é exactamente nesta desculpabilização que reside a magia da nossa portugalidade: precisamos de uma espécie de prova material que não temos razão nenhuma. Que a nossa razão é sempre alheia e em última instância pertence a seres inanimados. Como um martelo pneumático, por exemplo. Esse, ao contrário de nós, tem sempre razão.