sexta-feira, janeiro 20, 2006

A Razão do Provérbio (II)

Proverbios II

Há quem defenda que a maneira mais fácil de subir o nível intelectual de um povo consiste em sofisticar aquilo que é considerado ser a sua cultura popular.
A ideia é estupidamente absurda mas dá origem a híbridos hilariantes quando aplicada aos provérbios populares. Vejamos:

«Antes asno que me leve que cavalo que me derrube.»
Terá a seguinte sofisticação:
«É preferível montar um equino híbrido do que ter graves complicações na coluna por montar um equino puro.»

«A pressa é inimiga da perfeição.»
Teria como interpretação elitista:
«Se o fizerdes ninguém vai questionar se o fizesteis como deve de ser.»

«As paredes têm ouvidos» resultaria em «A alvenaria por vezes desenvolve capacidades auditivas».

«Burro velho não aprende línguas» teria uma formulação não muito distante de «Asinino com uma idade acima da média tem uma grande dificuldade em assimilar idiomas estrangeiros».

Para «A fome é o melhor tempero» teremos «Se fizerdes jejum, os alimentos saber-vos-ão substancialmente melhor».

«A necessidade aguça o engenho» ficaria em «Sereis engenheiro se realmente precisardes».

«Da discussão nasce a luz» para «Uma salutar troca de opiniões contribui para baixardes a factura da EDP».

«Mulher doente, mulher para sempre» seria traduzido por «Fêmea com saúde precária apresenta forte tendência para a eternidade».

«Preso por ter cão e preso por não ter» seria substituído por «Encarcerado por estar na posse de um canídeo e encarcerado pela sua manifesta ausência».

«Mais vale tarde do que nunca» mereceria «É preferível o atraso à absoluta ausência».

«Mais vale burro vivo do que sábio morto» seria melhorado para «É preferível possuir um QI reduzido e estar na posse de todas as funções vitais do que possuir uma inteligência assombrosa e não apresentar qualquer batida cardíaca».

Pessoalmente sou apologista da popularização da intelectualidade. Exactamente o contrário do que temos falado neste post. O debate político, por exemplo, seria muito mais vivificante se fosse um pouco mais popular. Em vez do «Olhe que não Doutor, olhe que não...» sou apologista do «Tu vai-ta foder meu ganda caralho e não me contraries, porra!»
Este país precisa de mais vernáculo.



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